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A esperada vingança de Trump

por Manuel AR, em 09.02.20

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Após a absolvição fantoche pelo senado, onde os republicanos detêm a maioria, o discurso de Trump foi o da vingança contra os democratas e os republicanos que testemunharam contra ele.

Trump pertence àquela espécie de casta de políticos que não sendo estadistas e que se servem do poder em benefício próprio e dos poderosos seguidores iguais a eles. É uma nova casta de ditadores mascarados que está a emergir no seio das sociedades democráticas liberais e à sua volta, se congregam nazis, neonazis, xenófobos, racistas não incluídos nos nazis, seitas religiosas e outros grupos radicais que, cada vez mais, vão mostrando a cara a coberto pelo acolhimento desses neo-ditadores que, ocupando o poder pela legitimidade do voto, utilizam a democracia para a enfraquecer por meio de campanhas favorecidas por difusores de fake news através das redes sociais. 

Os EUA, país que se pensava ser uma democracia livre e a justiça era para todos, estão a atravessar uma fase aguda de défice democrático ao nível do poder. Quem, como eu, assim pensava, enganou-se absolutamente.  O período que os EUA estão a travessar é grave para as democracias em geral e para os cidadãos americanos que mais parece estarem adormecidos. Muitas das mais ferozes ditaduras que afligiram as nações começaram assim.

É uma situação perigosa, diria até muito perigosa. Perigosa porque se conseguiu manter no puder alguém que, provados factos de culpabilidade das acusações de abuso de poder, de obstrução de Congresso e por "trair o cargo" ao pressionar a Ucrânia a investigar adversários políticos em benefício próprio e que os crimes de abuso de poder e obstrução do Congresso praticados pelo presidente "colocam o país em risco" e que, ao ser apoiado por maiorias afetas  a Trump no Senado este pode considerar-se como monarca absoluto.

Há alguns factos que apontam nessa direção a começar pela retaliação encetada contra os que se apresentaram a depor contra ele durante o processo de “impeachment”. Trump criticou os que se lhe opuseram chamando-os "maus", "corruptos" e "tortos", enquanto o seu secretário de imprensa declarou que aqueles que feriram o presidente " deveriam pagar por isso”.

O presidente Trump perdeu pouco tempo na sexta-feira ao abrir logo uma campanha de retaliação contra aqueles que ele culpa pela sua tentativa de “impeachment”, demitindo duas das testemunhas mais importantes do inquérito da Câmara do Representantes que estiverma contra ele apenas 48 horas depois de ser absolvido pelo Senado.

Trump responde à absolvição lançando o seu ódio com um discurso desmedido e cáustico procedendo ao expurgo dos que depuseram contra ele, despedindo a segunda testemunha chave de “impeachment”, Gordon Sondland, embaixador da União Europeia, como aconteceu. Não ficou por aqui, seguiu-se o tenente-coronel Alexander Vindman. O advogado de Vindman emitiu um comunicado dizendo que ele foi escoltado para fora da Casa Branca. Vindman "foi convidado a sair por dizer a verdade", disse o seu advogado. O irmão gémeo de Vindman, advogado do Conselho de Segurança Nacional, também foi demitido. Especialistas classificaram estas demissões como o "Massacre de Friday Night ". Enquanto os democratas condenaram as demissões os parlamentares republicanos disseram "boa viagem ".

Ao escrever estas linhas vieram-me à memória as purgas que eram feitas na ex-União Soviética aos dissidentes de Estaline e de outros que se seguiram quando se lhes opunham. Só faltam as deportações para locais idênticos à Sibéria.

Está à vista que se está a construir um mundo só para alguns à custa dos que neles votam e acreditam no que lhes dizem durante as campanhas e cujas  regras  valem para uns e não valem para os outros. É um mundo fundamentalmente desigual. Vimos isso nos EUA. Trump passou a ter poderes absolutos não porque lho dessem, mas porque o usurpou com o consentimento dos que o apoiam por interesse e oportunismo para obtenção de dividendos políticos, sociais e até financeiros. Em pleno discurso do Estado da União Trump pôde insultar, desrespeitar o congresso e, até, condecorar um homem da rádio, conhecido pelos seus comentários racistas. A líder da Câmara dos Representantes rasgou o discurso no fim da cerimónia, e houve um escândalo generalizado, mas pronunciar e divulgar mentiras aos gritos e ter uma linguagem aberrante, parece estar tudo bem, enfim, desculpa-se, mas notar educadamente quais os factos, que horror, como é possível, que desrespeito. Não, isso é só para alguns…

Alguns comentadores do nosso burgo, fãs deste presidente, mostram como vai benéfica a evolução positiva da economia dos EUA que Trump confirmou no discurso da união ao fazer autoelogios do seu mandato baseado no que os indicadores oficiais apontam, mas que são desmentidos pelos factos, mas isso fica para o blog seguinte.

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publicado às 16:32

A propósito das primárias nos EUA

por Manuel AR, em 05.02.20

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Imagem USA Today

A verdade sobre a economia de Trump

(Jan 17, 2020 JOSEPH E. STIGLITZ *)

In (Project Syndicate e Jornal Expresso 25/01/2020)

NOVA IORQUE – À medida que as elites empresariais do mundo viajam para Davos para a sua reunião anual, as pessoas deveriam fazer uma pergunta simples: será que superaram a sua paixão pelo presidente dos EUA, Donald Trump?

Há dois anos, muito poucos líderes empresariais estavam preocupados com as alterações climáticas ou chateados com a misoginia e intolerância de Trump. A maioria, no entanto, estava a comemorar a baixa de impostos do presidente multimilionário e grandes empresas aguardavam ansiosamente os seus esforços para desregular a economia. Isso permitiria que as empresas poluíssem mais o ar, atraíssem mais americanos para os opiáceos, incentivassem mais crianças a comer alimentos indutores de diabetes e se envolvessem no tipo de manobras ardilosas financeiras que provocaram a crise de 2008.

Hoje, muitos líderes de empresariais ainda falam sobre o crescimento contínuo do PIB e os preços históricos das ações. Mas nem o PIB nem o índice Dow Jones são bons avaliadores do desempenho económico. Nenhum diz nada sobre o que está a acontecer com o padrão de vida dos cidadãos comuns, nem nada sobre a sustentabilidade. De facto, o desempenho económico dos EUA nos últimos quatro anos é a Prova A da acusação para não confiar nesses indicadores.

Para se obter uma boa leitura da saúde económica de um país, tem de se começar por analisar a saúde dos seus cidadãos. Se forem felizes e prósperos, serão saudáveis e viverão mais tempo. Neste aspeto, entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos estão no final da lista. A esperança de vida nos EUA, já relativamente baixa, caiu nos dois primeiros anos da presidência de Trump e, em 2017, a mortalidade na meia-idade atingiu a taxa mais elevada desde a Segunda Guerra Mundial. Isso não é uma surpresa, porque não houve nenhum presidente que se tenha esforçado tanto para garantir que mais americanos fiquem sem seguro de saúde. Milhões perderam a cobertura do seguro e a taxa de pessoas sem seguro aumentou, em apenas dois anos, de 10,9% para 13,7%.

Um dos motivos da diminuição da esperança de vida nos Estados Unidos é o que Anne Case e o economista vencedor do prémio Nobel, Angus Deaton, chamam de mortes por desespero, causadas por álcool, overdose de drogas e suicídio. Em 2017 (o ano mais recente para o qual existem dados disponíveis satisfatórios), essas mortes foram quase quatro vezes mais do que em 1999.

A única vez em que vi algo semelhante a estas quedas na saúde – sem contar com as guerras ou epidemias – foi quando fui economista-chefe do Banco Mundial e descobri que os dados de mortalidade e morbidade confirmavam o que os nossos indicadores económicos sugeriam sobre o estado deplorável da economia russa pós-guerra.

