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A propósito das primárias nos EUA

por Manuel AR, em 05.02.20

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Imagem USA Today

A verdade sobre a economia de Trump

(Jan 17, 2020 JOSEPH E. STIGLITZ *)

In (Project Syndicate e Jornal Expresso 25/01/2020)

NOVA IORQUE – À medida que as elites empresariais do mundo viajam para Davos para a sua reunião anual, as pessoas deveriam fazer uma pergunta simples: será que superaram a sua paixão pelo presidente dos EUA, Donald Trump?

Há dois anos, muito poucos líderes empresariais estavam preocupados com as alterações climáticas ou chateados com a misoginia e intolerância de Trump. A maioria, no entanto, estava a comemorar a baixa de impostos do presidente multimilionário e grandes empresas aguardavam ansiosamente os seus esforços para desregular a economia. Isso permitiria que as empresas poluíssem mais o ar, atraíssem mais americanos para os opiáceos, incentivassem mais crianças a comer alimentos indutores de diabetes e se envolvessem no tipo de manobras ardilosas financeiras que provocaram a crise de 2008.

Hoje, muitos líderes de empresariais ainda falam sobre o crescimento contínuo do PIB e os preços históricos das ações. Mas nem o PIB nem o índice Dow Jones são bons avaliadores do desempenho económico. Nenhum diz nada sobre o que está a acontecer com o padrão de vida dos cidadãos comuns, nem nada sobre a sustentabilidade. De facto, o desempenho económico dos EUA nos últimos quatro anos é a Prova A da acusação para não confiar nesses indicadores.

Para se obter uma boa leitura da saúde económica de um país, tem de se começar por analisar a saúde dos seus cidadãos. Se forem felizes e prósperos, serão saudáveis e viverão mais tempo. Neste aspeto, entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos estão no final da lista. A esperança de vida nos EUA, já relativamente baixa, caiu nos dois primeiros anos da presidência de Trump e, em 2017, a mortalidade na meia-idade atingiu a taxa mais elevada desde a Segunda Guerra Mundial. Isso não é uma surpresa, porque não houve nenhum presidente que se tenha esforçado tanto para garantir que mais americanos fiquem sem seguro de saúde. Milhões perderam a cobertura do seguro e a taxa de pessoas sem seguro aumentou, em apenas dois anos, de 10,9% para 13,7%.

Um dos motivos da diminuição da esperança de vida nos Estados Unidos é o que Anne Case e o economista vencedor do prémio Nobel, Angus Deaton, chamam de mortes por desespero, causadas por álcool, overdose de drogas e suicídio. Em 2017 (o ano mais recente para o qual existem dados disponíveis satisfatórios), essas mortes foram quase quatro vezes mais do que em 1999.

A única vez em que vi algo semelhante a estas quedas na saúde – sem contar com as guerras ou epidemias – foi quando fui economista-chefe do Banco Mundial e descobri que os dados de mortalidade e morbidade confirmavam o que os nossos indicadores económicos sugeriam sobre o estado deplorável da economia russa pós-guerra.

Trump pode ser um bom presidente para o 1% que está no topo – e principalmente para o 0,1% que está no topo – mas não foi bom para todos os outros. Se for totalmente implementado, o corte de impostos de 2017 resultará em aumentos de impostos para a maioria das famílias que se encontram no segundo, terceiro e quarto quintis referentes ao rendimento.

Tendo em conta os cortes de impostos que beneficiam desproporcionalmente os ultrarricos e as empresas, não deveria surpreender que não houvesse nenhuma mudança significativa no rendimento disponível das famílias de classe média dos EUA entre 2017 e 2018 (novamente, o ano mais recente com dados satisfatórios). A maior parte do aumento do PIB também vai para os que estão no topo. Os ganhos médios semanais reais estão apenas 2,6% acima do nível de quando Trump tomou posse. E esses aumentos não compensaram os longos períodos de estagnação salarial. Por exemplo, o salário médio de um trabalhador do sexo masculino a tempo inteiro (e os que têm empregos a tempo inteiro são os sortudos) ainda está a mais de 3% abaixo do que estava há 40 anos. Também não houve muitos progressos na redução das disparidades raciais: no terceiro trimestre de 2019, os ganhos médios semanais dos homens negros que trabalhavam a tempo inteiro eram menos de três quartos do nível dos homens brancos.

Para piorar a situação, o crescimento que ocorreu não é ambientalmente sustentável – e ainda menos graças ao “esventramento”, por parte do governo Trump, das regulamentações que passaram por rigorosas análises de custo-benefício. O ar será menos respirável, a água menos potável e o planeta estará mais sujeito às alterações climáticas. De facto, as perdas relacionadas com as alterações climáticas já atingiram novos máximos nos EUA, que sofreram mais danos patrimoniais do que qualquer outro país – atingindo cerca de 1,5% do PIB em 2017.

Era suposto os cortes de impostos estimularem uma nova onda de investimentos. Em vez disso, provocaram um histórico consumo exagerado e frenético nas recompras de ações – cerca de 800 mil milhões de dólares em 2018 – por algumas das empresas mais rentáveis dos Estados Unidos, e levaram a um défice recorde em tempos de paz (quase 1 bilião de dólares no ano fiscal de 2019) num país que supostamente está próximo do pleno emprego. E mesmo com investimentos fracos, os EUA tiveram de contrair empréstimos consideráveis no exterior: os dados mais recentes mostram empréstimos estrangeiros de quase 500 mil milhões de dólares por ano, com um aumento de mais de 10% na posição de endividamento líquido da América em apenas um ano.

Da mesma forma, as guerras comerciais de Trump, apesar de todo o ruído e fúria, não reduziram o défice comercial dos EUA, que foi um quarto mais elevado em 2018 do que em 2016. O défice de mercadorias em 2018 foi o maior alguma vez registado. Até o défice no comércio com a China aumentou quase um quarto em relação a 2016. Os EUA obtiveram um novo acordo comercial norte-americano, sem as disposições do acordo de investimento que o grupo empresarial Business Roundtable pretendia, sem as disposições que elevavam os preços dos medicamentos que as empresas farmacêuticas pretendiam e com melhores disposições laborais e ambientais. Trump, um autoproclamado mestre de negociações, perdeu em quase todas as frentes nas negociações com os democratas do Congresso, resultando num acordo comercial ligeiramente melhorado.

E, apesar das promessas alardeadas de Trump de devolver os empregos industriais aos EUA, o aumento no emprego industrial ainda é menor do que na época do seu antecessor, Barack Obama, após a recuperação pós-2008, e ainda está muito abaixo do nível anterior à crise. Até mesmo a taxa de desemprego, com o menor índice em 50 anos, oculta a fragilidade económica. A taxa de emprego para homens e mulheres em idade ativa, apesar de aumentar, aumentou menos do que durante a recuperação de Obama e ainda está significativamente abaixo da de outros países desenvolvidos. O ritmo de criação de empregos também é notavelmente mais lento do que era sob a presidência de Obama.

Mais uma vez, a baixa taxa de emprego não é uma surpresa, até porque as pessoas não saudáveis não podem trabalhar. Além disso, aqueles que recebem benefícios por incapacidade, na prisão – a taxa de encarceramento nos EUA aumentou mais de seis vezes desde 1970, com cerca de dois milhões de pessoas atualmente atrás das grades – ou por estarem tão desanimados que não procuram emprego de forma ativa, não são contabilizados como “desempregados”. Mas, claro, eles não estão empregados. Também não surpreende que um país que não ofereça preços acessíveis no acolhimento de crianças ou garanta licença familiar tenha uma menor taxa de emprego feminino – ajustado pela população, mais de dez pontos percentuais a menos – do que outros países desenvolvidos.

Mesmo a julgar pelo PIB, a economia de Trump fica aquém. O crescimento do último trimestre foi apenas de 2,1%, muito abaixo dos 4%, 5% ou 6% que Trump prometeu apresentar e ainda menos que a média de 2,4% do segundo mandato de Obama. É um desempenho extremamente fraco, considerando o estímulo proporcionado pelo défice de 1 bilião de dólares e pelas taxas de juro extremamente baixas. Isto não é uma casualidade ou apenas uma questão de má sorte: a marca de Trump é a incerteza, a volatilidade e a prevaricação, ao passo que a confiança, a estabilidade e a fiabilidade são essenciais para o crescimento. O mesmo acontece com a igualdade, de acordo com o Fundo Monetário Internacional.

Sendo assim, Trump merece reprovar, e não apenas nas “disciplinas” essenciais, como defender a democracia e preservar o nosso planeta. Ele deveria, também, chumbar em economia.

*Prémio Nobel 2001 juntamente com George Akerlof e Michael Spence.

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publicado às 00:17

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Hoje venho para aqui falar de imbecilidades e de imbecis que frequentam as redes sociais, fazem comentários nos jornais online e que, como eu, escrevem em blogs. Isto por me ter lembrado de Umberto Eco, vulto enorme da cultura europeia, filósofo, escritor, semiólogo, linguista de fama internacional que em junho de 2015, quando recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, afirmou publicamente que “As redes sociais dão o direito à palavra a uma legião de imbecis que antes apenas falavam num bar depois de um copo de vinho sem prejudicar a comunidade e agora eles têm o mesmo direito à palavra do que um Prémio Nobel, é a invasão de idiotas ". Declaração que podem consultar aqui.

