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Profissionais da falsidade na política

por Manuel_AR, em 18.05.15

Catroga_3.jpg

 

 

 

Votar na coligação é o mesmo que jogar na roleta apostando no 36 vermelho e o croupier anunciar que saiu o 13 preto. Resta depois hipotecar tudo o que se tem e não tem para pagar ao dono do casino por mais quatro anos.

MR

Há uma desilusão e um descrédito na sociedade relativamente aos políticos, daí a desmobilização das pessoas em relação ao voto no qual a abstenção é um dos indicadores mais relevantes.

Somos um país premeditadamente desinformado sobre a atuação política do Governo. O canal Parlamento é onde podemos seguir com mais pormenor o que se vai passando. O que vamos sabendo é apenas pela voz dos que defendem em causa própria a aplicação das políticas de quem nos governa. Como já escrevi em textos anteriores, entre eles estão também os comentadores afetos aos partidos do Governo que ocupam os canais de televisão generalistas sem que haja, ao mesmo nível de horário, a possibilidade de contraditório.

Ouvimos a maior parte das vezes os mesmos pontos de vista defendidos até à exaustão que as audiências absorvem como verdades porque não possuem a informação suficiente para a validarem.

Os argumentos que utilizam são muitas vezes baseados em informação com incorreções, falsidades e distorção da verdade para iludir quem os escuta. Com exceção de alguns mais interessados ou informados a maioria não tem a possibilidade de confirmação.

Um dos que está nesse alinhamento é Eduardo Catroga que foi premiado por serviços prestados quando da negociação do memorando com a troika e pela venda da EDP à empresa estatal chinesa, China Three Gorges Corporation. Ocupou de imediato o cargo de Presidente da EDP em representação daquela empresa com remuneração milionária.

Catroga, bem instalado na vida com remunerações escandalosas para um país empobrecido como é Portugal, é compreensível que seja um dos carros de combate do atual PSD. É um digno representante do pensamento político e ideológico, ainda mais radical do que o próprio Governo que apoiará para que a coligação continue a governar.

Disse Eduardo Catroga que o Governo se atrasou no processo de redução da despesa pública e que, em vez do colossal aumento de imposto, deveria ter feito uma enorme redução na despesa. Lança isto mentindo descaradamente, aliás seguindo as pesadas do líder do seu partido.

Vamos ver os verdadeiros números para podermos aferir se deveremos ou não votar nesta coligação que nos engana sustentada por uma vanguarda que nos pretende continuar a enganar.

 

Consolidação orçamental:

  • Diminuição da despesa primária de 7,4 mil milhões de euros. (Despesa efetiva excluindo a rubrica de juros e outros encargos)
  • Aumento da receita de 4,5 mil milhões de euros.
  • Redução da despesa de 2/3 da consolidação.
  • Aumento da receita 1/3 da consolidação.
  • Ao contrário do que Eduardo Catroga diz o enorme aumento de impostos foi inferior ao enorme corte na despesa.                     

Os dois momentos do ajustamento foram:

Primeiro momento

  • Corte brusco na despesa que reduziu mais de 10 mil milhões de euros.
  • Quebra na receita de 2,7 mil milhões de euros.
  • Decisão do Tribunal Constitucional: eliminados 3 mil milhões de euros de corte na despesa. Se não fosse esta decisão a economia estaria ainda neste momento com uma recuperação ainda mais débil.

Segundo momento

  • O tal aumento enorme de impostos com a subida de receita de 6,2 mil milhões de euros.

Como o corte na despesa foi anterior ao enorme aumento dos impostos apenas este ficou registado na memória das pessoas devido ao matraquear constante dos comentadores e da comunicação social produzindo na opinião pública uma falsa perceção dos factos propositadamente criada.

Catroga como muitos outros radicais que apoiam estes neoliberais do Governo acreditam numa austeridade expansionista que apenas existe no país da Alice. Desculpam-se com o interesse do país (julgando-se as únicas pessoas que o habitam) mas olham apenas para o seu umbigo que, em qualquer circunstância, sabem que fica sempre preservado de todas as contingências.

Quando o dr. Eduardo Catroga e outros que tais dizem que se deveria ter cortado ainda mais na despesa, estão fixados no ataque sistemático aos salários e às pensões, quadro donde de encontram a salvo, já que tudo quanto possam ainda dizer sobre corte na despesa é um logro.