Trump pode ser um bom presidente para o 1% que está no topo – e principalmente para o 0,1% que está no topo – mas não foi bom para todos os outros. Se for totalmente implementado, o corte de impostos de 2017 resultará em aumentos de impostos para a maioria das famílias que se encontram no segundo, terceiro e quarto quintis referentes ao rendimento.

Tendo em conta os cortes de impostos que beneficiam desproporcionalmente os ultrarricos e as empresas, não deveria surpreender que não houvesse nenhuma mudança significativa no rendimento disponível das famílias de classe média dos EUA entre 2017 e 2018 (novamente, o ano mais recente com dados satisfatórios). A maior parte do aumento do PIB também vai para os que estão no topo. Os ganhos médios semanais reais estão apenas 2,6% acima do nível de quando Trump tomou posse. E esses aumentos não compensaram os longos períodos de estagnação salarial. Por exemplo, o salário médio de um trabalhador do sexo masculino a tempo inteiro (e os que têm empregos a tempo inteiro são os sortudos) ainda está a mais de 3% abaixo do que estava há 40 anos. Também não houve muitos progressos na redução das disparidades raciais: no terceiro trimestre de 2019, os ganhos médios semanais dos homens negros que trabalhavam a tempo inteiro eram menos de três quartos do nível dos homens brancos.

Para piorar a situação, o crescimento que ocorreu não é ambientalmente sustentável – e ainda menos graças ao “esventramento”, por parte do governo Trump, das regulamentações que passaram por rigorosas análises de custo-benefício. O ar será menos respirável, a água menos potável e o planeta estará mais sujeito às alterações climáticas. De facto, as perdas relacionadas com as alterações climáticas já atingiram novos máximos nos EUA, que sofreram mais danos patrimoniais do que qualquer outro país – atingindo cerca de 1,5% do PIB em 2017.

Era suposto os cortes de impostos estimularem uma nova onda de investimentos. Em vez disso, provocaram um histórico consumo exagerado e frenético nas recompras de ações – cerca de 800 mil milhões de dólares em 2018 – por algumas das empresas mais rentáveis dos Estados Unidos, e levaram a um défice recorde em tempos de paz (quase 1 bilião de dólares no ano fiscal de 2019) num país que supostamente está próximo do pleno emprego. E mesmo com investimentos fracos, os EUA tiveram de contrair empréstimos consideráveis no exterior: os dados mais recentes mostram empréstimos estrangeiros de quase 500 mil milhões de dólares por ano, com um aumento de mais de 10% na posição de endividamento líquido da América em apenas um ano.

Da mesma forma, as guerras comerciais de Trump, apesar de todo o ruído e fúria, não reduziram o défice comercial dos EUA, que foi um quarto mais elevado em 2018 do que em 2016. O défice de mercadorias em 2018 foi o maior alguma vez registado. Até o défice no comércio com a China aumentou quase um quarto em relação a 2016. Os EUA obtiveram um novo acordo comercial norte-americano, sem as disposições do acordo de investimento que o grupo empresarial Business Roundtable pretendia, sem as disposições que elevavam os preços dos medicamentos que as empresas farmacêuticas pretendiam e com melhores disposições laborais e ambientais. Trump, um autoproclamado mestre de negociações, perdeu em quase todas as frentes nas negociações com os democratas do Congresso, resultando num acordo comercial ligeiramente melhorado.

E, apesar das promessas alardeadas de Trump de devolver os empregos industriais aos EUA, o aumento no emprego industrial ainda é menor do que na época do seu antecessor, Barack Obama, após a recuperação pós-2008, e ainda está muito abaixo do nível anterior à crise. Até mesmo a taxa de desemprego, com o menor índice em 50 anos, oculta a fragilidade económica. A taxa de emprego para homens e mulheres em idade ativa, apesar de aumentar, aumentou menos do que durante a recuperação de Obama e ainda está significativamente abaixo da de outros países desenvolvidos. O ritmo de criação de empregos também é notavelmente mais lento do que era sob a presidência de Obama.

Mais uma vez, a baixa taxa de emprego não é uma surpresa, até porque as pessoas não saudáveis não podem trabalhar. Além disso, aqueles que recebem benefícios por incapacidade, na prisão – a taxa de encarceramento nos EUA aumentou mais de seis vezes desde 1970, com cerca de dois milhões de pessoas atualmente atrás das grades – ou por estarem tão desanimados que não procuram emprego de forma ativa, não são contabilizados como “desempregados”. Mas, claro, eles não estão empregados. Também não surpreende que um país que não ofereça preços acessíveis no acolhimento de crianças ou garanta licença familiar tenha uma menor taxa de emprego feminino – ajustado pela população, mais de dez pontos percentuais a menos – do que outros países desenvolvidos.

Mesmo a julgar pelo PIB, a economia de Trump fica aquém. O crescimento do último trimestre foi apenas de 2,1%, muito abaixo dos 4%, 5% ou 6% que Trump prometeu apresentar e ainda menos que a média de 2,4% do segundo mandato de Obama. É um desempenho extremamente fraco, considerando o estímulo proporcionado pelo défice de 1 bilião de dólares e pelas taxas de juro extremamente baixas. Isto não é uma casualidade ou apenas uma questão de má sorte: a marca de Trump é a incerteza, a volatilidade e a prevaricação, ao passo que a confiança, a estabilidade e a fiabilidade são essenciais para o crescimento. O mesmo acontece com a igualdade, de acordo com o Fundo Monetário Internacional.

Sendo assim, Trump merece reprovar, e não apenas nas “disciplinas” essenciais, como defender a democracia e preservar o nosso planeta. Ele deveria, também, chumbar em economia.

*Prémio Nobel 2001 juntamente com George Akerlof e Michael Spence.

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publicado às 00:17

Quem quer morrer por um capricho de Trump?

(Rui Tavares, in Público, 06/01/2020)

por Manuel AR, em 07.01.20

Apartir de Estátua de Gelo

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Imagem em https://www.businesslive.co.za/

Todas as passagens de ano nos entregamos ao ritual de tentar adivinhar o futuro. Desde 2003, muitos foram os anos para os quais se se previu que os EUA e o Irão iriam entrar em guerra. Logo a começar 2020, para o qual houve poucas previsões dessas, Donald Trump mandou assassinar Qasem Souleimany, general de uma milícia estatal iraniana usada para interferir na política de vários países vizinhos, e nunca estivemos tão perto da possibilidade de um conflito entre os EUA e o Irão como hoje.

Mas precisamente por tantas previsões em anos passados terem falhado, convém ser cauteloso nas previsões. Não sabemos se o Irão vai retaliar de forma a escalar o conflito ou se irá antes aproveitar politicamente a ocasião para se reforçar internamente e vitimizar externamente. O meu palpite — que não passa disso — é que um conflito direto em larga escala não interessa ao Irão nem aos EUA e que após um período de tensão ambos os países evitarão arriscar uma guerra declarada.

Em vez de fazer futurologia é mais útil pensarmos no que já sabemos do que se passou e, em particular, do que não se passou neste ataque. A última parte é mais fácil e também, em meu entender, mais relevante: o que não se passou foi qualquer comunicação entre a administração Trump e os seus teoricamente aliados europeus. Tanto quanto se sabe, nenhum outro governo da NATO o da União Europeia foi alertado para um ataque e tal magnitude geopolítica — nem sequer o governo do Reino Unido.

Podemos fazer todas as análises que quisermos à hipótese de a NATO estar ou não obsoleta. Mas há silêncios que falam muito mais do que as palavras, e este é um deles.

Em caso de retaliação iraniana sobre os EUA, os outros países da NATO incorreriam nas obrigações do famoso Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte que determina que um ataque a um aliado é um ataque a todos os países. Só que o grau de confiança mútua que é preciso ter para aceitar uma responsabilidade recíproca desse género implica, porém, acreditar na sensatez e previsibilidade das lideranças dos aliados. Ora, só um líder europeu que não estivesse bom da cabeça poria hoje as mãos no fogo por Trump. E se não confiam nele, quem pode estar disposto a pagar o preço do aventureirismo do presidente dos EUA?