Numa primeira leitura diria que Umberto Eco estava a chamar-me idiota e imbecil a mim e a outros milhares, e com alguma razão. Embora em Portugal não tenha sido dada muita relevância ao facto, mesmo assim muitos se indignaram quando aquelas afirmações foram proferidas e, claro, muitas idiotices também se escreveram nos comentários na imprensa online e sites de canais televisivos como podem confirmar neste exemplo.

Jornalistas e intelectuais que tinham os seus blogues e contas em rede sociais reagiram e indignaram-se. Eu que também escrevo para um blogue e não sou Prémio Nobel, segundo o ponto de vista do próprio Umberto Eco, também estaria incluído no conjunto dos imbecis, mas não me indignei e até concordei com ele. As interpretações que foram dadas ao que ele disse é que foram erróneas.

Umberto Eco não se referia aos que escrevem e defendem opiniões pessoais ou partidárias, confrontam ideias, cada um à sua maneira, com narrativas e argumentos melhores ou piores, bons ou maus, discutíveis, concordantes ou discordantes de outros pontos de vistas. Referia-se ele aos selváticos imbecis que proliferam nas redes, profissionais da ofensa, da difamação, da mentira, da calúnia, da asneira, das informações falsas que, não sabendo redigir argumentação inteligível, utilizam uma linguagem obscena, grosseira, ofensiva, apenas e porque não concordam com outras opiniões que não sejam as da sua própria inabilidade argumentativa. Outros há, ainda, que utilizam uma linguagem intelectualoide numa amálgama de ofensas e obscenidades para que deem crédito à sua voz estupidificante.

A troca de comentários e a avidez de novidades estruturam a participação nas redes sociais. As pessoas já estão acostumadas a comentários rápidos e superficiais sobre tudo e todos. É fácil ver nesses comentários a preocupação de cada um em simplesmente dar sua opinião, mais do que ouvir a alheia. A opinião do outro é apenas a oportunidade para expressar a sua própria através de linguagem do mais baixo nível. São os “bullies” e os hooligans das redes sociais.

Era a todos estes que Umberto Eco se referia. Quando antigamente estavam silenciados por falta de canal agora são percursores de campanhas de notícia falsas e outras idiotices para captar cidadãos bem-intencionados, mas incautos, para as suas debilidades e posturas mentais. Umberto Eco terá sido o percursor da adjetivação dessa gentalha que prolifera nas redes sociais. Felizmente que, atualmente, cada vez mais comentadores e jornalistas de vários quadrantes ideológicos têm a mesma opinião.

O caso é tanto mais preocupante quanto mais essa imbecilidade que Umberto Eco menciona interfere pela distorção, invenção e falseamento de factos e notícias arquitetados e engendrados premeditadamente com finalidades e efeitos perversos. A estas estratégias, utilizadas em redes sociais, é dada cobertura com o exemplo dado por altos responsáveis de países com importante influência na política mundial como são os EUA. Quando o próprio presidente deste país, Donald Trump, manda manipular imagens de um facto captado e testemunhado presencialmente por várias pessoas e divulgadas mundialmente é evidente que outros farão o mesmo. Quando um presidente utiliza uma rede social para divulgar notícias falsas para combater órgãos de comunicação credíveis e responsáveis e lhes abre uma guerra aberta, não podemos estranhar que outros façam o mesmo com as mais obscuras intenções.

No caso do presidente do EUA a mentira e a manipulação sobre factos são validados pela ignorância de quem os lê, ouve ou vê sem qualquer necessidade de conferir. O que lhes é dado é uma presumível verdade assente na credibilidade da proveniência numa tese de: é emitida pelo próprio poder logo é credível, mesmo que falsa.

O vídeo abaixo é o original do canal CNBC.

Pode ler aqui a notícia completa.

O vídeo seguinte é o vídeo manipulado pela Casa Branca publicado no jornal online espanhol El Pais.

Podem ver mais aqui.

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publicado às 18:28

Sonhos e ficção nas narrativas políticas

por Manuel AR, em 07.11.18

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Em tempos tive de contactar com a área disciplinar da linguística e na altura interessei-me pelas teorias de Noam Chomsky naquela área de investigação, mas também pelas suas convicções políticas. Para algumas mentes delirantes é considerado um perigoso comunista americano. Foi ele que desenvolveu a Gramática Generativa que nos anos de 1975 e seguintes foi incluída na disciplina de Português em muitas escolas a reboque das grandes reformas na educação e dos conteúdos programáticos e que foi abandonada alguns anos depois por uma contrarreforma educativa.

Com 89 anos escreveu em 2017, já com Donald Trump na presidência, sobre o sonho americano que diz ter acabado e defende que “hoje, o sentimento generalizado é o da que nada tornará a ser como era”. Refere-se ele aos Estados Unidos da América confirmado pelas notícias que nos chegam através da própria comunicação social daquele país durante o mandato de Trump que, hoje, lá conseguiu mais uma diminuta vitória no reforço do Senado com mais dois ou três senadores.

Se observarmos, situação idêntica ao sonho americano, a que podemos chamar “sonho europeu” acontece também na nossa União Europeia e, delimitando a localização, o mesmo se vai passando também no nosso país sempre que a direita ocupa o poder e proclama a necessidade de aplicação das tão faladas reformas estruturais. Claro que estas reformas são interpretadas de modo e sentido diferentes consoante os governos são mais à esquerda ou mais à direita.

Foi a partir de 1980 que Reagan nos EUA e Thatcher no Reino Unido iniciaram a escalada do neoliberalismo com a implementação das políticas de enriquecimento dos já então muito ricos com prejuízo da maior parte da população. Este princípio da ideologia neoliberal tem como postulado que através de políticas de enriquecimento dos mais ricos a economia avança e será geradora de investimento e de emprego. Ou seja, através da concentração de riqueza na pequena percentagem da população que é um grupo cada vez mais próspero.

A redução dos impostos é defendida para as classes sociais mais ricas e para as empresas com lucros avultados, as chamadas pessoas coletivas, com argumentos dos neoliberais a pretexto de que aumentará o investimento e, consequentemente, o número de empregos. Onde se encontram dados estatísticos concretos que não seja apenas intuição da direita que ateste aquela afirmação? Antes pelo contrário, a uma redução de certa percentagem de imposto não corresponde investimento ou criação de posto de trabalho que esteja correlacionados. A redução de imposto contribuirá para a distribuição da massa a serem  distribuídos através de dividendos. Devo notar que não estou contra o lucro e a rentabilidade das empresas porque são elas juntamente com o trabalho que geram riqueza, por isso não se confundam as questões. É o próprio sistema neoliberal que potencia que os investidores sejam aconselhados a concentrarem os seus investimentos em benefícios da pequena parte da população que são os já muito ricos.

Sempre que há eleições num país o discurso político vai no sentido da promessa concretização dos sonhos de cada um ou de cada grupo ou, de forma mais alargada, duma classe social. É a narrativa do se votarem em mim poderão recuperar ou conseguir o vosso sonho, na prática, mesmo que pelo discurso da negativa. Concretamente foi o que aconteceu nos EUA com a campanha de Donald Trump. A mensagem é ouvida mesmo que seja passada por aqueles que estão a destruir os sonhos. Em menor escala já passámos por isso no nosso país e iremos voltar a ouvir tanto mais quanto mais próximos das eleições. A exploração do que possa haver de mais negativo numa sociedade como ódios, escolha de bodes expiatórios, xenofobia, racismo e a utilização do medo e a da ameaça não é de agora a história tem-nos mostrado que já foram utilizadas essas estratégias mas agora foram copiadas, reconstruída e adaptadas anovas realidades.

Quando nos falam das desigualdades em que vivemos não se referem às desigualdades individuais, (entre eu e tu), nem sociais, porque essas existem e existirão sempre. Quando se fala nas desigualdades a que assistimos é na global e, particularmente, em cada nação, resultante da riqueza extrema de uma parte ínfima da população que representa apenas 1% do total. É a desigualdade fruto da super-riqueza de alguns resultado das políticas sociais e económica proveniente de transformações pele implantação de políticas neoliberais dos últimos trinta anos.

As políticas dos governos liberais e neoliberais colocam em prática o que já Adam Smith disse no século XVIII “tudo para nós, nada para os outros”.  Escrevia ele num contexto da época e referindo-se ao sistema feudal: “But what all the violence of the feudal institutions could never have effected, the silent and insensible operation of foreign commerce and manufactures gradually brought about. These gradually furnished the great proprietors with something for which they could exchange the whole surplus produce of their lands, and which they could consume themselves without sharing it either with tenants or retainers. All for ourselves and nothing for other people, seems, in every age of the world, to have been the vile maxim of the masters of mankind. As soon, therefore, as they could find a method of consuming the whole value of their rents themselves, they had no disposition to share them with any other persons. (Chapter IV: How the Commerce of the Towns Contributed to the Improvement of the Country). “(Ver tradução no final).

