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Ofensa a quanto obrigas

por Manuel AR, em 10.08.20

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Ao fim de alguns meses cá volto ao João Miguel Tavares que  nos prenda com os seus comentários de opinião, por vezes jocosos, por vezes sem jeito, por vezes ridículos, por vezes parciais, por vezes temperados com azedume, por vezes sem interesse, por vezes com oportunidade.

Desta vez ficou enxofrado com o comentário pouco abonável, e posso dizer até ofensivo, como veremos adiante, com o que Secretário de Estado da Energia João Galaba fez em relação a um tal Clemente Pedro Nunes apresentado por JMT como engenheiro químico, especialista em energia e professor jubilado do Instituto Superior Técnico. Apresentação feita para que mereça credibilidade e respeito. Como se o merecimento do respeito estivesse apenas nas cátedras e nos cargos que se ocupam.

Há aldrabões em todo o lado nem precisamos de uma lanterna como o fez o filósofo grego Diógenes que aparecia pelas ruas de Atenas em pleno dia, segurando uma lamparina gritando que estava à procura de um homem honrado e que não encontrava nenhum, e ia afastando os que se cruzavam no seu caminho, dizendo-lhes que não eram mais do que escombros.

Desconheço quem seja o douto professor do Instituto Superior Técnico nem tão pouco irei tecer considerações, juízos de valor e de intenção sobre ele, cingir-me-ei apenas ao comentário do artigo de opinião de JMT.

A questão ocorre a partir duma entrevista dada por Clemente Pedro Nunes, professor do Instituto Superior Técnico (IST) na SIC Notícias onde acusou o Governo de querer “dar mais dinheiro aos do mesmo” com a Estratégia Nacional para o Hidrogénio (ENH) que foi aprovada em Conselho de Ministros, na passada quinta-feira.

João Galamba reagiu de forma dura dizendo que “É um aldrabão e um mentiroso do pior. Não há outra forma de descrever esse cavalheiro. Chama-se Clemente Pedro Nunes e é um aldrabão encartado.”, respondeu João Galamba num twitte. Não concordo com este tipo de linguagem como argumento político o que mostra falta de qualidade que se exige a um político em exercício

João Galamba quando é confrontado com críticas aos seus pontos de vista torna-se irritante e irritadiço especialmente para muitos que não se acomodam com a sua exagerada assertividade com os tiques que JMT acusa de serem iguais aos de José Sócrates. É uma espécie de clone.

Neste ponto todos temos os nossos pontos fracos porque com mais ou menos relevância os nossos gestos ou atitude podem ser uma característica de aproximação e parecença com a de outras pessoas que fomos adquirindo inconscientemente ao longo na nossa vida por aprendizagem vicariante, isto é, por aprendizagem social, o que foi demonstrado por Albert Bandura. Aprendemos assim a observar os outros. A observação de “modelos” exteriores acelera mais a aprendizagem do que se esse comportamento tivesse de ser executado como aprendentes.

Sendo um acérrimo crítico de José Sócrates, a quem tem aversão de vária ordem, JMT transfere para Galamba essa espécie de ódio de estimação por encontrar nele atitudes e comportamentos idênticos.

O artigo de opinião de João Miguel Tavares centrando-se apenas na análise do comportamento na atitude de João Galamba. Não lhe interessa o cerne da questão, não se preocupa em saber da validade da Estratégia Nacional para o Hidrogénio e qual a validade dos argumentos dos dois protagonistas e se, neste processo, a questão de facto que ambos apresentam é circunstancial ou de evidência e se a dita estratégia trará, ou não, prejuízos ao país.

Não é novidade que especialistas das mesmas áreas do saber quando chamados a comentar certas decisões sobre projetos dos governos tomam posições diferentes sobre matérias da sua especialidade. Tem sido assim nas questões dos aeroportos, dos incêndios, do ordenamento das florestas, pontes, ferrovias, barragens e agora sobre a estratégia energética.

Quando se trata de questões que envolva decisões de ordem política as divergências entre especialistas das mesmas áreas científicas os argumentos a favor ou contra têm mais a ver com questões ligadas a pontos de vista de ordem partidária e ideológica. Procuram-se e defendem-se argumentos de ordem científica que possam contrariar ou facilitar os pontos de vista das decisões políticas dos governos sobre os quais estão a favor ou contra. Tais cientistas ficam tão cheios dos seus argumentos que esperam que todos concordem com eles e atacam-se uns aos outros sem dizerem o que era ou o que havia de ser. Em respostas à fraqueza dos argumentos apenas se obtém frases de lixo, coisas como as que os ministros respondem quando não têm resposta nenhuma.

Escreve Miguel Tavares imbuído de um êxtase axiológico: “São declarações absolutamente inaceitáveis, e num país mais exigente com o comportamento dos seus governantes ele estaria no dia seguinte no olho da rua.”. Que elementos de governos, mesmo fora de Portugal, que estariam no meio da rua se atendêssemos ao que eles propagam nas redes sociais. Esquece-se JMT que as redes sociais estão a ser o lugar privilegiado para governantes tecerem e justificarem os seus pontos de vista, ofenderem políticos, propagar ideias antidemocráticas, deixarem recados aos seus adversários políticos e fazerem comentários e críticas não raras vezes lançarem notícias falsas cujo exemplo manifesto é o do presidente dos EUA Donald Trump. Infelizmente parece que este tipo de políticos acha serão mais admirados pelos “outros”, aqueles a quem se dirigem, que terão a mesma linguagem.

As afirmações de Galamba sobre Clemente Nunes no Twitter são, de facto, uma traulitice verbal no Twitter, mas muito pior vê-se neta e noutras redes sociais. Miguel Tavares acha que “para além do insulto descarado, essas declarações importam sobretudo enquanto método de impor um pensamento único à sociedade portuguesa, que era típico dos tempos de José Sócrates, e que Galamba procura agora emular”. Achar que criticar o que alguns dizem, mesmo não correspondendo à verdade, utilizando o insulto, o que é reprovável, é pensamento único é mergulhar no exagero e no caricato.

No confronto e no discurso politico-ideológico é suposto que a argumentação dos opositores vá no sentido de que o seu pensamento é o único e verdadeiro e que ambos se tentam impor. Nas redes sociais há cada vez mais lixo informativo, falsas notícias, insultos e instigação ao ódio propagado também por responsáveis governativos. Há quem as utilize com desmesurada falta de ética que conduzem e coagem a uma espécie de pensamento único em que os discordantes são assediados com ameaças e insultos.

Este caso não merece o tempo que JMT lhe dedicou, caso tivesse ocorrido com alguém ideologicamente da sua preferência não lhe teria valido o tempo de escrita que lhe ocupou.