Caso especialmente interessante é o do primeiro-ministro britânico. A passar férias numa estância do Caribe, Boris Johnson ainda não se pronunciou sobre o ataque norte-americano em solo iraquiano, o que permitiu aos seus ministros produzirem declarações desencontradas sobre o assunto, ora primeiro mais alinhados com outros governos europeus, ora evidenciando um total alinhamento com Trump a seguir. A menos de um mês do “Brexit”, o Reino Unido tem agora uma escolha complicada. Se opta por uma colagem a Donald Trump, pode ver-se envolvido como parte beligerante numa guerra sobre a qual não teve sequer direito a uma palavrinha. Se se distancia do presidente norte-americano, conhecido pelo seu espírito vingativo são postas em risco as possibilidades de um acordo comercial com os EUA que foram propagandeadas como sendo uma das poucas vantagens da saída da União Europeia.

Já por algumas vezes nesta coluna argumentei que a principal incógnita do “pós-Brexit” é saber de quem vai o Reino Unido tornar-se um país-satélite: se dos EUA ou da UE. Com uma crise iraniana no horizonte, somos capazes de vir a saber a resposta para esse enigma mais depressa do que antes pensávamos.

Mas a União Europeia não tem um dilema menor. A Europa e os EUA estão amarrados por laços históricos de um ciclo — o do pós-guerra — em larga medida encerrado. Mas se com George W. Bush já tinha ficado claro o desalinhamento de interesses e até de valores entre os dois lados do Atlântico, com Trump passamos a ter um presidente dos EUA que não hesita em arriscar um conflito em larga escala na Eurásia sem dedicar a cortesia de um aviso prévio aos europeus. A conclusão é clara: a Europa precisa de ter autonomia estratégica em relação aos EUA, e na Europa só através da UE existe a possibilidade de se acrescentar autonomia estratégica geopolítica às outras áreas em que a Europa já é uma espécie de “super-potência invisível”, como nas negociações comerciais ou na regulação da globalização. E para nos convencermos da urgência desse debate — e um debate muito difícil, reconheçamo-lo — não é sequer preciso que os EUA entrem em guerra declarada com o Irão.

Há talvez a possibilidade de Trump perder as eleições em novembro deste ano, e que com um democrata na Casa Branca o desalinhamento euro-americano se disfarce. Mas mesmo isso não é garantido. Joe Biden, que votou a favor da Guerra do Iraque, tem um historial intervencionista em política externa. A não ser que viéssemos a ter um Presidente Sanders ou uma Presidente Warren e, com eles, a hipótese de reforçar as Nações Unidas como plataforma multilateral de resolução de conflitos, a Europa ficaria sempre dependente das decisões de presidentes dos EUA que cada vez menos querem saber dos europeus. No caso de Trump, essas decisões parecem fundamentar-se em caprichos. A pergunta para os europeus é simples: quem no seu perfeito juízo quer morrer em nome de um capricho de Trump?

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publicado às 19:47

O simbólico na política

por Manuel AR, em 04.02.19

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Deus e o Diabo passaram a ser moda na política, sobretudo para alguns políticos com grandes responsabilidades para com os seus países que aproveitam a fé e as crenças das populações utilizando o nome de Deus em vão. Pretendem fazê-las acreditar que a sua eleição, consequentes procedimentos e condutas foram e serão emanadas da vontade de Deus, símbolo da Divindade principalmente pai, juiz, todo-poderoso e soberano.

Também nas monarquias absolutas (absolutismo) as correntes da teoria política faziam acreditar ao povo na doutrina do Direito Divino dos Reis, que defende que a autoridade do governante emana diretamente de Deus, e que não podem ser depostos a não ser por Deus.

Raramente referem o Diabo também conhecido por demónio, é o símbolo do malvado e simboliza todas as forças que perturbam, ensombram, enfraquecem a consciência e a fazem virar-se para o indeterminado.  O seu papel é, segundo a mitologia judaico-cristã, o de despojar o Homem da graça de Deus para o submeter ao seu próprio domínio.

Em Portugal o Diabo estreou-se na política com Passos Coelho a dizer que ele, o diabo, vinha aí aquando do acordo parlamentar do PS como o PCP e o BE. Passos Coelho, aos despedir-se dos deputados do PSD, numa mensagem catastrófica disse-lhes que “Gozem bem as férias que em Setembro vem aí o Diabo”.

Há poucos dias ouvimos António Costa a recuperar o Diabo e a dizer que a: extrema-direita ataca Europa para "reeditar todos os diabos”. Diabo, aqui no sentido alegórico sobre o desentendimento no passado entre as nações europeias que culminaram em guerras.

Bolsonaro no Brasil invocou várias vezes o nome de Deus durante a campanha eleitoral e na tomada de posse. Aproveitou a boleia das seitas evangélicas que utilizam a religião mais para fins lucrativos do que para elevação dos espíritos, e por lá foi dizendo que : "Também quero agradecer a Deus por esta missão, porque o Brasil está numa situação um tanto complicada, com uma crise ética, moral e económica, tenho certeza de que não sou o mais capaz, mas Deus capacita os eleitos", isto é, não é o “mais capacitado, mas Deus capacita os escolhidos”.   Depois de ter sido eleito Jair Bolsonaro foi a um culto na Assembleia de Deus Vitória em Cristo do pastor evangélico Silas Malafaia, que o apoiou na campanha e celebrou o seu casamento com Michelle Bolsonaro.

Recentemente Donald Trump em 18 de fevereiro de 2018 no twitter “O lema da nossa nação é em Deus que confiamos”. Donald Trump disse à CNN a Jake Tapper que "tem um ótimo relacionamento com Deus" e com os evangélicos. Isto foi em 12 de janeiro de 2016. Por sua vez, o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, disse em  12 de maio 2018 que "a fé na América está voltando a crescer" - graças ao presidente Donald Trump.

Os políticos ao incluírem Deus nos seus discursos sabem que as crenças religiosas têm ainda muita força na consciência das pessoas e que são fatores que ainda atraem eleitores menos esclarecidos. Quando os políticos, incorporam conceitos religiosos, independentemente de estarem a testemunhar as suas convicções e sentimentos religiosos pode ser que estejam também a utilizar a religião como uma instrumentalização para reforçarem um discurso de legitimação. Isso porque a religião, pelo facto de ser um elemento constitutivo da cultura de um povo, tem poder de persuasão.

 Na Venezuela temos em presença Deus e o Diabo em luta pelo poder, não literalmente, está claro. A oposição a Maduro liderada por Juan Guaidó, que se autoproclamou Presidente interino, declarou, perante uma concentração de milhares de pessoas, no leste de Caracas: " Hoje, 23 de janeiro, na minha condição de presidente da Assembleia Nacional e perante Deus todo-poderoso e a Constituição, juro assumir as competências do executivo nacional, como Presidente Encarregado da Venezuela, para conseguir o fim da usurpação da Presidência da República, um Governo de transição e eleições livres",

O BE não fala de Deus nem do Diabo, mas quer tudo e mais alguma coisa que só Deus conseguiria dar. O BE quer tudo e mais alguma coisa, mas também não quer. Quer aumentos salarias para toda a função pública, quer a contabilização de toda a carreira para os professores, quer enfermeiros sejam ouvidos e que o Governo ceda a todas a reivindicações. Quer cobrar mais impostos às empresas e às empresas como se já não bastasse o sugadouro do Estado que depois vai para as reivindicações muitas vezes irrealistas da função pública exigida pelos sindicatos. Quer mais saúde, isso todos queremos, enfim, quer tudo, mas não quer tudo. É também contra a “U.E. da austeridade”, não sabemos é se quer outra, é contra os EUA…

Quanto à Venezuela, O BE se por um lado, não quer que Portugal reconheça Juan Guaidó na Venezuela, por outro, também não quer Maduro. Quer defender uma mediação internacional para eleições livres, mas não diz que mediação. Será a dos EUA, da ONU, de Cuba, da China, da Rússia? De todos ao mesmo tempo? Parece que por aqui Deus e o Diabo andam de mãos dadas.

