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A visão do bom senso

por Manuel AR, em 18.10.16

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O BE e o PCP têm uma obsessão arcaica sobre tudo quanto seja iniciativa privada e grandes empresas, contra as quais estão quase em permanente conflito ideológico. As ideologias sobrepõem-se-lhes ao pragmatismo. As ações políticas daqueles partidos assentaram sempre em duas dimensões essenciais: os trabalhadores, reformados e pensionistas que dizem defender; o ataque ao capital, identificado como os ricos, os grandes grupos económicos e as grandes empresas.

A sua atuação incide ao nível do primeiro grupo em reivindicações de aumentos excessivo de salários que contribuiriam para desincentivar o investimento, o aumento também excessivo de pensões que, a serem concretizados sem o mínimo de razoabilidade teriam um peso não sustentado da despesa pública. Ao nível do segundo grupo incide sobre a taxação e carga excessiva de impostos pouco razoáveis. Segundo aqueles partidos quando as empresas são lucrativas aumentam-se-lhes os impostos, cuja consequência é o desincentivo ao investimento e à criação de novas empresas. Além destas têm ainda a obsessão de todo o investimento ser público.Todavia há que ter presentes as conjunturas nacionais e internacionais desfavoráveis, por vezes, hostis a que se tem de atender cuidadosamente.

O Bloco de Esquerda, com certeza, deve ter observado com atenção o que se está a passar na Grécia onde o Governo do Syriza teve que ceder em pontos essenciais do seu programa. Sabe-se que ainda há pressões da União Europeia e do FMI para que a Grécia cumpra os ditames a que a obrigaram apesar do seu Governo ser o resultado de eleições livres. O Syriza tornou-se para aquelas instituições numa espécie de persona não grata, uma carta fora do baralho que não agrada à U. E. nem ao FMI porque o sucesso duma solução governativa deste tipo poderá colocar em causa as suas teses.

De acordo com notícias do The Guardian de 3 de outubro, a polícia grega foi obrigada a disparar gás lacrimogêneo e gás de pimenta contra pensionistas que protestavam depois que um grupo deles tentou empurrar um carro da polícia perto do gabinete do primeiro-ministro, Alexis Tsipras, cujo governo de esquerda enfrenta crescente pressão sobre as medidas de austeridade impostas.  Sucessivos anos de cortes levaram quase metade da renda mensal dos pensionistas que ficaram abaixo da linha oficial de pobreza. A quebra das promessas feitas por Alexis Tsipras foi-lhe imposta pela realidade das frentes externas com que se confronta. A resistência às privatizações caiu por terra. A potencial venda da companhia de água está em aberto e a dos comboios acabou por ser vendida por um preço baixíssimo.

De acordo com as previsões o Governo da Grécia está a depositar esperanças numa forte recuperação na economia que deverá registar em 2017 um crescimento de 2,7% do PIB no próximo ano em contraste com os 0,3% deste ano e após oito anos de recessão ou perto de zero de crescimento. Este crescimento previsto, a concretizar-se, poderá vir dar razão às teses europeias e do FMI que defendem as virtudes da austeridade extrema.

No caso português, as reformas profundas na organização social à boa maneira do princípio do século passado que as esquerdas mais ou menos radicais que pretendessem não parece ser muito viável. O radicalismo de esquerda que lutou pelo derrube da ditadura não funciona no século XXI. A viragem que pretenda fazer neste século tem que ser uma conjugação de esforços noutros países e nações. O aburguesamento de grande parte da classe trabalhadora (os ex-proletários) com novos hábitos de consumo que o capitalismo lhes proporcionou qualquer mudança no sentido da inversão necessita de novas estratégias o que não implica forçosamente abandonar a suas matrizes ideológicas essenciais. Talvez por isso mesmo aqueles dois partidos ainda mantêm nas sondagens as mesmas intenções de voto, salvo ligeiras oscilações.

A aplicação de políticas orçamentais radicais teria como resultado contrapartidas negativas imprevisíveis a curto prazo. À visão estreita do ponto de vista partidário que pretendia impor soluções irrealistas, imediatistas e de curtíssimo prazo, tão do agrado da sua clientela eleitoral a quem não interessa a realidade nem as consequências, e a síndrome do derrube do capitalismo sobrepôs-se o realismo que conduziu a um acordo.

O BE e o PCP sabem muito bem que vivemos numa economia de mercado, e que a utopia da construção duma espécie de império económico do Estado com pleno emprego, distribuindo aquilo que não se tem, não é viável.