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publicado às 17:52

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A década de 2010-2019 deu aos partidos populistas o ambiente de que precisavam para prosperar graças às consequências do colapso financeiro global de 2008 e da revolução digital. Embora o primeiro tenha contribuído para uma maior desigualdade e a rejeição dos principais partidos que a perpetuavam, o último resultou na "transformação da ... vida cotidiana". Ao crescerem as desigualdades económicas e os medos de perda de identidades nacionais cria-se o alimento para a vaga populista. É essa vaga populista que, usando os mecanismos democráticos, tende a provocar a erosão da democracia.

Quando me refiro a partidos populistas, quero dizer partidos políticos que se apresentam como alternativas e que têm uma posição política antissistema e de rutura com uma elite social, económica e política que exerce o controle sobre o conjunto da sociedade, mas que não refletem a vontade do povo. O populismo quer romper com o sistema, mas não oferece uma visão geral do que e como o deve substituir e dirige-se apenas a uma estreita parte da agenda política. É caso do partido Chega e do seu deputado André Ventura.

O Chega não é apenas populista, é também xenófobo, racista e segregacionista o que é mostrado pelas propostas que tem apresentado. Ao começar apenas por um grupo social, o dos ciganos, a sua mancha tenderá a alargar-se a outros grupos.

A grande questão do populismo pode ser colocada sobre a forma de várias perguntas: será uma ideologia? Deverá ser visto como uma espécie de discurso dirigido e produzido para o povo? Será uma estratégia? Ou será um estilo?

Os populistas de esquerda rejeitam o capitalismo. E os populistas que se dizem centristas concentram-se em coibir uma elite supostamente corrupta: eles têm uma tendência menos radical à ideologia de esquerda ou de direita, ou podem até rejeitar as duas por completo.

Do meu ponto de vista o populismo é mais uma espécie de discurso e uma estratégia que recorre a falsas evidências pela deturpação de factos com objetivos bem dirigidos para aliciar o povo. Muitas das vezes constroem fake-news (notícias falsas) ou adulteram notícias que lançam através de todos os meios ao seu dispor, nomeadamente as redes sociais. Uma demonstração caseira foi o episódio do delirante Nuno Melo ao dizer num Twitter que, deturpando o que realmente aconteceu, na telescola se está “destilando ideologia e transformando alunos em cobaias do socialismo” e que já foi arrasado. Isto porque foi passado um pequeno e curtíssimo episódio em que Rui Tavares se refere ao Estado Novo. Este comentário demonstra a adesão do CDS à fabricação de fake-news na tentativa de disputar com André Ventura do Chega o lugar do discurso radical e populista da extrema-direita. Francisco Rodrigues dos Santo, o líder do CDS ajuda, também ele em delírio, a tentar recuperar e disputar o lugar que outros partidos lhe retiraram nas eleições.

O populismo está a transformar-se e a assumir formas insidiosas e tomou como alvo as democracias liberais em todo o mundo. O final desta década trouxe-nos a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e o voto em favor do Brexit na Grã-Bretanha, testemunhou o surgimento da Alternativa para a Alemanha (AfD) o primeiro partido de extrema direita a entrar no parlamento nacional daquele país ao fim de décadas, e ainda a ascensão de partidos populistas em países como Áustria, Brasil, Itália, Polónia, Hungria.

Os que ocuparam o poder nos últimos anos forjam alianças, ainda que informais, mimetizando-se convergindo entre si nas suas declarações públicas com ideias semelhantes, como o fazem Bolsonaro, no Brasil, Jonhson no Reino Unido e Trump nos Estados Unidos da América.

Utilizando várias artimanhas assumem várias formas muitas vezes sobrepostas.  Alguns países experimentaram uma versão socioeconómica, colocando a classe trabalhadora contra as grandes empresas e as elites cosmopolitas consideradas beneficiadas pelo sistema capitalista internacional apontado lugares como a França e os Estados Unidos. Outros servem-se da via da cultura para atacar concentrando-se em questões de identidade nacional, imigração e raça caso na Alemanha e outros. Mas o que mais se tem expandido e o mais comum tem sido o populismo anti-sistema, que é contrário aos princípios sociais, políticos e económicos convencionais de uma sociedade salientando que não reflete a vontade do povo colocando-o contra as elites políticas e os principais partidos democráticos que o representam, mas ao mesmo tempo, infiltram-se via democrática nos sistemas democráticos.

Os populistas agarram tudo quanto lhes possa trazer apoios não importa o quem nem como. Negam as mudanças climáticas apanágio da extrema-direita e são também contra teses das mudanças climáticas. Contudo a negação das mudanças climáticas ao tornar-se um dos aspetos definidores de identidade da extrema direita, há especialistas em política que alertam para o facto de partidos de extrema-direita poderem tentar mudar a narrativa em torno da mudança climática para o seu lado quando a ação climática possa vir a tornar-se numa questão política mais importante em toda a Europa.

Em muitos países da Europa, populistas, eurocéticos, partidos da extrema esquerda, estes com menos representação e menos frequentes, e partidos da extrema direita comemoram o sucesso, juntamente com os partidos de direita, por exemplo, que também têm obtidos ganhos eleitorais significativos.

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publicado às 18:08

Que se morra então, PIM!

por Manuel AR, em 16.04.20

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Sem economia morremos todos, sem pessoas morre a economia. A economia tem de funcionar sem desvalorizar a saúde pública. Pessoas aflitas, ansiosas, sem saúde e assustadas não reanimam a economia, afundam-na.

Por isso, é estranho que um diretor dum jornal online de tendência neoliberalista diga a seguinte frase: “Antes morrer livre do que viver escravo da Covid”. Não ouvi o que ele disse, nem me interessou, apenas me centrei no título como mote para o texto que hoje escrevo.

A frase fora de um contexto pode levar a várias interpretações. A minha é a de que ele não estará contra o distanciamento social, mas contra o confinamento e encerramento obrigatório das atividades e funções que fazem mover a economia. A decisão do confinamento obrigatório teve dois motivos bem explícitos: preservar dentro das limitações existentes a saúde pública e salvaguardar a população duma potencial catástrofe sanitária.

Na circunstância da pandemia Covid confrontam-se pontos de vista antagónicos, os que reverenciam Trump e Bolsonaro e os seus pontos de vista orientados para a política do laissez-faire aplicada à saúde pública com despreocupação, desvalorização e de não interferir na grave situação e que à vista do mundo são como ditadores de extrema-direita sustentados por regimes democráticos legitimado por eleições que os levaram a ocupar o poder, e os que como na Europa que, nem sempre em consonância, apoiam uma contenção e o confinamento como soluções minimizadoras, mas mais ou menos severas. Trump hoje mesmo invocou poder “total” para desautorizar governadores e agora ameaça suspender o Senado. Que dizem agora os adoradores de Trump?

Coloca-se para aqueles uma solução única: deixar que o vírus prolifere e se propague de forma irreversível para salvar a economia (talvez a dos grandes interesses) e que morram pessoas. Nesta solução encontrar-se-á possivelmente o autor da dita frase que opta por desejar para ele a morte, (será que, como ele, nós todos deveríamos dar o exemplo?). A economia acima de tudo e de todos, mesmo condenando a população à doença, à contaminação e até à morte. Podem ter a certeza de que, se tal acontecer, não serão apenas os idosos a ir, a coisa será bem mais grave.

