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Costa e Marcelo.pngForam sete dias de silêncio após as eleições presidenciais, tempo para refletir sobre a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa que já era de esperar dada a fraca campanha dos outros candidatos e a também não necessária campanha do candidato vencedor que foi também uma vitória da televisão e a prova da sua influência na decisão do comportamento de voto dos eleitores. Foi a prova de que ainda há uma maioria que se deixa convencer por argumentos frágeis e mais do que repetidos dos comentadores e oradores que puxam sempre para o lado dos interesses que mais lhes convém para os seus objetivos pessoais que escondem sob a capa da defesa dos interesses dos portugueses. Alguns desses comentadores residentes nos canais de televisão dão opiniões públicas para agradar aos "patrões" e garantirem o seu posto e visibilidade. Os poucos discordantes servem para manter as aparências da pluralidade informativa e opinativa.

Parabéns a Marcelo pela vitória que os portugueses lhe deram que obteve sem qualquer esforço.

António Costa poderá ter em Marcelo um aliado, e vice-versa, e, por isso, o novo presidente não irá agitar muito as águas das relações institucionais, potenciando no futuro um pacto entre o PS e o PSD. Basta analisar o que Marcelo disse em campanha. Marcelo Rebelo de Sousa é, devemos dizê-lo, um social-democrata convicto que não se revê na política seguida pela ala direitista mais radical, os neoliberais disfarçados, que ocuparam o seu partido.

Até que o PSD decida o que irá fazer, isto é, deixar o partido continuar a ser controlado por aquela gente ou providenciar para que outros ventos façam ressuscitar a sua matriz ideológica, dando lugar a uma lufada de ar fresco, António Costa não terá grande obstrução por parte de novo Presidente da República.

Agora será o momento do tudo ou nada para o PSD. Passos Coelho apresentou a sua recandidatura à liderança do partido. O poder nos últimos quatro anos e meio soube bem ao PSD e não admirará que não mexa em treinadores que ganham, já que mais não seja pela figura que atrai muita gente que vota mais pelo efeito presença pessoal do que em políticas.

A frase infeliz de Jerónimo de Sousa "Podíamos arranjar uma candidata mais engraçadinha e com um discurso mais populista" pode aplicar-se à estratégia do PSD que é a de manter Passos Coelho na liderança porque não conseguem arranjar outro mais "engraçadinho" e com um discurso enganador que lhe possa trazer o mesmo número de votos ou mais ainda.

António Costa não tem a missão nada facilitada pela ditadura da União Europeia disfarçada de democracia para quem só os votos na direita são válidos e, tudo quanto assim não seja, há que bloquear por serem maus exemplos para outros que possam vir a surgir por aí. Os pretensos amigos europeus do PS e de Costa, como o SPD na Alemanha, estão enfeudados ao partido de Angela Merkel que parece não gostar nada do que venha da esquerda, seja ela moderada ou não e os partidos de direita no resto da UE estão com ela.

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publicado às 17:49

Dupont e Dupont

por Manuel AR, em 14.03.14

 

A palavra mais ouvida nas últimas semanas é consenso. Consenso é um consentimento, uma anuência. Para que haja uma anuência é necessário que existam pelo menos duas partes que se ponham de acordo sobre alguma coisa.

O pedido de consenso vindo primeiro dos partidos do governo e agora do Presidente da República é um logro e um ardil, palavra que também é sinónimo de embuste.

Argumentam comentadores e jornalistas propagandistas do governo que, na Europa, os consensos entre partidos são comuns como se verifica em alguns países, nomeadamente na Alemanha, onde existe uma coligação de governo entre a CDU (União Democrata Cristã), CSU (União Social Cristã da Baviera) e SPD (Partido Social Democrata) todos partido de direita exceto o SPD que é filiado na Internacional Socialista.

Destes argumentos pode aduzir-se que, se na Europa se estabelecem consensos entre partidos, em Portugal o mesmo deveria ser feito. Estes iluminados senhores parecem esquecer os contextos sociais, económicos e os enquadramentos políticos, dos diferentes países.

Os argumentos são fracos e apenas se justificam porque há uma situação de emergência do governo para envolver o Partido Socialista no buraco em que transformou o país, necessitando, por isso, de um companheiro que vá com eles ao fundo.

A história da política europeia dos últimos cinquenta anos mostra-nos alguns exemplo entre os quais o do PCI (Partido Comunista Italiano) que anos setenta, com mais de 20% de votação, se consensualizou com o Partido da Democracia Cristã em nome de um "Compromisso histórico" que o conduziu na prática a transformar-se num partido residual.

Pretende-se agora uma espécie de "compromisso histórico" ou de salvação nacional como alguns saudosos do passado chamam a um consenso cujo objetivo, dizem, é encontrar uma saída para situações difíceis e complexas que se aproximam. Claro que ao falarem em abstrato estão a referir-se, nomeadamente, a mais cortes a que o Governo chama reforma do Estado ao que se acrescenta a tal saída da "troica" que não será mais do que meramente virtual.

Os pressupostos para o insistente pedido ao Partido Socialista para consenso são evidentes. Apesar de existir uma maioria parlamentar confortável, os partidos do governo sabem que não será possível, respeitando a Constituição, governar e transformar um país cultural, política e socialmente complexo que foi por eles próprios fraturado. Assim, precisam de dispor de uma força suficiente para gerir e implementar as reformas neoliberais profundas, mantendo os extensos interesses financeiro e económicos e hábitos enraizados, num período de tempo suficientemente longo para se obterem efeitos desejados. Ora, numa previsão ou antecipação de uma possível crise (perda de eleições, por exemplo) há a necessidade de chamar a participação de outros, formando um consenso maioritário heterogéneo que legitime a força do governo.

O que pretendem com o consenso é uma opção estratégica de conveniência para atapetar a tomada de decisões difíceis que o Governo tem na forja, arrastando o seu opositor para o mesmo rumo de políticas seguidas o que é, no todo, uma armadilha.

Consenso político alargado como o que se pretende num país como Portugal, onde se procede ao empobrecimento institucionalizado, à diminuição da qualidade de vida e ao reduzir à sua expressão mais simples o Estado Social transformará a democracia parlamentar num pró-forma. O tipo de consensos que se pretende é viável em países ricos da UE e estabilizados financeiramente, onde se trocam consensos por pastas governamentais.   

A liberdade de escolha dos cidadãos passa a ser meramente formal porque deixaria de haver alternativas. Isto é, torna-se indiferente votar em projetos políticos porque perante a existência dum projeto comum formalizado é indiferente a opção tomada pelos eleitores, podendo conduzir, a prazo, numa progressiva redução de representatividade do Partido Socialista. Ou, como já disse Pacheco Pereira, "vote-se em quem votar, ou mesmo não votando, nada muda". Esta passaria a ser uma atitude que conduziria ao enfraquecimento da democracia e a uma espécie de "democracia consensual de partido único" que governaria para sempre fosse qual fosse o resultado das eleições. Uma forma de colocar a direita sempre no poder como se pretende ver pelos apelos ao consenso vindos das direitas europeias.

Pretende-se um consenso para o empobrecimento contínuo dos portugueses durante os próximos anos, a que chamam ajustamento, como se pode inferir das declarações de Poul Thomsen, vice-presidente do departamento europeu do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Pela insistência do consenso pode dizer-se que não há fumo sem fogo.

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publicado às 13:42


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