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Panfletos na revolução do 25 de Abril

por Manuel_AR, em 19.04.16

Panfletos25deabril.jpg

Estamos a caminho de mais um ano de celebrações da Revolução do 25 de Abril que este ano comemora os seus 42 anos. Para os mais jovens que já nasceram, felizmente para eles, em democracia talvez esta data nada lhes diga porque sempre viveram num contexto de liberdade em que por vezes o  “conflito” e o “confronto” são salutarmente democráticos.

Muitos proclamam por aí em à roda de mesas de cafés e restaurantes “os partidos não se entendem!”. Ainda bem, porque se assim não fosse cairíamos num unanimismo de ideias e de opiniões que poderiam conduzir num sentido de aplicação políticas lesivas de todos. E mesmo assim é o que se vê.

Em alguns países da União Europeia partidos de direita atraíram para a sua esfera governativa outros partidos de centro esquerda e centro direita. Em alguns desses mesmos países o seu desenvolvimento permite-lhes governar sem lesar a sua população mantendo um nível de vida global aceitável por todos, o que não tem acontecido em Portugal. 

Hoje vou recuar ao tempo da “guerra” panfletária do início dos conturbados anos da revolução apresentando alguns panfletos partidários da época que pode ser consultados aqui.

A maior parte é da autoria do PCP porque, na altura, era este partido que se autointitulava de vanguarda e monopolizando todas as lutas que desencadeava e, daí, a sua produção exaustiva de material panfletário, muito dele demagógico e provocador de contestações várias.  

Ao longo de todos estes anos a democracia foi sendo progressivamente utilizada e apoderada por grupos de famílias e de interesses, alguns, talvez a maioria, marcadamente de direita. O conceito político de direita não deveria ter uma conotação negativa mas, neste caso, posso aplicá-lo como tal, visto se aproveitaram da democracia para próprio benefício. A constatação desse aproveitamento tem vindo ao de cima pelo menos ao longo dos últimos dez anos.

O PPD – Partido Popular Democrata que posteriormente passou a ser PPD-PSD Partido Social-Democrata era um partido cujos princípios programáticos correspondiam à própria designação. Com Passos Coelho e seus apoiantes o partido descaracterizou-se e da sua genética inicial passou a ser explicitamente de direita, embora o pretexto arranjado para abandono daqueles princípios tenha sido a intervenção do ajustamento. Alguns dos seus mais fiéis e históricos dirigentes acoplaram-se ao novo modelo instigado pelo seu recente líder que apenas se mantém para poder captar votos mais pelo “look” do que por qualquer outra razão.

Foi com eles que se fincou a tentativa para desvalorizar a data histórica do 25 de abril nomeadamente com o objetivo de a fazer esquecer na população mais jovem. Essa tentativa incidiu também noutras datas marcantes da nossa história. Tentativa de minimizar os valores históricos, coadjuvada por muitos adeptos dessa nova filosofia desvalorizadora como por exemplo o economista e “insigne” comentador Camilo Lourenço que chegou a insinuar um dia que a disciplina de história não teria interesse ser aprendida e que deveria de acabar nos currículos. Se não foi isto foi aproximado.

Com uma democracia não menos estável do que as de outros países não se vislumbraram ao longo destas décadas investimentos saudáveis, salvo casos particulares mesmo quando governos do centro e do centro-direita se encontravam no poder. Os investimentos privados de capital nacional, efetuados após a revolução, foram provenientes alguns dos que já existiam que não abandonaram Portugal e outros constituídos de novo criaram postos de trabalho, aos quais devemos fazer a devida justiça. Podemos citar dois exemplos como Belmiro de Azevedo e Alexandre Soares dos Santos, dois dos mais ricos de Portugal cujas fortunas foram amealhadas já no pós-25 de Abril em alturas até com alguma instabilidade política. Estes dois exemplos são sinónimos não apenas de duas grandes fortunas mas também das duas maiores companhias nacionais, mau grado aos que levam o capital para outros países onde pagam menos impostos. Não é, portanto, por culpa da Constituição da República, como alguns setores da direita nos querem fazer crer, que não se investe em Portugal.

Quando a direita está no poder tem feito tudo para anunciar que as reformas são condição necessária sem a qual não há investimento, nem captação de capital nacional e estrangeiro que gere criação de riqueza, (resta saber a quem está destinada a maior parcela do bolo), e criação de postos de trabalho. O que se tem visto é que o investimento privado em áreas produtivas para a tal criação de riqueza tem sido diminuto.

Durante os últimos vinte ou trinta anos tudo a economia centrou-se no consumo para onde bancos e empresas estiveram sempre orientados, descurando o estímulo à poupança, vista não como forma radical de congelação e repouso de todas as formas de rendimento que impossibilitam o consumo e a consequente paragem a produção. Se assim fosse haveria ainda mais desemprego e menos rendimento para ser aplicado em bens de consumo fazendo com que o sistema produtivo deixasse pura e simplesmente de existir.

Todos os partidos da esquerda moderada e do centro não têm conseguido, nem feito para que isso aconteça, especialmente o último Governo do partido dito social-democrata, cuja reforma do Estado passava só e apenas pelo aumento dos impostos, cortar nas reformas e nos salários da função pública. Eram os bombos da festa de Passos Coelho.

Em quarenta e um anos muito se fez num país que nada tinha a não ser uma classe média que lá se ia mantendo mas que de política não convinha nem falar. Mas há que contemplar muita dessa classe média, intelectuais, clérigos seculares e não seculares que ajudaram e participaram ativamente para que hoje fosse possível a todos poderem exprimir-se livremente apesar de, como em tudo, haver excessos.