As reformas estruturais tão apregoadas pela direita neoliberal que tem como alvo preferencial a classe média e minorias não são mais do que as políticas governamentais tomadas com base numa intenção contrária à vontade da população que, apesar disso, vota nos que defendem tais políticas. É o efeito das democracias plurais que continuam ainda a ser o melhor dos regimes políticos apesar de, para alguns, serem um grande pesar.  É frequente citarem em defesa da democracia a Grécia Clássica como sendo o berço da democracia, todavia a democracia estudada por Aristóteles referia-se apenas às cidade-estado como Atenas sendo uma democracia limitada pois era apenas destinada aos homens livres, apenas os considerados como cidadãos atenienses, que podiam exercê-la excluindo outros como os escravos.

O sonho da classe média e média baixa reside na possibilidade de qualquer um conseguir um bom emprego, comprar uma casa, adquirir um automóvel, custear os estudos dos filhos, etc.. Tudo isto se desmoronou no tempo da crise, basta olharmos para a Europa e particularmente para Portugal onde aquele tipo de sonho acabou com a intervenção de assistência internacional, com o endividamento excessivo do estado, das empresas e das famílias, o que foi aproveitado para imporem as já bem conhecidas políticas neoliberais criadoras de emprego e de riqueza.

No que respeita à educação quer liberais, quer neoliberais, em suma, as novas direitas emergiram por efeitos da globalização, aprovam e sustentam os modelos das parcerias público-privadas ou do cheque ensino para apoio às escolas privadas. Estas propostas servem sobretudo para o crescimento do sistema privado de ensino e um esforço disfarçado de destruir paulatinamente o sistema de ensino público. São uma maneira de atrair fundos públicos para instituições privadas, debilitando assim o ensino público sendo muitas delas pertença ou associadas a instituições da igreja católica. Consequentemente o argumento falacioso para a manutenção destas parcerias é o aproveitamento melhor dos alunos, portanto, destruam-se as instituições de ensino público.

Quem não estiver de acordo com o pensamento liberal e neoliberal nesta e noutras áreas é logo apelidado de esquerdista ou “esquerdalho”, termo preferencial dos apoiantes da direita aqui neste nosso Portugal. Também na ex-União Soviética os dissidentes das ideias do regime eram apelidados de «antissoviéticos», o mesmo se passou nos EUA no tempo do Macartismo entre 1950 e 1957 onde eram apelidados de «antiamericanos» os que não fossem concordantes com o regime. Ambas são noções totalitárias. Em todas as sociedades os críticos dos regimes liberais através de meios ao dispor fazem os possíveis por caluniar os seus adversários políticos, mas não ficamos por aqui porque alguns da esquerda também não se acanham de fazer o mesmo com a direita. Isto também são tendências totalitaristas.

Tenho criticado sobejas vezes as inoportunas e exageradas reivindicações salariais para a função pública levadas a efeito por sindicatos e centrais sindicais. Mas o certo é que a política destinada a aumentar a insegurança no mundo do trabalho aumentaram substancialmente quando as direitas liberal, neoliberal e conservadora governaram o país com a troika. A justificação então dada, e que ainda hoje serve de argumento, foi poder facilitar a captação e atração de investimento e a capacidade que tal medida tem para a criação de postos de trabalho. Isto é, numa outra leitura parece que a insegurança dos trabalhadores é um fator essencial para os ter sob controlo e evitar reivindicações e greves e a sua associação em sindicatos.

A insegurança relativamente à manutenção dos postos de trabalho conduz inevitavelmente à aceitação de qualquer tarefa com salários e condições de trabalho por vezes indignas e sem capacidade reivindicativa. Isto a qualquer nível de atividade. É a isto que alguns economistas liberais chamam contribuir para uma economia saudável.

 

 

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publicado às 15:52

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O Sunday Express tem apresentado o diário da campanha eleitoral das eleições intercalares nos EUA na próxima terça feira e que resumo num pequeno extrato com as afirmações de Donald Tump que, como sempre, intercala o disparate com o radicalismo.

 

Domingo 4 de novembro

 

18h18 - Atualização: Donald Trump avisou que, se os democratas vencerem na terça-feira, o mercado de ações vai cair

O presidente dos EUA, Donald Trump, alertou que uma de suas medidas favoritas de sucesso, o mercado de ações, está em perigo se os eleitores favorecerem os democratas nas eleições para o Congresso.

Trump alertou num tweet na terça-feira que uma mudança no Congresso seria ruim para o mercado, dizendo: "Se quiserem que as vossas ações caiam, eu sugiro fortemente que se vote no democrata".

Nas eleições de meio de mandato, os democratas estão concentrados em proteger uma lei de saúde de 2010.

Enquanto isso, o presidente Donald Trump elogiou o crescimento económico e emitiu alertas sobre a imigração para obter votos para seu partido.

Os democratas estão a liderar os republicanos em sete pontos percentuais, de 50% a 43%, revelou uma pesquisa eleitoral da NBC News / Wall Street Journal.

Mas os números estão um pouco abaixo da liderança de nove por cento dos democratas no mês passado.

O presidente Trump descreveu a primeira onda de barricadas de arame farpado colocadas ao longo da fronteira entre os EUA e o México como "lindas".

Até agora, tropas americanas instalaram os bloqueadores de arame farpado ao longo de 170 milhas das margens do Rio Grande.

Trump disse a seus partidários em sua campanha em Montana: “Nós temos os nossos militares na fronteira”.

“E notei todo aquele lindo arame farpado que sobe hoje. O arame farpado usado corretamente pode ser uma bela vista”.

O presidente dos EUA também usou o seu discurso para, mais uma vez, condenar a caravana de imigrantes que viajavam para a fronteira com os EUA.

Ele disse: “Estas são pessoas más. Hombres ruins.

"Há alguns hombres ruins nesse grupo. Então eles saíram com uma lista de 300 realmente ruins, muito ruins. Eles estão lá."

Os números listados vieram de um relatório do Departamento de Segurança Interna, que afirma que 270 dos migrantes em trânsito cometeram crimes, incluindo agressão sexual e roubo.

Atualização às 18h10: os jovens podem afetar o resultado em "estados oscilantes"

Indicações de voto antecipado sugerem que os jovens podem ajudar a levar o Congresso para os democratas na terça-feira.

Mas Angela Wilson, professora de política na Universidade de Manchester, disse ao Express.co.uk: “Isso realmente depende de onde os jovens estão localizados.

Disse ainda: “Se os jovens estão em estados tradicionalmente azuis que já se inclinam para candidatos democratas, isso pode reforçar os números, mas não necessariamente alterar o resultado esperado.

Quais são as últimas previsões de sondagens?

 

Senado:

Republicanos têm uma chance de 84,3% - 5 em 6 - de ganhar o controle

Democratas têm 15,7% de chance - 1 em 6 - de ganhar o controle

Congresso:

Republicanos têm 85% de chance - 6 em 7 - de ganhar o controle

Democratas têm 15% de chance - 1 em 7 - de ganhar o controle

 

11.53am: Mais hispânicos com probabilidade de votar na terça-feira do que em 2014, novas pesquisas mostram

O número de eleitores hispânicos que votaram nas eleições de novembro pode ficar num terço nos mandatos de 2014, com uma participação maior do que o aumento geral da votação dos EUA, segundo pesquisa nacional divulgada hoje.

Uma pesquisa da Reuters / Ipsos, realizada entre 1º de setembro e 29 de outubro, revelou que 36% dos eleitores hispânicos disseram que garantem ir, contra 27% em 2014.

O aumento é quase o dobro do aumento de cinco por cento entre todos os eleitores dos EUA no mesmo período, de acordo com os dados. E esses mesmos eleitores são duas vezes mais propensos a apoiar o partido democrata.

Acredita-se que o entusiasmo latino esteja aumentando, à medida que o Partido Republicano do presidente Trump aumenta sua linha-dura anti-imigração.

 

9h45 - Atualização: campanha democrata de Stacey Abrams, alvo de ataques racistas

Ambas as campanhas para os candidatos concorrendo ao governador da Geórgia condenaram uma gravação racista e antissemita enviada a residentes no estado dias antes da eleição.

A campanha para a candidata democrata Stacey Abrams, que espera tornar-se a primeira governadora negra dos EUA, denunciou os telefonemas como evidência do "crescente desespero" da campanha republicana.

O rival de Abrams, o secretário de Estado da Geórgia, Brian Kemp, chamou-os de "absolutamente repugnantes".

Os telefonemas representaram Oprah Winfrey, que apostou na campanha em Abrams, além de linguagem antissemita.

Insultos de cariz racistas semelhantes foram enviados na Flórida em agosto para minar o candidato democrata Andrew Gillum, que é negro.