O PS sendo um partido democrático que privilegia o Estado Social tem conseguido conciliar a excessividade reivindicativa subjacente àqueles dois partidos com o bom senso, daí ter sido possível que o Orçamento de Estado para 2017 tenha tido um final feliz nas negociações. Num regime partidário tem que haver compromissos e cedências que não desvirtuem a matriz de cada um dos partidos intervenientes.

A grande coligação da direita alemã, partidos CDU/CSU, com o partido social-democrata SPD, que nada tema ver com o PSD português de Passos Coelho, foi possível com cedências de parte a parte.

Em Portugal António Costa conseguiu também fazer consensos a nível parlamentar, mas com uma esquerda ideologicamente inflexível cuja visão, por falta de prática do exercício do poder, lhe toldava o pragmatismo de negociar propostas mais realistas sem, contudo, perderem a sua identidade.

Alguns comentadores, face às negociações, em princípio bem-sucedidas, do Orçamento de Estado para 2017, de forma provocatória, dizem que o PCP e o BE “meteram a viola no saco”, e acrescentam, “bem-vindos à economia liberal.” Estes senhores sabem que não é assim porque os princípios orientadores de cada um mantêm-se. É caso para lhes perguntar se, quando na direita há coligações ou entendimentos parlamentares, cada um abdica dos seus princípios ideológicos e se também nesse caso não metem as “violas nos sacos”.

Quer o PCP, quer o BE, têm duas alternativas, ou mantêm compromissos realistas com o partido do Governo, ou provocam a sua queda correndo o risco de perderem votos e de a direita voltar ao poder numas próximas eleições, situação pela qual serão em grande parte responsabilizados.  

 

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publicado às 18:33

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Tenho ouvido para aí responsáveis políticos e partidários, acolitados pelos seus comentadores de serviço, dizerem que António Costa tem ambição de poder e quer conquistá-lo a todo o custo. Não sei, e não tenho procuração para a sua defesa ou acusação. É, contudo, muito fácil de constatar que se uns procuram o poder, outros procuram mantê-lo a todo o custo. Num regime parlamentar quem faz ou desfaz governos é o Parlamento. A esquerda tem mais deputados do que a direita. É essa a sua grande angústia e raiva dissimuladas.

Se Passos Coelho quer manter o poder, a que diz ter todo o direito porque ganhou as eleições, o certo é saber como o conseguiria manter quando os deputados eleitos foram insuficientes para uma governação estável e duradoura que não lhe permite sustentar uma maioria na Assembleia da República. Por outro lado, a maioria de deputados são da oposição que, em conjunto, obteve 52,26% dos votos.

A coligação de direita PSD.CDS-PP, após as eleições, ao tomar consciência da situação em que se encontrava precisava duma muleta que lhe validasse as políticas, incluiu no seu programa de governo algumas das medidas do programa do Partido Socialista numa tentativa para o "capturar" politicamente chegando até a propor a sua entrada para o Governo. Aqui está, não convenceu ninguém com a partilha do poder.

O PSD esqueceu-se que, durante quatro anos não fez qualquer cedência nem tentativa de aproximação com o PS e não abandonou a sua posição neoliberal. Durante a campanha eleitoral ouviu-se Passos Coelho dizer que o seu programa seria a continuidade das políticas seguida e ao prever a impossibilidade duma maioria absoluta começou, com algum custo  a fazer algumas promessas para convencer o eleitorado.

Um acordo do PS não seria impossível noutras circunstâncias e com outra liderança no PSD. O que aconteceu foi que, como já o escrevi várias vezes, deu-se um deslocamento do PSD para a direita de tendência neoliberal, deixando para trás qualquer hipótese de negociação ao centro, pelo que, nas atuais circunstâncias, as negociações seriam apenas possíveis à esquerda. O PS não tem quaisquer afinidades com esta direita. Se também não a tem com sua esquerda, pelo menos conseguiu com ela negociar sem quaisquer preconceitos.

Acho que ninguém tem dúvidas de que o Partido Socialista tem uma tradição de fidelidade à democracia, seja em que circunstância for e, por isso, ao contrário de muitos outros não silencia tendências ou sensibilidades internas. Veja-se o caso do PSD que pelo facto de estar no poder as vozes que poderão ter pontos de vista diferentes não se ouvem.

