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Desfaçatez ou nostalgia do poder

por Manuel AR, em 29.03.16

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Descaramento não falta ao ex-primeiro-ministro. Segundo o Jornal de Notícias de 25/03/2014 Passos Coelho disse que é preciso elevar os rendimentos mais baixos dos portugueses e que tem como “objetivo a redução das desigualdades e das injustiças sociais, afirmando que "doravante" será possível "olhar para as políticas sociais" com um alcance que o "contexto de emergência" dos últimos três anos não permitiu”. Mas afinal não tínhamos todos que empobrecer!? E então não eram os cortes para serem definitivos? Entretanto abriu exceções para reposição de alguns por altura da campanha eleitoral. 

As afirmações deste ex-primeiro-ministro que continua numa missão de espécie de político exilado apenas demonstram uma falta de caráter sem limites. Não olha a meios para atingir os fins. Tudo lhe serviu e continua a servir para os seus intentos de tomada do poder: a mentira, a deturpação de sentido, o engano, o ultrapassar dos limites do estado de direito constitucional, como várias vezes fez durante o seu mandato, enfim uma trapalhada. Apenas em alguns meses altera os seus pontos de vista caminhando cada vez mais para o deserto para onde está a colocar o partido. Mas a culpa não é só dele é também dos seus “adoradores”. Como é o PSD o elegeu (apenas 46% do militantes o fizeram) agora tem que  aguentar um líder como este que, às segundas, terças, quartas, quintas e sextas é liberal radical e nos fins de semana é um socialista dos mais à esquerda. Para Passos Coelho era preferível baixar salários por questões de competitividade agora é preciso aumentá-los; evitava o aumento do salário mínimo, agora é preciso revê-lo. Como se os argumentos que então utilizava tivessem perdido a validade.

Era crítico acérrimo do Estado Social e da sua reformulação que agora é o seu melhor defensor ao defender que o Estado e o Governo "farão bem aquilo que lhes cabe se olharem para as políticas sociais como políticas de investimento social". Será que li bem ou será que a leitura é outra e estou enganado e o que ele diz é que as política sociais deverão ser um área de negócio para os privados com fins lucrativos, (não tenho nada contra o lucro nem investimento privado desde que não à custa da miséria de uns e dos impostos dos outros), para onde o Estado deve canalizar fundos dos impostos de todos. Se for este último caso nada mudou na sua política do passado.

Mas Passos Coelho não se fica por aí e vai a reboque das políticas da atual maioria parlamentar que Paulo Portas denominou de “geringonça” dizendo que "Para isso, teremos de apostar na qualificação do nosso capital humano e de dar oportunidades aos nossos jovens, sobretudo aos mais desfavorecidos. Teremos de proteger e elevar os rendimentos mais baixos dos portugueses que não podem dispensar os apoios sociais. Teremos de reduzir as desigualdades e as injustiças sociais". Então não era isto o que ele apelidava de as gorduras.

Plágios do programa do Partido Socialista.

Será esta viragem à esquerda desfaçatez ou nostalgia do poder?

 

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publicado às 17:43

Os sem vergonha e o medo da perda do poder

por Manuel AR, em 29.10.15

Vergonha na cara.png

 

É muito curioso que Passos Coelho e a sua coligação de direita, PSD e CDS, venham agora em momento de aflitos de perda de poder incluir algumas das 23 medidas propostas ao Partido Socialista no documento facilitador apresentado durante as negociações com António Costa. Isto é, fazem uma cópia refundada e falsificada do programa do Partido Socialista no seu próprio programa.

A confirmar-se o que diz o Diário Económico Passos Coelho e Paulo Portas acordaram incluir uma “aceleração na remoção da sobretaxa de IRS” e a atualização do Salário Mínimo Nacional. Caiu ainda o plafonamento das pensões para se admitir uma reforma da Segurança Social. A reavaliação das condições de recursos em algumas prestações sociais e outras medidas nas áreas da cultura, saúde, educação e “defesa do Estado Social” estarão também incluídas.

