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A direita gosta de designar o Bloco de Esquerda como a esquerda caviar esquecendo-se de que é ela própria é toda caviar e pretende para si o melhor, o caviar “Bloco de Esquerdaluga”, daí não gostar muito de concorrência.

Vivemos numa Economia de mercado, sistema económico em que os agentes económicos (empresas, bancos, prestadoras de serviços, etc.) podem atuar com pouca interferência dos governos. É um sistema típico da economia capitalista e um dos pilares apoiados por economistas que defendem o liberalismo económico e o neoliberalismo cujas principais características são a liberdade para definição de preços de serviços e mercadorias. É a livre concorrência que regula o mercado com relação aos preços de bens e serviços estabelecidos pela interação entre procura e oferta.

Aos políticos exige-se e clama-se por seriedade, credibilidade e coerência ideológica nos atos e nas decisões.  Eles próprios, os políticos, os de esquerda e os de direita, quando lhes interessa, acusam-se uns aos outros de estarem a faltar e a negar os valores que apregoam. Mas será que estes valores estão sempre presentes de facto na prática política?

A incoerência faz parte da política e a sua prática é uma constante nos políticos sejam eles de que quadrante forem. O que dizem hoje negam na próxima oportunidade, buscando argumentos falaciosos sem medida da gravidade e das consequências dessa atitude. Sem pretender generalizar a incoerência, as meias verdades, os erros de juízo, a deturpação de verdades são atributos de muitos políticos independentemente do partido a que se encontrem afiliados.

Pelo meio surgem, com menos frequência, os atos de corrupção de diversos tipos, a fuga aos impostos, entre outros, cuja frequência se verifica no seio de militantes ou simpatizantes da direita ou dos que com ela conluiem. Mas, nas esquerdas, pelo menos nas mais ideologicamente assumidas é raro virem a público.

A questão que podemos colocar é a de saber se a ideologia, a militância, a simpatia partidária e a ocupação de cargos políticos serão incompatíveis e incoerentes com a posse de propriedades e de riqueza, desde que adquiridas por meios legais, desde que ninguém tenha sido prejudicado pela sua aquisição, seguindo o que a legalidade determina.

Há graus de incoerência dependentes do contexto, da intenção e do discurso e, consoante isto, a suposta incoerência ou não existe ou é irrelevante ou, pelo contrário, existindo será que é desgastante para quem a pratica?                                        

Tem andado na comunicação social e nas “bocas” das redes sociais o caso do vereador da Câmara Municipal de Lisboa e da sua propriedade presumivelmente lucrativa. Não sou, nem nunca fui, simpatizante nem eleitor do BE, e muito mesmo da sua ideologia por vezes demasiado radicalizada, mas não é por isso que me colocarei numa posição meramente contra ou dúbia, relativamente a este caso, acompanhando o rebanho dos que acusam, muitos deles infetados pelo vírus da já bem conhecida invejazinha portuguesa e de moralismos hipócritas. Serei talvez uma ovelha tresmalhada desse mesmo rebanho.                                                                                                         

O editorial de José Cabrita Saraiva do jornal i clama e critica Robles porque este se tinha insurgido “via redes sociais, contra a especulação imobiliária… usando os mesmos métodos que tanto criticava”.  Pela lógica, apenas os que não criticam, os de direita, é que podem utilizar os métodos, isto é, o da especulação imobiliária, ficando, por isso isentos de críticas. Mas Saraiva diz ainda que “há algo mais terrível”, sim, leram bem, TERRÍVEL, apenas e porque o vereador é militante da extrema-esquerda.     

José Saraiva exemplifica um caso, que parece mostrar simpatia por radicalismo de sinal contrário, ao buscar o exemplo do assassínio de John Lennon por Mark David Chapman a 8 de dezembro de 1980. Chapman foi o homem que disparou cinco tiros contra Lennon e que justificou o seu ato porque se sentiu desiludido, quando descobriu que Lennon, embora nas suas belas canções falasse sobre um mundo sem propriedade privada, andava num Rolls Royce personalizado e tinha um apartamento na avenida mais cara de Nova Iorque. Está visto que, segundo o editorialista, o assassínio parece ter sido mais do que justificado.

Depois há os outros, os que utilizam o caso para mostrar a sua desforra política sobre a violência verbal de que foram alvo. Está neste grupo Rui Tavares ex-bloco de esquerda que escreveu num artigo de opinião no jornal Público: «investimento especulativo em imobiliário (a não ser que acreditemos que as definições de "especulação” mudaram magicamente para a esquerda depois da notícia ter saído) — e achará que estou a evitar tocar verdadeiramente no assunto. É verdade. Estou a evitar tocar no assunto não por nenhuma das razões do costume, como evitar dar à direita pretextos para atacar alguém de esquerda (o que acaba por dar à direita o pretexto de atacar a esquerda, corretamente, por silenciar um assunto que envolva um dos seus) mas por uma razão mais pessoal: durante anos fui alvo da violência verbal de muita gente no BE que transformava diferendos políticos em ataques de carácter (“ele quer é tacho”, “vai entrar no PS”, “tem lugar prometido”, etc.), gente essa que nos últimos dias tem andado afadigada a inventar que sempre acharam que “especulação” e “incoerência” não inclui o tipo preciso de investimento que o dirigente do seu partido fez, ou de incoerência que ele revelaria, mas ainda inclui todos os outros tipos de investimento com que costumavam atacar (e mal passe a borrasca, querem continuar a atacar) outros adversários políticos, umas vezes bem, outras vezes mal. E, dado o contexto, dou a mim próprio o direito de não dizer tudo o que sinto sobre este tipo de piruetas verbais e políticas…».

Ainda há outros (as), como Rita Silva que vêm agora dar visibilidade à sua pureza ideológica e partidária mostrando o seu radicalismo anti despejos e desacordo com as políticas que apoiam ativamente a especulação e a “mercadorização da habitação”. Ataca agora os especuladores e recusa-se a suceder a Ricardo Robles na Câmara de Lisboa. Todavia, para além da sua intervenção pública de protesto, que mecanismos de engenharia política propõe num sistema de economia de mercado (dito capitalista) para acabar com aquilo a que se opõe?  

Também há aqueles que acreditavam que o Bloco de Esquerda era genuinamente um partido de ideais puros, pelo que se sentem mais magoados e desiludidos. O poder de atração do dinheiro insinua-se por todo o lado, até mesmo no seio dos partidos, até mesmo nos de extrema-esquerda há quem não lhe seja imune. Mas atenção, tomar o particular pelo geral é um perigo de raciocínio. Nem Ricardo Robles é o BE, nem o BE é Ricardo Robles, ele é apenas uma peça do todo.

Sejamos claros: vivemos numa sociedade de modo de produção capitalista, de economia de mercado, de livre concorrência onde se estimula a acumulação de riqueza, a competição em contexto de liberdade individual, cujo objetivo é a obtenção do lucro, por vezes fácil, e outras mais valias. Para eliminar o capitalismo estão os que defendem a estatização de tudo e mais alguma coisa. Estão contra o capital e o investimento privado que, segundo eles, exploram a mão de obra e são geradores de pobreza. É uma visão ideológica de limitada e totalmente em desacordo com a modernidade da conjuntura mundial .

A especulação imobiliária e as negociatas no ramo existem, estão bem à vista, mas quem, sem ser a esquerda, dita radical, se insurge?! A direita não. Assunção Cristas do CDS dá aqui e ali umas pinceladas com visitas populistas e demagógicas aos bairros, onde repete aquilo que todos já sabem. Contudo, o CDS definindo-se como um partido de centro-direita, é afinal um partido da direita extremada. A suas políticas no governo anterior, nada tiveram de democrata-cristão, quando tomou medidas com as quais agora se coloca contra. Cristas foi a promotora duma Lei das rendas e da liberalização do mercado imobiliário o que deu aos senhorios um poder discricionário face aos inquilinos, originando especulação imobiliária, aumentos nas rendas e despejos selváticos de famílias, englobando velhos que sobrevivem com pensões miseráveis. Tentando virar a agulha da bussola, fala agora hipocritamente da tribuna do social.