Por último há ainda o oportunismo direitista daquele execrável e tendencioso programa de José Eduardo Moniz na TVI, “Deus e O Diabo” porque chama muito pelo Diabo e muito pouco por Deus. Por isso dizem muitas seitas religiosas que o diabo está em todos o lado causando toda a espécie de mal. Nesse contexto o diabo torna-se ferramenta do poder das Igrejas católicas e evangélicas e do Estado, o diabo adquire consistência explicativo da realidade quando as pessoas não conseguem encarar e superar as dificuldades.

 

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publicado às 18:33

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Política e religião parecem ter-se apropriado gradual e reciprocamente uma da outra. As exposições de doutrinação religiosa e sermões feitos pelos clérigos católicos durante as chamadas homilias não raras vezes têm conotações político-ideológicas em combinação com a preleção que deveria ser da serventia religiosa.

Alguns políticos têm-se apropriado da religião e invocam o nome de Deus nos seus discursos políticos como indutores para convencimento político assim como os discursos e preleções de âmbito religioso e de fé cujo lugar é no recolhimento das cerimónias religiosas apropriam-se das narrativas próximas das de partidos políticos para o mesmo efeito.

Veja-se dois exemplos dos mais evidentes nos discursos de Trump nos EUA e de Bolsonaro no Brasil.

Donald Trump no discurso inaugural do 45º presidente dos EUA a 20 de janeiro de 2017 teve várias alusões à religião e a Deus estas são apenas algumas que podem confirmar aqui no site da Casa Branca: A Bíblia diz-nos: “quão bom e agradável é quando o povo de Deus vive unido em unidade”. “Seremos protegidos pelos grandes homens e mulheres de nossos militares e policiais e, mais importante, somos protegidos por Deus”. E, “sim, juntos, vamos tornar a América ótima novamente. Obrigado, Deus te abençoe, e Deus abençoe a América.”. Ainda noutro momento, na conferência da CPAC - Conservative Political Action Conference em fevereiro de 2018 além de várias referências a Deus no mesmo discurso disse “Na América, não adoramos o governo, adoramos a Deus”  o que também pode ver aqui.

Bolsonaro, quando da eleição de Donald Trump, apercebeu-se logo do peso das muitas igrejas evangélicas. Jair Bolsonaro verificou que esse peso poderia ser ainda mais claro, e recorre a uma semântica que tende a anular a laicidade do Estado.  Vimos na televisão quando ele ganhou as eleições e logo que foi anunciado como tendo sido o candidato eleito fez uma oração de agradecimento acompanhado com naturalidade por um pastor evangélico que muitos consideraram como causa de preocupação. E termina com "Brasil acima de tudo e Deus acima de todos".

Mais recentemente, no discurso na tomada de posse de Bolsonaro verificamos que citou “Deus” 12 vezes. Jair Bolsonaro ao ser empossado deixou claro que há uma preocupação inédita em demonstrar a sua fé em Deus.

Bolsonaro falou em “Deus” 12 vezes. Já “ideologia” e variantes foram mencionadas nove vezes, sempre no sentido negativo. O terceiro termo mais usado foi “família”. Enunciar tantas vezes palavras e assuntos de cariz religioso num estado que, segundo a Constituição, é um Estado laico é de facto, preocupante.

É um Cristianismo tóxico.

Em Portugal dá-se o inverso, também preocupante, em que clérigos com responsabilidades hierárquicas na igreja católica se reservam o direito de, abertamente, fazerem política, genérica, mas sugestiva, nas intervenções durante cerimónias que deveriam ser meramente religiosas, assim como seria também preocupante um político falar sobre sua fé num qualquer comício ou intervenção pública. Púlpito e palanque deveriam estar distantes.

Refiro-me à homília do bispo auxiliar de Braga D. Nuno Almeida que mais pareceu ser um discurso cujas palavras parecem já termos ouvido vindo de um qualquer partido político da oposição de direita, como por exemplo esta afirmação em que houve claramente uma tentativa para influenciar o sentido do voto sem mencionar nomes ou partidos: “Não nos deixemos seduzir com a propaganda política profissionalmente orientada, mas balofa e a fingir; não permitamos que alguns euros a mais na reforma ou no salário comprem as nossas convicções profundas”.

Uma breve análise do conteúdo desta afirmação sugere algumas questões:  a quem se está a referir D. Nuno quando fala de “propaganda política profissionalmente orientada, mas balofa e a fingir”? Não será, com certeza, referência à direita porque esta tem feito oposição ao Governo com argumentação idêntica.  D. Nuno deixa recados aos fiéis para o tempo eleitoral que se aproxima.

O Bispo auxiliar de Braga não está preocupado com o que se passa no seio clerical da igreja com a pedofilia e de outros crimes que levou o Cardeal brasileiro a denunciar a complacência do Vaticano,  devido ao encobrimento pela Igreja de padre que abusou sexualmente dos filhos, a dizer que “Tenho a impressão de que as denúncias de abusos vão aumentar, porque estamos apenas no começo. Estamos a esconder isso há 70 anos, o que foi um grande erro". Podemos de facto afirmar como ele o fez, quando afirma que “corremos o de deixar a política em algumas mãos muito sujas”, assim sendo poderíamos então afirmar que também corremos o risco de a igreja estar entregue, de facto, a mãos também elas muito sujas. Digo isto com amargura por ser católico, mas desconfiar do clero que gere a igreja, apesar de o Papa Francisco ser uma personalidade ímpar que aponta para o caminho do Evangelho com enorme esforço e luta contra o conservadorismo obsoleto de alguns nomeadamente em Portugal.   

O bispo auxiliar D. Nuno Almeida não se preocupa com a corrupção na igreja (que também pode ver aqui ou aqui) que o Sumo Pontífice a admitiu, numa conversa com superiores de ordens religiosas publicada na íntegra na revista "Civiltà Católica". Não, com isso, o senhor Bispo Auxiliar não se preocupa em denunciar. Preocupa-se, isso sim, em fazer uma amálgama entre política e religião.

Numa passagem do Novo Testamento, Evangelho segundo São Mateus, 22,16 [1], os fariseus dirigem-se ao Mestre acompanhados pelos seus discípulos e dizem-lhe: “…Mestre sabemos que que és sincero e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não olhas à condição das pessoas. Diz-nos, portanto, o teu parecer: É lícito ou não pagar o imposto a César?… Mas Jesus, conhecendo-lhes a malícia, retorquiu: porque me tentais, hipócritas?... e mais à frente diz: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.  Por analogia posso então dizer que “Dai, pois, à religião o que é da religião e à política o que é da política”.

Aliás, o que vemos hoje no século XXI, embora em doses mais subtis, não é novidade dado que a separação de poderes laico e religioso, isto é, Igreja e Estado, é mais aparente do que real. E criticamos nós países como o Irão que são repúblicas teocráticas, nas quais os vários poderes são supervisionados por um corpo de clérigos.

Mais uma vez temos um Cristianismo tóxico.

Podem fazer-se as leituras que cada um entender sobre a homília de D. Nuno, mas esta é a minha, porque não tenho que ser politicamente correto e apesar de saber que, quem se mete com a Igreja leva.

 

 

 

[1] Bíblia Sagrada, Difusora Bíblica, Fátima, maio 2010, p.1606

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publicado às 18:10

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O Sunday Express tem apresentado o diário da campanha eleitoral das eleições intercalares nos EUA na próxima terça feira e que resumo num pequeno extrato com as afirmações de Donald Tump que, como sempre, intercala o disparate com o radicalismo.

 

Domingo 4 de novembro

 

18h18 - Atualização: Donald Trump avisou que, se os democratas vencerem na terça-feira, o mercado de ações vai cair

O presidente dos EUA, Donald Trump, alertou que uma de suas medidas favoritas de sucesso, o mercado de ações, está em perigo se os eleitores favorecerem os democratas nas eleições para o Congresso.