Parece que face à perda do poder vergonha não lhes falta…

Mas há mais, o descaramento da despesa do Estado com a aquisição de automóveis referente ao ano passado. Segundo uma auditoria do Tribunal de Contas, a central de compras do Estado, a ESPAP, permitiu o aumento de custos de manutenção de 160 veículos e em 62 casos a transformação das viaturas ultrapassou o valor base do automóvel. Fantástico! Querem continuar no poder para isto…

Mas há mais, um outro sem vergonha que foi protagonizou há menos de um ano e que levou a vários pedidos de demissão, depois de ter reagido a uma reportagem sobre o caos vivido nas urgências hospitalares do último Inverno dizendo que “os serviços de urgência em Portugal funcionam muito bem” e que nas imagens se viam “pessoas bem instaladas, bem deitadas, em macas com proteção anti queda”. Trata-se duma espécie de carniceiro que foi promovido a Ministro da Saúde e vai tomar conta do Serviço Nacional de saúde. Trata-se de Leal da Costa.

Leal da Costa coloca em primeiro o seu partido em lugar dos doentes e do serviço nacional de saúde. Médico humanista ou médico economicista que mente descaradamente e desconhece o dia-a-dia das pessoas que, para ele, devem ser apenas carne humana.

 

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publicado às 19:05

Os três cruzados

por Manuel AR, em 13.02.15

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O artigo de opinião intitulado Os Cruzados que Domingos Lopes escreveu no jornal Público é uma narrativa que confirma o estado de negação em que o governo germanista de Passos Coelho e o Presidente da República têm mostrado perante os portugueses.

O que Domingos Lopes escreveu levou-me a pensar retrospetivamente e a escrever as ideias por outras palavras elencando uma série de mentiras que Passos Coelho e Paulo Portas têm feito passar.  

Numa visão paternalista e ditatorial Passos e o seu Governo resolveram cuidar dos portugueses gastadores, "domesticá-los", empobrecendo-o como forma de denominação que os tem levado à indiferença.

Para o Governo e a maioria que o apoia os portugueses são em síntese:

Esbanjadores.

Cidadãos piegas.

Vivem à custa do Estado Social.

Têm que sair da sua zona de conforto.

Os que trabalham e tem os seus empregos têm que desocupar os seus postos para os dar aos jovens.

Há que fazer a mudança diziam os porta-vozes do Governo de Passos Coelho.

Se já não o dizem é porque estão em campanha eleitoral.

Se ganharem veremos o que vai acontecer.

Assim, laçaram-se numa "cruzada" contra a maioria da população que vivia, como diziam, acima das suas possibilidades, deixando de fora os responsáveis pelo sistema financeiro.

Os grandes causadores eram os que viviam dos seus salários e gastavam tudo o que tinham e não tinham. Mas os gestores bancários de instituições como o BPP, BCP, BES e BPN aconselhavam os que viviam dos seus vencimentos e tinham pequenas poupanças e rendimentos (prova-se aqui que, afinal, nem sempre gastavam tudo o que tinham e não tinham) a confiar e aplicar o dinheiro naquelas instituições, sabe-se hoje serem ativos tóxicos. Mas os administradores daquelas instituições e outros como o compincha e ex-conselheiro de estado de Cavaco Silva Dias Loureiro continuam a passear-se por aí, todos eles vivendo como nababos a gastar o dinheiro dos que viviam acima das suas possibilidades.

Apontando a crise causadora a governos anteriores, que não os deles, apagando o tempo em que Cavaco Silva foi primeiro-ministro e que, para receber fundos europeus, decidiu dar cabo do que restava da indústria e da agricultura, antros que alimentavam os perigosos sindicatos comunistas, lançam-se de espada em riste confiscando salários e tudo para bem dos prevaricadores.

O íncola de Belém, nome interessante aplicado por Domingos Lopes a Cavaco Silva, juntou-se afincadamente à trupe governativa acolitados por comentadores com a trombeta do Governo que propagandeiam ardilosamente sucessos da governação negando e ocultando o que as evidências do dia-a-dia mostram. É aqui que entra o estado de negação desta gente. Recordemos então:

As verdades feitas

O estado de negação

O país está bem e o SNS está melhor do que estava.

A gripe sazonal de inverno, mais que esperada, fez parar as urgências dos hospitais.

Alguns portugueses morreram ao fim de horas sem serem atendidos.

Os responsáveis hospitalares confiscam as macas aos bombeiros para os doentes não se espalharem no chão daqueles estabelecimentos.