A lei da suspensão dos despejos de inquilinos com mais de 65 anos, com deficiências ou que estejam a viver na casa há mais de 15 anos até 2019 é agora contestada pelos proprietários dizendo que lhes retira os direitos e que é inconstitucional - não posso deixar de recordar os direitos cortados a outros, os não proprietários, pelo anterior governo. Recorda-se que a lei, que suspende os despejos nas condições anteriormente referidas, passou com a clara votação contra, do PSD e do CDS.  Apesar disto, a direita rejubila e lança para o ar palavras, propagando valores morais fingidos para mostrar que, na extrema-esquerda, também há especulação e corrupção.

As regras que regem a sociedade em que vivemos são extensíveis a todos os cidadãos, independentemente do seu quadrante ideológico. Mas, por outro lado, podemos considerar hipocrisia, ouvir partidos de direita defenderem direitos sociais, apoiar aberturas de lares públicos para os idosos, aumentos salariais, Serviço Nacional de Saúde, e por aí fora.   

Que culpa tem Robles de ser coproprietário de um prédio?! Será que Ricardo Robles e a irmã não poderiam melhorar o prédio, nem alugar para render, nem o podiam vender a compradores que lhe ofereciam um preço para essa compra? É a lei do mercado a funcionar que a direita defende.

A culpabilidade apontada a Ricardo Robles é apenas e só por pertencer ao Bloco de Esquerda.

O caso Robles é mais uma onda em que a direita, com a suas pranchas de surf pouco limpas, vai cavalgando como forma de eleitoralismo na corrida da competição partidária. O CDS com os seus pequeninos 7,4%, que uma sondagem lhe deu em julho, em comparação com os 9,5% do BE, quer ganhar terreno captando para o seu lado, quiçá, os eleitores deste partido indignados com o caso Ricardo Robles. É possível que não tenha essa sorte já que o PCP está alerta e Jerónimo de Sousa já disse que no seu partido isso nunca aconteceria.

Assim sendo, tem cabimento colocar algumas perguntas:

Poderá um capitalista (prefiro empresário) que paga ordenados decentes, oferece regalias sociais aos seus trabalhadores, transaciona propriedades e cumpre todas as suas obrigações fiscais ser acusado por ser de esquerda?!!!

Poderei eu ser acusado, criticado e apontado por atraiçoar a minha ideologia de esquerda radical, se tiver filhos ou netos numa caríssima escola privada?

Poderá um militante de um partido da esquerda, que defenda a escola pública ter os filhos num colégio privado, ou que defenda o Serviço Nacional de Saúde, ir a uma consulta médica privada?

Deverei deixar de exercer os meus direitos de cidadão como político e militante de um partido que não concorde com o sistema em que vive por possuir propriedades ou qualquer negócio rentável?

Não poderá um comunista ser possuidor de uma propriedade privada, que adquiriu ou herdou e que lhe possa vir a trazer mais-valias? E se esse comunista fizer política?

Esta polémica à volta de Ricardo Robles fez-me recordar e recolher uma passagem do Evangelho, neste caso, segundo São Mateus, 19, 16-22, que passo a transcrever:

“Um jovem aproximou-se dele (Jesus Cristo) e disse:

«Mestre, que hei de fazer de bom, para alcançar a vida eterna?».

Jesus respondeu-lhe:

«Se queres entrar na vida eterna cumpre os mandamentos…».

Jesus Cristo enuncia os mandamentos. Disse-lhe o jovem:

«Tenho cumprido tudo isto; que me falta ainda?». Jesus respondeu:

«Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Ao ouvir isto, o jovem retirou-se contristado, porque possuía muitos bens.

Nas sociedades de consumo e de competição por bens terrenos ninguém quer um qualquer tesouro no Céu em troca dos tesouros na Terra, sejam eles capitalistas ou proletários. É assim que funciona o sistema, quer queiramos, quer não.

Vejamos a circunstância da sobreposição do pragmatismo à ideologia de não deixar que o nosso sistema de crença nos impeça de fazer o que achamos certo. Um dos exemplos pode ser o de um governante fortemente católico que exija a tolerância religiosa, a fim de evitar a agitação social, ou de um ditador comunista que permite a iniciativa privada, a fim de incentivar a inovação e o progresso material. É a chamada incoerência positiva.

Se eu tivesse propriedades que transacionasse para obter ganhos e rendimentos que delas proviessem, deveria, obrigatoriamente, seguir uma ideologia ou pertencer a um partido que defendesse incondicionalmente os interesses de uma economia liberal? Ou, pelo contrário, se fizesse parte de um partido que defendesse o humanismo e os direitos sociais poderia ser acusado de incoerência?

Poderá um capitalista que explore os trabalhadores, que defenda a privatização de tudo o que seja público e lucrativo pertencer a um partido que seja ideologicamente de esquerda?  Aparentemente incoerente e improvável, mas poderia.

Quem quererá ser político num país democrático, de economia de mercado e de livre iniciativa onde partidos de direita, defensores de ideologia liberal ou neoliberal estão contra os que, sendo ideologicamente de esquerda, também são detentores de riqueza e de propriedades, obviamente regidas pelas mesmas normas e regras.

Quem quererá ser político e fazer parte de um partido num país onde defensores da economia de mercado e do capital criticam os políticos de ideologia de esquerda que sejam detentores de capital sob qualquer forma, e que o possam rentabilizar?

Quem quer ser político num país capitalista onde os de direita, exigem aos outros, os da esquerda, a rejeição do pragmatismo duma sociedade capitalista em troca do dogmatismo absoluto da ideologia de esquerda?

Há um ditado popular que diz "Em Roma, sê romano", isto é, no lugar onde estás, faz o que as pessoas fazem e imita a sua cultura. Parece que este ditado não se pode aplicar aos políticos. Ser de esquerda e ao mesmo tempo ser detentor de propriedade privada, de empresas e viver segundo as regras duma economia liberal é incompatível, incoerente e quase uma heresia para a direita.

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publicado às 17:15

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A direita PSD e CDS não querem ser de direita, negam que haja qualquer ideologia nas suas opções e colocam-se ambos no centro-direita do leque partidário. Alguns teóricos e militantes do PSD já o fizeram, coube agora a vez do CDS-PP.

A ideologia é um sistema de ideias, valores e princípios que definem uma determinada visão política do mundo, fundamentando e orientando a forma de agir de uma pessoa ou de um grupo social, seja partido ou movimento político, seja grupo religioso ou quaisquer outros.

O princípio que orienta certa direita portuguesa, segundo a voz de alguns dos seus militantes e apoiantes, é que atualmente a ideologia está fora de questão na governação não interessa dentro do partido. Não se pensa em termos ideológicos, mas em termos de realizações e de práticas. Como se, em política, a pragmática estivesse afastada da ideologia! Por mais que neguem existe ideologia de direita assim como há a da esquerda, do centro, seja qual for o arrumo político.

Parece-me ser isto uma iliteracia cultural, muito comum nas últimas décadas no meio de certas juventudes partidárias de direita ou em políticos delas oriundos, para além de ser também uma aberração intelectual que vai até contra o senso-comum. A ideologia é intemporal, sempre existiu e não há o exercício da política sem ideologia. As religiões têm as suas específicas ideologias de ordem teológica.

Todavia, para a direita, interessa que este tipo de mensagem passe. Há uma estratégia que vai no sentido de evitar o pensamento e a reflexão ideológicos para afastar qualquer comparação entre os conteúdos programáticos ou medidas políticas tomadas pelos partidos que não sejam apenas “pragmática”.