Trump alertou num tweet na terça-feira que uma mudança no Congresso seria ruim para o mercado, dizendo: "Se quiserem que as vossas ações caiam, eu sugiro fortemente que se vote no democrata".

Nas eleições de meio de mandato, os democratas estão concentrados em proteger uma lei de saúde de 2010.

Enquanto isso, o presidente Donald Trump elogiou o crescimento económico e emitiu alertas sobre a imigração para obter votos para seu partido.

Os democratas estão a liderar os republicanos em sete pontos percentuais, de 50% a 43%, revelou uma pesquisa eleitoral da NBC News / Wall Street Journal.

Mas os números estão um pouco abaixo da liderança de nove por cento dos democratas no mês passado.

O presidente Trump descreveu a primeira onda de barricadas de arame farpado colocadas ao longo da fronteira entre os EUA e o México como "lindas".

Até agora, tropas americanas instalaram os bloqueadores de arame farpado ao longo de 170 milhas das margens do Rio Grande.

Trump disse a seus partidários em sua campanha em Montana: “Nós temos os nossos militares na fronteira”.

“E notei todo aquele lindo arame farpado que sobe hoje. O arame farpado usado corretamente pode ser uma bela vista”.

O presidente dos EUA também usou o seu discurso para, mais uma vez, condenar a caravana de imigrantes que viajavam para a fronteira com os EUA.

Ele disse: “Estas são pessoas más. Hombres ruins.

"Há alguns hombres ruins nesse grupo. Então eles saíram com uma lista de 300 realmente ruins, muito ruins. Eles estão lá."

Os números listados vieram de um relatório do Departamento de Segurança Interna, que afirma que 270 dos migrantes em trânsito cometeram crimes, incluindo agressão sexual e roubo.

Atualização às 18h10: os jovens podem afetar o resultado em "estados oscilantes"

Indicações de voto antecipado sugerem que os jovens podem ajudar a levar o Congresso para os democratas na terça-feira.

Mas Angela Wilson, professora de política na Universidade de Manchester, disse ao Express.co.uk: “Isso realmente depende de onde os jovens estão localizados.

Disse ainda: “Se os jovens estão em estados tradicionalmente azuis que já se inclinam para candidatos democratas, isso pode reforçar os números, mas não necessariamente alterar o resultado esperado.

Quais são as últimas previsões de sondagens?

 

Senado:

Republicanos têm uma chance de 84,3% - 5 em 6 - de ganhar o controle

Democratas têm 15,7% de chance - 1 em 6 - de ganhar o controle

Congresso:

Republicanos têm 85% de chance - 6 em 7 - de ganhar o controle

Democratas têm 15% de chance - 1 em 7 - de ganhar o controle

 

11.53am: Mais hispânicos com probabilidade de votar na terça-feira do que em 2014, novas pesquisas mostram

O número de eleitores hispânicos que votaram nas eleições de novembro pode ficar num terço nos mandatos de 2014, com uma participação maior do que o aumento geral da votação dos EUA, segundo pesquisa nacional divulgada hoje.

Uma pesquisa da Reuters / Ipsos, realizada entre 1º de setembro e 29 de outubro, revelou que 36% dos eleitores hispânicos disseram que garantem ir, contra 27% em 2014.

O aumento é quase o dobro do aumento de cinco por cento entre todos os eleitores dos EUA no mesmo período, de acordo com os dados. E esses mesmos eleitores são duas vezes mais propensos a apoiar o partido democrata.

Acredita-se que o entusiasmo latino esteja aumentando, à medida que o Partido Republicano do presidente Trump aumenta sua linha-dura anti-imigração.

 

9h45 - Atualização: campanha democrata de Stacey Abrams, alvo de ataques racistas

Ambas as campanhas para os candidatos concorrendo ao governador da Geórgia condenaram uma gravação racista e antissemita enviada a residentes no estado dias antes da eleição.

A campanha para a candidata democrata Stacey Abrams, que espera tornar-se a primeira governadora negra dos EUA, denunciou os telefonemas como evidência do "crescente desespero" da campanha republicana.

O rival de Abrams, o secretário de Estado da Geórgia, Brian Kemp, chamou-os de "absolutamente repugnantes".

Os telefonemas representaram Oprah Winfrey, que apostou na campanha em Abrams, além de linguagem antissemita.

Insultos de cariz racistas semelhantes foram enviados na Flórida em agosto para minar o candidato democrata Andrew Gillum, que é negro.

Atualização de 8.34: Trump diz em Montana que os democratas querem convidar “caravana após caravana para inundar suas comunidades”

O presidente Trump endureceu sua posição sobre a imigração na sua manifestação em Montana, acusando os democratas de encorajar um número infinito de imigrantes para os EUA.

Trump disse aos seus partidários: “Os democratas querem convidar caravana após caravana para inundar as suas comunidades, esgotando os nossos recursos e inundando a nossa nação. Nós não queremos isso.

Ele também afirmou que "a América está a crescer" ao falar sobre a economia enquanto estava em um campo de pouso em frente ao Air Force One.

Trump disse: “A América está a crescer. Os republicanos aprovaram um enorme corte de impostos para as famílias trabalhadoras e em breve continuaremos com outro corte de impostos de 10% para a classe média.”

6:00 am atualização: Twitter elimina mais de 10.000 contas tentando desencorajar as pessoas de votar

Perto do final de setembro e início de outubro, o Twitter excluiu mais de 10 mil contas que tentavam desencorajar as pessoas a votarem.

Os democratas sinalizaram várias mensagens que fingiam ser democratas que tentavam convencer outros democratas a não votar.

Isso tem sido parte de uma parceria que os democratas têm com vários parceiros que tentam responsabilizar a organização do média social e impedir a disseminação da desinformação.

 

4:00 da manhã atualização: Trump "o ne assustou filho de uma arma" afirma seu ex-ghostwriter

De acordo com o ghostwriter Tony Schwartz, que escreveu o famoso livro de Trump "The Art of the Deal", Trump está em pânico quando mais se aproxima o dia das eleições. 

Schwart diz que Trump "utilizará qualquer coisa num sentimento de desespero" para garantir que os republicanos não percam as eleições.

Ele acrescentou que o que Trump "percebe é que isso pode tornar-se muito, muito obscuro para ele" e poderia potencialmente perder tanto a Câmara como o Senado, apesar das sondagens que dizem que os republicanos ocuparão o Senado. 

02:33 atualização: pedido de Trump para as tropas na fronteira negada

O Pentágono disse que não vai aprovar o pedido de Trump para enviar pelo menos 5 mil soldados para a fronteira dos EUA.

Eles disseram que ele deveria ser tratado pela polícia local ou estadual e não aprovava o uso de armas de fogo real.

Trump disse repetidamente que enviará de 5 mil a 15 mil soldados para a fronteira.

Também rotulou os 3.000 migrantes indo para a fronteira como uma "invasão". 

 

Uma jogada de Trump

 

12:02 am update: O presidente interrompe seu discurso para pedir a um médico que trate uma mulher no meio da multidão

Um médico está a tratar com atenção as mulheres que adoecem no meio da multidão.

O Presidente disse: "Passe essa informação. Isso é bom. Leve o seu tempo."

Em seguida, acrescentou: "Obrigado médico. Ótimo trabalho. Tem que fazer com os seus impostos baixem."

 

FONTE: Sanday Express

 

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publicado às 20:00

Citizen Kane.png

 A existência de uma comunicação social livre pressupõe o escrutínio e a informação sobre quem ocupa ou venha a ocupar cargos públicos, semipúblicos e políticos, é um dever de informação, mas há limites.

Revi no passado Sábado, mais uma vez, o filme Citizen Kane, cujo título em Portugal é conhecido por “O Mundo a seus Pés”, realizado por Orson Wells em 1941 e que foi exibido no fim de semana passado pelo canal Memória da RTP. Embora seja considerado um filme inovador para a época quanto à realização, iluminação, planos utilizados, pormenores da imagem, cenários e ambientes, o que pretendo abordar centra-se numa análise de conteúdo simbólico. O filme pode ter várias leituras que vão desde a análise do caráter dos personagens à dimensão política e ao poder dos media.