Passos Coelho e seus acólitos apregoam o seu contentamento pelo novo estado do país.

Uma em cada três crianças está no limiar da pobreza…

 

Estão satisfeitos porque o país merece o crédito dos credores.

 

Não há vacinas para a tuberculose…

a dívida passou de 97% para 135% do PIB.

 

Com ar de muita credibilidade tentam demonstrar que não querem que os portugueses paguem os prejuízos da TAP e querem vendê-la aos privados que sabem gerir.

O que aconteceu com os bancos nacionais e internacionais. Estes privados não se sabe quem são, não têm rosto… deitaram a baixo bancos e empresas com proveito próprio o que mostra uma boa gestão.

Mostram um emblema da bandeira na lapela imitando os Estados Unidos da América.

Traem Portugal e mentem aos portugueses sempre que podem e castigam com a austeridade apenas para alguns porque, como diz o acólito do governo e inquilino de Belém, o tempo, não está para facilidades… Para alguns diga-se.

Anunciam reformas laborais de sucessos para bem da competividade e do investimento e para a estimulo da criação de postos de trabalho.  

O objetivo encaminha-se para acabar com o Código de Trabalho e deixar o mercado regular as relações entre o empregador e o empregado… a bem da concorrência.

Mas o desemprego estrutural e de longa duração aumentam.

Anunciam políticas (neoliberais) para deixar o mercado funcionar e austeridade para criar riqueza.

Resultou na devastação do tecido produtivo português e as condições de vida dos portugueses.

Elogiam um Estado mínimo sem gorduras.  

Deram golpes profundos no Estado Social e no Estado de Direito para construir uma sociedade em roda livre, à larga e sem leis para que os donos disto tudo investissem.

Não resultou nem em investimento nem na criação de postos de trabalho.

Vejam-se os casos BPN e BES como resultaram em investimento produtivo

Criaram empregos no Estado para amigos e famílias.

.

Domingos Lopes termina escrevendo: "São estes os novos cruzados: gente que não gosta dos portugueses e que vive a pensar em como pode engrandecer os donos do dinheiro para os fazer enriquecer e simultaneamente empobrecer o país."

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publicado às 12:19

Após regresso de S. Vicente de Cabo Verde, encontro-me agora algures na Beira Interior. Este ano o mês de agosto não tem sido muito quente, manhãs e noites frescas e calor intenso a meio do dia, nada comparável a temperaturas escaldantes de outros anos.

Apesar de longe da grande cidade e sob a tranquilidade campestre onde um céu de azul límpido e luminoso e da suave brisa refrescante que corre, desanuviando o espírito e convidando ao descanso do corpo e à desintoxicação do consumismo de informação política, estou agarrado a um vício de qual ainda não me libertei completamente, apesar de tentar a leitura de jornais, dos noticiários televisivos e dos comentários sobre a política nacional. Todavia, há alguns dos quais já me vou conseguindo libertar como o do pantomimeiro Rebelo de Sousa, do Morais Sarmento, do Santana Lopes, este, radicalmente nem vê-lo nem ouvi-lo, e o do Marques Mendes que pretende competir com o Rebelo.

Assim, ainda na semana que hoje termina liguei para um canal de televisão e, olha que dois, juntos, o Henrique Monteiro, jornalista que escreve para o Jornal Expresso e o antigo diretor do Jornal Público José Manuel Fernandes defendiam o mesmo com palavras diferentes. O Henrique Monteiro, frente aos ecrãs, graceja com coisas muito sérias e, demagogicamente, tenta aproximar-se dos problemas de alguns espetadores mostrando que também está a ser vítima da crise. Mas que pena! Neste confronto não houve debate houve, isso sim, ideias viradas contra o mesmo “target”.  Isto é, defendiam as posições divisionistas tomadas por Passos Coelho, mas há moda deles.

Os causadores da crise nunca somos nós, são sempre os outros, os que, dizem eles, vivem à custa do Estado, como se eles, sempre que possam não retirem do Estado o que acham ter direito seja de que modo for, e, mais tarde não forem também, em parte, viver à custa dele. Se assim não for então digam-nos o segredo para não o fazerem.