Fazer política sem uma base ideológica baseada apenas no pragmatismo que desemboque numa espécie de era pós-ideológica parece-me impossível. A prática e o exercício da política são direcionados para as pessoas e para as nações e afetam as suas vivências sociais e pessoais que, por si só, têm já uma carga socioideológica devido a diferentes visões do mundo. A negação da ideologia não é mais do que uma inadequação desta atitude às necessidades sociais pela prática política.

A atual negação da ideologia pelos partidos de direita relaciona-se com um preconceito porque era um conceito considerado marxista no século XIX.  Este preconceito é devido à ignorância cultural dos jovens políticos de direita e está fora do racional porque tudo o que falamos, pensamos e fazemos está marcado por um conjunto de ideias produzidas ou não por cada um de nós. Ainda que sejamos meros reprodutores de reflexões alheias, ainda aí, no âmbito do senso comum, está presente um conjunto de pensamentos que tomamos por verdades especialmente em política.

A negação da ideologia pelos partidos de direita não é mais do que uma pressuposta imposição hegemónica dum outro tipo de ideologia, não manifesta e insidiosa, porque não oculta, como única forma de pensamento possível e de valores tomados como absolutos que parte de um imutável senso-comum. É uma não-ideologia mistificada pela lógica da estabilidade política associada a uma democracia sem densidade onde dominaria o poder financeiro. Sabemos bem onde esta falta de ideologia nos poderá levar.

Assim, a direita ao mesmo tempo que pretende desvalorizar o conceito e se identifica politicamente com a área liberal está, por inclusão, a defender uma ideologia, a sua. A ideologia está em toda a parte, não vale a pena escondê-la porque mais tarde ou mais cedos ela revela-se.

Antes do congresso do congresso do PSD em novembro de 2017 discutiam-se opções ideológicas do partido e Santana Lopes falou em “liberalismo” e procurou fugir aos rótulos ideológicos. Pediu um partido que respeitasse a sua “identidade” e o seu “programa”, mas, sobretudo, “próximo das pessoas”, (confira-se com a posição de Assunção Cristas na sua moção ao congresso do CDS), houve até quem afirmasse que “O PSD é um partido catch-all. Tem vários setores”.

O CDS está a preparar o congresso para março e também, à semelhança do PSD, o CDS pretende esconder a ideologia da sua matriz inicial e substituí-la por outra o exemplo é a moção de estratégia de Assunção Cristas ao próximo congresso que situa o CDS-PP como um partido do centro-direita omitindo a sua matriz democrata-cristã.

Também a questão ideológica é rejeitada por Assunção Cristas apesar de constar na moção da líder recandidata que contrasta com outras moções globais e rejeita a acusação e assume a opção de não carregar a moção com ideologia e a preferência pelo pragmatismo argumentando que essa explicitação doutrinária já consta da sua moção ao congresso de 2016. Mas no partido há quem assuma a posição ideológica e defenda como Lino Ramos, ex-secretário-geral, que defende que “este é seguramente o momento de afirmar o CDS, de regressar às suas origens e de afirmar a democracia-cristã”. Está então aqui a assunção ideológica essencial para as políticas que defende.

A direita PSD e CDS vêm de momento desvantagem assumirem-se como partidos de direita querendo mostrar-se ao eleitorado como sendo de centro-direita.  A moção de estratégia global de Assunção Cristas ao congresso coloca o CDS-PP como uma força de “centro-direita”, mas é omissa quanto à matriz democrata-cristã do partido. Isto é, nega que haja uma questão ideológica e, ao mesmo tempo, pretende redirecionar o partido no sentido do centro-direita. Mas afinal o que é isto senão uma tomada de posição ideológica.

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publicado às 20:32

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A direita e a esquerda são duas atitudes ideológicas de estar na política e de a praticar quer na forma quer nos procedimentos. No que se refere ao Estado Social, à economia e às finanças a direita e a esquerda posicionam-se em campos diferentes. Entre direita e esquerda a visão sobre alguns destes campos é diferente, noutros são idênticos nos objetivos, mas seguem cada um pelo seu caminho.

Antes de avançar que convém esclarecer a evidência de que, quer na direita, quer na esquerda situam-se espetros diferentes, uns com ideologias mais radicais, outros ainda com vias mais moderadas que muitos incluem no domínio dos centros: centro-esquerda ou centro-direita.

Nunca houve uma única esquerda nem uma única direita, mas várias. Os extremismos de direita e de esquerda são os filhos irreverentes, ou melhor, os filhos rebeldes, os que não são bem aceites em cada uma das duas famílias.

Para os radicais de esquerda o capitalismo é um mau sistema, para a esquerda moderada é uma forma de organização económica compatível com o Estado Social. O socialismo democrático e parlamentar e a “verdadeira” social-democracia aceitam o capitalismo e a democracia parlamentar, mas exigem que os recursos sejam distribuídos com mais equidade olhando também para os setores mais desfavorecidos.

A direita reclama o direito de ter sido a inventora da liberdade no seu sentido restrito da organização económica e afirma a sua incompatibilidade com o Estado Social que se deve situar apenas no assistencial. Certa direita entende por liberdade o direito a enriquecer. Entre a esquerda e a direita há por vezes uma confusão para o conceito de liberdade. Mário Soares defendeu logo após o 25 de abril a democracia e socialismo em liberdade para estabelecer uma linha divisória inultrapassável entre o socialismo democrático e parlamentar e o comunismo do PCP ditado pela ditadura da classe operária e de outras forças da extrema-esquerda e assim continua.

Com o neoliberalismo dos anos oitenta nos EUA com Thatcher e no Reino Unido com Reagan foi institucionalizada a guerra à assistência e, conforme tem sido demonstrado por vários economistas como Stiglitz (O Preço da Desigualdade) e Piketty (O Capital do século XXI), os americanos e os ingleses das classes médias ficaram mais pobres e os ricos ainda mais ricos.

O papel central das esquerdas, (cada uma  por vias diferentes), é o de incluir nos seus programas o papel central a redução das desigualdades sociais. Contudo, durante os últimos quarenta anos, a esquerda democrática foi perdendo a capacidade de criticar a direita, não se percebendo bem porquê, dando-lhe a primazia do controle ideológico.

A direita quando está no poder apenas acredita no mercado e afirma que os pobres apenas existem porque não querem trabalhar. Lembram-se da frase, “se vires um homem com fome não lhe dês um peixe, ensina-o a pescar?”. É o pensamento de alguma direita. Os governantes que exaltam a ganância como valor supremo estão a minar a coesão das sociedades.

No âmbito da direita são cada vez mais os que denunciam o Estado Social argumentando que este serve mais os funcionários nele integrados (os preguiçosos dos funcionários públicos) do que os utentes, e têm como objetivo deixar a cargo da caridade privada tudo o que seja de apoio social para onde, a prazo, alguma classe média seria também lançada.

A esquerda traça o retrato da direita como sectária, preconceituosa, inculta e atrasada movida pela ambição do lucro, insensível e relegando para segundo plano as preocupações o social.  

A direita, por seu lado, faz o retrato da esquerda como sendo clientelar em sentido lato, despesista, inepta a governar, isto é, acha-se única e com competência para governar. Como se a direita não fosse também clientelar.

Para a direita a esquerda é o pior dos mundos porque parasita o Estado para a partir dele distribuir lugares, subsídios à conta dos contribuintes. Ora o que temos visto ao longo dos anos de democracia são os escândalos da direita que, quando descobertos, são abafados, omitidos, esquecidos ou pouco divulgados pela comunicação social.

Para ambas, estes pontos de vista são extremados e ultrapassam o racional situando-se no campo emocional.

Devido aos atentados terroristas a esquerda, nos países com problemas, teve que tomar medidas de controle e vigilâncias devido à ameaça real aos valores da democracia que normalmente são do âmbito da direita e que apelidava de fascizantes.