A guerra das interpretações dos números oficiais e oficiosos surgem pela boca de muitos ditos líderes que, rodeados por interesseiros otimistas empedernido, tentam demonstrar à população de que tudo não passa de um exagero, muitas vezes forjados pelos seus adversários políticos e de comércio global. Outros chegam ainda ao ponto de considerar na estatística dos recuperados os que morreram do Covid-19 como o fez o presidente do Chile, Sebastian Piñera que revelou que o país está a contar as vítimas mortais provocadas pela covid-19 como "recuperados" porque “deixaram de poder contagiar a restante população”.

A pergunta que requer resposta é: estará a economia acima da vida?

A resposta ao autor da frase, pois então, será que MORRA O DANTAS, MORRA! PIM – alusão ao texto de Almada Negreiros no Manifesto Anti-Dantas.

Que seja então o autor da frase a morrer, como diz preferir, para salvar a economia como Jesus Cristo salvou a Humanidade com a sua morte.

Nota: O autor deste texto não deseja a morte de ninguém, nem tão-pouco a do dito diretor, trata-se apenas de uma ironia que veicula um significado contrário daquele que deriva da interpretação literal do enunciado.

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publicado às 17:00

A derrota do Capitão América

por Manuel AR, em 10.04.20

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Estive nos Estados Unidos da América, mais propriamente em Nova York, em 2003. Foram quinze dias inesquecíveis que me souberam a pouco. Era o tempo em que George W. Bush era Presidente do mais poderoso país do Mundo, aliás muito criticado, não por ser republicano, mas pela sua política disparatada e que, por isso, será lembrado. Muitos dos seus atos políticos serão difíceis de esquecer. O mesmo aconteceu com as suas frases, que eram motivo de risos e de constante perplexidade. Relembro uma das muitas frases malucas que Bush Júnior proferiu ao longo de sua carreira política tais como esta: "Os nossos inimigos são inovadores e engenhosos, mas nós também. Eles nunca param de pensar em como prejudicar nosso país e nosso povo. Nós também não" (Washington, 5 de agosto de 2004).

Podemos chamar-lhe trocadilho, lapso, ou quer que seja, mas em nada se comparam às contradições, mentiras, provocações malévolas, negacionismo do atual e pouco estadista presidente Donald Trump.

Peritos de saúde nos Estados Unidos têm ainda estado em desacordo com Donald Trump, que tem feito uma série de afirmações questionáveis, ou simplesmente falsas, a propósito do coronavírus. Disse que a taxa de mortalidade da gripe comum é “muito mais alta” do que 0,1% (depois de ter confirmado que era 0,1%, como dizem os especialistas); que “ninguém sabia o que era o Ébola antes de 2014” (o Ébola foi descoberto em 1976); desvalorizou o perigo e a progressão da doença, falando da possibilidade de uma vacina aparecer rapidamente (estima-se que leve um ano a ano e meio a estar pronta); mencionando os efeitos económicos do coronavírus, declarou: “Vai passar. Tenham calma.”

Segundo a BBC e dados do Censo, com valores referentes ao mês de março, mostram que mais de 27,5 milhões de americanos não têm acesso a seguros de saúde, o que terá feito com que muitos que apresentam sintomas ou requerem tratamento não recorram a hospitais por medo dos custos elevados. Mas para muitos que têm plano de saúde, o dinheiro com a coparticipação ou franquia têm de desembolsar uma quantidade de dinheiro que as seguradoras não cobrem e que em algumas ocasiões pode ser de milhares de dólares e também pode fazer com que muitos descartem a possibilidade de ir ao médico. Segundo dados da ONG Commonwealth Fund, mais de 44 milhões de pessoas encontram-se neste último grupo de "seguro insuficiente".

Com a conivência do partido Republicano Trump encara os EUA como se fosse o seu condomínio privado, um qualquer espaço de recreio infantil sujeito aos seus caprichos momentâneos e aleatórios dizendo tão rapidamente quanto desdiz. O que em uns dias seria uma verdade absoluta deixa de o ser na semana ou mês seguinte.  Uma postura ridícula de poder é notória quando mostra para as câmaras a sua assinatura que lembra uma peça publicitária de mau gosto.

Em 2003 tinham passado somente 3 anos dos atentados do 11 de setembro, trauma na altura ainda fresco, mas respirava-se naquela altura a agitada vida nova-iorquina, a cidade sem descanso. Hoje Nova Yorque está e a passar por uma catástrofe humana, social e económica nunca vistas, nem vividas desde a destruição das torres gémeas por grupos de criminosos terroristas. Hoje é o “terrorismo” da pandemia do novo coronavírus sobre a saúde pública americana que ataca selvaticamente a população de Nova Yorque e os EUA a que Trump assiste impávido e sereno dizendo trivialidades nas conferências de imprensa.

Trump, com manifesto desprezo pela vida humana - que não a dele, claro – inicialmente, e ainda continua a fazê-lo, desdramatizou, adiou, retardou ao extremo, não se sabe se propositadamente,  medidas para salvaguardar a saúde pública que se impunham como necessárias. Se não tivesse sido pressionado não tomaria quaisquer medidas para proteção da população. Para ele a economia e os lucros das grandes empresas que o têm mantido no poder valem mais do que a vida dos seus concidadãos americanos.

Nos EUA a questão do aumento do emprego e do desemprego relacionam-se com as empresas e a política. Quando uma presidência lhes é favorável, e porque sabem que liberalização dos despedimentos os protege, contratam pessoal facilmente e as estatísticas do desemprego diminuem, mostrando assim a virtude das políticas da administração que então se encontre na Casa Branca. Tem sido assim que, com Trump, o emprego nos EUA tem aumentado, mas agora em altura de crise o desemprego aumenta para níveis assustadores.  

Como é que Trump justifica agora aos americanos o que está a acontecer com o Covid-19? Muito simples, arranjam-se culpados para justificar a sua inépcia. Primeiro chamou-lhe o vírus chinês que era apenas uma pequena gripe, em março de 2020 Trump acusa UE de falhar na resposta ao Covid-19 e promover infeções nos EUA, agora acusa a OMS – Organização Mundial de Saúde de não ter o avisado e de ser pró-chinesa. Mas, então, a OMS não avisou há meses e quase diariamente o que estava a acontecer e assim como as previsões. Está a chamar indiretamente aos seus compatriotas e ao resto do mundo imbecis.  Ao que chegou o Partido Republicano que sustenta gente como esta, é coisa nunca vista, tanto quanto se conhece da história e da política dos EUA mesmo em anos maus.