Atualização de 8.34: Trump diz em Montana que os democratas querem convidar “caravana após caravana para inundar suas comunidades”

O presidente Trump endureceu sua posição sobre a imigração na sua manifestação em Montana, acusando os democratas de encorajar um número infinito de imigrantes para os EUA.

Trump disse aos seus partidários: “Os democratas querem convidar caravana após caravana para inundar as suas comunidades, esgotando os nossos recursos e inundando a nossa nação. Nós não queremos isso.

Ele também afirmou que "a América está a crescer" ao falar sobre a economia enquanto estava em um campo de pouso em frente ao Air Force One.

Trump disse: “A América está a crescer. Os republicanos aprovaram um enorme corte de impostos para as famílias trabalhadoras e em breve continuaremos com outro corte de impostos de 10% para a classe média.”

6:00 am atualização: Twitter elimina mais de 10.000 contas tentando desencorajar as pessoas de votar

Perto do final de setembro e início de outubro, o Twitter excluiu mais de 10 mil contas que tentavam desencorajar as pessoas a votarem.

Os democratas sinalizaram várias mensagens que fingiam ser democratas que tentavam convencer outros democratas a não votar.

Isso tem sido parte de uma parceria que os democratas têm com vários parceiros que tentam responsabilizar a organização do média social e impedir a disseminação da desinformação.

 

4:00 da manhã atualização: Trump "o ne assustou filho de uma arma" afirma seu ex-ghostwriter

De acordo com o ghostwriter Tony Schwartz, que escreveu o famoso livro de Trump "The Art of the Deal", Trump está em pânico quando mais se aproxima o dia das eleições. 

Schwart diz que Trump "utilizará qualquer coisa num sentimento de desespero" para garantir que os republicanos não percam as eleições.

Ele acrescentou que o que Trump "percebe é que isso pode tornar-se muito, muito obscuro para ele" e poderia potencialmente perder tanto a Câmara como o Senado, apesar das sondagens que dizem que os republicanos ocuparão o Senado. 

02:33 atualização: pedido de Trump para as tropas na fronteira negada

O Pentágono disse que não vai aprovar o pedido de Trump para enviar pelo menos 5 mil soldados para a fronteira dos EUA.

Eles disseram que ele deveria ser tratado pela polícia local ou estadual e não aprovava o uso de armas de fogo real.

Trump disse repetidamente que enviará de 5 mil a 15 mil soldados para a fronteira.

Também rotulou os 3.000 migrantes indo para a fronteira como uma "invasão". 

 

Uma jogada de Trump

 

12:02 am update: O presidente interrompe seu discurso para pedir a um médico que trate uma mulher no meio da multidão

Um médico está a tratar com atenção as mulheres que adoecem no meio da multidão.

O Presidente disse: "Passe essa informação. Isso é bom. Leve o seu tempo."

Em seguida, acrescentou: "Obrigado médico. Ótimo trabalho. Tem que fazer com os seus impostos baixem."

 

FONTE: Sanday Express

 

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publicado às 20:00

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Hoje foi o dia da inauguração da mudança da embaixada do EUA transferida para Jerusalém. Manifestações resultaram em mortes de palestinianos. Enquanto isso Donald Trump não foi ao evento preferindo enviar um vídeo. A sua ausência, por mais que as suas estratégias comunicativas queiram fazer crer, a demonstra receios pela sua integridade física. No vídeo, depois da clara provocação, pretende acalmar os ânimos com um peculiar cinismo demonstrar que ao planos de paz para a zona vão permanecer.   

O Jornal de Negócios escreveu agora mesmo 14 de maio 16H45M que “O dia em que os Estados Unidos abriram a nova embaixada norte-americana em Israel, transferindo-a de Telavive para Jerusalém, hoje, é também o dia em que mais palestinianos foram mortos em confrontos com as tropas israelitas desde a guerra de 2014. Não é uma coincidência.” E, “para mostrarem ao mundo que apoiam a ocupação dos territórios palestinianos do Médio Oriente por parte de Israel. E não é apenas Jerusalém – cuja parte ocidental foi ocupada por Israel em 1967, na sequência da chamada Guerra dos Seis Dias – mas parte substancial do território que chegou a ser da Palestina.”

Ontem a Agência Lusa em noticia noticiava que “Portugal será um dos países ausentes na cerimónia de inauguração da embaixada norte-americana em Jerusalém, disse hoje à Lusa fonte oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros português”.

O jornal Público, entretanto, acrescentava que “Portugal será um dos países ausentes na cerimónia de inauguração da embaixada norte-americana em Jerusalém, disse neste domingo à Lusa fonte oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Ausentes estarão a Espanha, o Reino Unido, a França e Itália, entre dezenas de outros países, incluindo a maioria dos europeus. Com presença confirmada estão Roménia, Hungria, Áustria e República Checa. "Portugal não se fará representar na inauguração ", marcada para segunda-feira, afirmou a mesma fonte do Palácio das Necessidades.

Tendo em conta os regimes que estão nos governos de Roménia (entrou em janeiro de 2007, não faz parte da zona euro), Hungria (entrou em 2004, não faz parte da zona euro), República Checa (entrou em 2004, não faz parte da zona euro), exceção da Áustria que entrou em 1995 e que faz parte da zona euro, e percebe-se o porquê da comparência destes por enquanto quatro países.

Um dos objetivos a que Trump se propôs foi o de tentar enfraquecer ou até desmantelar a UE por todos os meios que tiver ao alcance. A U.E. é uma comunidade de países que estando unidos quanto à política externa podem ser uma força sem precedentes. As extremas-direita e também as extremas-esquerda são críticas em relação à permanência na CE apelam à sua saída.

Num mundo como o de Trump os países europeus que não façam passar a mensagem duma agregação e de força ficam à mercê das tempestades que este e outros políticos que começam a surgir mesmo dentro do espaço europeu.

Desde a invasão do Iraque em 2003 decidida por Bush em conivência com o Reino Unido de Blair, a Espanha de Aznar e com o beneplácito de Barroso.

Segundo o Der Spiegel a retirada americana do acordo com o Irão é a decisão da política externa do EUA mais perigosa e arrogante que um presidente dos EUA tomou depois de Bush. O risco é o de criar ainda mais instabilidade no Médio Oriente e levar a uma guerra liderada pelos americanos contra o Irão. Mais uma na zona.

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Imagem do Finacial Times

No jornal Financial Times, Philip Stephens escreveu em 10 de maio que “O realismo, no entanto, não requer submissão. A primeira prioridade deve ser manter juntos o que resta do acordo nuclear. Os EUA podem ter renegado, mas a Europa - e o resto da comunidade internacional - pode demonstrar que está preparada para manter o acordo com o Irã - o levantamento das sanções em troca da conformidade nuclear".

Não sei se Trump tem discernimento suficiente, mas são os seus conselheiros e quem está por detrás das suas decisões que o aconselham e o apoiam na sua estupida política externa provocadora de instabilidades que agravam conflitos.

Por outro lado, quando surgem planos para o desanuviamento por parte de países como as negociações entre a Coreia do Sul e a do Norte, Trump vem para a comunicação social colher os louros como se fosse ele o grande promotor da paz. Nem todos têm o mesmo grau de inteligência dele para perceberem a hipocrisia. 

No que respeita à U.E. Macron e Merkel poderiam ter procurado tranquilizar os povos da Europa e demonstrar que tinham um plano através de uma visão conjunta da política externa europeia e uma atitude firme dos políticos europeus. Mas nada disso aconteceu apesar da oportunidade para uma resposta unificada a Donald Trump. 

Na sexta feira passada o ex-embaixador do governo Barack Obama na UE Anthony Gardner vaticinou que "As relações entre Estados Unidos e U.E. vão ficar seriamente deterioradas".  Segundo a AFP – Agência France Press uma autoridade da UE que se reuniu com Trump durante sua visita a Bruxelas em maio de 2017 disse que o presidente americano é “incontrolável” e “não ouve opinião nenhuma”.

Também o presidente francês Emmanuel Macron salientou que "Não podemos mais deixar que outros decidam por nós", numa clara alusão aos Estados Unidos.

Angela Merkel mantém uma relação complicada com o presidente americano, Donald Trump, que multiplica as críticas em relação à sua política económica e as condenações públicas contra a sua recusa de assumir mais gastos militares na Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker afirmou também que "Washington não quer cooperar mais com o restante mundo, e estamos no momento em que nos devemos substituir aos Estados Unidos".

Por seu lado no jornal alemão “Suddeutsche Zeitung”, Marc Beise, comentava que:

“É claro que não ajuda enfrentá-lo (Trump) de maneira amigável e competente, como Angela Merkel fez, ou tão lisonjeira como o presidente francês Macron.” “…Trump conhece apenas a submissão, e mesmo aqueles que se lhe submetem não podem ter certeza por quanto tempo.”

“Aqueles que ainda não aperceberam, nem entenderam, devem prestar atenção ao novo embaixador dos EUA em Berlim. Apenas algumas horas depois de Richard Grenell ter sido credenciado como embaixador do EUA em Berlim emitiu o slogan no estilo de seu mestre Trump e num tweet “ordenou rapidamente que as empresas alemãs encerrassem os seus negócios no Irão imediatamente.” "Wind down operations immediately " - escreveu. Nenhum embaixador na Alemanha talvez falou tão diretamente. É um processo escandaloso, mas se encaixa na imagem da política de Trump.