Francisco Assis tem os seus pontos de vista que no interior do PS são duma ala mais à direita que discorda de alianças à esquerda. Está no seu direito. Mas desenganem-se os que pensam que ele seria por uma coligação com a direita. Segundo o seu pensamento, face ao que diz e escreve, seria favorável a que o PS se tornasse um partido do tipos balança parlamentar, deixando a coligação de direita governar e diligenciar ao nível parlamentar, Estando a direita em minoria aqui e ali seria obrigada a uma atitude mais negocial.

Um dos perigos que decorreria duma aliança estrutural com a direita seria o risco de "pasokização" do PS como aconteceu na Grécia, onde o PASOK desapareceu porque fez o que Assis e seus apoiantes defendem agora para o PS, uma aliança estrutural com a direita. 
A política da insegurança, do medo, do regresso ao passado, da instabilidade política, da quebra dos compromissos internacionais foram, durante a campanha eleitoral, e ainda o são, o mainstream (a corrente principal) da direita com que conseguiu manipular o eleitorado.

A coligação de direita PSD.CDS-PP fez perder a identidade política e programática e ideológica ao CDS-PP. Os princípios e programas diferentes fundiram-se num só, PSD e CDS são partidos diferentes mas iguais. Alguém consegue hoje em dia distinguir as diferenças entre o projeto do CDS-PP e o do PSD? A única diferença é Paulo Portas e os deputados que defendem juntamente com os do PSD e em uníssono as mesmas políticas. É bom que se pergunte onde estão as diferenças.   

É isso que muitos dentro do PS temem, que deixe de perder a sua identidade com uma aliança com a direita neoliberal, que se autointitula do centro.

 

 

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publicado às 18:57

Segura o tacho ó Nuno este é o teu país

por Manuel AR, em 20.08.15

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Há um crédito que Nuno Melo, deputado europeu pelo CDS/PP, me merece, é poder rir à gargalhada à custa dele. Numa coluna, apenas uma, mas mais larga, denominada “Linhas direitas” cujo título mais apropriado seria o de “Linhas da direita”, escreve uma série de meias verdades bordadas com matizes de falsidades. Em síntese, a economia está a crescer, diz, está tudo bom, e Portugal está bem e melhor. Se assim for como será depois se a coligação ganhar as eleições? Voltamos à mesma conforme Passos Coelho disse em tempo não muito longínquo, manteremos o mesmo rumo e nada será alterado.

Somos os maiores, ou quase, da zona euro. Maravilha de país. Deve ser por isso que Portugal virá a ser, como diz o seu líder do Governo Passos Coelho, uma das maiores dez economias do mundo. Segura o tacho ó Nuno!

Esta direita é falsa como as cobras. Estas, ainda têm desculpa porque é da sua natureza, mas os partidos desta direita são premeditadamente falsos.

Nuno compara e mistura Portugal com tudo sobre a Grécia. Deve ser o único e fraco argumento sem sustentabilidade que tem. Torneia premeditadamente a questão real de Portugal. Talvez gostasse que a Grécia não fosse ajudada e entrasse num colapso irreversível. Mas foi. E foi-o também pelo Parlamento alemão. Com uma mãozinha de Merkel e de Schäuble, votou a favor de novo resgate com 454 votos a favor, 113 contra e 18 abstenções. Onde se posiciona agora o CDS e o PSD com a sua coligação?

Nuno Melo, no seu artigo, e também a sua gente, revertem para o passado, sempre o passado, até no da Grécia, e esquecem o presente.

Para Nuno Melo Portugal é o país das maravilhas, mas sem Alice. Como Alice, também sonha em grande. Pois então! De alguns dados positivos que nada têm a ver com a atuação do Governo embandeira em arco e canta loas épicas de crescimento e prosperidade. Todavia, omite propositadamente o outro lado do espelho do país maravilhoso que não é o de Alice mas o dele.

O que está por detrás do espelho por onde Nuno Melo mira Portugal? Apenas isto:

Trabalhar era para o objetivo para ter uma vida digna acima do limiar da pobreza, agora é a garantia a sobrevivência e, mesmo assim abaixo desse limiar. Há cada vez mais portugueses que trabalham mas continuam a depender de apoios sociais. Outros, ainda, contribuem para aumentar a sopa dos pobres. É o teu país ó Nuno!

A solidariedade foi substituída pela caridadezinha, sinal da decomposição social. É o teu país ó Nuno!

Desregulação e desvalorização do trabalho e respetivas consequências sociais em conivência com a troika e o entusiasmo de quem se preparava para ocupar o poder, (já agora também um pouco de passado). É o teu país ó Nuno!