É uma tristeza… Sempre que se pensa que lhes vão aos bolsos há um grande problema, mas, quando vão aos bolsos alheios “no problem”, tudo é válido, contudo a despesa continua a subir. Não mordam no meu bolso, vão ao dos outros, dizem eles de forma muito rebuscada. Apesar de cortes e mais cortes a despesa já vai nos 134% do PIB. No tempo de Sócrates, o esbanjador despesista, como diz a direita, a despesa era de 90%.

Ou eu não percebo nada disto ou algo está mal neste governo. Dirão alguns: pois, você é que não percebe nada disto. Então, por favor, expliquem.

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publicado às 17:33

 

 

 Não podemos deixar que esta direita marque pontos a seu favor. Estar atento ao que se passa é uma missão de cidadania, portuguesa e europeia.

Os portugueses vão às urnas dentro de duas semanas para eleger o Parlamento Europeu pela quinta vez desde que é membro de facto da União Europeia.

A participação em eleições anteriores tem sido muito caracterizada pelo abstencionismo. Apenas em 1987 foi a mais baixa, apenas com 27,5%, a partir daí tem vindo sempre a crescer rondando em média os 62%. Isto significa que o que há um pensamento em que prevalece a ideia de que União Europeia está muito longe e em nada influencia a vida em Portugal. Nada mais enganador. Tivemos ao longo dos três últimos anos a prova disso.

Este ano todos devemos ir votar contribuindo assim para que a abstenção diminua o que pode vir a beneficiar este Governo. Como sabemos e temos vindo a sentir por experiência própria a União Europeia não é uma coisa que está muito longe e que em nada interfere connosco. A crise que atravessamos em Portugal tem sido gerida e, não raras vezes agravada, pelo domínio de uma direita neoliberal à qual pertence Durão Barroso e segue tudo quanto lhe é imposto.

A família da direita neoliberal detém uma maioria no Parlamento Europeu que requer, sem demora, seja substituída. Só desta forma alguma coisa poderá mudar na europa e, consequentemente, em países como Portugal.

Os presidentes da Comissão Europeia, com o fim do mandato de Durão Barroso, serão selecionados pelos partidos políticos.

A direita europeia cerra fileiras em todas as frentes para fazer acreditar no sucesso da austeridade nos países do sul e que ela conduziu ao sucesso da recuperação económica nesses países. Basta estarmos atentos aos números estatísticos, às vezes até contraditórios, e às declarações que nos chegam de todos os lados da U.E. e que pretendem demonstrar o sucesso do ajustamento. Até na Grécia passou a estar tudo bem.

Segundo o Le Monde, na abertura da campanha eleitoral do seu partido CDU, Angela Merkel congratulou-se pela saída progressiva da crise na zona euro dizendo que "Estou feliz por termos decidido que a Grécia devia permanecer no euro. A Grécia tomou um caminho difícil, mas nós estavam ao seu lado.". Não é de admirar que, após as eleições, tudo volte ao passado e já nada seja outra vez como é gora.

Por outro lado, há que ter em vista que os partidos da extrema-direita como o de Marine Le Pen da França com o seu discurso social-populista e Geert Wilders da Holanda com o discurso autocrata e xenófobo, pretendem também ganhar o maior número de lugares no Parlamento Europeu.

Faz falta a Portugal e à Europa um novo despertar de modo a bloquear as tentativas que têm vindo ser feitas para a manutenção e reforço no Parlamento Europeu das direitas liberais e neoliberais, alguns com traços autocráticos, com prejuízo, em especial, para os países do sul.

A todos cabe a missão de defender a Europa e fazer soar os toques de rebate. São os jovens e os que agora têm entre quarenta e cinquenta anos e mais que beneficiaram de tudo quanto a Europa ajudou a trazer, desde infraestruturas, passando pelo Estado social até ao elevado nível de escolaridade obtido, e que julgam, erradamente, que são dados como adquiridos. Os últimos anos de governação em Portugal têm demonstrado o contrário pondo tudo em causa e querendo fazer-nos recuar quase aos níveis da pré-adesão.

Não podemos deixar que esta direita marque pontos a seu favor. Estar atento ao que se passa é uma missão de cidadania, portuguesa e europeia. Abstermo-nos é deixar que outros decidam por nós.