Não ajuda, se os profissionais quiserem explicar o trabalho ao novo embaixador: um emissário deve explicar a política do seu país, mas nunca dizer ao país anfitrião o que deve fazer. Sob Trump, a diplomacia recebeu novas regras que são a zombaria e a ameaça e fala mal a pessoas e a instituições. Os contratos e os acordos são simplesmente abandonados quando não se adequam aos interesses de apenas um país. Estes são métodos que costumavam ser usados ​​principalmente por estados autoritários.

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publicado às 16:58

Caminhando em direção ao passado

por Manuel AR, em 03.12.17

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Longe de Lisboa, num intervalo para o meu próximo texto, resolvi transcrever para o blog um artigo de opinião da autoria de Teresa de Sousa publicado hoje no jornal Público do qual aconselho a sua leitura. O texto leva-nos a meditar e a refletir sobre uma sociedade que alguns estão a ajudar e desejam construir e que, se nada for feito, os nossos netos virão herdar.

Trump parece ter conseguido a primeira vitória, embora com muitas ressalvas em relação às diferenças culturais e ideológicas, a reforma fiscal que Donald Trump conseguiu no Senado remete para o princípio básico do neoliberalismo que nos EUA foi promovida por Ronald Regan e no Reino Unido com Thatcher no início da década de 1980 - uma variação da chamada “trickle down economics”, que defende que os benefícios concedidos aos mais ricos acabam por beneficiar também os mais pobres que pode ver também aqui. Ao fim de dois mandatos, as políticas de Reagan tinham triplicado a dívida pública dos EUA, como pode confirmar aqui.

Não sou muito virado para o passado, nem para o futuro que desconhecemos e é incerto, embora em política possam fazer algumas previsões tendo em conta o presente. Partindo desta premissa algo nos diz que o futuro não augura nada de bom.

Aqui vai o artigo de opinião que pode consultar também no jornal Público.

OPINIÃO

TERESA DE SOUSA  

Nota: Teresa de Sousa escreve conforme o anterior acordo ortográfico.

 

Se os ricos ficarem cada vez mais ricos, alguma coisa há de sobrar para os outros

1. Hoje é um daqueles dias em que é difícil escolher um tema, mesmo que haja muitos, por cá e pelo mundo mas que dispersam a nossa atenção. Donald Trump conseguiu a sua primeira grande vitória no Congresso, desde que está na Casa Branca, com um novo código para os impostos que tem implicações profundas para os americanos. Regressa à velha doutrina da “trickle down economics”, que vem do tempo de Reagan e que se resume facilmente: se os de cima tiverem as condições para ganhar cada vez mais, alguma coisa há-de cair para os de baixo. Reagan praticou-a, com a sua revolução conservadora, mas noutras circunstâncias. Ignorou o défice, impossível de compensar com os cortes nas políticas sociais, mas conseguiu animar a economia americana. A sua grande tarefa, hoje desnecessária, foi a desregulação da economia, deixando a tarefa aos mercados. Quando chegou à Casa Branca, George Bush (pai), que lhe chamava “economia vodou”, lamentou-se várias vezes de não ter dinheiro para financiar devidamente as forças democráticas que emergiam na Europa de Leste e a transição na União Soviética, liderada por Gorbatchov, por causa do défice que Reagan lhe deixara. Bill Clinton, que se fartou de denunciar, na sua primeira campanha, esta doutrina, como injusta e pouco eficiente, deixou um enorme excedente orçamental ao seu sucessor, aproveitando o crescimento económico, sem deixar de reformar o Estado social. Bush (filho) acabou rapidamente com ele, por causa das guerras que travou. Obama, que herdou uma crise próxima da Grande Depressão e que teve de injectar 700 mil milhões de dólares na economia para salvá-la do pior, também conseguiu reduzir o défice, quando a economia começou a dar sinais de vida, na altura da sua reeleição. Salvou a indústria automóvel. Regulou os mercados financeiros de forma a tentar prevenir uma nova debacle. Com Trump voltamos ao passado. As enormes reduções fiscais dirigem-se aos empresários e aos ricos em geral; a classe média, já bem “espremida” pelos anos do neoliberalismo e da globalização, continuará mais ou menos na mesma. Os pobres ficarão pior porque são inevitáveis os cortes nos programas sociais. A parte dos republicanos que tradicionalmente não gosta do défice nem da dívida teria dificuldade em negar a Trump esta vitória solitária, depois de ter passado bastante tempo a recusar as iniciativas da Casa Branca, incluindo o Obamacare. O problema é que o Presidente americano, com a sua defesa do proteccionista, vai destruindo os acordos comerciais com os grandes e pequenos blocos económicos, correndo o risco de prejudicar as exportações americanas, mesmo que justifique os cortes drásticos nos impostos com a necessidade de aumentar a competitividade da economia.

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2. Os americanos acabarão por conseguir, mais tarde ou mais cedo, dar a volta. Já o mesmo pode não acontecer com a sua política externa, capaz de destruir a ordem liberal que os EUA construíram, com um custo muito mais pesado para o mundo. Há uma nova dimensão da política externa americana que, muitas vezes, não valorizamos devidamente, que é a saída de cena de qualquer referência que se aproxime da defesa dos direitos humanos no mundo. Rex Tillerson avisou que eles não fariam parte da sua política. Trump não consegue ver a diferença entre a democracia americana e o regime de Putin, como ele próprio afirmou ainda durante a campanha. Este abandono acaba por contagiar as outras democracias, tornando o mundo num espectáculo cada vez mais penoso de ver. E não é só porque a China ocupa cada vez mais espaço deixado vazio pelo Ocidente, sendo que os direitos humanos não fazem parte do seu vocabulário. Putin soma e segue no seu apoio a qualquer torcionário que se lhe apresente.

A Europa, ainda a vencer a crise que a ia matando e a tratar das reformas que lhe podem garantir um futuro num mundo cada vez mais adverso, também anda bastante distraída. Há 15 dias, a CNN foi à Líbia e filmou (com câmaras escondidas) os novos mercados de escravos (não é exagero de linguagem) que funcionam a céu aberto, atirando os imigrantes e os refugiados para uma condição sub-humana vergonhosa e intolerável. Os europeus, incluindo a imprensa, só começaram agora a reagir. Foi apenas há três dias que Jean-Claude Juncker falou no assunto para prometer resolvê-lo. Não se vê como. Foram os europeus, e bem, que ajudaram a derrubar Kadhafi, perante a iminência de um massacre em preparação. Hoje, a sua obsessão passou a ser estancar a torrente dos que atravessam o Mediterrâneo em direcção à Europa. A solução que preferem é mantê-los longe da vista, na Líbia e noutros países de passagem, e avaliar aí a sua condição. Ninguém diz que as respostas sejam fáceis, mas o mínimo que lhes cabe fazer é garantir a sua segurança e a sua dignidade.

Na Síria foi o que foi. No Yemen, “ a guerra que o mundo ignora” à qual a Economist dá esta semana a capa, a mortandade é insuportável. De um modo geral, a indiferença prevalece. Tem de haver uma solução equilibrada, que não é, certamente, ceder à extrema-direita para não perder votos. Qualquer reforma da política externa não pode abdicar desta dimensão da sua relação com o mundo, que é inerente aos seus valores e que faz parte integral do combate ao nacionalismo que mina as suas democracias. Na semana passada, também não demos grande importância à chamada cimeira dos “16 mais 1” (lançada em 2012), reunindo a China com os países da Europa de Leste e dos Balcãs, muitos deles membros da União Europeia, para captar investimento que Pequim tem a rodos e sem qualquer exigência moral. A deriva dos países de Leste para soluções nacionalistas parece alastrar-se ao domínio das relações externas, com “aliados” (Putin e Xi) que sonham em dividir a Europa ou aumentar a sua influência política. Se a Europa, às vezes, andou distraída com os seus problemas, isso não explica a sua deriva autoritária nem justifica qualquer reivindicação.

3. Se regressarmos por um momento à pátria, a eleição de Mário Centeno para a presidência do Eurogrupo (deve ser confirmada amanhã) é uma daquelas coisas sobre as quais não há forma de enganar. Deixo o significado político interno para melhor altura, enquanto o bota-baixismo dá largas à sua imaginação. O que Centeno tem de fazer, já o explicou Sérgio Aníbal no PÚBLICO de sábado, num texto que convém ler. Limito-me ao que significa do ponto de vista da Europa. Em Berlim, pode querer dizer uma nova preocupação em sarar as feridas abertas pela crise da dívida e do euro, que deixaram uma divisão profunda entre o Norte e o Sul, por vezes com laivos de xenofobia. Como António Vitorino costumava dizer numa simples frase, a Europa não sobreviverá a uma realidade em que haja “perdedores” e “ganhadores”, sobretudo se forem sempre os mesmos. É por isso que tanto se insiste na necessidade de completar a reforma da União Económica e Monetária. Merkel tem tido a grande vantagem de aprender depressa as lições que a realidade lhe apresenta, reconhecendo o mérito do actual Governo, recebido na Europa há dois anos com duas pedras na mão. Wolfgang Schäuble já tinha feito o mesmo em relação a Mário Centeno. Como dizia António Guterres, o que é preciso é que as nossas propostas consigam ser boas para nós e boas para a Europa. O resto fez António Costa, com o seu “europeísmo pragmático”, como me dizia um embaixador europeu em Lisboa. Abriu portas e criou pontes que pareciam intransponíveis. A primeira das quais foi perceber que Merkel também tem razões para o que faz e que ganhar a sua confiança era a coisa mais importante. Basta ler o seu discurso de Bruges.

