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Quem és tu Raquel

por Manuel_AR, em 26.11.16

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Gosto muito da Raquel Varela. Acho que para além de fotogénica é uma mulher atraente, cativante, com ar sedutor. Para mim, claro, porque isso de gostos, sejam eles do que for, tem o seu quê de subjetivo.  Mas este é o ponto que menos interessa referir. Interesso-me mais pelos seus pontos de vista sociais e políticos.

Desconheço o seu posicionamento partidário, mas quanto ao ideológico vejo-a como uma marxista ortodoxa que segue os ideais clássicos daquela corrente económica com se fossem uma espécie de ensinamentos catalogados.

Raquel é historiadora, investigadora, comentadora e outras coisas mais. Podem muitos não gostar dela, nem concordar com os seus pontos de vista, mas o seu valor intelectual é inegável. Apesar de todos estes atributos a minha aceitação por tudo quanto diz não é de modo nenhum incondicional.

Provocadora por inclinação podemos ouvi-la contra a direita, contra o centro, contra a esquerda. Vejo-a como alguém com necessidade extrema de protagonismo que consegue através da controvérsia política.

Apoia quaisquer greves vejam elas donde vierem, sejam elas que objetivo tiverem. Faz parte da sua ortodoxia marxista. À luz da sua visão dependente dum certo e indefinido esquerdismo critica, a seu modo, a esquerda moderada e democrática, acompanhando as críticas feitas pela direita. O dilema que Raquel Varela me coloca é, por um lado, eu ter necessidade de encontrar um centro político-ideológico que me leve a compreender o essencial do seu pensamento e posicionamento e, por outro, o de saber qual a sua lógica dominante.

Como historiadora está atenta a tudo e a todos os que saiam fora dos factos históricos deturpando-os a seu bel-prazer ideológico, como o tem feito esse dito historiador Rui Ramos. Neste ponto estou de acordo com ela, porque para mim a história que Rui Ramos divulga não entra no campo da investigação em história, são escritos de opinião sobre história vista à maneira dele.

 Mas voltando à Raquel, talvez ainda se recordem do apoio que deu à greve dos estivadores em 2015 chegando a ir a um plenário daquele grupo de trabalhadores incentivando as suas mulheres, como mães e donas de cas a juntarem-se à luta tendo daqui surgido um blogue de apoio.

 Do meu ponto de vista Raquel Varela é uma convicta radical de esquerda e defende intensamente a luta da classe operária, se é que ainda existe essa classe enquanto conceito do século XIX. É contra quaisquer ideologias dominantes ligadas ao bloco do poder que é um obstáculo ao pensamento e à sua produção científica em ciências sociais que não consegue separar da ideologia.

Fala sobre a banca dizendo que deveria ser toda nacionalizada porque está a enriquecer e a empobrecer o país. O Estado deveria deixar falir a banca, é o seu lema que várias vezes defendeu em algumas das suas intervenções em programas de opinião. Não percebe porque a Caixa deve ser capitalizada, mas a banca deveria ser nacionalizada e a Caixa Geral dos Depósitos não é, de todo, um banco público é privado com dinheiros públicos e não serve os interesses do povo, perceberam? Não? Eu também não.

Esta posição aproxima-se em alguns pontos às da direita que pretende travar a recuperação da Caixa. Raquel Varela navega por todos os mares e cavalga todas as ondas, é preciso é ser contra o poder seja ele qual for. É por isso que não a identifico com uma esquerda que pretenda agir segundo um conceito ideológico que se mostre através dum programa político claramente definido. Ela é contra um qualquer poder e uma purista do marxismo. Talvez, até seja uma narcisista intelectual que gosta de ser original pelos pontos de vista que vai lançando para o ar tornando-se polémica e, evidenciando-se, dessa forma, por uma pretensa diferença.