 

Composição atual do Parlamento Europeu 

 

 

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publicado às 23:59

Sustentabilidade da Segurança Social

por Manuel AR, em 07.05.14

 

Quem deseja conhecer o que de facto se passa com a segurança social em Portugal tem neste livro a possibilidade de consultar diversos artigos que desmontam as falácias prpositadamente geradas pelo governo para justificar os cortes e a sustentabilidade que diz não existir. 

Livro de coordenação de Raquel Varela, escrito numa linguagem científica mas acessível, é de leitura ou de consulta obrigatória.

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publicado às 16:05

Dupont e Dupont

por Manuel AR, em 14.03.14

 

A palavra mais ouvida nas últimas semanas é consenso. Consenso é um consentimento, uma anuência. Para que haja uma anuência é necessário que existam pelo menos duas partes que se ponham de acordo sobre alguma coisa.

O pedido de consenso vindo primeiro dos partidos do governo e agora do Presidente da República é um logro e um ardil, palavra que também é sinónimo de embuste.

Argumentam comentadores e jornalistas propagandistas do governo que, na Europa, os consensos entre partidos são comuns como se verifica em alguns países, nomeadamente na Alemanha, onde existe uma coligação de governo entre a CDU (União Democrata Cristã), CSU (União Social Cristã da Baviera) e SPD (Partido Social Democrata) todos partido de direita exceto o SPD que é filiado na Internacional Socialista.

Destes argumentos pode aduzir-se que, se na Europa se estabelecem consensos entre partidos, em Portugal o mesmo deveria ser feito. Estes iluminados senhores parecem esquecer os contextos sociais, económicos e os enquadramentos políticos, dos diferentes países.

Os argumentos são fracos e apenas se justificam porque há uma situação de emergência do governo para envolver o Partido Socialista no buraco em que transformou o país, necessitando, por isso, de um companheiro que vá com eles ao fundo.

A história da política europeia dos últimos cinquenta anos mostra-nos alguns exemplo entre os quais o do PCI (Partido Comunista Italiano) que anos setenta, com mais de 20% de votação, se consensualizou com o Partido da Democracia Cristã em nome de um "Compromisso histórico" que o conduziu na prática a transformar-se num partido residual.

Pretende-se agora uma espécie de "compromisso histórico" ou de salvação nacional como alguns saudosos do passado chamam a um consenso cujo objetivo, dizem, é encontrar uma saída para situações difíceis e complexas que se aproximam. Claro que ao falarem em abstrato estão a referir-se, nomeadamente, a mais cortes a que o Governo chama reforma do Estado ao que se acrescenta a tal saída da "troica" que não será mais do que meramente virtual.

Os pressupostos para o insistente pedido ao Partido Socialista para consenso são evidentes. Apesar de existir uma maioria parlamentar confortável, os partidos do governo sabem que não será possível, respeitando a Constituição, governar e transformar um país cultural, política e socialmente complexo que foi por eles próprios fraturado. Assim, precisam de dispor de uma força suficiente para gerir e implementar as reformas neoliberais profundas, mantendo os extensos interesses financeiro e económicos e hábitos enraizados, num período de tempo suficientemente longo para se obterem efeitos desejados. Ora, numa previsão ou antecipação de uma possível crise (perda de eleições, por exemplo) há a necessidade de chamar a participação de outros, formando um consenso maioritário heterogéneo que legitime a força do governo.

O que pretendem com o consenso é uma opção estratégica de conveniência para atapetar a tomada de decisões difíceis que o Governo tem na forja, arrastando o seu opositor para o mesmo rumo de políticas seguidas o que é, no todo, uma armadilha.

Consenso político alargado como o que se pretende num país como Portugal, onde se procede ao empobrecimento institucionalizado, à diminuição da qualidade de vida e ao reduzir à sua expressão mais simples o Estado Social transformará a democracia parlamentar num pró-forma. O tipo de consensos que se pretende é viável em países ricos da UE e estabilizados financeiramente, onde se trocam consensos por pastas governamentais.   