4. Não tenho nada a acrescentar aos textos dos meus colegas sobre o que o jornal deve a Belmiro de Azevedo. Tenho a sorte imensa de ter cinco netos que mudaram completamente a minha forma de olhar a vida. Escutar uma das suas netas dizer-lhe que não se preocupasse, que os netos tratariam da avó e dos pais, foi a coisa mais bela da cerimónia de despedida. Afinal Belmiro não foi apenas um grande empresário.

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publicado às 17:03

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1 Durante este mês de agosto, tempo de férias e de descontração, já longe do bulício do Algarve e dos discursos de ocasião que, nesta época do ano, a direita PSD cumpre no Pontal, tinha decidido não escrever sobre política. Impossível! Há causas que me ultrapassam e que têm a ver com o descaramento e a hipocrisia desta gente da direita que apanham tudo o que têm à mão para fazer oposição à custa da desgraça das populações atingidas pelo terrorismo dos incendiários. A direita pretendia e pretende que este governo resolvesse agora com uma espécie de varinha mágica aquilo que ela, enquanto esteve no governo, nunca se interessou por resolver. Sim, porque não é preciso recordar que durante os seus famigerados quatro anos de governação também houve grandes incêndios e tudo ficou na mesma.

Passos Coelho, no Pontal, utilizou a mesma estratégia discursiva, e já cansativa, de quem, por já não ter mais nada para dizer nem para oferecer, vai-se repetindo numa espécie de via-sacra da política que o conduzir a ele e ao PSD até ao calvário.

2 No debate televisivo no jornal das nove na RTP3 do dia 14/08/2017 as intervenções entre João Galamba do PS e Carlos Abreu Amorim do PSD foram confrangedoras, cada um por diferentes razões.

Galamba, embora mostrando a segurança do costume, apresentava-se cauteloso na defesa de alguns pontos de vista, nomeadamente no que se referia à questão dos incêndios e da ministra administração interna. Os argumentos de defesa foram fracos e sem convicção, talvez falta de conhecimento dos factos. Quanto ao crescimento do PIB de 2,8% no último trimestre, o maior das últimas décadas, parece ter ficado desiludido por não ser terem atingido os 3% apesar de Amorim ter afirmado que tinha sido bom o crescimento, embora saibamos que há aqui uma ligeira alteração do discurso e que este elogio está impregnado de alguma hipocrisia e estratégia.

Nas restantes intervenções, Amorim, seguindo o mestre, refugiou-se nas coisas vãs pretendendo voltar a recuperar a síndrome do medo e do regresso ao passado falando numa potencial banca rota, coisa que, disse ele, a direita está preparada para evitar com as suas reformas. Sobre as reformas que seria necessário efetuar nada disse a não ser quando se referiu à reforma da segurança social, mas sem dizer como. Não o disse, mas todos nós sabemos quais foram e quais serão as que direita pretende fazer neste campo. Quanto a outras ficámos em branco.

Os conservadores de direita pretendem ser inovadores mas não são mais do que conservadores passadistas, quer quanto à ideologia, quer quanto às práticas de regresso ao tal passado de empobrecimento da população. E, no domínio da educação o regresso às estratégicas educativas inspiradas em algumas do Estado Novo, adaptadas, revistas e melhoradas, aproveitando, para tal, as possibilidades que a democracia lhes dá. Basta ler alguns discursos de Salazar da sua época áurea sobre o tema para se poder comparar.

Mas voltemos a Carlos Amorim que recupera uma terminologia sobre a classificação dos partidos que apoiam o Governo ao nível parlamentar, que faz jus à sua nutrida inteligência política, e que denominou de extrema-esquerda radical. Apesar do disparate há a intenção objetiva na aplicação daquela adjetivação àqueles partidos. Senão vejamos: a denominação de extrema-esquerda pode-se aceitar, mas juntar radical a esta designação parece uma contradição. Não será já uma extrema-esquerda radical? Se não o é, e é apenas extrema-esquerda, então é porque pode existir uma extrema-esquerda que não é radical. Então em que ficamos? Pode perguntar-se a Carlos Amorim como é que ele, no espetro político, classifica os partidos. Será que para ele existe uma extrema-direita que não é radical e uma outra que o é? Como os caracterizaria ele?

3 Não quero abandonar o tema sobre Amorim sem mais um tesourinho de aproveitamento partidário sobre os incêndios. O Governo decretou o estado de calamidade pública para algumas regiões afetadas pela desgraça dos incêndios provocados por pirómanos desvairados. E, claro, Amorim aproveitando o tempo de antena a que lhe dão, e tem por direito, veio a público elogiar a medida mas que perde por tardia. Pois é dr. Amorim, segundo a sua estratégia e a do seu partido, tivesse sido tomada aquela medida uma semana antes teria vindo dizer o mesmo, e se fosse ainda antes e assim sucessivamente acredito que viria a dizer sempre o mesmo.

4 Se bem me recordo, foi também na altura dos incêndios em anos anteriores que um comentador especialista sobre incêndios, que nestas lamentáveis ocasiões os canais de televisão contratam, que um desses especialistas espontâneos ao fazer o seu comentário acabou por dizer que o povo português não é incendiário, são casos pontuais que por aí aparecem. Esta semana foi a vez de um outro especialista a que o jornalista perguntou se achava que havia um rede organizada de incendiários disse claramente que não e teceu o perfil do incendiário comum e claro são sempre os mesmo maluquinhos e irresponsáveis que por aí existem. Está-se mesmo a ver! Até as populações pelo seu conhecimento sabem que existe atos deliberados e organizados. Ou não será evidente que existe um padrão manifesto pelas horas, locais de ocorrência, simultaneidade das ignições, etc.. O que lá fora consta é que nós, os portugueses, somos uns maníacos pirómanos.

5 Para terminar, um comentário sobre essa coisa que é presidente dos EUA, o Pato Donald Trump. Sobre os acontecimentos dos confrontos racistas no estado da Virgínia. Diz e desdiz sem clarificar a sua posição. Por um lado, a culpa foi, como disse, ser da esquerda (?) que atacou a direita (?). Qual será o conceito dele de esquerda e de direita. Para ele a direita são os nazis, os neonazis, os xenófobos, os racistas e a sua mais objeta organização da Klu Klux Klan. Isto para ele deve ser a direita no seu conceito de democracia. Foram tais os comentários de Trump que levou o dirigente daquela grupo, através do Twitter, a elogiar os seus comentários. Na minha opinião estamos de facto em presença dum presidente que está a ser o percursor duma ideologia de inspiração nazi adaptada ao século XXI.

Uma coisa está a ser evidente: as intervenções e os discursos de Donald Trump durante a campanha eleitoral, e já depois de estar na presidência, estão a começar a dar os seus frutos.

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publicado às 19:29

 O sufixo “ista” é o formador de adjetivos e substantivos que participa na derivação de adjetivos a partir de nomes e exprime a noção de adepto de algo.

Neste sentido estão incluídos todos os que são fervorosos apoiantes do presidente Trump dos EUA. Em Portugal, aos poucos, vão por aí surgindo vários, uns mais tímidos, outros mais assumidos. Identifico pelo menos três que se têm evidenciado pelos seus pontos de vista: Nuno Rogeiro, António Ribeiro Ferreira, que foi em tempo diretor do jornal i, e, ainda, o mais subtil, como sempre, Paulo Portas, e outros aparecerão ainda.

Começo por Ribeiro Ferreira que alinha incondicional e explicitamente com as políticas de Trump. Aliás é bem evidente a sua concordância com o discurso e as mensagens enganadoras de Donald Trump quando faz um ataque cerrado a órgãos de comunicação dos EUA. Ferreira é um jornalista de fação, fação da extrema-direita. Ler os artigos dele, de conteúdo fascizante, é como estivéssemos a ler o jornal “O Diabo” e a sensação de termos regressado a um tempo passado, e que pode muito bem voltar a vir no futuro, se a democracia não lhe fizer frente pelos meios que tem ao seu dispor. Ribeiro Ferreira coloca em epígrafe “A América está com Trump” e inicia a sua enganadora narrativa começando por comparar o que se passa em Portugal com o que se está a passar com Trump nos EUA.