A direita quando critica a esquerda apaga do seu rol as crises financeiras e económicas que possibilitou e até facilitou. Refiro-me à direita global que fez abalar a confiança no sistema liberal e neoliberal e na sua capacidade de autorregulação dos chamados mercados e falhas de supervisão, não sabemos se voluntárias ou por incompetência. A direita esquece os sucessivos escândalos financeiros que têm provado que, num sistema liberal ou neoliberal, o capitalismo sem controle não tem nada de virtuoso. Nem todos os chamados capitalistas se enquadram no perfil de virtuosidade que muitos ideólogos dizem por aí.

A esquerda democrática, ou socialismo democrático, é favorável à convivência entre o Estado e o mercados/empresas e empresários e é defensor da UE e da moeda única. A chamada centro-esquerda e o centro-direita têm vindo a diluir-se cada vez mais, como se verificou por exemplo em Portugal pela deriva da social-democracia para o neoliberalismo verificado na última década deixando o papel que era atribuído para os socialistas.

A direita fala do seu pragmatismo, coisa que as esquerdas, as da extrema, pretenderam sempre contrariar, mas assumem hoje em dia que já não são como no passado uma alternativa ao sistema passando a querer integrá-lo. O mesmo se passa com a direita e as suas extremas com a nuance de que estas querem de facto passar a tomar conta do poder vendo para tal entreabertas as portas através nas eleições, graças ao populismo, como se tem vindo a verificar por essa Europa.

A bandeira das novas extremas-esquerdas deixou de ser a revolução para a tomada do poder, mas a defesa intransigente do Estado Social e a “luta”, dos direitos dos trabalhadores e contra o neoliberalismo.

Os defensores da direita agarram-se ao argumento baseado em que, antes da crise, havia desigualdade entre rico e pobres, mas havia salários aceitáveis(?) e empregos certos. Argumento este falacioso para a manutenção dum status quo que lhes interessa: a política da manutenção de salários baixos e uma mão de obra obediente que aceite qualquer trabalho passando uma mensagem na ótica do medo do desemprego, isto é, mais vale ganhar mal e ter trabalho certo do que não o ter.

Curiosamente, o modelo da esquerda radical, inspirado pelo maio de 68, a esquerda dos intelectuais foi o que permitiu a reconstrução da Europa no pós-guerra. Era os tempos do Chanceler Adenauer na Alemanha e do tempo do trinta anos gloriosos em França,   período de crescimento forte e contínuo que deu ao país o seu lugar como grande potência industrial e, à época, quase de pleno emprego, foi o da criação do Estado Social. Na Inglaterra surgia o Relatório Beveridge, o “Report on Social  Insurance and Allied Services” conhecido como Plano Beveridge (em1942), cujo mérito foi o de ser o precursor de um plano político concreto, com propostas de reformas sociais abrangentes e universalistas (Welfare State). Assim, foi capaz de implantar um avançado regime de proteção social obtendo ampla aceitação com repercussão na aplicação prática.

O modelo económico da esquerda radical, na altura e naqueles países, era baseado no consumo e no investimento privado, na segurança no emprego, no Estado Social e numa democracia representativa.

A direita, para obtenção, de votos tende a recorrer a formas de populismo inconsequentes que se aproximam das da extrema-direita, esta, por seu lado, através das suas promessas, capta à direita moderada eleitores insatisfeitos com o sistema.

Face ao cenário do que se tem passado na Europa, não será de depreciar que, a direita liberal, para manter a sua sobrevivência, evitar a sua queda lenta, mas contínua, e subir nas sondagens nas intenções de voto, ceda à pressão e à tentação dos extremos procurando cobrir áreas mais radicais do tipo popularucho e nos domínios casuísticos que sabem explorando os domínios emocionais das populações.

A radicalização dos discursos à direita ou à esquerda ou às esquerdas radicais terá sempre efeitos perturbadores que apenas as descredibiliza e mina a confiança de todos os cidadãos.

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publicado às 18:18

Um regresso ao passado através de Salazar

por Manuel_AR, em 18.09.17

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Acabei de ler o este livro que foi o resultado de uma tese de doutoramento de Moisés de Lemos Martins em 1990. Esta é uma 2ª edição lançada em dezembro de 2016.

Escrita por um sociólogo que não se poupou a linguagens técnicas do discurso filosófico e sociológico torna-se, especialmente na primeira parte do livro, de leitura difícil para o comum dos cidadãos que não possua uma formação académica numa daquelas áreas.

O livro é uma análise de conteúdo do ponto de vista semiológica e interpretativo da política salazarista através dos seus discursos que o autor várias vezes cita. Os discursos de Salazar desde 1928 foram construídos para uma política redutora da sociedade portuguesa que necessitava duma regenerescência concretizada através duma construção minimalista da nação pelo somatório das células familiares que ele considerava ser essencial para o controle e manutenção da ordem social, mas que era redutor no seu conjunto e apenas como corpo da nação.

Os sistemas partidários destroem as nações são os fabricantes da mentira comparado com verdade do regime. A ordem militar prevenia a desordem civil. A nação era um corpo cujos órgãos necessitavam de regeneração e consequente de normalização.

Dizia Salazar num dos seus discursos “O lar desagrega este, separa os membros da família, torna-os um pouco estranhos uns dos outros”.  E noutro ainda “A União Nacional vincula os indivíduos a uma disciplina que previne os efeitos da divisão irracional do espaço nacional, da exploração das paixões dos indivíduos, da sua concentração doentia (espirito de grupo, de partidos, etc.)”.

Para o autor era a tecnologia da obediência, para Salazar a disciplina ética que prevenia a fragmentação nacional instaurada pela violência dos partidos. Ora, os órgãos da nação doente necessitavam de uma reordenação disciplinar através dum conjunto de táticas que combatessem a fragmentação e a irracionalidade da pátria. Mais adiante o discurso salazarista afirma implicitamente que pretende prevenir a revolução social, a luta de classes, a associação revolucionária, quer dizer, «a força ao serviço da desordem», a disciplina ética impõe o «espírito corporativo» a todos os interesses materiais e morais da nação.

Uma leitura acrítica da mensagem salazarista pode levar alguns a saudosismos ideológicos da filosofia política de Salazar que ainda andam por aí.

Enfim um livro difícil, mas interessante.

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publicado às 13:26

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Para quem escreve Paulo Rangel do PSD? Para quem, do povo, menos iletrado, o leia e não percebe patavina. É um discurso hermético apenas para alguns eleitos a quem provavelmente se dirige.

A sua retórica é a de alguém que procura exibir um conhecimento intelectual levando leitores a desistir da sua maçadora prosa. Eu, cá por mim, não me considerando, de todo, um desses eleitos e iluminados a quem os seus textos parecem dirigir-se lá vou tentando fazer um esforço para o ler e compreender.  

O último artigo desse supremo intelectual e ideólogo da política neoliberal por onde enveredou o PSD é um caso paradigmático do que acabo dizer. Na amálgama de conceitos sócio-político-filosófico-partidários o leitor desprevenido, e, como escrevi em parágrafo anterior, sem a formação adequada perde-se pelos diversos e complexos conceitos da política do partidarismo e da sociologia sem tirar conclusão plausível, mantendo-se em explicações e argumentos já cansativos que volvem sempre ao passado onde não se vislumbra qualquer projeto para o futuro, ainda que o seu líder tenha utilizado no último congresso o chavão “Social-democracia sempre”.

Paulo Rangel, desde qualificar o PSD como partido que não é de massas mas um “partido de eleitores” de “abertura” e de “adaptabilidade” do seu “leque ideológico” lá vai dizendo que os “eleitores e militantes não são atraídos por um programa” e devem ser os “produtores de um programa que os atrai”. Se bem se percebe aos eleitores e simpatizantes do PSD não interessa uma ideologia, um programa, um projeto, são eles que o irão construir ao votar no desconhecido.   

Mas vejamos esta complexa e ambígua frase que caracteriza o seu discurso: “Os eleitores e militantes não são o propriamente atraídos por um programa; eles foram e são – e, questão decisiva no futuro, devem novamente ser - os produtores de um programa que os atrai. Dito de um modo mais apelativo: no PSD, os simpatizantes e os militantes não veem um programa, eles revêem-se no programa - porque o programa é pela própria elasticidade genética ou constitucional (constitutiva) do partido, de algum modo, um reflexo ou uma refracção da afinidade sociológica da sua composição.”