A liberdade de escolha dos cidadãos passa a ser meramente formal porque deixaria de haver alternativas. Isto é, torna-se indiferente votar em projetos políticos porque perante a existência dum projeto comum formalizado é indiferente a opção tomada pelos eleitores, podendo conduzir, a prazo, numa progressiva redução de representatividade do Partido Socialista. Ou, como já disse Pacheco Pereira, "vote-se em quem votar, ou mesmo não votando, nada muda". Esta passaria a ser uma atitude que conduziria ao enfraquecimento da democracia e a uma espécie de "democracia consensual de partido único" que governaria para sempre fosse qual fosse o resultado das eleições. Uma forma de colocar a direita sempre no poder como se pretende ver pelos apelos ao consenso vindos das direitas europeias.

Pretende-se um consenso para o empobrecimento contínuo dos portugueses durante os próximos anos, a que chamam ajustamento, como se pode inferir das declarações de Poul Thomsen, vice-presidente do departamento europeu do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Pela insistência do consenso pode dizer-se que não há fumo sem fogo.

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publicado às 13:42

Eleições europeias e o neoliberalismo

por Manuel AR, em 10.03.14

Há quem não queira ver um rosto neoliberal neste PSD e CDS que estão no governo e se refugie em explicações para demonstrar a invalidade deste conceito da teoria económica. Mas a realidade é que ele é uma consequência mais moderna do clássico liberalismo. A escola liberal clássica defendia a abolição da intervenção do governo em matérias económicas e ser o comércio livre o melhor caminho para o desenvolvimento das economias nacionais.

O neoliberalismo é uma nova espécie de liberalismo que foi incentivado pela rápida globalização da economia do tipo capitalista e centra-se fundamentalmente na obediência aos seguintes princípios:

a)      Libertação do setor privado de qualquer obrigação imposta pelo governo (o Estado) mesmo causando danos sociais. Redução de salários e do papel dos sindicatos deixando os trabalhadores desprotegidos com eliminação dos direitos obtidos durante muitos anos.

b)      Redução ou eliminação da despesa pública destinda aos serviços sociais como educação, cuidados de saúde, redução da rede da segurança de minimização da pobreza.

c)       Passagem da exploração e manutenção das redes de comunicação terrestre para entidades privadas pagos com os impostos.

d)      Privatização da energia e da água, tudo em nome de redução do papel do Estado. Ao contrário de atribuições sociais, o neoliberalismo não põe em causa o pagamento de subsídios do Estado a entidades privadas ao mesmo tempo que evita taxar os benefícios do negócio.

e)      Redução da regulação por parte do governo de tudo quanto possa diminuir os lucros, incluindo a proteção e segurança ambiental e a proteção do emprego.

f)       Venda das empresas e serviços públicos a investidores privados. Isto inclui bancos, indústrias-chave, transportes públicos, portagens, eletricidade, escolas, hospitais e água potável, cujo argumento é a maior eficiência dos serviços, justificado pelo efeito da prosperidade. Conduz à concentração em apenas algumas mãos.

g)      Eliminação do conceito de bem público e de comunidade que são substituídos pela responsabilidade individual.

h)      Pressão sobre grande parte da sociedade, mesmo sobre os mais pobres da sociedade para eles próprios encontrarem soluções para a falta de cuidados de saúde, educação e segurança social, deixando-os a cuidar de si mesmo e, se falharem, acusando-os de serem "preguiçosos".

 

Como se sabe a aplicação do neoliberalismo tem sido imposto por instituições financeiras como o FMI, o Banco Mundial e o Banco Central Europeu (BCE) a países mais frágeis. Em Portugal são a coligação PSD/CDS e a "troika" que, com agrado e apoiando-se reciprocamente, impõem políticas neoliberais.

Não é por acaso que surgem pressões para a imposição daquelas medidas, a que dão o nome de austeridade, aos países do sul da europa e cujo objetivo é justificado pela necessidade da diminuição dos défices que passaram a ser excessivos.

A crise financeira internacional e da europa que o PSD e o CDS desconsideravam quando se encontram na oposição veio ajudar a submeter alguns países para, sob pressão, procederem a uma viragem para políticas neoliberais. Ao aproximarem-se as eleições europeias começaram a verificar-se intervenções intencionais dirigidas ao nosso país vindas de várias instituições nacionais e internacionais de apoio às medidas do Governo e elogiando o esforço. Entretanto saem estatísticas cujos números que servem e ajudam a completar o discurso.