Tornaram as pessoas mais pobres na impossibilidade de desvalorização da moeda. É o teu país ó Nuno!

Os salários reduzidos, quer pela subida brutal dos impostos sobre o trabalho, quer pelo desmantelamento das convenções coletivas e pelo corte das pensões, entre outras. É o teu país ó Nuno!

O emprego aumenta virtualmente com valores ínfimos. É o teu país ó Nuno!

Os salários baixos passaram a ser a regra, apesar de Passos Coelho umas vezes dizer que é preciso baixar salários e outras vezes dizer que se devem aumentar salários, e o ministro da Economia, Pires de Lima, diz que é preciso aumentar o salário mínimo. Balelas! É o teu país ó Nuno!

Quem trabalha tem cada vez menos a garantia duma vida digna. É o teu país ó Nuno!

Há 880 mil portugueses a receber o salário mínimo em 2011 eram 345 mil (Fonte INE). É o teu país ó Nuno!

Não se aumentou meio milhão de postos de trabalho, mesmo com salários baixos, mas os que perderem o emprego só puderam regressar ao mercado de trabalho aceitando condições degradantes. É o teu país ó Nuno!

Os jovens que ingressam no mercado de trabalho têm que aceitar salários mais baixos do que o que era oferecido aos seus pais. É o teu país ó Nuno!

A competitividade é conseguida através da escassez, da pobreza, da miséria e logo com o assistencialismo. É o teu país ó Nuno!

Portugal à Frente, nome dado à coligação significa: crescimento da taxa de pobreza, desemprego a baixar por obra dos salários baixos, pela emigração, subemprego, precarização e desistência de procura de trabalho nos centros de emprego, o que reduz estatisticamente a taxa de desemprego. É o teu país ó Nuno!

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publicado às 18:45

A captura da Presidência da República

por Manuel AR, em 23.07.15

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Quem votou nas últimas eleições presidenciais em Cavaco Silva para Presidente da República  talvez visse nele um presidente distanciado de qualquer partido que viesse a ser Governo. Não foi isso que se verificou. A concretização do slogan “um partido, um presidente” foi um sonho tornado pesadelo.

Não há dúvidas de que a Presidência da República se transformou numa agência de propaganda dos partidos da coligação. Uma das mais recentes evidências do que afirmo é a defesa descarada do primeiro-ministro Passos Coelho pelo Presidente da República sobre as declarações de Jean Claude Juncker, Presidente da Comissão Europeia, ao jornal “Le Soir”.

Ao contrário de Passos Coelho e de Cavaco Silva quando o desmentem, Junker, afirmou sem qualquer espécie de gaguez política, que para além da Irlanda e Espanha, Portugal também rejeitou a marcação de uma discussão sobre o alívio da dívida grega para outubro “porque alguns países não o desejavam antes das eleições”.

Passos Coelho apressa-se a desmentir com palavras muito bem escolhidas e frases confusas chamando confuso e mentiroso a Juncker. E, pasme-se, um mentiroso nato e continuado diz que as afirmações do Presidente da Comissão Europeia “devem-se a alguma confusão” e que se trata de “uma meia verdade e de um meio mau entendimento”.

Admitindo que ambos metem, as mentiras de Juncker, colocadas numa escala de mentiras, encontra-se na escala das mais verdadeiras do que as verdades de Passos. O acesso às atas da reunião poderão ser prova do que foi literalmente dito.

O mais inacreditável é que Cavaco, como se tivesse estado na reunião sob a forma de mosca, confirmou a desculpa esfarrapada de Passos. Cavaco não se ficou por aí e, duma forma bacoca, provinciana e enganosa como sempre, quis ser popularucho ao mesmo tempo fazendo pouco dos portugueses e chamando-lhes implicitamente estúpidos afirmou com desfaçatez que os de mais baixos recurso podem vir a ter que pagar mais impostos por causa do alívio à dívida grega. Cavaco chegou àquilo a que posso chamar de podridão dos argumentos. E quer ele que a campanha decorra com seriedade quando não dá o exemplo.

Será que ainda queremos manter no poder uma maioria mentirosa, deturpadora que à custa do medo da instabilidade quer manter-se a todo custo no poder para que não se descubra sabe-se lá o quê? Para isto o Presidente coloca-se sempre do lado do Governo e assumidamente declara-se também em campanha eleitoral.

O Presidente da República, se for honesto, ao dizer que precisamos de uma maioria absoluta deve estar, decerto, a dar a entender para se votar no Partido Socialista.