Tudo isto para dizer que simpatizantes e militantes revêm-se no programa do PSD. Eles não veem um programa, reveem-se nele – diz ele. Fantástico!

Atenção, isto não fica assim, porque vai deambular para a sociologia eleitoral caracterizando a base de apoio do partido afirmando que, ao contrário do que escreveu anteriormente, não se pode “enganosamente” caracterizar o partido “como um partido de classe” (classe média, de feição pequena e médio burguesa ou de pequena e média propriedade rural e de uma boa parte das profissões liberais ou com formação universitária…) e que, se assim fosse, agora recorrendo a Marx, afasta o PSD desse cálice. Nada disso porque, a ser assim, o PSD seria uma instituição encarregada de politicamente zelar e velar por esse agregado de interesses e valores.

Basta olhar para as estatísticas eleitorais ao longo dos anos e para trabalhos estatísticos no âmbito da geografia eleitoral como por exemplo “Comportamento eleitoral e o voto através de indicadores regionais nas eleições de outubro de 2015: Uma análise geográfica do voto” que mostra que é precisamente nas regiões onde esses eleitores, de feição pequena e médio burguesa ou de pequena e média propriedade rural e camponeses de parcos recurso como ele diz, se concentra em maior massa o eleitorado do PSD.

Mas lá vai argumentando Rangel que, “Sem nunca desdenhar da pertinência duma análise social e até da categoria “marxiana” da classe social – análise, em todo o caso, sempre parcelar, relativa e redutora – não é esse o traço que aqui se pretende realçar. Por mais dialética que se reclame, uma análise de classe seria, hoje e irremediavelmente, uma análise estática, conservadora, imobilizadora.”. Essa categoria “marxiana” (neologismo inventado pelo super intelecto ideólogo do partido) não é mais do que um contrassenso.

Rangel vê em Marx o imobilismo? Se assim for, então qual a finalidade ideológica da contínua luta de classes que Marx preconizava senão a de potenciar, através da luta permanente, (do meu ponto de vista, hoje em dia, essa apologia da luta de classes é destrutiva e injustificada da forma como partido mas radicais a propõem), em que uma classe ascende a outra sem olhar a meios para tingir os fins, em direção a uma sociedade sem classes, essa sim conduzindo ao imobilismo? Sem que Rangel se aperceba o imobilismo talvez esteja mesmo no PSD com Passos Coelho na liderança. Mais ainda, esse tal eleitorado do PSD tem-se mostrado ao longo do tempo com uma instabilidade eleitoral conjuntural.

Poderíamos continuar por este caminho, mas o título do artigo de opinião de Paulo Rangel publicado no jornal Público de 12 do corrente diz tudo: “Mobilidade social: um desígnio para o PSD pós-troika (2)” que pode resumir-se, segundo as suas próprias e demagógicas palavras proclamadas no último congresso do PSD, a que “o partido deve fazer da mobilidade social a sua “grande bandeira para os próximos anos” e considerou que está na hora de Portugal deixar de ser “o país dos doutores” e “virar a página na estratificação social e na estrutura elitista e aristocrática da sociedade portuguesa”.

Não tenho a certeza se Rangel, licenciado em Direito pela Universidade Católica, sabe o significado do conceito sociológico de mobilidade social, algo complexo que, lançado para o ar, pode levar à confusão. Mobilidade social entendendo-a como sendo movimento de indivíduos entre diferentes posições sociais. Este mesmo conceito divide-se ainda em mobilidade vertical e mobilidade horizontal. A qual delas se refere Rangel? Será à mobilidade vertical definida como movimento ascendente ou descendente na hierarquia de posição num sistema de estratificação social? Ou refere-se à mobilidade horizontal que é o movimento físico de indivíduos ou grupos entre regiões.

Estranhamente, e se bem percebi, Rangel, com esta frase, mais parece um esquerdista radical da altura do 25 de Abril. Tece uma viragem populista do partido que nos últimos anos ficou virado para si mesmo, que foi, e é elitista, afirma agora que tem que se combater a estratificação social e a estrutura elitista e aristocrática da sociedade portuguesa, e fora com o doutorismo. Paulo Rangel mais parece um revolucionário marxista ressuscitado que defende levar Portugal no sentido da sociedade sem classe. Aonde chega o desplanto!

Afinal, quem és tu PSD?

 

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publicado às 16:09

Abandono da social-democracia pelo PSD já!

por Manuel_AR, em 06.04.16

Hoje resolvi incluir aqui um e-mail que escrevi a João Miguel Tavares sobre o artigo de opinião que escreveu no jornal Públicohttps://www.publico.pt/politica/noticia/o-tempo-corre-a-favor-de-passos-1728040 relativo ao passado Congresso do PSD que tem a ver, segundo ele, com a a ultrapassada social-democracia. Posso colocar a questão das seguintes formas: social-democracia eis a questão ou, abandono da social-democracia pelo PSD já!

Boa tarde Caro  João Miguel Tavares,

Duvido que o tempo corra a favor de Passos, mas não é por isso que lhe vou fazer perder o seu.

 

Li com muita atenção o artigo de opinião publicado no jornal Público de 5 do corrente. Raramente os leio e quando o faço também raramente concordo consigo, digo isto percepcionando que isso também não lhe faz diferença alguma.

Independentemente da concordância ou não com os seus pontos de vista eles apresentam, não raras vezes, um explícito cariz de facciosismo. Não tome isto como ofensa é apenas um ponto de vista político e não pessoal.

Mas voltemos ao seu artigo. Face ao argumentário apresentado não seria despiciendo que apresentasse sugestões nos seus artigos para que o PSD – Partido Social Democrata abandonasse esta designação e fosse substituída por uma outra em que as palavras social, democracia e social-democracia deixassem de vigorar no programa já que afirma explicitamente: “Só que essa definição de social-democracia vai invariavelmente desembocar num modelo de sociedade estatista, alumiado pela eterna lamparina de São Bento, que se mostra esgotado há 20 ano. São aqueles que gostavam que o PSD fosse um bocadinho mais parecido com o PS.”. Será que deveremos concluir que, quem como eu, atribui a Passos Coelho o epíteto de liberal ou neoliberal têm razão? Senão, que outra designação se poderia atribuir ao partido que ele lidera?

Algo não bate certo. Tendo em conta as críticas que faz no seu artigo a quem não concorda com o atual líder do partido por defenderem, como diz, a ultrapassada social-democracia, como explicar então a frase “Social-democracia sempre” como slogan do congresso que Passos Coelho aceitou e recuperou? A honestidade de propor a mudança da sigla e denominação do partido evitaria confundir potenciais eleitores de estarem a ser enganados, como eu o fui em 2012, por uma sigla partidária a que está mais ou menos associada a uma ideologia política.

Claro que poderá sempre dizer-se que essas siglas e atributos são apenas chavões utilizados pelos partidos mas que propriamente não os define. Todavia, quem vota tem o direito de ser esclarecido sobre o partido em que pretende votar. É uma escolha que se traduz num programa de qualquer partido que apresente quer orientações de direita, quer de esquerda, quer de assim-assim. Se não houver orientações para opções de escolha a democracia não será mais do que palavreado para enganar. Então fora com a social-democracia do Partido Social Democrata.

 

Com os meus melhores cumprimentos,

 

Manuel Rodrigues

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publicado às 19:51

Fuga da coligação.png

 

A mentira, a omissão, o engano, a falsidade e a adulteração de factos continua a ser a postura do ex-primeiro-ministro Passos Coelho e do seu grupo parlamentar, agora na oposição.