Trump está a perder o respeito no palco mundial, ou melhor, já o perdeu, que o afasta cada vez mais das diversas realidades. Vive num mundo só dele e dos que ainda o continuam a apoiar. Por outro lado, os países da U.E. com as suas tricas internas devidas a egoísmos nacionalistas encobertos e à falta de solidariedade parecem não ter percebido que estão a ajudar Putin e Trump que aproveitam todas as oportunidades para a desmoronar, aliás como Trump parece ter feito durante o seu mandato. Não é novidade que Trump aconselhou o Reino Unido a sair da União Europeia. Emmanuel Macron, em maio de 2019, denunciou haver "uma convergência entre nacionalistas e interesses estrangeiros" para destruir a União Europeia, referindo-se a Steve Bannon, ex-estratega político de Donald Trump, e à Rússia. "Só podemos estar perturbados e não podemos ser ingénuos", disse Macron numa entrevista a 41 jornais regionais em que afirma, sem dar pormenores, que "russos e outros" estão a financiar partidos extremistas na Europa".

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publicado às 18:59

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Hoje pensando na desdramatização que Trump fez sobre a epidemia do coronavírus e as decisões tardias que tomou, ou melhor não tomou no seu país. Assim, inspirado num artigo de opinião de um escritor que escreve sobre questões políticas, culturais, religiosas e de segurança nacional nos EUA e autor do livro “A morte da política:como curar anossa república desgastada depois de Trump”, resolvi escrever um artigo sobre a forma como Ronald Trump tem encarado a pandemia viral do COVID-19.

Aqui no nosso retângulo para o mar virado, as medidas que se têm vindo a tomar têm sido também, de certo modo tardias, comparativamente a alguns congéneres europeus, aparentando um certo receio de tomar medidas drásticas, mas necessária,

Segundo o autor a presidência de Trump acabou e demorou muito mais do que deveria, mas os americanos já viram o vigarista por trás da cortina. Em 2016 escreveu no New York Times  num artigo com o título “Por que nunca vou votar em Donald Trump” que, apesar de ser um republicano ao longo da vida que trabalhou nas três administrações da presidência anteriores do Partido Republicano, nunca votaria em Donald Trump, embora considere que o seu governo alinhe muito mais com as opiniões políticas do autor do que se fosse uma presidência de Hillary Clinton, deixou os seus colegas de partido confusos.

Ele explica então que Trump é intelectualmente, moralmente, temperamentalmente e psicologicamente inadequado para o cargo. Essa é a consideração primordial na eleição de um presidente, em parte porque, em algum momento, é razoável esperar que um presidente enfrente uma crise inesperada e, nesse ponto, o julgamento e discernimento do presidente, o seu caráter e capacidade de liderança é o que realmente importa.

Trump mostra não estar familiarizado com a maioria dos problemas e, muito menos, dominá-los, o que ficou demostrado com o problema do coronavírus. Ele admitiu que não se prepara para debates ou estuda os dossiers informativos justificando que essas coisas atrapalham um bom desempenho. Nenhum candidato importante à presidência jamais foi tão desdenhoso quanto ao conhecimento, tão indiferente aos fatos, quanto imperturbável pela sua falta de visão.

Não queremos que isso aconteça aqui, no nosso quadrado.

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publicado às 17:00

A esperada vingança de Trump

por Manuel AR, em 09.02.20

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Após a absolvição fantoche pelo senado, onde os republicanos detêm a maioria, o discurso de Trump foi o da vingança contra os democratas e os republicanos que testemunharam contra ele.

Trump pertence àquela espécie de casta de políticos que não sendo estadistas e que se servem do poder em benefício próprio e dos poderosos seguidores iguais a eles. É uma nova casta de ditadores mascarados que está a emergir no seio das sociedades democráticas liberais e à sua volta, se congregam nazis, neonazis, xenófobos, racistas não incluídos nos nazis, seitas religiosas e outros grupos radicais que, cada vez mais, vão mostrando a cara a coberto pelo acolhimento desses neo-ditadores que, ocupando o poder pela legitimidade do voto, utilizam a democracia para a enfraquecer por meio de campanhas favorecidas por difusores de fake news através das redes sociais. 

Os EUA, país que se pensava ser uma democracia livre e a justiça era para todos, estão a atravessar uma fase aguda de défice democrático ao nível do poder. Quem, como eu, assim pensava, enganou-se absolutamente.  O período que os EUA estão a travessar é grave para as democracias em geral e para os cidadãos americanos que mais parece estarem adormecidos. Muitas das mais ferozes ditaduras que afligiram as nações começaram assim.

É uma situação perigosa, diria até muito perigosa. Perigosa porque se conseguiu manter no puder alguém que, provados factos de culpabilidade das acusações de abuso de poder, de obstrução de Congresso e por "trair o cargo" ao pressionar a Ucrânia a investigar adversários políticos em benefício próprio e que os crimes de abuso de poder e obstrução do Congresso praticados pelo presidente "colocam o país em risco" e que, ao ser apoiado por maiorias afetas  a Trump no Senado este pode considerar-se como monarca absoluto.

Há alguns factos que apontam nessa direção a começar pela retaliação encetada contra os que se apresentaram a depor contra ele durante o processo de “impeachment”. Trump criticou os que se lhe opuseram chamando-os "maus", "corruptos" e "tortos", enquanto o seu secretário de imprensa declarou que aqueles que feriram o presidente " deveriam pagar por isso”.

O presidente Trump perdeu pouco tempo na sexta-feira ao abrir logo uma campanha de retaliação contra aqueles que ele culpa pela sua tentativa de “impeachment”, demitindo duas das testemunhas mais importantes do inquérito da Câmara do Representantes que estiverma contra ele apenas 48 horas depois de ser absolvido pelo Senado.

Trump responde à absolvição lançando o seu ódio com um discurso desmedido e cáustico procedendo ao expurgo dos que depuseram contra ele, despedindo a segunda testemunha chave de “impeachment”, Gordon Sondland, embaixador da União Europeia, como aconteceu. Não ficou por aqui, seguiu-se o tenente-coronel Alexander Vindman. O advogado de Vindman emitiu um comunicado dizendo que ele foi escoltado para fora da Casa Branca. Vindman "foi convidado a sair por dizer a verdade", disse o seu advogado. O irmão gémeo de Vindman, advogado do Conselho de Segurança Nacional, também foi demitido. Especialistas classificaram estas demissões como o "Massacre de Friday Night ". Enquanto os democratas condenaram as demissões os parlamentares republicanos disseram "boa viagem ".

Ao escrever estas linhas vieram-me à memória as purgas que eram feitas na ex-União Soviética aos dissidentes de Estaline e de outros que se seguiram quando se lhes opunham. Só faltam as deportações para locais idênticos à Sibéria.