O filme apesar do ambiente da ação se passar nos Estados Unidos da América mostra em algumas sequências o que ainda hoje podemos constatar na política na maior parte dos países, incluindo Portugal.

A parte que pretendo salientar centra-se nas sequências que mostram que o milionário e megalómano Kane, que controlava órgãos de informação e de comunicação, na altura a imprensa, decidiu candidatar-se a governador de um estado opondo-se, denunciando e acusando de corrupto Jim Gettys o então governador. Kane apresentava-se ao eleitorado como sendo um liberal e amigo dos trabalhadores.

Na véspera das eleições Kane faz um discurso inflamado em Madison Square Garden, frente a um cartaz gigantesco de si mesmo, com o único propósito de apontar e tornar pública a desonestidade, a vileza da máquina política do chefe Jim W. Gettys que detinha o total controle do governo daquele estado. O discurso de Kane sintetiza-se da seguinte forma:

Não fiz nenhuma promessa de campanha, porque até algumas semanas atrás, não tinha esperança de ser eleito. Agora, no entanto, eu sou algo mais do que uma esperança. Jim Gettys tem algo menos do que uma hipótese. Todas as sondagens independentes mostram que vou ser eleito. Agora posso fazer algumas promessas. O homem trabalhador, o trabalhador e o filho do bairro pobre sabem que podem esperar os meus melhores esforços nos seus interesses. Os cidadãos comuns da nação sabem que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para proteger os desprivilegiados e os mal pagos.

Os objetivos oratórios da campanha de Kane centram-se no fim da corrupção. A rivalidade concentra-se no chefe político e oponente Jim Gettys. Kane com raiva faz uma promessa firme e definitiva aos seus apoiantes – como primeiro ato oficial prender o governador seu oponente atual. Aqui está uma promessa que eu farei, e o chefe Jim Gettys sabe que a vou cumprir. O meu primeiro ato oficial como governador deste estado será nomear um advogado público especial para providenciar a acusação, a acusação e a condenação de Boss Jim W. Gettys.

Gettys é avistado numa varanda acima do palanque onde Kane faz o seu discurso ameaçador. Kane está em vantagem e espera ganhar a corrida eleitoral para governador.

Emily, a esposa de Kane, ao sair após o comício, entra num táxi e confronta-o com uma nota que recebeu sobre suspeitas de que ele tem um apartamento oferecido a Susan com quem tem uma relação extra conjugal. Kane acompanha Emily de táxi para o apartamento de Susan. Chegados ao apartamento entram e no prédio, no alto da escada Susana a amante de Kane encontra.se apreensiva e quando chegam ao apartamento é Susan, que admite que Gettys a forçou a escrever uma carta a Emily para mostrar e expor o relacionamento de Kane com ela dizendo que a tinha obrigado a enviar à esposa essa carta. Eu não queria. Ele tem dito o mais terrível - Gettys aparece na entrada do apartamento de Susan como uma sombra ameaçadora. Sendo apanhado Kane fica indignado e profere ameaças a  Gettys.

Kane, Emily, Susan e Gettys discutem o caso e como isso afetará a corrida para o governador. Gettys está a lutar pela sua sobrevivência política e pela sua própria existência contra-ameaça chantageando Kane em tornar o caso público em todos os jornais do estado que não fossem propriedade dele, expondo o relacionamento extra-conjugal com Susan para que se retire da corrida. 

O escândalo mancharia a imagem pública que Kane que tenha cuidado para a sua campanha moral. Gettys propõe que Kane explique que sua retirada é devida a uma doença e ameaça que as manchetes dos jornais vão prejudicá-lo se ele não se retirar. Kane prefere recusar e aceita o escândalo público perdendo por isso as eleições.

Os escândalos na política e a intromissão na vida privada dos políticos ou dos candidatos a cargos políticos são coscuvilhados e escrutinados com objetivos de destruição do caráter e das carreiras dirigindo-se sobretudo ao partidos da opoisção que querm conquistar o poder. Quem escrutina raramente ou nunca é escrutinado, refiro-me, claro está, a jornalistas ditos de investigação e a políticos que com eles colaboram na sombra.

A existência de uma comunicação social livre pressupõe o escrutínio de quem ocupa cargos públicos, semipúblicos e políticos, é um dever de informação, mas há limites. Os que exaltam as virtudes, as exigem e denunciam a falta delas em outros não admitem que, também eles próprios, podem não as ter, mas apresentam-se como sendo o exemplo de virtudes personificadas.

Quando não conseguem impor pelas suas ideias ou fazer oposição fundamentada, ou, ainda, lhes faltam os apoios necessários procuram derrubar os seus adversários não pelas ideias ou pela prestação política, mas através de mecanismos de ataque pessoal e outros cuja ética e a própria moral reprovam. Para estes não há ética, a política é uma espécie de luta onde vale tudo e não existem regras. Só as reclamam quando deles próprios se trata.

O que acabo de escrever aplicado a um caso, embora diferente, hoje confirmado pelas notícias, e não são “fake news”, de que na América, o procurador-geral Jeff Sessions pediu que fossem investigadas "algumas matérias" relacionadas com a Fundação Clinton - incluindo as suas relações com a Rússia. Há meses que o Presidente Trump o pedia e que os republicanos puxam agora pelo caso no Senado.

Conforme tem sido noticiado Donald Trump está em maus lençóis, devido às suas relações com a Rússia, havia que “escavar” algo que se passasse com alguém dos seus opositores políticos.

E mais outra, desta vez com os republicanos que estão às voltas com um candidato ao Senado com o qual não querem ter um problema por ter sido acusado de abusar de duas menores. Há que mostrar que também eles são rigorososos quando se trata da excelência moral.

Enfim, em política procura-se tudo para denegrir adversários, partidos e ideologias que disputam entre si o poder. Perde-se cada vez mais o argumento ideológico em favor de argumentos contra o caráter pessoal. A política é assim, e sempre foi assim, veja-se o caso português na primeira república.

Pode ver o filme Citizen Kane aqui.

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publicado às 09:43

Variações à viola.png

1 Durante este mês de agosto, tempo de férias e de descontração, já longe do bulício do Algarve e dos discursos de ocasião que, nesta época do ano, a direita PSD cumpre no Pontal, tinha decidido não escrever sobre política. Impossível! Há causas que me ultrapassam e que têm a ver com o descaramento e a hipocrisia desta gente da direita que apanham tudo o que têm à mão para fazer oposição à custa da desgraça das populações atingidas pelo terrorismo dos incendiários. A direita pretendia e pretende que este governo resolvesse agora com uma espécie de varinha mágica aquilo que ela, enquanto esteve no governo, nunca se interessou por resolver. Sim, porque não é preciso recordar que durante os seus famigerados quatro anos de governação também houve grandes incêndios e tudo ficou na mesma.

Passos Coelho, no Pontal, utilizou a mesma estratégia discursiva, e já cansativa, de quem, por já não ter mais nada para dizer nem para oferecer, vai-se repetindo numa espécie de via-sacra da política que o conduzir a ele e ao PSD até ao calvário.

2 No debate televisivo no jornal das nove na RTP3 do dia 14/08/2017 as intervenções entre João Galamba do PS e Carlos Abreu Amorim do PSD foram confrangedoras, cada um por diferentes razões.

Galamba, embora mostrando a segurança do costume, apresentava-se cauteloso na defesa de alguns pontos de vista, nomeadamente no que se referia à questão dos incêndios e da ministra administração interna. Os argumentos de defesa foram fracos e sem convicção, talvez falta de conhecimento dos factos. Quanto ao crescimento do PIB de 2,8% no último trimestre, o maior das últimas décadas, parece ter ficado desiludido por não ser terem atingido os 3% apesar de Amorim ter afirmado que tinha sido bom o crescimento, embora saibamos que há aqui uma ligeira alteração do discurso e que este elogio está impregnado de alguma hipocrisia e estratégia.