Não concordando com ela em muitos pontos, continuo a gostar da Raquel e leio quase tudo o que ela publica. Acredito, no que respeita à investigação, na sua credibilidade e fiabilidade científica. As ciências sociais como por exemplo a sociologia, a ciência política e a economia não sendo ciências exatas são permeáveis a ideologias e às suas tendências. O caso da economia é evidente no que respeita ao cálculo e à interpretação de indicadores. Daqui as várias teorias decorrentes.  Assim, a prática científica pode estar ligada a uma prática ideológica determinada considerando a produção científica em ciências sociais dum ponto de vista materialistas. É por este caminho que Raquel Varela segue sem perda de rigor. O mesmo já não posso dizer quando aborda certos aspetos da política que acabam por apoiar teses duma direita neoliberal que por aí se vai arrastando, sendo ela, como parece demonstrar, uma coletivista.

Não subscrevo a tese, como alguns dizem, de que Raquel Varela é uma pseudointelectual de Portugal. Posso questionar e responder de seguida, com margem de erro: Raquel Varela é de esquerda e faz o jogo da direita quando lhe convém? Sim. É contra o poder do Estado apenas em alguns casos? É. Defende um Estado que imponha a igualdade pelo coletivismo? Talvez.

Para mim é um enigma político onde se adivinham alguma demagogia populista. Talvez seja um protótipo duma esquerda caviar, sem ofensa para o caviar e para a Raquel.

Ainda no tempo do programa Barca do Inferno da RTP3 (fevereiro de 2015?), programa cujas opiniões não podiam ser levadas a sério Raquel Varela disse em determinado momento: “Não pagamos a dívida e usamos o dinheiro para empregar mais pessoas. Os restaurantes, por exemplo, se tiverem mais empregados, têm mais clientes e ganham mais”. Por tanto querer ser polémica por vezes sai disparate. Defesa intransigente dos trabalhadores sem critério.

É assim que os meus olhos vêm Raquel Varela.

A direita detesta-a e a esquerda tolera-a. Como a direita que anda por aí não gosta de ser contrariada e coloca-se na posição de ser a única detentora da verdade e da tese do não há alternativa que, ultimamente, tem estado a ser contrariada não gosta dela e, como tem vindo a ser o seu atributo, passa às ofensas pessoais como argumento.

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publicado às 20:31

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Para quem escreve Paulo Rangel do PSD? Para quem, do povo, menos iletrado, o leia e não percebe patavina. É um discurso hermético apenas para alguns eleitos a quem provavelmente se dirige.

A sua retórica é a de alguém que procura exibir um conhecimento intelectual levando leitores a desistir da sua maçadora prosa. Eu, cá por mim, não me considerando, de todo, um desses eleitos e iluminados a quem os seus textos parecem dirigir-se lá vou tentando fazer um esforço para o ler e compreender.  

O último artigo desse supremo intelectual e ideólogo da política neoliberal por onde enveredou o PSD é um caso paradigmático do que acabo dizer. Na amálgama de conceitos sócio-político-filosófico-partidários o leitor desprevenido, e, como escrevi em parágrafo anterior, sem a formação adequada perde-se pelos diversos e complexos conceitos da política do partidarismo e da sociologia sem tirar conclusão plausível, mantendo-se em explicações e argumentos já cansativos que volvem sempre ao passado onde não se vislumbra qualquer projeto para o futuro, ainda que o seu líder tenha utilizado no último congresso o chavão “Social-democracia sempre”.

Paulo Rangel, desde qualificar o PSD como partido que não é de massas mas um “partido de eleitores” de “abertura” e de “adaptabilidade” do seu “leque ideológico” lá vai dizendo que os “eleitores e militantes não são atraídos por um programa” e devem ser os “produtores de um programa que os atrai”. Se bem se percebe aos eleitores e simpatizantes do PSD não interessa uma ideologia, um programa, um projeto, são eles que o irão construir ao votar no desconhecido.   

Mas vejamos esta complexa e ambígua frase que caracteriza o seu discurso: “Os eleitores e militantes não são o propriamente atraídos por um programa; eles foram e são – e, questão decisiva no futuro, devem novamente ser - os produtores de um programa que os atrai. Dito de um modo mais apelativo: no PSD, os simpatizantes e os militantes não veem um programa, eles revêem-se no programa - porque o programa é pela própria elasticidade genética ou constitucional (constitutiva) do partido, de algum modo, um reflexo ou uma refracção da afinidade sociológica da sua composição.”

Tudo isto para dizer que simpatizantes e militantes revêm-se no programa do PSD. Eles não veem um programa, reveem-se nele – diz ele. Fantástico!