Está à vista que se está a construir um mundo só para alguns à custa dos que neles votam e acreditam no que lhes dizem durante as campanhas e cujas  regras  valem para uns e não valem para os outros. É um mundo fundamentalmente desigual. Vimos isso nos EUA. Trump passou a ter poderes absolutos não porque lho dessem, mas porque o usurpou com o consentimento dos que o apoiam por interesse e oportunismo para obtenção de dividendos políticos, sociais e até financeiros. Em pleno discurso do Estado da União Trump pôde insultar, desrespeitar o congresso e, até, condecorar um homem da rádio, conhecido pelos seus comentários racistas. A líder da Câmara dos Representantes rasgou o discurso no fim da cerimónia, e houve um escândalo generalizado, mas pronunciar e divulgar mentiras aos gritos e ter uma linguagem aberrante, parece estar tudo bem, enfim, desculpa-se, mas notar educadamente quais os factos, que horror, como é possível, que desrespeito. Não, isso é só para alguns…

Alguns comentadores do nosso burgo, fãs deste presidente, mostram como vai benéfica a evolução positiva da economia dos EUA que Trump confirmou no discurso da união ao fazer autoelogios do seu mandato baseado no que os indicadores oficiais apontam, mas que são desmentidos pelos factos, mas isso fica para o blog seguinte.

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publicado às 16:32

A propósito das primárias nos EUA

por Manuel AR, em 05.02.20

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Imagem USA Today

A verdade sobre a economia de Trump

(Jan 17, 2020 JOSEPH E. STIGLITZ *)

In (Project Syndicate e Jornal Expresso 25/01/2020)

NOVA IORQUE – À medida que as elites empresariais do mundo viajam para Davos para a sua reunião anual, as pessoas deveriam fazer uma pergunta simples: será que superaram a sua paixão pelo presidente dos EUA, Donald Trump?

Há dois anos, muito poucos líderes empresariais estavam preocupados com as alterações climáticas ou chateados com a misoginia e intolerância de Trump. A maioria, no entanto, estava a comemorar a baixa de impostos do presidente multimilionário e grandes empresas aguardavam ansiosamente os seus esforços para desregular a economia. Isso permitiria que as empresas poluíssem mais o ar, atraíssem mais americanos para os opiáceos, incentivassem mais crianças a comer alimentos indutores de diabetes e se envolvessem no tipo de manobras ardilosas financeiras que provocaram a crise de 2008.

Hoje, muitos líderes de empresariais ainda falam sobre o crescimento contínuo do PIB e os preços históricos das ações. Mas nem o PIB nem o índice Dow Jones são bons avaliadores do desempenho económico. Nenhum diz nada sobre o que está a acontecer com o padrão de vida dos cidadãos comuns, nem nada sobre a sustentabilidade. De facto, o desempenho económico dos EUA nos últimos quatro anos é a Prova A da acusação para não confiar nesses indicadores.

Para se obter uma boa leitura da saúde económica de um país, tem de se começar por analisar a saúde dos seus cidadãos. Se forem felizes e prósperos, serão saudáveis e viverão mais tempo. Neste aspeto, entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos estão no final da lista. A esperança de vida nos EUA, já relativamente baixa, caiu nos dois primeiros anos da presidência de Trump e, em 2017, a mortalidade na meia-idade atingiu a taxa mais elevada desde a Segunda Guerra Mundial. Isso não é uma surpresa, porque não houve nenhum presidente que se tenha esforçado tanto para garantir que mais americanos fiquem sem seguro de saúde. Milhões perderam a cobertura do seguro e a taxa de pessoas sem seguro aumentou, em apenas dois anos, de 10,9% para 13,7%.

Um dos motivos da diminuição da esperança de vida nos Estados Unidos é o que Anne Case e o economista vencedor do prémio Nobel, Angus Deaton, chamam de mortes por desespero, causadas por álcool, overdose de drogas e suicídio. Em 2017 (o ano mais recente para o qual existem dados disponíveis satisfatórios), essas mortes foram quase quatro vezes mais do que em 1999.

A única vez em que vi algo semelhante a estas quedas na saúde – sem contar com as guerras ou epidemias – foi quando fui economista-chefe do Banco Mundial e descobri que os dados de mortalidade e morbidade confirmavam o que os nossos indicadores económicos sugeriam sobre o estado deplorável da economia russa pós-guerra.

Trump pode ser um bom presidente para o 1% que está no topo – e principalmente para o 0,1% que está no topo – mas não foi bom para todos os outros. Se for totalmente implementado, o corte de impostos de 2017 resultará em aumentos de impostos para a maioria das famílias que se encontram no segundo, terceiro e quarto quintis referentes ao rendimento.

Tendo em conta os cortes de impostos que beneficiam desproporcionalmente os ultrarricos e as empresas, não deveria surpreender que não houvesse nenhuma mudança significativa no rendimento disponível das famílias de classe média dos EUA entre 2017 e 2018 (novamente, o ano mais recente com dados satisfatórios). A maior parte do aumento do PIB também vai para os que estão no topo. Os ganhos médios semanais reais estão apenas 2,6% acima do nível de quando Trump tomou posse. E esses aumentos não compensaram os longos períodos de estagnação salarial. Por exemplo, o salário médio de um trabalhador do sexo masculino a tempo inteiro (e os que têm empregos a tempo inteiro são os sortudos) ainda está a mais de 3% abaixo do que estava há 40 anos. Também não houve muitos progressos na redução das disparidades raciais: no terceiro trimestre de 2019, os ganhos médios semanais dos homens negros que trabalhavam a tempo inteiro eram menos de três quartos do nível dos homens brancos.

Para piorar a situação, o crescimento que ocorreu não é ambientalmente sustentável – e ainda menos graças ao “esventramento”, por parte do governo Trump, das regulamentações que passaram por rigorosas análises de custo-benefício. O ar será menos respirável, a água menos potável e o planeta estará mais sujeito às alterações climáticas. De facto, as perdas relacionadas com as alterações climáticas já atingiram novos máximos nos EUA, que sofreram mais danos patrimoniais do que qualquer outro país – atingindo cerca de 1,5% do PIB em 2017.

Era suposto os cortes de impostos estimularem uma nova onda de investimentos. Em vez disso, provocaram um histórico consumo exagerado e frenético nas recompras de ações – cerca de 800 mil milhões de dólares em 2018 – por algumas das empresas mais rentáveis dos Estados Unidos, e levaram a um défice recorde em tempos de paz (quase 1 bilião de dólares no ano fiscal de 2019) num país que supostamente está próximo do pleno emprego. E mesmo com investimentos fracos, os EUA tiveram de contrair empréstimos consideráveis no exterior: os dados mais recentes mostram empréstimos estrangeiros de quase 500 mil milhões de dólares por ano, com um aumento de mais de 10% na posição de endividamento líquido da América em apenas um ano.