Nas restantes intervenções, Amorim, seguindo o mestre, refugiou-se nas coisas vãs pretendendo voltar a recuperar a síndrome do medo e do regresso ao passado falando numa potencial banca rota, coisa que, disse ele, a direita está preparada para evitar com as suas reformas. Sobre as reformas que seria necessário efetuar nada disse a não ser quando se referiu à reforma da segurança social, mas sem dizer como. Não o disse, mas todos nós sabemos quais foram e quais serão as que direita pretende fazer neste campo. Quanto a outras ficámos em branco.

Os conservadores de direita pretendem ser inovadores mas não são mais do que conservadores passadistas, quer quanto à ideologia, quer quanto às práticas de regresso ao tal passado de empobrecimento da população. E, no domínio da educação o regresso às estratégicas educativas inspiradas em algumas do Estado Novo, adaptadas, revistas e melhoradas, aproveitando, para tal, as possibilidades que a democracia lhes dá. Basta ler alguns discursos de Salazar da sua época áurea sobre o tema para se poder comparar.

Mas voltemos a Carlos Amorim que recupera uma terminologia sobre a classificação dos partidos que apoiam o Governo ao nível parlamentar, que faz jus à sua nutrida inteligência política, e que denominou de extrema-esquerda radical. Apesar do disparate há a intenção objetiva na aplicação daquela adjetivação àqueles partidos. Senão vejamos: a denominação de extrema-esquerda pode-se aceitar, mas juntar radical a esta designação parece uma contradição. Não será já uma extrema-esquerda radical? Se não o é, e é apenas extrema-esquerda, então é porque pode existir uma extrema-esquerda que não é radical. Então em que ficamos? Pode perguntar-se a Carlos Amorim como é que ele, no espetro político, classifica os partidos. Será que para ele existe uma extrema-direita que não é radical e uma outra que o é? Como os caracterizaria ele?

3 Não quero abandonar o tema sobre Amorim sem mais um tesourinho de aproveitamento partidário sobre os incêndios. O Governo decretou o estado de calamidade pública para algumas regiões afetadas pela desgraça dos incêndios provocados por pirómanos desvairados. E, claro, Amorim aproveitando o tempo de antena a que lhe dão, e tem por direito, veio a público elogiar a medida mas que perde por tardia. Pois é dr. Amorim, segundo a sua estratégia e a do seu partido, tivesse sido tomada aquela medida uma semana antes teria vindo dizer o mesmo, e se fosse ainda antes e assim sucessivamente acredito que viria a dizer sempre o mesmo.

4 Se bem me recordo, foi também na altura dos incêndios em anos anteriores que um comentador especialista sobre incêndios, que nestas lamentáveis ocasiões os canais de televisão contratam, que um desses especialistas espontâneos ao fazer o seu comentário acabou por dizer que o povo português não é incendiário, são casos pontuais que por aí aparecem. Esta semana foi a vez de um outro especialista a que o jornalista perguntou se achava que havia um rede organizada de incendiários disse claramente que não e teceu o perfil do incendiário comum e claro são sempre os mesmo maluquinhos e irresponsáveis que por aí existem. Está-se mesmo a ver! Até as populações pelo seu conhecimento sabem que existe atos deliberados e organizados. Ou não será evidente que existe um padrão manifesto pelas horas, locais de ocorrência, simultaneidade das ignições, etc.. O que lá fora consta é que nós, os portugueses, somos uns maníacos pirómanos.

5 Para terminar, um comentário sobre essa coisa que é presidente dos EUA, o Pato Donald Trump. Sobre os acontecimentos dos confrontos racistas no estado da Virgínia. Diz e desdiz sem clarificar a sua posição. Por um lado, a culpa foi, como disse, ser da esquerda (?) que atacou a direita (?). Qual será o conceito dele de esquerda e de direita. Para ele a direita são os nazis, os neonazis, os xenófobos, os racistas e a sua mais objeta organização da Klu Klux Klan. Isto para ele deve ser a direita no seu conceito de democracia. Foram tais os comentários de Trump que levou o dirigente daquela grupo, através do Twitter, a elogiar os seus comentários. Na minha opinião estamos de facto em presença dum presidente que está a ser o percursor duma ideologia de inspiração nazi adaptada ao século XXI.

Uma coisa está a ser evidente: as intervenções e os discursos de Donald Trump durante a campanha eleitoral, e já depois de estar na presidência, estão a começar a dar os seus frutos.

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publicado às 19:29

Visão da comoção e do cinismo

por Manuel AR, em 04.05.17

Visão da comoção e do cinismo.png

João Miguel Tavares escreveu no jornal Público que acha “comovente que tanta gente de esquerda se espante com o posicionamento do Bloco e do PCP nestas presidenciais francesas, por se recusarem a apoiar, à imagem de Jean-Luc Mélenchon, Emmanuel Macron contra Marine Le Pen comovente que tanta gente de esquerda se espante com o posicionamento do Bloco e do PCP nestas presidenciais francesas, por se recusarem a apoiar, à imagem de Jean-Luc Mélenchon, Emmanuel Macron contra Marine Le Pen”. Também eu me comovo com o que ele, de forma cínica, escreve. Ele é como um cínico picador de toiros que gosta do animal, mas pica-o para o enraivecer para que a lide seja mais conseguida para o toureiro.

Pretende acicatar o PCP e o BE para que, aqui dentro, aqui em Portugal, e contra António Costa e o seu Governo, ajam com o espírito revolucionário, desestabilizador e extremado que, para ele, deveria ser peculiar. A Miguel Tavares assoma desejos não explicitamente manifestos, de desestabilização da solução governativa apoiada parlamentarmente pela esquerda. Assume-se como sendo um grande educador virtual daqueles dois partidos que, para ele, deveriam ser preferencialmente mais revolucionários cá dentro como o são quando olham para a política internacional.

Por estas, e por outras, é que ainda fico mais comovido quando leio artigos de opinião e comentários provenientes de fontes que se situam entre a extrema-direita, que se diz não existir em Portugal, e a direita dos autointitulados liberais.

O PCP e o BE, ao darem apoio parlamentar ao Governo, passaram a ser para Miguel Tavares, e para a direita, uma espécie de dentes do siso que lhe nasceram na dentadura e já se encontram cariados, e lhe doem muito, mas estão a custar-lhe a arrancar.

No momento em que decorreram eleições em França (primeira volta), e está a decorrer a campanha eleitoral para a segunda volta o que tenho visto e lido vai no sentido de a direita, cá dentro, através dos seus artigos e comentários, não se pronunciar claramente sobre os candidatos em presença. Se, por um lado, fazem criticas moderadas a Macron, já quanto a Le Pen há “nins” que sobram. A suas manifestações públicas, quando são de oposição a Le Pen são contidas, palavras muito escolhidas para não assustar potenciais fãs. Assim como os liberais da direita portuguesa quando da eleição de Trump foram de crítica contida, moderada. Vamos ver o que dirão sobre a tomada de posição de Obama ao apoiar Macron nas eleições francesas. É claro o “namoro” ideológico entre Le Pen e Trump.

Em Portugal a direita e os seus liberais, e a extrema-direita que anda por lá diluída, têm vestido até hoje peles de cordeiro. Será que os radicais, neste caso a extrema-direita de Le Pen, se porventura chegasse ao poder, deixaria de o ser, ou faria o que fez Erdogan na Turquia?

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publicado às 19:20

 O sufixo “ista” é o formador de adjetivos e substantivos que participa na derivação de adjetivos a partir de nomes e exprime a noção de adepto de algo.

Neste sentido estão incluídos todos os que são fervorosos apoiantes do presidente Trump dos EUA. Em Portugal, aos poucos, vão por aí surgindo vários, uns mais tímidos, outros mais assumidos. Identifico pelo menos três que se têm evidenciado pelos seus pontos de vista: Nuno Rogeiro, António Ribeiro Ferreira, que foi em tempo diretor do jornal i, e, ainda, o mais subtil, como sempre, Paulo Portas, e outros aparecerão ainda.