Passos Coelho ainda não despiu o fato de chefe de governo e a mesma máquina de marketing de propaganda continua ativa. Eventos "fabricados" para continuar a propalação da sua imagem, como se ainda fosse chefe de governo, para preparar atempadamente a sua candidatura a líder duma ala neoliberal que se infiltrou no PSD que, agora, oportunisticamente, defende princípios da social-democracia.

O CDS-PP, numa tentativa para a demarcação do seu anterior parceiro, votou contra um orçamento retificativo devido aos acontecimentos do BANIF que foram provocados pelo governo onde Paulo Portas foi vice primeiro-ministro. Caso estranho, já que o orçamento de 2015 foi da autoria do governo da coligação PSD.CDS-PP, sendo portanto da sua responsabilidade a necessidade urgente dum orçamento retificativo.

É sabido que a comunicação social, especificamente a televisão, pode condicionar muitas atitudes, mas daí acusarem a TVI pelo problema do Banif por ter colocado em roda pé a desvalorização das ações do Banif ser a causadora da derrocada do banco é o cúmulo do descaramento. SE não fosse grave seria para contar como anedota. À falta de melhor o disparate passou a ser o argumento do PSD e do CDS-PP.

O CDS-PP ao votar contra o orçamento retificativo pretendeu mostrar para o exterior que se demarcava do seu anterior parceiro de coligação e que nada teve a ver com o facto. Mais uma exibição para a opinião pública duma manobra de ilusionismo do ilusionista e acrobata Paulo Portas. Seria também interessante para a opinião pública dizer que solução apresentaria, nas mesmas circunstâncias para o BANIF e como o faria incluir no orçamento que é seu e do seu parceiro do PSD.

O retardar das decisões sobre o BANIF, a trapalhada e a confusão com que o governo anterior foi construindo e gerindo um processo que adiou soluções com as desculpas que em gíria popular se chamariam de esfarrapadas, pode levar a que se levantem legítimas suspeitas sobre o que estaria por detrás de todo o caso, e de como pensariam Passos e Portas resolver o problema.

Muitos outros buracos poderão aparecer e a propaganda dos cofres cheios será desmontada.

O aproveitamento de divergência normais entre partidos mais à esquerda do PS, PCP, PEV e BE, serão aproveitadas e escalpelizadas até ao milímetro pelos agora na oposição Passos Coelho e Paulo Portas mas, se a direita espera que este Governo do PS em funções seja deposto com o apoio dos votos parlamentares daqueles partidos bem pode esperar sentada porque irá cansar as pernas de tanto correr. É esta espectativa que também lhes provoca rubor nas faces quando intervêm com desvairo no parlamento.

Quanto ao Presidente Cavaco Silva, que anda por aí fazendo afirmações sem nexo e inúteis, como aquela de que a "governação ideológica” acaba sempre por ser “derrotada pela realidade” para este "sábio" do disparate é a ideologia versus pragmatismo, como se a política fosse, de todo ou em parte desligada da ideologia e esta da economia. É no mínimo risível e serve apenas para demonstração de prova de vida pelo que já nem vale a pena comentar. Camilo Lourenço disse em tempos que a história no ensino não serve para nada… Cavaco deve ser um adepto desta douta ideia.

 

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publicado às 19:22

No Jornal Expresso de 01 de fevereiro passado foi publicado um artigo de opinião do editor da Gradiva Publicações, Dr. Guilherme Valente, denominado "A formação de professores e a capital do Camboja" onde criticava as conceções educativas adotadas em Portugal e punha em causa as escolas superiores de educação. Isto, porque ficou escandalizado com a ignorância de muitos dos concorrentes, e com razão, do concurso "Quem quer ser milionário" que tem passado na RTP1. Não resisti a comentar um artigo de 555 palavras com cerca de 2500, pois o assunto é de tal modo complexo que não nos podemos limitar a dar umas dicas mais ou menos ideológicas conforme o que achamos ou devemos achar sem quaisquer fundamentos credíveis.

Tenho que dar razão ao autor do artigo e fico atónito com a manifestação da ignorância revelada por parte de alguns concorrentes, por mim já constatada, nas respostas que dão no referido concurso.

As respostas ou melhor comentários dos concorrentes exemplificados no artigo não me espantam. Através de uma análise mais cuidada pode verificar-se que são uma fuga e uma forma de tentar fazer humor, embora triste, com a própria e manifesta ignorância. Inferir que tudo isto é uma consequência dos modelos construtivistas, sim, porque há vários, e das escolas superiores de educação a quem cabe a responsabilidade da formação de professores parece mais uma espécie de rancor despido de qualquer racionalidade. Talvez haja quem prefira que sejam advogados, engenheiros e outros sem qualquer formação pedagógica e didática a dar aulas a crianças.

Ao relacionar a causa das respostas e afirmações disparatadas dados por concorrentes de concursos televisivos com determinado modelo educativo põe, do meu ponto de vista, em causa a credibilidade do autor no que respeita à educação. Aliás, desconheço quaisquer investigações científicas efetuadas e publicadas pelo autor do comentário sobre temas educativos reconhecidos nacional e internacionalmente.

Do meu ponto de vista, o que é grave, é a imputação e responsabilização da ignorância dos concorrentes a um concurso televisivo atribuídos à “inspiração dos gurus que geraram” e que alguns "impuseram por cegueira", que conduziram devido à recorrência a uma espécie de "perturbação sináptica e memética que perdurará".

O tema educação no que respeita aos modelos e conceções pedagógicos e educativos adequados para a nossa população escolar não tem sido objeto de debate público a não ser em círculos especializados. Nestes últimos três anos o que se tem visto são, por um lado, as sucessivas tentativas de reduzir os recursos à escola pública e, por outro, o retirar verbas dos nossos impostos para os atribuir às escolas privadas, mesmo àquelas onde existe oferta pública mais do que suficiente. Todavia nada se sabe sobre propostas educativas concretas do atual ministro para um projeto educativo para o país. Destrói-se o que existe e pronto!

Tornar a escola pública obsoleta e à míngua de meios é o objetivo que vai ao encontro do que alguns chamam destruição da escola pública. Medidas que vão agravar ainda mais o problema que dizem existir.

Há uma revolução em curso, no sentido negativo, apoiada por iluminados e defensores de uma escola idêntica à dos 41 anos da ditadura no que se refere a programas e conceções de ensino-aprendizagem.

Fala-se da alteração dos programas e dos currículos, da exigência, dos exames como condição última da aprendizagem e da qualidade e tecem-se críticas, não fundamentadas, às escolas superiores de educação. Fala-se de mais do ensino e muito pouco de aprendizagem. O ensino tomado como mera transmissão de conhecimentos é o fim em vista. Nada se esclarece claramente sobre qual deve ser o projeto em quem deve assentar o nosso sistema educativo.

Conheci um diretor de uma escola superior que chegava a afirmar que as ciências da educação não passavam de uma moda sem interesse e que, aos futuros professores, cabia apenas a missão de ensinar a ler, a escrever e a contar. Parece ser este, felizmente apenas para muito poucos, o ponto de vista dos tempos que correm. 

Como licenciado em filosofia, seria suposto o Dr. Guilherme Valente ter um espírito aberto, embora crítico, não imbuído de um hermetismo científico obsoleto onde a ideologia se sobrepõe. Podemos aceitar, ou não, certas teorias, modelos ou conceções educativas e, com todo o direito, proferir críticas fundamentadas e colocá-las à discussão para as validar à luz de metodologias apropriadas, que não propriamente programas de entretenimento televisivo que em nada validam ou invalidam teorias e investigações científicas. Não vem agora a propósito mas o exemplo dos resultados do último PISA poderia invalidar a tese do Dr. Guilherme Valente.

Tendo tirado uma pós-graduação na Universidade Aberta, segundo penso, o Dr. Guilherme Valente deveria saber que o modelo construtivista é o adotado por aquela universidade. Assim, posso ser levado a concluir que o artigo nada mais é do que uma publicidade barata a uma determinada edição da Gradiva Publicações, sem querer colocar em causa as muito boas obras que esta editora publica e o contributo dado para cultura nacional.