Da mesma forma, as guerras comerciais de Trump, apesar de todo o ruído e fúria, não reduziram o défice comercial dos EUA, que foi um quarto mais elevado em 2018 do que em 2016. O défice de mercadorias em 2018 foi o maior alguma vez registado. Até o défice no comércio com a China aumentou quase um quarto em relação a 2016. Os EUA obtiveram um novo acordo comercial norte-americano, sem as disposições do acordo de investimento que o grupo empresarial Business Roundtable pretendia, sem as disposições que elevavam os preços dos medicamentos que as empresas farmacêuticas pretendiam e com melhores disposições laborais e ambientais. Trump, um autoproclamado mestre de negociações, perdeu em quase todas as frentes nas negociações com os democratas do Congresso, resultando num acordo comercial ligeiramente melhorado.

E, apesar das promessas alardeadas de Trump de devolver os empregos industriais aos EUA, o aumento no emprego industrial ainda é menor do que na época do seu antecessor, Barack Obama, após a recuperação pós-2008, e ainda está muito abaixo do nível anterior à crise. Até mesmo a taxa de desemprego, com o menor índice em 50 anos, oculta a fragilidade económica. A taxa de emprego para homens e mulheres em idade ativa, apesar de aumentar, aumentou menos do que durante a recuperação de Obama e ainda está significativamente abaixo da de outros países desenvolvidos. O ritmo de criação de empregos também é notavelmente mais lento do que era sob a presidência de Obama.

Mais uma vez, a baixa taxa de emprego não é uma surpresa, até porque as pessoas não saudáveis não podem trabalhar. Além disso, aqueles que recebem benefícios por incapacidade, na prisão – a taxa de encarceramento nos EUA aumentou mais de seis vezes desde 1970, com cerca de dois milhões de pessoas atualmente atrás das grades – ou por estarem tão desanimados que não procuram emprego de forma ativa, não são contabilizados como “desempregados”. Mas, claro, eles não estão empregados. Também não surpreende que um país que não ofereça preços acessíveis no acolhimento de crianças ou garanta licença familiar tenha uma menor taxa de emprego feminino – ajustado pela população, mais de dez pontos percentuais a menos – do que outros países desenvolvidos.

Mesmo a julgar pelo PIB, a economia de Trump fica aquém. O crescimento do último trimestre foi apenas de 2,1%, muito abaixo dos 4%, 5% ou 6% que Trump prometeu apresentar e ainda menos que a média de 2,4% do segundo mandato de Obama. É um desempenho extremamente fraco, considerando o estímulo proporcionado pelo défice de 1 bilião de dólares e pelas taxas de juro extremamente baixas. Isto não é uma casualidade ou apenas uma questão de má sorte: a marca de Trump é a incerteza, a volatilidade e a prevaricação, ao passo que a confiança, a estabilidade e a fiabilidade são essenciais para o crescimento. O mesmo acontece com a igualdade, de acordo com o Fundo Monetário Internacional.

Sendo assim, Trump merece reprovar, e não apenas nas “disciplinas” essenciais, como defender a democracia e preservar o nosso planeta. Ele deveria, também, chumbar em economia.

*Prémio Nobel 2001 juntamente com George Akerlof e Michael Spence.

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publicado às 00:17

Quem quer morrer por um capricho de Trump?

(Rui Tavares, in Público, 06/01/2020)

por Manuel AR, em 07.01.20

Apartir de Estátua de Gelo

Trump_irão.png

Imagem em https://www.businesslive.co.za/

Todas as passagens de ano nos entregamos ao ritual de tentar adivinhar o futuro. Desde 2003, muitos foram os anos para os quais se se previu que os EUA e o Irão iriam entrar em guerra. Logo a começar 2020, para o qual houve poucas previsões dessas, Donald Trump mandou assassinar Qasem Souleimany, general de uma milícia estatal iraniana usada para interferir na política de vários países vizinhos, e nunca estivemos tão perto da possibilidade de um conflito entre os EUA e o Irão como hoje.

Mas precisamente por tantas previsões em anos passados terem falhado, convém ser cauteloso nas previsões. Não sabemos se o Irão vai retaliar de forma a escalar o conflito ou se irá antes aproveitar politicamente a ocasião para se reforçar internamente e vitimizar externamente. O meu palpite — que não passa disso — é que um conflito direto em larga escala não interessa ao Irão nem aos EUA e que após um período de tensão ambos os países evitarão arriscar uma guerra declarada.

Em vez de fazer futurologia é mais útil pensarmos no que já sabemos do que se passou e, em particular, do que não se passou neste ataque. A última parte é mais fácil e também, em meu entender, mais relevante: o que não se passou foi qualquer comunicação entre a administração Trump e os seus teoricamente aliados europeus. Tanto quanto se sabe, nenhum outro governo da NATO o da União Europeia foi alertado para um ataque e tal magnitude geopolítica — nem sequer o governo do Reino Unido.

Podemos fazer todas as análises que quisermos à hipótese de a NATO estar ou não obsoleta. Mas há silêncios que falam muito mais do que as palavras, e este é um deles.

Em caso de retaliação iraniana sobre os EUA, os outros países da NATO incorreriam nas obrigações do famoso Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte que determina que um ataque a um aliado é um ataque a todos os países. Só que o grau de confiança mútua que é preciso ter para aceitar uma responsabilidade recíproca desse género implica, porém, acreditar na sensatez e previsibilidade das lideranças dos aliados. Ora, só um líder europeu que não estivesse bom da cabeça poria hoje as mãos no fogo por Trump. E se não confiam nele, quem pode estar disposto a pagar o preço do aventureirismo do presidente dos EUA?

Caso especialmente interessante é o do primeiro-ministro britânico. A passar férias numa estância do Caribe, Boris Johnson ainda não se pronunciou sobre o ataque norte-americano em solo iraquiano, o que permitiu aos seus ministros produzirem declarações desencontradas sobre o assunto, ora primeiro mais alinhados com outros governos europeus, ora evidenciando um total alinhamento com Trump a seguir. A menos de um mês do “Brexit”, o Reino Unido tem agora uma escolha complicada. Se opta por uma colagem a Donald Trump, pode ver-se envolvido como parte beligerante numa guerra sobre a qual não teve sequer direito a uma palavrinha. Se se distancia do presidente norte-americano, conhecido pelo seu espírito vingativo são postas em risco as possibilidades de um acordo comercial com os EUA que foram propagandeadas como sendo uma das poucas vantagens da saída da União Europeia.

Já por algumas vezes nesta coluna argumentei que a principal incógnita do “pós-Brexit” é saber de quem vai o Reino Unido tornar-se um país-satélite: se dos EUA ou da UE. Com uma crise iraniana no horizonte, somos capazes de vir a saber a resposta para esse enigma mais depressa do que antes pensávamos.