Começo por Ribeiro Ferreira que alinha incondicional e explicitamente com as políticas de Trump. Aliás é bem evidente a sua concordância com o discurso e as mensagens enganadoras de Donald Trump quando faz um ataque cerrado a órgãos de comunicação dos EUA. Ferreira é um jornalista de fação, fação da extrema-direita. Ler os artigos dele, de conteúdo fascizante, é como estivéssemos a ler o jornal “O Diabo” e a sensação de termos regressado a um tempo passado, e que pode muito bem voltar a vir no futuro, se a democracia não lhe fizer frente pelos meios que tem ao seu dispor. Ribeiro Ferreira coloca em epígrafe “A América está com Trump” e inicia a sua enganadora narrativa começando por comparar o que se passa em Portugal com o que se está a passar com Trump nos EUA.

Cito uma pequena passagem da verborreia deste “jornalista” que é significativa para avaliar a sua isenção. Diz então que (os negritos foram salientados por mim):

Nesta imensa campanha suja destacam-se, naturalmente, a CNN – Clinton News Network, a BBC – British Broadcasting Clinton, o “New York Lies” e o “Washington Dumb”, entre outros grandes meios de comunicação social. Como mentem tanto, alguns andam mesmo de mão estendida a pedir socorro a outros desgraçados que olham para o presente e futuro dos EUA com muito medo.

E têm razão. Com Trump na Casa Branca acabaram-se os tempos do laxismo, da desordem, da balbúrdia, da promiscuidade dos poderes instalados em Washington e dos milhões e milhões de imigrantes ilegais que não só tiram o emprego a cidadãos legais que pagam impostos como lhes baixam os salários. A guerra que Trump declarou a uma certa imprensa é uma guerra da verdade contra a mentira, da coragem contra a cobardia, da frontalidade contra a venalidade e a corrupção.

Triste, lamentável mesmo, é a forma como a imprensa portuguesa segue como carneirada os mentirosos do outro lado do Atlântico. São os Ecos de Aljustrel, do grande Eça de Queirós, cujo diretor, a espumar de fúria quando Bismarck invadiu a França, ameaçou com veemência: “Deixem estar que amanhã já dou cabo dele nos Ecos”.

Mentirosos, ranhosos sem qualificação que se masturbam com gracinhas, polémicas e gritinhos de indignação. Agora que segue em frente, imparável no cumprimento do seu programa eleitoral, o presidente dos EUA marcou pontos com o seu notável discurso no Capitólio, aplaudido de pé pelos republicanos e ouvido pelos ridículos democratas vestidos de branco.”.

E termina com “Olhem com muita atenção o que se está a passar na Holanda, na França e na Alemanha. Não se fiem em sondagens feitas pelo sistema sobre o sistema. Não se fiem em sondagens que apenas visam salvar o sistema da vontade popular, dos cidadãos que estão fartos da corrupção, do centrão político politicamente correto, cobarde e de cócoras perante os bárbaros muçulmanos que lhes infernizam a vida em muitas cidades europeias, das brutais cargas de impostos que servem para pagar Estados sociais que beneficiam quem não trabalha e não deixa trabalhar, que dá privilégios a gente que despreza tantas e tantas vezes a história e a cultura de quem os recebeu e alimenta a pão-de-ló. “…Podem berrar contra os populismos as vezes que quiserem. Podem rasgar as vestes todas pelo sistema. O voto popular, nos EUA e na Europa, está a mostrar que o sistema e os seus capangas vão nus.”

O seu tipo de jornalismo de opinião faz-me lembrar o tempo das prosas do “Diário da Manhã”, jornal fundado a 4 de Abril de 1931, órgão oficial da União Nacional, sob direção de Domingos Garcia Pulido, integrante do círculo íntimo de Salazar.

Não é apenas pró Trump, Ribeiro Ferreira destila ódio e ressabiamento por todos os poros, por tudo quanto venha da democracia, talvez devido a algo que terá perdido no passado, o fim da ditadura. Um sujeito perigoso que se intitula de jornalista.

Isto é, para aquele dito jornalista, a verdade dele e de Trump é única, uníssona, indiscutível e se segundo ele não se pode acreditar em nada a não ser acreditar em tudo o que eles dizem. Para este adepto da política de Trump tudo quanto não seja pensamento único é mentira. Ferreira não consegue distinguir a realidade da sua reacionária fantasia.

É de indivíduos como este que nos devemos defender porque são uma ameaça à democracia.

 

Há outros, mais subtis, como Paulo Portas, cuja esperteza torna perigosas as suas intervenções e comentários, devido ao seu pensamento muito arrumado, claro e convincente para os mais desprevenidos. Não defendendo claramente Trump apoia a sua política por comparação. Sem a ele se referir compara a Europa com os Estados Unidos da América. Ataca Obama, não o atacando, mas comparando sem o desvalorizar com o ideário de Trump. Define a política de Trump sem, no entanto, tomar partido, com a ideia central de que a Europa alimenta “receita para o desastre

Transcrevo uma pequena amostra da intervenção de Portas que pode ler e ouvir aqui:

 Paulo Portas aconselha os europeus a habituarem-se à ideia de que Donald Trump vai mesmo liderar a maior potência do mundo como fazia nas suas empresas: "permanentemente ao ataque" e a achar que "para vencer deve muitas vezes levar as tensões até situações limite", mas também recuando se estiver perante um impasse”.

 O que Paulo Portas acha disso?

 “Vai mudar frequentemente de opinião e não vai ser por isso penalizado pelo eleitorado. Ninguém espera a coerência num bilionário, mas eficiência. E se achar que deve mudar de opinião para ser mais eficiente, vai fazê-lo", resume o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros.

O que Paulo Portas acha disso?

Portas considera que "entre o fanatismo da CNN e o fanatismo da Fox News haverá um lugar razoável" para o entendimento de Trump, apontando três palavras essenciais para compreender a sua acção: nativismo, protecionismo e isolacionismo. E o que há de novo, segundo ele, é que o novo presidente dos EUA é "o primeiro a ter estas prioridades ao mesmo tempo, a agir e discursar como se não tivesse outras e a fazê-lo em globalização". "Agora não me venham dizer que, na substância, estes conceitos políticos foram inventados agora".

O que Paulo Portas acha disso?

Quanto ao isolacionismo, Portas sublinhou que a retórica de Obama apenas foi multilateral para se distinguir dos antecessores Clinton e de Bush, que eram expansionistas. "Mas o que fez Obama se não tirar os EUA de todos os teatros de guerra? Obama já estava do lado do isolacionismo. De modo estridente, o presidente Trump continua esse caminho".

Parece que Paulo Portas apoia Trump!

Paulo Portas “antecipa que um cenário de maior crescimento económico nos primeiros anos do mandato, impulsionado por "uma revisão do IRC que fará Ronald Reagan parecer um social-democrata", pelos planos de desregulação do mercado e pelo programa de investimento em infraestruturas. 

Portas confessou estar "bastante preocupado com o estado da Europa que, face aos EUA, cresce metade, tem o dobro do desemprego, investe metade em pesquisa e desenvolvimento e tem cem vezes menos disponibilidade de "venture capital" (capital de risco). "Mas acham que os americanos é que estão errados. Esta fixação no erro é desastrosa. A Europa não tem crianças, é contra os imigrantes, é a favor dos direitos adquiridos sem saber como os pagar. Isto é uma receita para o desastre", dramatizou.

Paulo Portas volta a ser eurocético depois de criticar os partidos à esquerda do PS. Compara Europa e EUA para apoiar as políticas de Trump sem o declarar explicitamente.

Espantosamente questionou "por que é que europeus e americanos olham para a Rússia com os mesmos olhos com que olhavam para a União Soviética?". Portas alinha assim com a política de Trump no que respeita à política de Putin.

Podemos estar a assistir em Portugal aos primeiros sinais de populismos da extrema-direita.

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publicado às 19:18


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