A política neoliberal que estamos a suportar em Portugal aplicada por este governo á consequente com os princípios anteriormente enunciados que, há cerca de três anos, podem ser comprovados pelos seguintes factos:

  • 12000 Pessoas perdem apoios por mês.
  • Governo cobra cada vez mais e distribui cada vez menos: IRS subiu 35,5% custo de vida 20% mas os apoios caem 7%
  • Mais de 440000 desempregados sem qualquer apoio em 2014.
  • RSI apoia menos 52000 pessoas que em 2013.
  • Em maio de 2013 havia 399000 desempregados com direito a subsídio que recebiam em média 510 euros mensais, em janeiro deste ano os 388000 desempregados recebem 470 euros.
  • O governo conseguiu aumentar as receitas de IRS em 35,5% num só ano. Apesar do empobrecimento das famílias o aumento de receitas de IRS. (Contradições do neoliberalismo?).
  • Em 2010 48% ganhavam até 10000 euros ano. Agora são 66%. Isto é, se em 2010 existiam 2,3 milhões de famílias a ganhar menos de 10000 euros ano (48%) em 2012 contavam-se já 3,04 milhões de famílias nessa situação (66%).
  • Portugal está melhor. Se salários e pensões foram cortados, o custo de vida nos últimos anos aumentou: o preço da eletricidade subiu 23%, o uso de hospitais 19,3% mais caro e o ensino superior subiu 5,1%.
  • Num único mês 50000 crianças perderam o abono de família.
Para tudo isto basta fazer as contas

Fontes: IEFP, Instituto da Segurança Social, Segurança Social, INE, Banco de Portugal

                                                  

O dados apresentados são apenas uma parte do conjunto das pessoas afetadas que poderão ter ficado felizes com o facto de "Portugal estar melhor mas as pessoas não".

Há uma lógica neoliberal que, ao mesmo tempo que provoca crises, protege os responsáveis e força os "peões" que são as vítimas a pagar os custos. Portugal não é original neste sentido mas é o que segue o padrão com mais afinco. Já nem os partidos socialistas se conseguem distanciar. Basta recordar o que se passou com os bancos. As medidas de austeridade também serviram para os reparar do que eles próprios causaram.

A pergunta universal que podemos colocar é: quem ajudará as nações se até os partidos ditos sociais se afastam da sua matriz?

O nível elevado de abstenção que se verifica nos períodos eleitorais é manifesto de uma desilusão pela ineficácia das respostas das políticas vigentes e alternantes, pela falta de escrúpulos políticos e de valores humanos que leva à aplicação cega das teorias do neoliberalismo económico, executadas pelos que nos têm governado há décadas.

Somos todos responsáveis quando, através do voto, escolhemos em função da imagem mais ou menos favorável dos políticos que as televisões nos vendem em lugar de programas de governo e das propostas que apresentam. Quem se abstém também não se isenta de responsabilidades pois contribui para que outros escolham por ele.

O absentismo da política e do exercício da cidadania por parte dos cidadão deve-se, em parte, ao medo da perda do pouco que ainda resta de pertença a uma classe que está em vias de perder tudo em prol de uma outra que vem impondo através do empobrecimento e umas e da exclusão social de outras.

No mesmo contexto a igreja católica portuguesa também não está isenta de responsabilidades porque como já não tem o que evangelizar na europa dota-se agora duma outra função que é a de, subtilmente, apoiar políticas de governos neoliberais, ditos de inspiração cristã, que lhes é mais favorável e dos quais tira vantagens. 

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publicado às 00:06

 

A inépcia deste Governo e de alguns dos seus ministros em particular no que reporta à insustentabilidade da segurança social que, segundo eles, é devido à demografia e ao aumento da esperança de vida, leva-os a fazer uma gestão apenas através de cortes nas pensões e reformas. Como se as vítimas dos cortes fossem responsáveis pelo envelhecimento demográfico e por terem uma esperança de vida mais prolongada.

A incompetência é tal que, após três anos, não se debruçaram ainda sobre uma metodologia para a reforma da segurança social de modo a minimizar os efeitos que tanto apregoam. Começam agora a levantar a hipótese da privatização parcial dos ativos da segurança social como solução mágica para resolverem o problema. Pensam em quem? Nos contribuintes e nos futuros pensionistas? Não, apenas veem uma oportunidade de negócio para enriquecer alguns que irão receber de mão beijada uma benesse de milhares de milhões de euros que irão gerir de acordo com regras vantajosas que definirem para os adquirentes.