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publicado às 17:44

Uma conversa possível sobre a Grécia

por Manuel AR, em 17.07.15

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Estou a imaginar o seguinte diálogo entre o Presidente dos Estados Unidos da América, Obama, claro! Há quem não goste dele. Estão no seu direito, eu também não gosto de outros que por ai andam a mandar bitates. Paciência, é a vida!

Dizia eu que imaginava um diálogo entre o Presidente dos EUA, ou qualquer mandatário, e uns tipos ou tipa importante que mandam na União Europeia.

Começa o do EUA.

«Eh pá, vejam lá essa porra da Grécia. Isto pode criar um problema do caraças! Vocês aí até parece que não sabem geografia nem ler mapas. Já viram bem o imbróglio que estão a criar ali na zona! Aquilo ali é nosso, faz parte da NATO, não podemos perder a nossa influência naquele lado, pá!»

«Mas senhor Presidente, aqueles tipos devem-nos dinheiro como ó caraças e não fizeram esforço para poupar e pagar».

«Vocês querem é aproveitar-se dos juros que cobram. Como querem que eles paguem se não ajudam a economia para poderem pagar. Vocês são mas é uns grandes cromos que só pensam no umbigo dum país. Pensem a longo prazo porra!».

O do lado proferiu um comentário sarcástico. «Diz-lhe mas é se ele quer as ilhas gregas no dólar e nós ficamos com Porto Rico no euro».

«Deixa-te mas é de gracinhas pá, e centra-te mas é no importante». Avisou o dos EUA. «Vamos falar com o FMI para dar uma ajudinha de modo a inverter a situação, vocês disfarçam, dizem que não é legal e tal e coisa, mas que irão ver se arranjam uma solução».

«Isso é complicado porque temos os parlamentos que têm também que aprovar o novo resgate e sabem como é… os credores. E depois há os "outros" que também estão em crise e com dívida que começam para aí a chatear que querem o mesmo. Vejam o caso de Portugal onde o primeiro-ministro que, sobre este assunto, anda sempre a nosso reboque é muito bom aluno e agora que está em período eleitoral vai ser lixado.»  

«Criaram o problema, emprestaram à balda quando na Grécia havia governos da vossa simpatia, agora amanhem-se. Quanto a esse tipo lá de Portugal não se preocupem, ele não faz mais do que o que vocês dizem para fazer, depois desenrasca-se e dirá o dito por não dito de modo a que ninguém perceba. Nós cá falaremos com ele sobre a Lajes e ficará todo contente. Ele contenta-se com pouco, precisa é que alguém de fora o mande fazer qualquer coisa.».

«Porreiro pá! Iremos tentar. Mas não prometemos que seja já. Sabem, estão também em jogo a nossa dignidade e os nossos eleitores, as coisas terão que ser a pouco e pouco.»

«OK. Já estamos a perde muito tempo com esta m., vamos dizer à Lagarde para mandar emitir um relatório sobre a dívida da Grécia. Poderá ser-lhes útil. Queremos manter aquela área de influência sobre nosso controlo. Lá do outro lado aquilo pode complicar-se. Depois há aqueles tipos das extremas-direitas que andam aí para os vossos lado e são perigosos. Podem captar votos se isto corre mal. E são muito piores que vários Syrizas juntos e aí vocês é que se tramam, sai-lhes tudo do euro.»

«F… já viste a m… em que nos meteste pá!» Vociferou um deles virando-se para um outro do grupo da U.E..

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publicado às 19:44

A pedra no sapato e a bolha no pé

por Manuel AR, em 16.07.15

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Esperemos que a forma como a questão da Grécia tem sido tratada por Passo Coelho e António Costa não seja uma pedra no sapato do primeiro e uma bolha no pé do segundo.

A minha perceção sobre as intervenções do tipo mestre-escola do primeiro-ministro Passos Coelho sobre a Grécia é simultaneamente de saturação e desorientação ficando sem saber o que pensa de facto sobre o assunto porque avança ou recua consoante o que se vai falando na europa da Alemanha e sobretudo as do ministro das Finanças alemão.

Até para Schäuble parece que o problema da Grécia é mais complicado e que não se resolve apenas com mudanças de Governo nem com pressões exercido sobre partidos que governam e de quem não se gosta e continua a firmar creio que apenas para agora jogar com a vontade do povo grego se manter no euro.