Mas a União Europeia não tem um dilema menor. A Europa e os EUA estão amarrados por laços históricos de um ciclo — o do pós-guerra — em larga medida encerrado. Mas se com George W. Bush já tinha ficado claro o desalinhamento de interesses e até de valores entre os dois lados do Atlântico, com Trump passamos a ter um presidente dos EUA que não hesita em arriscar um conflito em larga escala na Eurásia sem dedicar a cortesia de um aviso prévio aos europeus. A conclusão é clara: a Europa precisa de ter autonomia estratégica em relação aos EUA, e na Europa só através da UE existe a possibilidade de se acrescentar autonomia estratégica geopolítica às outras áreas em que a Europa já é uma espécie de “super-potência invisível”, como nas negociações comerciais ou na regulação da globalização. E para nos convencermos da urgência desse debate — e um debate muito difícil, reconheçamo-lo — não é sequer preciso que os EUA entrem em guerra declarada com o Irão.

Há talvez a possibilidade de Trump perder as eleições em novembro deste ano, e que com um democrata na Casa Branca o desalinhamento euro-americano se disfarce. Mas mesmo isso não é garantido. Joe Biden, que votou a favor da Guerra do Iraque, tem um historial intervencionista em política externa. A não ser que viéssemos a ter um Presidente Sanders ou uma Presidente Warren e, com eles, a hipótese de reforçar as Nações Unidas como plataforma multilateral de resolução de conflitos, a Europa ficaria sempre dependente das decisões de presidentes dos EUA que cada vez menos querem saber dos europeus. No caso de Trump, essas decisões parecem fundamentar-se em caprichos. A pergunta para os europeus é simples: quem no seu perfeito juízo quer morrer em nome de um capricho de Trump?

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publicado às 19:47

O simbólico na política

por Manuel AR, em 04.02.19

Política e religião.png

Deus e o Diabo passaram a ser moda na política, sobretudo para alguns políticos com grandes responsabilidades para com os seus países que aproveitam a fé e as crenças das populações utilizando o nome de Deus em vão. Pretendem fazê-las acreditar que a sua eleição, consequentes procedimentos e condutas foram e serão emanadas da vontade de Deus, símbolo da Divindade principalmente pai, juiz, todo-poderoso e soberano.

Também nas monarquias absolutas (absolutismo) as correntes da teoria política faziam acreditar ao povo na doutrina do Direito Divino dos Reis, que defende que a autoridade do governante emana diretamente de Deus, e que não podem ser depostos a não ser por Deus.

Raramente referem o Diabo também conhecido por demónio, é o símbolo do malvado e simboliza todas as forças que perturbam, ensombram, enfraquecem a consciência e a fazem virar-se para o indeterminado.  O seu papel é, segundo a mitologia judaico-cristã, o de despojar o Homem da graça de Deus para o submeter ao seu próprio domínio.

Em Portugal o Diabo estreou-se na política com Passos Coelho a dizer que ele, o diabo, vinha aí aquando do acordo parlamentar do PS como o PCP e o BE. Passos Coelho, aos despedir-se dos deputados do PSD, numa mensagem catastrófica disse-lhes que “Gozem bem as férias que em Setembro vem aí o Diabo”.

Há poucos dias ouvimos António Costa a recuperar o Diabo e a dizer que a: extrema-direita ataca Europa para "reeditar todos os diabos”. Diabo, aqui no sentido alegórico sobre o desentendimento no passado entre as nações europeias que culminaram em guerras.

Bolsonaro no Brasil invocou várias vezes o nome de Deus durante a campanha eleitoral e na tomada de posse. Aproveitou a boleia das seitas evangélicas que utilizam a religião mais para fins lucrativos do que para elevação dos espíritos, e por lá foi dizendo que : "Também quero agradecer a Deus por esta missão, porque o Brasil está numa situação um tanto complicada, com uma crise ética, moral e económica, tenho certeza de que não sou o mais capaz, mas Deus capacita os eleitos", isto é, não é o “mais capacitado, mas Deus capacita os escolhidos”.   Depois de ter sido eleito Jair Bolsonaro foi a um culto na Assembleia de Deus Vitória em Cristo do pastor evangélico Silas Malafaia, que o apoiou na campanha e celebrou o seu casamento com Michelle Bolsonaro.

Recentemente Donald Trump em 18 de fevereiro de 2018 no twitter “O lema da nossa nação é em Deus que confiamos”. Donald Trump disse à CNN a Jake Tapper que "tem um ótimo relacionamento com Deus" e com os evangélicos. Isto foi em 12 de janeiro de 2016. Por sua vez, o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, disse em  12 de maio 2018 que "a fé na América está voltando a crescer" - graças ao presidente Donald Trump.

Os políticos ao incluírem Deus nos seus discursos sabem que as crenças religiosas têm ainda muita força na consciência das pessoas e que são fatores que ainda atraem eleitores menos esclarecidos. Quando os políticos, incorporam conceitos religiosos, independentemente de estarem a testemunhar as suas convicções e sentimentos religiosos pode ser que estejam também a utilizar a religião como uma instrumentalização para reforçarem um discurso de legitimação. Isso porque a religião, pelo facto de ser um elemento constitutivo da cultura de um povo, tem poder de persuasão.

 Na Venezuela temos em presença Deus e o Diabo em luta pelo poder, não literalmente, está claro. A oposição a Maduro liderada por Juan Guaidó, que se autoproclamou Presidente interino, declarou, perante uma concentração de milhares de pessoas, no leste de Caracas: " Hoje, 23 de janeiro, na minha condição de presidente da Assembleia Nacional e perante Deus todo-poderoso e a Constituição, juro assumir as competências do executivo nacional, como Presidente Encarregado da Venezuela, para conseguir o fim da usurpação da Presidência da República, um Governo de transição e eleições livres",

O BE não fala de Deus nem do Diabo, mas quer tudo e mais alguma coisa que só Deus conseguiria dar. O BE quer tudo e mais alguma coisa, mas também não quer. Quer aumentos salarias para toda a função pública, quer a contabilização de toda a carreira para os professores, quer enfermeiros sejam ouvidos e que o Governo ceda a todas a reivindicações. Quer cobrar mais impostos às empresas e às empresas como se já não bastasse o sugadouro do Estado que depois vai para as reivindicações muitas vezes irrealistas da função pública exigida pelos sindicatos. Quer mais saúde, isso todos queremos, enfim, quer tudo, mas não quer tudo. É também contra a “U.E. da austeridade”, não sabemos é se quer outra, é contra os EUA…

Quanto à Venezuela, O BE se por um lado, não quer que Portugal reconheça Juan Guaidó na Venezuela, por outro, também não quer Maduro. Quer defender uma mediação internacional para eleições livres, mas não diz que mediação. Será a dos EUA, da ONU, de Cuba, da China, da Rússia? De todos ao mesmo tempo? Parece que por aqui Deus e o Diabo andam de mãos dadas.

Por último há ainda o oportunismo direitista daquele execrável e tendencioso programa de José Eduardo Moniz na TVI, “Deus e O Diabo” porque chama muito pelo Diabo e muito pouco por Deus. Por isso dizem muitas seitas religiosas que o diabo está em todos o lado causando toda a espécie de mal. Nesse contexto o diabo torna-se ferramenta do poder das Igrejas católicas e evangélicas e do Estado, o diabo adquire consistência explicativo da realidade quando as pessoas não conseguem encarar e superar as dificuldades.