Atenção, isto não fica assim, porque vai deambular para a sociologia eleitoral caracterizando a base de apoio do partido afirmando que, ao contrário do que escreveu anteriormente, não se pode “enganosamente” caracterizar o partido “como um partido de classe” (classe média, de feição pequena e médio burguesa ou de pequena e média propriedade rural e de uma boa parte das profissões liberais ou com formação universitária…) e que, se assim fosse, agora recorrendo a Marx, afasta o PSD desse cálice. Nada disso porque, a ser assim, o PSD seria uma instituição encarregada de politicamente zelar e velar por esse agregado de interesses e valores.

Basta olhar para as estatísticas eleitorais ao longo dos anos e para trabalhos estatísticos no âmbito da geografia eleitoral como por exemplo “Comportamento eleitoral e o voto através de indicadores regionais nas eleições de outubro de 2015: Uma análise geográfica do voto” que mostra que é precisamente nas regiões onde esses eleitores, de feição pequena e médio burguesa ou de pequena e média propriedade rural e camponeses de parcos recurso como ele diz, se concentra em maior massa o eleitorado do PSD.

Mas lá vai argumentando Rangel que, “Sem nunca desdenhar da pertinência duma análise social e até da categoria “marxiana” da classe social – análise, em todo o caso, sempre parcelar, relativa e redutora – não é esse o traço que aqui se pretende realçar. Por mais dialética que se reclame, uma análise de classe seria, hoje e irremediavelmente, uma análise estática, conservadora, imobilizadora.”. Essa categoria “marxiana” (neologismo inventado pelo super intelecto ideólogo do partido) não é mais do que um contrassenso.

Rangel vê em Marx o imobilismo? Se assim for, então qual a finalidade ideológica da contínua luta de classes que Marx preconizava senão a de potenciar, através da luta permanente, (do meu ponto de vista, hoje em dia, essa apologia da luta de classes é destrutiva e injustificada da forma como partido mas radicais a propõem), em que uma classe ascende a outra sem olhar a meios para tingir os fins, em direção a uma sociedade sem classes, essa sim conduzindo ao imobilismo? Sem que Rangel se aperceba o imobilismo talvez esteja mesmo no PSD com Passos Coelho na liderança. Mais ainda, esse tal eleitorado do PSD tem-se mostrado ao longo do tempo com uma instabilidade eleitoral conjuntural.

Poderíamos continuar por este caminho, mas o título do artigo de opinião de Paulo Rangel publicado no jornal Público de 12 do corrente diz tudo: “Mobilidade social: um desígnio para o PSD pós-troika (2)” que pode resumir-se, segundo as suas próprias e demagógicas palavras proclamadas no último congresso do PSD, a que “o partido deve fazer da mobilidade social a sua “grande bandeira para os próximos anos” e considerou que está na hora de Portugal deixar de ser “o país dos doutores” e “virar a página na estratificação social e na estrutura elitista e aristocrática da sociedade portuguesa”.

Não tenho a certeza se Rangel, licenciado em Direito pela Universidade Católica, sabe o significado do conceito sociológico de mobilidade social, algo complexo que, lançado para o ar, pode levar à confusão. Mobilidade social entendendo-a como sendo movimento de indivíduos entre diferentes posições sociais. Este mesmo conceito divide-se ainda em mobilidade vertical e mobilidade horizontal. A qual delas se refere Rangel? Será à mobilidade vertical definida como movimento ascendente ou descendente na hierarquia de posição num sistema de estratificação social? Ou refere-se à mobilidade horizontal que é o movimento físico de indivíduos ou grupos entre regiões.

Estranhamente, e se bem percebi, Rangel, com esta frase, mais parece um esquerdista radical da altura do 25 de Abril. Tece uma viragem populista do partido que nos últimos anos ficou virado para si mesmo, que foi, e é elitista, afirma agora que tem que se combater a estratificação social e a estrutura elitista e aristocrática da sociedade portuguesa, e fora com o doutorismo. Paulo Rangel mais parece um revolucionário marxista ressuscitado que defende levar Portugal no sentido da sociedade sem classe. Aonde chega o desplanto!

Afinal, quem és tu PSD?

 

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publicado às 16:09


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