Hoje Schäuble que pôs sobre a mesa no Eurogrupo a ideia de uma saída temporária da Grécia do euro durante cinco anos, sublinhou hoje numa entrevista rádio pública Deutschlandfunk que essa hipótese não era uma obrigação nem uma proposta para Atenas mas que a ideia se baseava no pensamento de muitos economistas, também na Grécia, que duvidam que o país possa solucionar os seus problemas sem um corte da dívida, que, precisou, é impossível de fazer no âmbito da união monetária.

Não parece ser inteligível que, como diz o ministro das finanças alemão, não existe a possibilidade de corte da dívida no âmbito da união europeia, como é que ele coloca a hipótese da Grécia sair do euro, mesmo que temporária, se essa hipótese não está contemplada nos tratados europeus.

Algo vai acontecer dentro de alguns meses e isto é uma forma de começar a preparar a opinião pública da Alemanha e da Europa.

Também hoje Draghi disse ser "incontroverso que o alívio da dívida é necessário e acha que ninguém ainda contestou isso". E acrescentava que "A questão é saber qual a melhor forma de alívio da dívida dentro da nossa estrutura, dentro do nosso quadro institucional legal. Eu acho que devemos concentrar-nos neste ponto nas próximas semanas."

Draghi disse ainda que o BCE continua a agir na suposição de que a Grécia era e continuaria a ser um membro da zona do euro.

Terá Washington pressionado nos últimos meses para haver um acordo que mantenha a Grécia no euro e que inclua o alívio da dívida do país?

Um relatório do FMI vem dizer que a restruturação proposta pelos credores europeus é insuficiente para responder à crise da dívida grega e aponta a deterioração dramática da sustentabilidade da dívida torna necessário o alívio da dívida a uma escala que teria de ir bem para além do que foi pensado até agora – e do que foi proposto pelo Mecanismo de Estabilidade Europeu”, diz o relatório.

 

 

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publicado às 19:29

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O que ontem e hoje se passou com a Grécia foi uma derrota e a tristeza da humilhação dum povo e a vitória de todos os que não gostam da democracia tal qual como ela existe. Isto é, obrigam a que a democracia e a governação de países soberanos sejam obrigatoriamente governados por de um só, ou dois partido em unicidade, normalmente sempre os mesmos.

Foi uma guerra, primeiro pela interferência no processo democrático interno da Grécia e segundo foi a ocupação de um país sem utilização de armas.

Tsipras foi, e é, um exemplo da resistência política e ideológica contra poderes dominantes que odeiam a democracia e a prática do voto tal e qual como existe.  

O que é estranho é que a dívida da Grécia é impagável e os credores sabem que o é. Todavia aceitam emprestar mais dinheiro, mesmo mediante condições, sabendo que a economia não vai resistir e que a dívida continuará a ser cada vez mais impagável.

Será que os prestamistas entraram numa crise de estupidez grosseira? Deixa-nos a pensar!

A partir de hoje a União Europeia passou a estar em perigo. Está em curso a falência democrática e aberto caminho para o seu défice democrático. Neste contexto considero défice democrático a ocorrência que se dá quando organizações ou instituições, aparentemente democráticas, elas mesmas constituídas por governos aparentemente democráticos, ficam aquém de cumprir princípios da democracia nas suas práticas ou operações que digam respeito aos povos.      

É a morte da democracia na sua plenitude promovida por países cuja ambição é a de submeter outros que não sigam as suas regras ditas democráticas por via de pressões económicas e de dependência financeira.

Agora foi a Grécia a ser submetida por países cujos regimes se dizem democráticos mas que, afinal, por preconceito ideológico, fazem exercícios de ditadura.

O senhor que se segue por favor!  

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publicado às 23:46

A única verdade é a que a direita deseja

por Manuel AR, em 06.07.15

Pereira Coutinho.pngO comentador maestro da direita neoliberal

mais radical de Portugal

É extraordinário como os comentadores e jornalistas dedicados a argumentos dedicados em defesa da direita enganam, omitem, distorcem, deturpam para confundir, com os seus comentários, os que, menos atentos, podem deixar-se confundir mesmo que os factos desmintam os que defendem as causas que lhes pode trazer a prazo vantagens para sua tabanca.

Quando uma votação coincide com o que eles esperam é sempre uma votação de responsabilidade, na estabilidade, na competência e de clareza no caminho desejado, caso contrário é a votação na irresponsabilidade, na insegurança, etc., etc.. Ao longo dos anos é sempre o mesmo.   