Afinal acabo por não compreender e o defeito é sem dúvida meu, qual é ou quais são as propostas e conceções educativas que apresenta em substituição das tais “conceções educativas construtivistas impostas na escola há mais de 30 anos” a que se refere. Depreende-se do texto publicado uma visão ideológica tolhida por um conservadorismo retrógrado e passadista que não se adequa a uma escola dita de massas como é a do ensino obrigatório que não existia no passado.

A comparação com as experiências de Summerhill que penso eu nada têm a ver com as conceções educativas e didáticas atualmente praticadas é uma representação falsa e demagógica da realidade. Fiquei a saber, ignorância minha, que a experiência restrita de Summerhill era praticada em Portugal durante a ditadura e que continuou a sê-lo após o seu derrube porque, segundo afirma o autor, “Começa a revelar-se agora o que estas conceções educativas podem produzir quando impostas durante tanto tempo à totalidade das escolas de um país inteiro. Quarenta anos de ditadura com outros tantos de ‘eduquês` em cima” e isto tudo se conclui de um simples programa de divertimento televisivo.

Pelo que se depreende, parece que o modelo educativo passadista que nos era imposto e na base do qual estudámos, baseado apenas na memorização sem reflexão, na aceitação sem discussão, na absorção de ideias entorpecidas que nos transmitiam numa ótica de magister dixit para serem debitando de seguida numa folha de papel de exame também não eram os mais adequado.

Se as conceções educativas do passado não servem, e as praticadas no presente também não, não se compreende onde se pretende chegar. Se os quarenta e um anos de ditadura e os mais de trinta do tal “eduquês” a que o autor se refere não serviram, nem servem, e ambos são nocivos resta saber então qual é o modelo ou conceção a adotar.

O argumento da excelência sem uma base para a sua criação e surgindo do nada serve para tudo. Cabe perguntar onde está a excelência dos políticos e dos técnicos que falam sobre os temas da educação que nada propõem ou adiantam e apenas destroem. Pode estar neles a salvação da educação.

O que está em crise na educação é a autoridade democrática e a dignidade do professor que têm sido postos em causa pelos sucessivos governos, e ainda mais por este, que levaram os jovens a não os respeitar devido às políticas dos sucessivos pelouros educativos e que o atual tem agravado.

Quaisquer que sejam as conceções educativas, pedagógicas e as didáticas praticadas, se nada for feito naquele sentido bem podem continuar a chover críticas ao sistema. Não basta alterar programas e substituir palavras como competência e objetivo por metas para que algo resulte. A questão essencial é muito mais profunda. Porém, em contraposição há um claro movimento na educação que pretende repensar o papel da autoridade democrática do professor mudando algumas regras nas formas da relação educativa.

O autor afirma ainda que as conceções educativas praticadas não informaram nem ensinaram a pensar. Ora essa! Então não é o que propõe o modelo construtivistas que, ao contrário da absorção acrítica de conhecimentos, pretende que o aluno aprenda a pensar com base na resolução de problemas? Mais uma vez devo estar com problemas de compreensão porque achava que não é a mera transmissão de conhecimentos e a memorização mecânica que ensinam a pensar. Associam-se conceções educativas com facilitismo. A exigência, o rigor e a avaliação e estes devem ser os atributos de qualquer conceção.

Ensinar não é apenas transmitir conhecimento como alguns pretendem. O modelo que perfilham no fundo é que os alunos sejam apenas um reservatório acrítico dos conhecimentos transmitidos pelos professores que deverão ser debitados em exame típicos não aferido às respetivas idades mentais e cronológicas e que negam à partida os patamares de aprendizagem que diferem os indivíduos. Como se todos fossem iguais e aprendêssemos ao mesmo ritmo, tal e qual entra o porco numa fábrica e sai o chouriço. Aí muitos acabarão por ficar no caminho e pelo abandono escolar. Para resolução deste problema há solução proposta por outras áreas ideológicas, tal como seja acabar com o ensino obrigatório.

Quanto às escolas superiores de educação acho que informaram mal o Dr. Valente porque revela total desconhecimento do que se passa nestas escolas superiores quando escreve que são as conceções educativas, cultivadas nos cursos de formação de docentes, que esses novos professores transportam para o básico e o secundário, cujos alunos, por sua vez assim formatados, entram e se profissionalizam depois naqueles mesmos cursos”. A minha compreensão ou talvez ignorância estão mais uma vez presentes porque pensava eu que o construtivismo e a aprendizagem baseada na resolução de problemas não formatava os alunos, bem pelo contrário, estimulavam à reflexão e à compreensão. Estava na escuridão e agora fez-se luz ao ler o artigo.

Talvez as propostas não explícitas do Dr. Valente sejam as conceções centradas no ensino e não na aprendizagem que defendem em geral a centralidade do papel do professor e a ênfase na transmissão dos conhecimentos.

O artigo coloca questões sem resposta, uma delas é modo como o construtivismo coloca em causa a abstração e as ciências puras pergunto? O exemplo do princípio de Arquimedes que o autor evoca não servirá com certeza os seus intuitos e pode ser facilmente desmontado já que, da forma como o coloca, somos levados a pensar que se defende uma ótica do conhecer e papaguear os princípios e não na compreensão dos seus fundamentos, traduzidos em fórmulas matemáticas aplicadas à física. O construtivismo neste caso pode ser mais eficaz e um complemento à memorização. Quando se mostrar a um aluno que ao colocar determinado objeto num recipiente com um líquido ele flutua e, de seguida, lhe perguntarmos porquê ele poderá colocar várias hipóteses e construir uma teoria sobre o que acabou de observar. As hipóteses serão então comprovadas ou não posteriormente com a ajuda do professor que ajudará à abstração e generalização através da representação e demonstração matemática do fenómeno.

Isto não é mais do que a metodologia das ciências. Será que o aluno, nestas circunstâncias não utilizará as necessárias ferramentas cognitivas que já possui e não memorizará de modo mais fácil e duradouro?

No meu modesto entendimento o currículo e as estratégias pedagógicas e didáticas que melhor preparam os alunos para serem trabalhadores produtivos e cidadão do futuro não é a de "enchê-los" com teorias e factos do presente que rapidamente ficarão desatualizados, mas as que irão mostrar-lhes como aprender autonomamente para se atualizarem e de como utilizarem a informação que adquirirem. Para tal os alunos precisam de:

 

  • Aprender uma base de conhecimentos essenciais – informação essencial.
  • Ter capacidade para utilizar eficazmente os conhecimentos em situações-problema dentro e fora da escola – compreensão.
  • Ter a capacidade de alargar ou aperfeiçoar esse conhecimento, desenvolvimento estratégias para lidar com problemas no futuro – uso do conhecimento ativo.
  • Ter capacidade de transferência, isto é, quando entre a situação de aprendizagem e a situação de aplicação há elementos comuns.

 

Há estudos que demonstram que os alunos se esforçam mais por compreender e recordar quando conseguem ver relações entre a matéria que estudam e as próprias vivências. Que professor já não se confrontou com a pergunta de alunos que o questionam sobre a necessidade de estudar um assunto ou que utilidade terá para eles. A pergunta recorrente mesmo em universidades é para que é que isto serve? Esta resposta pode ser-lhes fornecida pela aprendizagem baseada em problemas. Claro que tentar responder à questão com tudo o que é prático pode ser falacioso porque rejeita à partida tudo quanto seja do domínio da teorização e abstração. É necessário o bom senso para não se cair no facilitismos, mas isso depende de técnicas e competências a adquirir pelos professores durante a sua formação pedagógica e didática.

Princípios ideológicos estão visivelmente patentes nas atitudes anti construtivismo. Compreende-se, porque muitos dos que se lhe opõem foram educados, tal como eu, no antigo regime de ditadura tempo em que pensar e refletir sobre o mundo era coisa a evitar. Nas universidades os alunos não podiam sair fora do que o professor dizia nas aulas e nas famigeradas sebentas sem o que seria certa a reprovação.