 

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publicado às 18:33

Religião e política.png

Política e religião parecem ter-se apropriado gradual e reciprocamente uma da outra. As exposições de doutrinação religiosa e sermões feitos pelos clérigos católicos durante as chamadas homilias não raras vezes têm conotações político-ideológicas em combinação com a preleção que deveria ser da serventia religiosa.

Alguns políticos têm-se apropriado da religião e invocam o nome de Deus nos seus discursos políticos como indutores para convencimento político assim como os discursos e preleções de âmbito religioso e de fé cujo lugar é no recolhimento das cerimónias religiosas apropriam-se das narrativas próximas das de partidos políticos para o mesmo efeito.

Veja-se dois exemplos dos mais evidentes nos discursos de Trump nos EUA e de Bolsonaro no Brasil.

Donald Trump no discurso inaugural do 45º presidente dos EUA a 20 de janeiro de 2017 teve várias alusões à religião e a Deus estas são apenas algumas que podem confirmar aqui no site da Casa Branca: A Bíblia diz-nos: “quão bom e agradável é quando o povo de Deus vive unido em unidade”. “Seremos protegidos pelos grandes homens e mulheres de nossos militares e policiais e, mais importante, somos protegidos por Deus”. E, “sim, juntos, vamos tornar a América ótima novamente. Obrigado, Deus te abençoe, e Deus abençoe a América.”. Ainda noutro momento, na conferência da CPAC - Conservative Political Action Conference em fevereiro de 2018 além de várias referências a Deus no mesmo discurso disse “Na América, não adoramos o governo, adoramos a Deus”  o que também pode ver aqui.

Bolsonaro, quando da eleição de Donald Trump, apercebeu-se logo do peso das muitas igrejas evangélicas. Jair Bolsonaro verificou que esse peso poderia ser ainda mais claro, e recorre a uma semântica que tende a anular a laicidade do Estado.  Vimos na televisão quando ele ganhou as eleições e logo que foi anunciado como tendo sido o candidato eleito fez uma oração de agradecimento acompanhado com naturalidade por um pastor evangélico que muitos consideraram como causa de preocupação. E termina com "Brasil acima de tudo e Deus acima de todos".

Mais recentemente, no discurso na tomada de posse de Bolsonaro verificamos que citou “Deus” 12 vezes. Jair Bolsonaro ao ser empossado deixou claro que há uma preocupação inédita em demonstrar a sua fé em Deus.

Bolsonaro falou em “Deus” 12 vezes. Já “ideologia” e variantes foram mencionadas nove vezes, sempre no sentido negativo. O terceiro termo mais usado foi “família”. Enunciar tantas vezes palavras e assuntos de cariz religioso num estado que, segundo a Constituição, é um Estado laico é de facto, preocupante.

É um Cristianismo tóxico.

Em Portugal dá-se o inverso, também preocupante, em que clérigos com responsabilidades hierárquicas na igreja católica se reservam o direito de, abertamente, fazerem política, genérica, mas sugestiva, nas intervenções durante cerimónias que deveriam ser meramente religiosas, assim como seria também preocupante um político falar sobre sua fé num qualquer comício ou intervenção pública. Púlpito e palanque deveriam estar distantes.

Refiro-me à homília do bispo auxiliar de Braga D. Nuno Almeida que mais pareceu ser um discurso cujas palavras parecem já termos ouvido vindo de um qualquer partido político da oposição de direita, como por exemplo esta afirmação em que houve claramente uma tentativa para influenciar o sentido do voto sem mencionar nomes ou partidos: “Não nos deixemos seduzir com a propaganda política profissionalmente orientada, mas balofa e a fingir; não permitamos que alguns euros a mais na reforma ou no salário comprem as nossas convicções profundas”.

Uma breve análise do conteúdo desta afirmação sugere algumas questões:  a quem se está a referir D. Nuno quando fala de “propaganda política profissionalmente orientada, mas balofa e a fingir”? Não será, com certeza, referência à direita porque esta tem feito oposição ao Governo com argumentação idêntica.  D. Nuno deixa recados aos fiéis para o tempo eleitoral que se aproxima.

O Bispo auxiliar de Braga não está preocupado com o que se passa no seio clerical da igreja com a pedofilia e de outros crimes que levou o Cardeal brasileiro a denunciar a complacência do Vaticano,  devido ao encobrimento pela Igreja de padre que abusou sexualmente dos filhos, a dizer que “Tenho a impressão de que as denúncias de abusos vão aumentar, porque estamos apenas no começo. Estamos a esconder isso há 70 anos, o que foi um grande erro". Podemos de facto afirmar como ele o fez, quando afirma que “corremos o de deixar a política em algumas mãos muito sujas”, assim sendo poderíamos então afirmar que também corremos o risco de a igreja estar entregue, de facto, a mãos também elas muito sujas. Digo isto com amargura por ser católico, mas desconfiar do clero que gere a igreja, apesar de o Papa Francisco ser uma personalidade ímpar que aponta para o caminho do Evangelho com enorme esforço e luta contra o conservadorismo obsoleto de alguns nomeadamente em Portugal.   

O bispo auxiliar D. Nuno Almeida não se preocupa com a corrupção na igreja (que também pode ver aqui ou aqui) que o Sumo Pontífice a admitiu, numa conversa com superiores de ordens religiosas publicada na íntegra na revista "Civiltà Católica". Não, com isso, o senhor Bispo Auxiliar não se preocupa em denunciar. Preocupa-se, isso sim, em fazer uma amálgama entre política e religião.

Numa passagem do Novo Testamento, Evangelho segundo São Mateus, 22,16 [1], os fariseus dirigem-se ao Mestre acompanhados pelos seus discípulos e dizem-lhe: “…Mestre sabemos que que és sincero e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não olhas à condição das pessoas. Diz-nos, portanto, o teu parecer: É lícito ou não pagar o imposto a César?… Mas Jesus, conhecendo-lhes a malícia, retorquiu: porque me tentais, hipócritas?... e mais à frente diz: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.  Por analogia posso então dizer que “Dai, pois, à religião o que é da religião e à política o que é da política”.

Aliás, o que vemos hoje no século XXI, embora em doses mais subtis, não é novidade dado que a separação de poderes laico e religioso, isto é, Igreja e Estado, é mais aparente do que real. E criticamos nós países como o Irão que são repúblicas teocráticas, nas quais os vários poderes são supervisionados por um corpo de clérigos.

Mais uma vez temos um Cristianismo tóxico.

Podem fazer-se as leituras que cada um entender sobre a homília de D. Nuno, mas esta é a minha, porque não tenho que ser politicamente correto e apesar de saber que, quem se mete com a Igreja leva.

 

 

 

[1] Bíblia Sagrada, Difusora Bíblica, Fátima, maio 2010, p.1606

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