Dou apenas dois exemplos de colunista de jornais e de comentadores de televisão cujas opiniões e a credibilidade, mais do que uma vez já foram contraditadas pelos factos. São um tal de Pereira Coutinho, do Correio da Manhã e da CMTV e Henrique Monteiro colunista do jornal Expresso que, quando bem calha, e por interesse de opinião, surge nos canais de televisão da SIC que pertencem ao mesmo grupo do Expresso.

Eduardo Monteiro está sempre com um meio sorriso (será de escárnio?) que mais parece estar sempre a "gozar" com tudo o que comenta e outras vezes parece estar zangado com a vida. Pois este dito jornalista que, pensa ele, ser isento nos comentários que verbaliza diz coisas tão atabalhoadas que ninguém percebe.

Ontem, no canal SIC Notícias, ao comentar o referendo na Grécia onde ganhou por larga maioria o NÃO disse no momento em que no ecrã passavam imagens dos gregos a festejar a vitória que os gregos estão a festejar mas nem sabem o quê. Pois, para Monteiro, os gregos são uma cambada de estúpidos que não sabem em que votaram nem para quê. Ao falar-se do número de votantes da fraca abstenção e da percentagem conseguida pelo NÃO lança outra, dizendo que ali até os mortos estão a votar.

Como é possível que dum sujeito, enquanto jornalista, se esperava seriedade, lança para o ar estas "bacoradas". Será isto um contributo para a credibilidade dos comentadores que andam por aí a enxamear e a encher a cabeça dos cidadãos que os escutam, contribuindo para o descrédito da comunicação social.

Temos outro espécime requintado, esse, declaradamente da direita extremista que pretende enganar quem o ouve utilizando a técnica do medo que é um tal Pereira Coutinho. Este, lança para o ar a ideia de que o não pagamento de salários e pensões na Grécia pode também acontecer em Portugal, como se o Governo que ele pretende apoiar não o tivesse já feito.

Mas confunde e deturpa a realidade quando associa, sem qualquer prova do que diz o problema da Grécia ao aumento de impostos, cortes de salários e de pensões que Portugal poderá ou poderia sofrer por causa dos gregos terem optado pelo NÃO.

A direita pretende passar a mensagem de que os problemas da Grécia foram devido ao atual governo democraticamente eleito, o que é falso. Não foi o Syrisa, no poder há cerca de seis meses apenas, que levou os gregos à situação em que se encontram, foram as coligações de direita que o precederam.

A causa final para o Syrisa estar no poder foi ao estado a que a direita conduziu a Grécia. É evidente que a austeridade excessiva, a difusão da pobreza, a perda de poder compra, os cortes nos rendimentos, o desespero, os impostos que as grandes empresas não pagam por culpa da direita que esteve no poder resultou numa viragem para o extremo, por mais que a direita diga o contrário.

Os gregos no domingo passado deram uma lição de inconformismo apesar de todas as vicissitudes, sacrifícios, ansiedades, dúvidas, não recebimento total de reformas, fecho dos bancos e a impossibilidade de poderem levantar mais do que 60 euros, como se a grande maioria tivesse a necessidade ou a possibilidade de levantar diariamente aquele valor (1800 euros mês!). 

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publicado às 20:02

Conformismo versus inconformismo

por Manuel AR, em 06.07.15

Conformismo.png

 

Os gregos no domingo passado deram uma lição de inconformismo apesar de todas as vicissitudes, sacrifícios, ansiedades, dúvidas, fecho dos bancos e a impossibilidade de poderem levantar mais do que 60 euros, como se a grande maioria tivesse a necessidade ou a possibilidade de levantar diariamente aquele valor (1800 euros mês!).  

Nós, portugueses, somos na Europa um povo muito estranho nas suas atitudes e comportamento sociopolítico enquanto somatório dos comportamentos individuais que afetam o modo como pensa, talvez fruto dum regime que, apesar de ter caído no 25 de abril de 1974, ainda se mantem como uma espécie de componente do seu gene social.

Quando sujeitos a situações de carências várias esses comportamentos são manifestos na forma como aceitam com resignação e submissão a que o obrigam.

Foi assim que Deus quis! O que havemos de fazer? Manifestam.

Há outros piores do que nós!

Então o que é que havemos de fazer, é assim!

Outras formas de pensamento manifestos apenas nos seus círculos familiares ou de amigos revelam uma resignação e aceitação a tudo dizendo:

Olha, ficamos com menos, mas ainda nos dá para ir vivendo! Cortam-lhe tudo a que devia ter direito sem reclamar e diz, vamos vivendo com o que ainda temos.