Se alinharmos por uma lógica de que o modelo que enxameou o ensino há mais de trinta anos não contribuiu para a qualidade e a excelência e trouxe consequências nefastas, podemos então demonstrá-lo através das competências de alguns dos atuais jovens governantes, assessores e outros, que aprendendo segundo as tais conceções que são postas em causa. Neste caso poderemos estar então de acordo, porque os resultados têm estado á vista.

O que está em causa é, afinal, a menorização da escola pública. Não tenho nada contra as escolas privadas pois foi nelas que fiz o meu percurso educativo no tempo em que os dinheiros do Estado não eram desperdiçados em benesses para as clientelas do ensino privado fossem elas laicas ou religiosas. O esclarecimento cabal para as atuais distribuições de erário público pelo ensino privado nunca nos foi explicado.

Penso que os defensores do regime neoliberal deveriam considerar as escolas privadas como qualquer outra empresa e sujeitarem-se à concorrência e às leis da oferta e da procura, competindo com as suas congéneres e as de oferta pública, deixando o Estado de lhes prestar assistência financeira excluindo, claro está, as zonas onde não existe este oferta. O princípio não é o de melhor Estado, menos Estado, para poupar o erário público? O problema é que há sempre dois pesos e duas medidas.

Um dos argumentos que é apresentado é que sai mais barato subsidiar o privado do que manter escolas públicas. Algo está errado, ou fazem mal as contas ou o ministério da educação é composto por uma série de incompetentes que não sabem como fazer a rentabilização das escolas que lhe pertencem.

Não vale a pena continuar quando a cegueira evidenciada tem como pano de fundo apenas questões ideológicas. Mas quem sou eu para comentar um comentador com tal craveira intelectual?

 

 

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publicado às 20:05

Este texto foi escrito, já lá vão cerca de quatro anos, para uma aula da disciplina de Relação Educativa que lecionei na licenciatura em Educação Social mas que nunca cheguei a apresentar na aula. Descobri-o agora arrumado na minha base de dados. Resolvi adaptá-lo à realidade política e publicá-lo neste blog.

Amor, alegria, satisfação, ciúme, tristeza, cólera e outros sentimentos desencadeiam comportamentos, que normalmente são observáveis através de reações fisiológicas e de expressão corporal, que fazem parte das experiências emocionais em que a emoção e a cognição estão envolvidas

A tristeza, a cólera, e outros do mesmo tipo, por sua vez, podem desencadear sentimentos também observáveis através de reações de expressão coletiva que, no meu ponto de vista, serão o somatório das várias emoções individuais derivadas de experiências vivenciadas onde a emoção e a cognição também estão envolvidas. São sentimentos indesejáveis que não se prestam à meditação isolada e melancólica antes se traduzem numa revolta coletiva.

Meditar sobre as políticas de há dez ou vinte anos e tentar remendar o que está defeituoso para, à luz de outro ponto de vista ideológico lhe dar perfeição que ela nunca teve deveria ser génese, passar anos a fio a tentar remediar, através de agressões sociais, políticas estruturas implementadas ao longo de muitos anos é apenas uma forma que só pode estar presente no ideário de políticos incultos e incompetentes que por tal deveriam ser génese de reações de expressão coletiva.

Não sei se alguma vez se poderá demonstrar que é possível ser um político são de consciência e honradez. Ao percorrermos a imprensa dos últimos 20 ou 30 anos, verifica-se que nas investigações sobre corrupção há sempre políticos envolvidos em maior ou menor grau. Há-os também impolutos mas, se o são na corrupção, não o serão no domínio da falência da verdade e na conformidade entre a concretização do seu pensamento e na sua expressão na prática. Basta retrocedermos a um passado muito recente, os últimos dois anos, para confirmarmos esta asserção. Não me refiro a utopias, mas a promessas potencialmente exequíveis que são enterradas na memória de longo prazo para, na maior parte das vezes, não mais de lá saírem até que outros venham para que, novamente, se reinicie o mesmo ciclo sem-fim.

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É isto que trazem as juventudes partidárias sem valores que lhes sejam incutidos e que não são mais do que centros de incubação daquelas elites políticas que nos irão governar em futuros próximos e iniciarão novos ciclos de logros e perversidades políticas.

Quando se chega a um estado de inanidade é mesmo a decadência e uma prova de abaixamento de nível político e moral de um povo que, desiludido, já sem forças para resistir, insiste na reeleição e aceita sem comentários, a inclusão em governos de elementos que, se não foram condenados em primeira instância no mínimo se encontram debaixo da alçada da justiça por corrupção ou estiveram envolvidos em ambientes onde foi manifesta.

Nós, o povo, ignoramos imensas coisas, que muito importava conhecer, e esta falta de conhecimento e de interesse pela discussão e debate político sente-se na maior parte dos jovens e até nas classes que, pela sua posição social, deviam ser esclarecidas.

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publicado às 19:19


Apresentação

 

Já decorreram três semanas desde a comunicação da mensagem de natal de Passos Coelho ao país. Dispus-me então, nessa altura, levar a efeito uma análise de conteúdo da mensagem, seguindo critérios e metodologias de cariz científico recomendados para este tipo de análise. Todavia,  sobretudo nas conclusões e sem qualquer intencionalidade, pode não estar afastada alguma subjetividade. Tal, é devido a não estarmos em presença de uma ciência exata. Sobre este aspeto convém referir que, num trabalho como este, a bagagem supostamente teórica a ele inerente comporta numerosas armadilhas que são as aparências imediatas que nos são fornecidas, normalmente parciais. Daí que se tentou uma rutura com preconceitos e evidências aparentemente verdadeiras que nos podeiram vir a dar a ilusão de compreender as coisas.

Não se obtiveram dados que nos permitissem avaliar as permissas que conduziram à construção da mensagem analisada, a não ser a pré e a pós informação veiculadas pelos órgãos de comunicação social das quais, como já deixei antever, tentei afastar-me ideologicamente, o que não é fácil devido à existência de uma pluralidade contraditória de sistemas ideológicos presentes nos discursos concretos. Por outro lado, teve-se em consideração o afastamento das ideologias dominadas, as que se encontram fora da área do poder, e das ideologias dominantes, estas ligadas ao bloco do poder, que são as que mais prendem a nossa atenção, o que poderá ter sido um obstáculo ao trabalho produzido que pretendeu ser isento.

 

Posto isto apresento a seguir o resumo do trabalho efetuado.

 

Resumo da análise de conteúdo


A mensagem de natal de Passos Coelho revelou na análise de conteúdo efetuada que se presta a interpretações polissémicas ao nível político-partidária ao que se junta o elogio e o apelo ao narcisismo do telespetador tornando-o num herói. Tal e qual um horóscopo, o discurso da mensagem não revela um reino do fatalismo porque tudo é reposto na mão dos sujeitos objeto da mensagem. Isto é, estes podem atingir a felicidade, sem se saber quando, na condição de realizar o que para tal for necessário como por exemplo nas seguintes passagens:

“…sabemos que começámos a lançar as bases para um futuro próspero.”

“…todos beneficiarão das novas oportunidades que criaremos nos próximos anos…”

“…a certeza de que os dias mais prósperos  mais felizes do nosso País estão à nossa frente…”

O discurso é ainda, como num horóscopo, um orientador de consciência, antecipando de forma preditiva certezas, para os anos que virão, de oportunidades para todos os que estiveram presentes com “coragem” e “esforço”.

O discurso defende um sistema, aplicado a todos, que venha a corresponder à ideologia e ao modo de vida defendido pelo emissor. A essência do discurso é a consagração de um apelo ao comedimento pelos portugueses que, seguindo o que for prescrito, serão senhores do seu próprio destino. É um manual do esforço para alcançar a satisfação, cujo fruto não colherão ou cujo valor é menor do que o próprio esforço.

 

Para consultar o trabalho click aqui.

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publicado às 16:58


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