Todas as decisões que tomam são ineptas, incompetentes e revelam uma falta do conhecimento total das realidades. Imagine-se o aconteceria às contribuições da segurança social numa possível e grave crise financeira e bolsista ou, no caso de falência dos privados a quem fosse entregue a gestão dos fundos de pensões. Estão a calcular o que poderá acontecer?

Falam, ainda timidamente, no plafonamento das contribuições para a segurança social que levaria a milhões de euros não entrarem nos seus cofres debilitando, ainda mais, a sua capacidade de sustentabilidade.

Sobre isto tem sido evitado um debate elucidativo. Resta que todos abramos os olhos e pensemos o que este Governo poderá ter em vista lesando a maioria da população com vantagens para cliques, e lóbis económicos e financeiros, que gravitam à sua volta.

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publicado às 12:11

O engano e a desfaçatez

por Manuel AR, em 27.02.14

 

 

O pequenino país em que vivemos, dizem alguns iluminados, está melhor do que as pessoas. Começou novamente a ser passada a mensagem falaciosa de Passos Coelho para captar votos, esperando que os portugueses vão atrás do engodo e já se tenham esquecido do que foram as últimas eleições legislativas.

Veja-se como o discurso de Passos Coelho está aos poucos, e temporariamente, a transformar-se num alinhamento de falsa esquerda quando afirma que "Não queremos um país fechado sobre si próprio, nem o regresso do escudo. Queremos um país com um Estado social forte - e sabemos que é forte, comparado a outros países - mas que só será sustentável se a economia o permitir e as escolhas o determinarem".

Queremos um país com Estado social forte disse o primeiro-ministro no congresso do Coliseu. A frase parece soar a falso sabendo nós quem a proferiu e qual a sua ideologia e a sua política. Estão na moda os cata-ventos. O que era nos anos anteriores deixou se o ser agora.

Passos Coelho apresenta-se com uma alma de esquerda ao afirmar-se defensor do Estado social em particular do Serviço Nacional de Saúde. Mas acrescenta, não a qualquer preço porque diz ele que sabemos o que custa para o Estado social a falta de rigor nas contas públicas. Podemos descortinar nestas afirmações algo pouco clarificado e muito ambíguo, como seria de esperar.

Todavia, acrescenta que esse Estado social que diz pretender (não se sabe qual é) só é possível se a economia o permitir e as escolhas o determinarem. Claro que, se assim for, com a política que está a ser seguida talvez lá para meados deste século, se o for, voltaremos a ter um Estado social. Mas atreve-se ainda a dizer que é para defender esse Estado social que insiste no convite à oposição para que se sente na comissão parlamentar de reforma do Estado.

Vamos lá ver se percebo: quer uma reforma do Estado para o qual já apresentou um rascunho feito por Paulo Portas, tem maioria absoluta mas precisa de consenso. Não atinjo, a menos que isto seja uma estratégia para ter um companheiro do fracasso que já antevê.

Aponta para um regresso do PSD à matriz social-democrata. Algo muito estranho se passou entretanto porque ele próprio afirma agora que o PSD se tinha afastado daquela matriz. Então quem o titulava de neoliberal parece que tinha razão.

O descaramento vai mais longe quando assume uma atitude de arrependimento ao afirmar que estávamos talvez muito agarrados às nossas opiniões (o que parece ser o reconhecimento de que falhou ao insistir na sua conduta de estratégia política) e que, por isso, não conseguimos um entendimento talvez porque houvesse muitas medidas difíceis para tomar. Na altura houve medidas difíceis? Então e agora já não vai haver? Ao mesmo tempo continua a afirmar que aquela política é para manter.

O PSD necessita do PS como de pão para a boca, como popularmente se diz, para lhe validar as políticas que seguiu e que vai continuar a seguir.

Esperemos o que vai dar a escolha de Francisco Assis como cabeça de lista para o Parlamento Europeu. Mas parece-me que os portugueses vão ter que estar muito atentos às armadilhas que os espera pela frente para não se deixarem enganar como o foram à cerca de três anos.

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publicado às 17:21


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