Cito uma pequena passagem da verborreia deste “jornalista” que é significativa para avaliar a sua isenção. Diz então que (os negritos foram salientados por mim):

Nesta imensa campanha suja destacam-se, naturalmente, a CNN – Clinton News Network, a BBC – British Broadcasting Clinton, o “New York Lies” e o “Washington Dumb”, entre outros grandes meios de comunicação social. Como mentem tanto, alguns andam mesmo de mão estendida a pedir socorro a outros desgraçados que olham para o presente e futuro dos EUA com muito medo.

E têm razão. Com Trump na Casa Branca acabaram-se os tempos do laxismo, da desordem, da balbúrdia, da promiscuidade dos poderes instalados em Washington e dos milhões e milhões de imigrantes ilegais que não só tiram o emprego a cidadãos legais que pagam impostos como lhes baixam os salários. A guerra que Trump declarou a uma certa imprensa é uma guerra da verdade contra a mentira, da coragem contra a cobardia, da frontalidade contra a venalidade e a corrupção.

Triste, lamentável mesmo, é a forma como a imprensa portuguesa segue como carneirada os mentirosos do outro lado do Atlântico. São os Ecos de Aljustrel, do grande Eça de Queirós, cujo diretor, a espumar de fúria quando Bismarck invadiu a França, ameaçou com veemência: “Deixem estar que amanhã já dou cabo dele nos Ecos”.

Mentirosos, ranhosos sem qualificação que se masturbam com gracinhas, polémicas e gritinhos de indignação. Agora que segue em frente, imparável no cumprimento do seu programa eleitoral, o presidente dos EUA marcou pontos com o seu notável discurso no Capitólio, aplaudido de pé pelos republicanos e ouvido pelos ridículos democratas vestidos de branco.”.

E termina com “Olhem com muita atenção o que se está a passar na Holanda, na França e na Alemanha. Não se fiem em sondagens feitas pelo sistema sobre o sistema. Não se fiem em sondagens que apenas visam salvar o sistema da vontade popular, dos cidadãos que estão fartos da corrupção, do centrão político politicamente correto, cobarde e de cócoras perante os bárbaros muçulmanos que lhes infernizam a vida em muitas cidades europeias, das brutais cargas de impostos que servem para pagar Estados sociais que beneficiam quem não trabalha e não deixa trabalhar, que dá privilégios a gente que despreza tantas e tantas vezes a história e a cultura de quem os recebeu e alimenta a pão-de-ló. “…Podem berrar contra os populismos as vezes que quiserem. Podem rasgar as vestes todas pelo sistema. O voto popular, nos EUA e na Europa, está a mostrar que o sistema e os seus capangas vão nus.”

O seu tipo de jornalismo de opinião faz-me lembrar o tempo das prosas do “Diário da Manhã”, jornal fundado a 4 de Abril de 1931, órgão oficial da União Nacional, sob direção de Domingos Garcia Pulido, integrante do círculo íntimo de Salazar.

Não é apenas pró Trump, Ribeiro Ferreira destila ódio e ressabiamento por todos os poros, por tudo quanto venha da democracia, talvez devido a algo que terá perdido no passado, o fim da ditadura. Um sujeito perigoso que se intitula de jornalista.

Isto é, para aquele dito jornalista, a verdade dele e de Trump é única, uníssona, indiscutível e se segundo ele não se pode acreditar em nada a não ser acreditar em tudo o que eles dizem. Para este adepto da política de Trump tudo quanto não seja pensamento único é mentira. Ferreira não consegue distinguir a realidade da sua reacionária fantasia.

É de indivíduos como este que nos devemos defender porque são uma ameaça à democracia.

 

Há outros, mais subtis, como Paulo Portas, cuja esperteza torna perigosas as suas intervenções e comentários, devido ao seu pensamento muito arrumado, claro e convincente para os mais desprevenidos. Não defendendo claramente Trump apoia a sua política por comparação. Sem a ele se referir compara a Europa com os Estados Unidos da América. Ataca Obama, não o atacando, mas comparando sem o desvalorizar com o ideário de Trump. Define a política de Trump sem, no entanto, tomar partido, com a ideia central de que a Europa alimenta “receita para o desastre

Transcrevo uma pequena amostra da intervenção de Portas que pode ler e ouvir aqui:

 Paulo Portas aconselha os europeus a habituarem-se à ideia de que Donald Trump vai mesmo liderar a maior potência do mundo como fazia nas suas empresas: "permanentemente ao ataque" e a achar que "para vencer deve muitas vezes levar as tensões até situações limite", mas também recuando se estiver perante um impasse”.

 O que Paulo Portas acha disso?

 “Vai mudar frequentemente de opinião e não vai ser por isso penalizado pelo eleitorado. Ninguém espera a coerência num bilionário, mas eficiência. E se achar que deve mudar de opinião para ser mais eficiente, vai fazê-lo", resume o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros.

O que Paulo Portas acha disso?

Portas considera que "entre o fanatismo da CNN e o fanatismo da Fox News haverá um lugar razoável" para o entendimento de Trump, apontando três palavras essenciais para compreender a sua acção: nativismo, protecionismo e isolacionismo. E o que há de novo, segundo ele, é que o novo presidente dos EUA é "o primeiro a ter estas prioridades ao mesmo tempo, a agir e discursar como se não tivesse outras e a fazê-lo em globalização". "Agora não me venham dizer que, na substância, estes conceitos políticos foram inventados agora".

O que Paulo Portas acha disso?

Quanto ao isolacionismo, Portas sublinhou que a retórica de Obama apenas foi multilateral para se distinguir dos antecessores Clinton e de Bush, que eram expansionistas. "Mas o que fez Obama se não tirar os EUA de todos os teatros de guerra? Obama já estava do lado do isolacionismo. De modo estridente, o presidente Trump continua esse caminho".

Parece que Paulo Portas apoia Trump!

Paulo Portas “antecipa que um cenário de maior crescimento económico nos primeiros anos do mandato, impulsionado por "uma revisão do IRC que fará Ronald Reagan parecer um social-democrata", pelos planos de desregulação do mercado e pelo programa de investimento em infraestruturas. 

Portas confessou estar "bastante preocupado com o estado da Europa que, face aos EUA, cresce metade, tem o dobro do desemprego, investe metade em pesquisa e desenvolvimento e tem cem vezes menos disponibilidade de "venture capital" (capital de risco). "Mas acham que os americanos é que estão errados. Esta fixação no erro é desastrosa. A Europa não tem crianças, é contra os imigrantes, é a favor dos direitos adquiridos sem saber como os pagar. Isto é uma receita para o desastre", dramatizou.

Paulo Portas volta a ser eurocético depois de criticar os partidos à esquerda do PS. Compara Europa e EUA para apoiar as políticas de Trump sem o declarar explicitamente.

Espantosamente questionou "por que é que europeus e americanos olham para a Rússia com os mesmos olhos com que olhavam para a União Soviética?". Portas alinha assim com a política de Trump no que respeita à política de Putin.

Podemos estar a assistir em Portugal aos primeiros sinais de populismos da extrema-direita.

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publicado às 19:18

O Brexit de Theresa May e o namoro de Trump

por Manuel AR, em 12.02.17

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Os países que atualmente integram a UE - União Europeia, nomeadamente os países de leste, não foram obrigados, quiseram entrar e fizeram tudo para isso. Considerassem ou não as regras para a entrada sabiam ao que estariam sujeitos, conheciam-nas e aceitaram-nas. A UE não os recusou descorando o que poderia a acontecer.  

Agora, com a saída do Reino Unido a intenção da senhora Theresa May do Partido Conservador, a quem entregaram o governo do Reino Unido para a negociação da saída, é a de apostar na divisão entre membros da UE para daí tirar proveito e iniciar o seu desmantelamento e, daí, ser uma grande aliada para Trump. May já disse que "Este é o primeiro passo para um futuro acordo comercial com os EUA, que poderia proporcionar enormes benefícios para o nosso músculo econômico e dará às empresas mais certeza e confiança". Trump não se faz rogado e corresponde dizendo que “queria que a Sra. May fosse a primeira pessoa que vê quando chega em uma visita de estado para ver a rainha e que ele disse a um funcionário que guardasse o cardápio da Casa Branca para almoçar juntos como lembrança Reunião”.

Inclusivamente a simpatia por aquele indivíduo é tal que já fala no restabelecimento de fronteiras com a Irlanda, talvez por timidez não tenha falado de construção de muro. Theresa May, ao contrário do que vinha dizendo está a voltar a face e o discurso. Diz agora que a fronteira será um mal menor em relação aos problemas que podem surgir. É uma espécie de ameaça porque, tal como a Escócia, a Irlanda votou a favor da permanência na UE e a saída poderá obrigar à reposição de controlos na fronteira que desapareceram com os acordos de paz de 1998.

Pretendendo colocar em confronto governos aumentado o risco das negociações falharem, ameaçando sobre o que fará com os impostos e com a segurança se não conseguir o que pretende, vira-se para países como a Hungria e Polónia, por enquanto, jogando com a diferença de interesses entre eles e os da Alemanha e França. Isto é o que Jean-Claude Juncker pensa e que somos levados os mais pessimistas nesta área pode vir a acontecer. Por isto se confirma o que escrevi atrás sobre países que andaram a pedir para entrar na UE e preparam-se para atraiçoar quem os aceitou.