Se os mais novos pudessem regredir numa espécie de viagem no tempo até essa altura e comparassem Portugal de então com o atual veriam uma diferença abissal, não apenas ao nível das infraestruturas mas também ao nível social.

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publicado às 17:21

Uma pequena memória do 25 de abril de 1974

por Manuel_AR, em 24.04.15

O rádio despertador, acertado para as sete da manhã, no Rádio Clube Português estação onde estava sintonizado, ouvi um comunicado alertando a população para não sair de casa. Aguardei as notícias tinha havido o que aparentemente teria sido um golpe de estado. Rapidamente dei-me conta que era muito mais do que isso. Estava em curso uma revolução cujos contornos ainda eram duvidosos.

Como habitualmente preparei-me para ir para o trabalho, na altura na Rua Serpa Pinto ao Chiado. Tomei o metropolitano e saí no Rossio e dirigi-me como sempre para subir a pé a Rua Nova do Almada mas soldados por ali atentos limitaram-me o acesso dizendo que a zona estava interdito. Lá para cima na Rua António Maria Cardoso perto do local da empresa onde trabalhava na altura.

Voltei para trás e acompanhei na televisão o cerco à sede da PIDE/DGS.

As festas e os comícios de pela liberdade eram frequentes um deles foi por mim filmado ainda com uma Câmara de filmar Super 8 mm.

No princípio deste mês de abril regressei da Beira-Alta onde estive rodeado apenas por vegetação e pequenos terrenos cultivados, dantes para subsistência mas atualmente para ocupação do tempo livre cultivando para não terem a terra a mato.

A vida decorre no seu dia-a-dia em simultâneo com o chilrear dos pássaros como se Passos Coelho e o seu Governo não existissem. É uma região politicamente conservadora e tradicionalmente votante no PSD desde a revolução do 25 de abril. Receios arcaicos que lhes foram incutidos pela ameaça da perda das suas pequenas courelas, caso na altura certos partidos ganhassem as eleições. Esses receios ainda hoje subsistem nos mais velhos porque dos poucos que ficaram os filhos que partiram há anos para as grandes cidades à procura de outras formas de vida.

Após a demissão do Governo de Santana Lopes, e pela primeira vez, o Partido Socialista, com José Sócrates, conseguiu penetrar no distrito e ganhar aqui as eleições. Embora tenha havido algumas mudanças nas mentalidades, especialmente em Viseu, grande centro urbano da região, no campo a fidelidade ao PSD manteve-se apesar de vozes discordantes sobre este que está a governar no qual não se reconhecem e em que tradicionalmente votam por mais por tradição do que por consciência política.

No “campo” votam muitas das vezes em personalidades que, na sua ingénua “forma de ver”, são muito simpáticos ou falam muito bem e prometem muito, mas que depois fazem pouco. Nas eleições autárquicas o processo refina-se pois que “os influentes” da vila, da aldeia e do local dominam e controlam com a sua influência as populações.

Hoje em dia e após o 25 de abril de 1974 o modo de vida nada se compara ao que foi no passado. Os acessos à informação e o trabalho mais valorizado trouxeram a estas populações melhorias às suas condições de vida.

Como não compram jornais porque não lhes chegam às mãos e, mesmo que assim fosse, não pagariam para os comprar já que os recursos financeiros voltaram a ser escassos. Falam sobre política, mas daquela que lhes chega pelos quatro canais da televisão e seus comentadores. Para a maior parte não há dinheiro para satélite. Sobre a política que lhes chega a reflexão que fazem “ao seu jeito” nem sempre é acrítica mas plena de de senso comum. Região de pequenos proprietários onde o sentimento de posse da propriedade está muito arreigado e ainda cheio de receios ancestrais vindos do antigo regime.

É gente com filhos e netos que deixaram o campo e foram para a cidade, capital do distrito, tirar um curso superior para terem um canudo que lhes trouxesse promoção social mas que a maior parte das vezes de nada lhes valeu por falta de ofertas emprego. Os pais procuravam dar aos filhos uma forma de vida que não fosse cavar a hortas para cultivar batatas, couves e cebolas para consumo interno.

Nestes locais interiores o acesso aos cuidados de saúde sempre foi no passado um problema mas piorou nos últimos anos. A deslocação à cidade, para quem não tem transporte próprio, para uma consulta ou tratar qualquer assunto significa a perda de um dia completo devido à escassez de transportes públicos. A “carreira” passa às sete horas da manhã e só lá para o fim da tarde regressa. É o problema que resulta das privatizações tão valorizadas por esta direita. Há transportes se for rentável, caso contrários acaba-se com esses percursos a menos que sejam subsidiados. Paga-se a passagem e também através dos impostos. Isto é, justifica-se a privatização para tornar os transportes mais eficazes e rentáveis, depois, subsidiam-se os privados para manterem certas carreiras. Dinheiro que sai dos contribuintes na mesma. Quem ganha no final não é a população.

O 25 de abril para quem não o viveu não faz ideia de como Portugal se transformou.

Muitos na idade dos 41 anos e pouco mais, que andam para aí a aquecer as cadeiras dos gabinetes a viver à custa do orçamento mas que falam à boca cheia do empreendedorismo não fazem ideia do que era viver antes do 25 de abril de 1974. 

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publicado às 19:42


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