Cortam-lhe no salário e… vá lá que ainda tenho trabalho… cá vamos vivendo.

Aceita trabalhos com salários que os leva ou mantêm ao nível da pobreza e dizem-lhe: vale mais teres este trabalho do que não teres nenhum.

Cortam-lhe ainda mais em tudo até ao limite e dizem: ainda bem que tenho as cantinas sociais.

Ficam sem a casa e dizem: paciência a minhas família vai ter que ajudar.

Tem que tomar um medicamento três vezes ao dia para manutenção da sua saúde mas não tem como pagar e diz: paciência, passo a tomar apenas uma vez ao dia. Não tem dinheiro para pagar a energia que foi cortada e logo pensa: que hei de fazer, tenho ali umas velas, como é verão os dias são mais longos.

No inverno diz para quem está perto de si: tenho ali uma mantinha que me deram lá na paróquia, sempre serve bem para aquecer.

Isto até à exaustão.

Que vida é esta? Que povo é este?  

Formas de pensar que o conduzem a uma espécie de suicídio lento.

Todos falamos de barriga cheia, especialmente aqueles que por aí andam a contribuir para defender e ajudar à manutenção daquele tipo de atitudes conformistas. Veja-se como todos eles criticam o inconformismo do povo grego.

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publicado às 16:02

Stiglitz, prémio Nobel da Economia em 2001 assume posições que colidem com as prescrições de política económica e reformas estruturais do FMI (Fundo monetário Internacional) caracteriza como equívocos, as condicionalidades que o FMI impõe às economias em crise financeira (e também cambial o que não é o caso de Portugal e da Grécia), em troca de ajuda financeira.

Vai ainda mais longe, critica as pressões do FMI para que os países que pedem ajuda promovam a liberalização de seus mercados financeiros e de suas contas de capital que produz instabilidade económica e financeira e impactos distributivos perversos, mais do que crescimento económico e eficiência locativa que é o mais alto nível de bem-estar social dada uma determinada oferta e procura.

Joseph Stiglitz autor do livro chama também a atenção que, não foram os gregos os grandes beneficiários dos resgates efetuados à Grécia. A maior parte do dinheiro emprestado à Grécia foi para lá mas para os credores do setor privado, bancos alemães e franceses.

O custo da dívida grega, per capita, (em euros) nos países mais expostos, em caso de perdão total da dívida.

Dívida grega_1.jpg

 

Fontes: Open Europe, Banco Mundial

 

Países da zona euro mais expostos à dívida grega

Dívida grega_2.jpg

Fontes: Open Europe, IESEG, Euronews 2015

Critica fortemente a zona euro firma que os representantes da zona euro estão a tentar forçar um Governo democraticamente eleito a ir contra os desejos dos seis eleitores.

A zona euro é para Stiglitz a “antítese da democracia” que acredita pode fazer cair o Governo do Syriza “ao intimidá-lo a aceitar um acordo que contraria o seu mandato”. Ainda para Stiglitz só há uma opção viável: os gregos devem colocar a democracia em primeiro lugar, rejeitando as condições da Troika. Ainda que o resultado continue a ser incerto, um voto a favor do “não” que permitiria à Grécia, “com a sua forte tradição democrática, deixar o seu destino nas suas próprias mãos”.

Para finalizar por agora devo dizer que não sou da área do Syriza, nem tão pouco pretendo entrar em sua defesa, mas tento distanciar-me nas análises que faço referindo-me agora aos noticiários televisivos onde a repetição e enfase com que foi por demais anunciada a falsa questão e o grande problema de os gregos poderem levantar apenas 60 euros por dia. Leia-se o que Raquel Varela diz sobre o assunto:

"Agora a comunicação social portuguesa tem tido uma cobertura superficial e histérica. Veja-se o caso dos famosos 60 euros. Uma desgraça porque os gregos só podem levantar 60 euros por dia. Alguém me diz quantos gregos têm 60 euros por dia para levantar?

1800 Euros por mês?

Porque não foi anunciado com o mesmo espanto e repetição a quantidade de gregos que por continuar a pagar a dívida «pública» há muito deixou de ter 60 euros por dia, educação, acesso à saúde?"

Será que alguém discorda? Se sim, diga-o com argumentos lógicos e fundamentados ou então cale-se. Provocação!

 

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publicado às 20:16


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