A europa do euro tem que unir-se para manifestar, neste assunto um mesmo pensamento e ser exigente de modo a que o Reino Unido veja que não ficará melhor fora da UE do que dentro e que, face ao desastre que surgiu nos EUA, são mais importantes do que manter boas relações com o Reino Unido.

A UE têm que vacinar-se contra as ideias de isolamento com que tantos europeus se deixaram contaminar pelos nacionalismos e populismos bolorentos que voltaram a estar na moda incentivando os que gostam de se mostrar do contra corrente e muito “in”, mas que mais tarde se arrepende por ficarem “out”.

 

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publicado às 19:05

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A ilustração da capa de DER SPIEGEL esta semana

Sobre o que se está a passar nos EUA com Donald Trump limito-me a reproduzir um artigo escrito por Klaus Brinkbäumer no Der Spiegel desta semana. Peço desculpas pela tradução livre feita a partir do artigo em inglês.

A imagem da capa do DER SPIEGEL desta semana foi criticada, mas como diz o autor o símbolo que ela retrata é sério: a ameaça muito real que o presidente Donald Trump representa para a democracia liberal.

Em última análise, a indiferença é mortal. A apatia. O sentimento de impotência. E o silêncio ocioso que se segue. Pessoas, incluindo jornalistas, começam a pensar que de qualquer maneira não podem fazer nada. Foi o que aconteceu na Turquia e na Hungria e há muito que a Rússia e a China também o são. Isso também acontecerá nos Estados Unidos?

Quando a democracia começa a corroer, isso raramente acontece muito rapidamente. Olhando para trás, muitas vezes pode-se determinar o momento em que se tornou grave - geralmente foi através duma eleição. Como poderia a Turquia ter eleito Erdogan, a Rússia Putin, a Hungria Orbán e como os Estados Unidos poderiam ter escolhido Donald Trump com a consciência limpa? Quando o discurso político conduz a uma situação em que o discurso em si é substituído pela demagogia, e quando esse demagogo é trazido ao poder por um processo democrático, então é possível que a própria democracia seja substituída pela autocracia.

Tudo o resto acontece lentamente. Enquanto isso, alguns meios de comunicação continuam sonhando tornando-se ainda mais obsessivos na  rotulagem de qualquer pessoa que adverte contra a ameaça.

Então, aqui o temos nós: Donald Trump, um misógino e um homem de negócios racista que, verificadamente, fez 87 declarações falsas ao longo de apenas cinco dias da campanha eleitoral, não pode ser mais um candidato. Ele está sentado na Casa Branca. Aqui estão três ideias sobre este presidente americano que está no cargo desde 20 de janeiro.

  • Primeiro, nas duas semanas e meia desde seu terrível discurso de posse, ele demonstrou que fará o que disse: ordenará a construção de um muro na fronteira com o México, está a fazer decretos xenófobos e agita os aliados e as instituições internacionais da América e, também todos os aspetos da política global. Já ameaçou o Irã e a Coreia do Norte. Nada disto é uma surpresa, porque até mesmo os eleitores de Trump sabiam que o conselheiro Stephen Bannon é um homem que considera as guerras úteis.
  • Em segundo lugar, Trump também está a mostrar que vai fazer muito do que não anunciou na campanha. Ordenou aos cientistas que não conduzissem ou publicassem pesquisas sobre temas que ele não aprovasse. Diz que a mudança climática não existe e di-lo com seriedade.Ficou parado enquanto um de seus confidentes mais próximos inventou o termo "factos alternativos" para criar uma realidade paralela. Trump leva os filhos com ele para reuniões de alto nível, contratou o seu genro como conselheiro da Casa Branca, poupou países onde faz negócios de sua proibição de viajar a cidadãos de estados predominantemente muçulmanos, não se desfez das suas explorações da companhia, não libertou as suas limitações de impostos (apesar de se comprometer a faz-lo) e teve mesmo o seu conselheiro Kellyanne Conway que os eleitores não se importaram. Agora quer desfazer regulamentos bancários para que "meus amigos" possam ter acesso mais fácil ao dinheiro. Ele está abrindo caminho para ganhar dinheiro e enriquecer-se ainda mais no escritório?
  • Terceiro, Trump já provou o que já sabíamos sobre ele. A perceção que as pessoas têm dele é mais importante para Trump do que qualquer outra coisa. Nada foi mais importante para ele nas duas primeiras semanas e meia de mandato do que o tamanho da multidão na sua tomada de posse. Trump é um mentiroso crónico e prova isso num tweet após o outro. Trump despreza os media (a que chama "partido de oposição" e diz "Como sabe, eu tenho uma guerra com os meios de comunicação"), bem como o ramo judicial sob a forma de "chamados juízes" que não o deixam governar à maneira que deseja. Enquanto isso, Trump afirma que as pessoas que protestam contra ele são "pagas".

Não é de todo absurdo supor que, se a resistência não se organiza e põe em campo isto continuará.

Cada vez menos pessoas estão a participar nos protestos porque, lentamente, as pessoas estão perdendo o interesse e um sentimento de impotência está a ser sentido. Os media estão a voltar-se para questões mais suaves e mais divertidas porque causam menos problemas. Os políticos que haviam jurado resistência notarão que a vida é mais fácil se se submeterem. As empresas também obterão contratos quando os apresentarem. Muitas pessoas tornar-se-ão ricas e crescerão na sociedade quando se submeterem. E se não fizerem isso, verão como os outros fazem. Isso é, como formar autocracias - "não pelo diktat e violência", David Frum escreveu no The Atlantic revista, mas através do "processo lento de desmoralização, de corrupção e fraude."

O DER SPIEGEL, advertiu contra Trump numa reportagem de capa, no início de 2016. Seguimos com outra reportagem de capa, " Cinco Minutos para Trump ,"sete semanas antes da eleição. Cometemos erros, mas subestimar Donald Trump não era um deles. No sábado (4 de fevereiro de 2017), publicámos uma reportagem de capa ilustrada com uma caricatura desenhada por Edel Rodriguez, um imigrante cubano que vive em Nova Jersey. A imagem mostra um homem gritando sem olhos ou nariz, mas facilmente discernível como Trump, segurando a cabeça decapitada da Estátua da Liberdade em uma mão e uma espada sangrenta na outra. "America First", afirma - não há nada mais para ver ou ler - qualquer outra coisa, como com toda a arte, é uma questão de interpretação.

Impressionante ", escreveu o Washington Post. A revista política Mother Jones descreveu como " uma declaração e tanto ." Os manifestantes também usaram a imagem da capa em cartazes em protestos nas ruas de cidades em toda a América. "A imagem da capa espetacular está a circular aqui nos EUA e as pessoas estão todas a gostar", escreveu a romancista Irene Dische de Nova York. Nós também fomos inundados com cartas apaixonadas de leitores aqui na Alemanha, com respostas normalmente indo em duas direções - ou é "brilhante" ou "que está doente, você deve ver um psicólogo." Alguns reclamaram porque a imagem era muito brutal.

A autoridade bild.de, o site de notícias do maior jornal sensacionalista da Alemanha, levou ao Twitter para criticar habilmente DER SPIEGEL. Não desperdiçou palavras sobre a alienação, a caricatura ou a liberdade de expressão. Em vez disso, alegou que SPIEGEL tinha retratado Trump como um terrorista do Estado islâmico, como se fosse algum tipo de fotomontagem. Esta interpretação desigual pavimentou o caminho para uma onda de raiva de indignação. Mas os colegas mais graves em meios de comunicação como o Süddeutsche Zeitung e Frankfurter Allgemeine Zeitung também escreveram que DER SPIEGEL foi longe demais. O  que depois de tudo, podemos esperar?

Em Kress , uma publicação de comércio da indústria de media líder na Alemanha, o jornalista Franz Sommerfeld escreveu: "Se Trump é uma emergência, então é função dos media tocar o alarme da maneira mais sólida e mais informativa possível, tal como o novo Spiegel fez. Isso, naturalmente, inclui também caricaturas e outras formas de confronto jornalístico".

Afinal, o que devemos esperar?

Para Trump mostrar o que para são negócios? Ele já está fazendo isso. Para ele começar sua primeira guerra?

Para que os EUA desapareçam, para que seu povo suporte Trump e permita que um processo comece a se tornar irreversível?

Donald Trump não decapitou uma pessoa na capa de DER SPIEGEL, ele decapitou um símbolo. A Estátua da Liberdade tem servido como símbolo da América da liberdade e da democracia desde 1886 - que acolhe refugiados, migrantes, "os sem-teto, excluídos", de acordo com a inscrição que ele carrega. Donald Trump despreza e ameaça a democracia liberal, despreza e ameaça a ordem mundial ele é o homem mais poderoso do planeta. A emergência já está sobre nós.

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publicado às 19:43


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