A economia não se recupera com esperança num futuro risonho que não chega, nem apenas com cortes nos rendimentos das famílias. Em qualquer sistema capitalista e de economia de mercado a economia vive à base do "pilim" se este se corta ou limita às empresas e às famílias o fundo está à vista.

Acreditar e manter a esperança nesta gente que, mais uma vez, nos pretende iludir é o mesmo que jogar na roleta apostando no 36 vermelho e o croupier anunciar que saiu o 13 preto. Resta depois hipotecar tudo o que se tem e não tem para pagar ao dono do casino por mais quatro anos.

  

Diz Pedro Adão Silva no Expresso:

Se o tema são os pedidos de desculpa, a maioria devia, então, começar por pedir desculpa às famílias

dos 400 mil portugueses que emigraram

aos 400 mil que viram os seus empregos destruídos;

às 65 mil crianças que deixaram de ter inglês no 1º ciclo;

aos milhões de idosos que tiveram as suas pensões cortadas.

 É que, em importante medida, tudo isto foi consequência de uma estratégia de “ir além da troika”, assente na crença mágica de que um corte abrupto na despesa teria um efeito salvífico

 

Fontes: jornal Expresso; Governar com a Troika - Políticas Públicas em Tempo de Austeridade, Almedina

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publicado às 19:41

Histórica obsessão do triunvirato

por Manuel_AR, em 21.04.15

Triunvirato.pngAo longo dos últimos quatro longos anos de governação de Passos e Portas, abençoados pelo Presidente da República Cavaco Silva, muitos têm pretendido, através de afirmações contrárias à verdade, reescrever a história recente da política portuguesa para justificarem as medidas que tomam contra os portugueses que os elegeram e que, segundo eles, conheciam o programa. Será que conheciam?

É necessário que fique claro que nada justificou alguma da despesa exagerada do anterior Governo chefiado por José Sócrates, apesar das políticas de então, procedidas da Europa, fossem no sentido do investimento público que mais tarde veio a recuar que em Portugal não foi travado atempadamente mantendo-se uma política despesista.

Para o confirmar basta um pouco de tempo e paciência para consultar o que se publicou deste então na imprensa sobre o tema do pedido de ajuda internacional a Portugal que foi efetuado a 6 de abril de 2011 para se perceber a falta à verdade e a hipocrisia com que alguns senhores que por aí andam a tentar, mais uma vez, enganar os portugueses.

Se não vejamos.

Pouco dias antes Portugal tinha proposto um programa de austeridade denominado PEC 4 (Plano de Estabilidade e Crescimento 4, agora chamam-lhe apenas PE) que dias antes tinha sido elogiado por Angela Merkel. Com o seu apoio e o do presidente da Comissão Europeia Portugal poderia ter obtido um resgate mais suave.

Sobre este facto José Sócrates dá conhecimento disso ao líder da oposição Passos Coelho. Nessa altura era bem conhecido o apoio partidário, poder e a influência que José Relvas exercia sobre o líder do PSD. Diria que Passos Coelho era dependente de Relvas e por este influenciado, e por tal não deixa passar o PEC 4 justificando que já tinha havido vários PEC’s, alegava desconhecimento e que não queria que os portugueses passassem mais sacrifícios. É bom atentar nesta ideia e compará-la com as ideias posteriores de Passos.

Objetivo principal, óbvio e oportunista era a queda do Governo e a tomada do poder através de eleições antecipadas, cujas sondagens devido às medidas já tomadas pelos PEC’s anteriores davam uma maioria ao PSD.

No discurso da tomada de posse como Presidente da República, a 4 de abril, Cavaco Silva faz um ataque ao então Governo de Sócrates afirmando que não havia espaço para mais austeridade, “Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadão”, dizia. Nesta altura começou a ser notado o alinhamento do Presidente da Repúblicacom o Governo e a sua falta de isenção e independência.

Entretanto os bancos pressionavam o ministro das Finanças da altura, Teixeira dos Santos que sem consultar José Sócrates anuncia publicamente que Portugal precisava de recorrer a ajuda financeira externa. Sócrates pede a intervenção da “troika”.

Angela Merkel que também desconhecia aquele facto mostra-se surpreendida e desconfortada com tal medida.

Claro que os partidos da oposição, obcecados pelo poder, e os comentadores neoliberais extremados e alinhados com o potencial futuro Governo de maioria, sem o mínimo espírito crítico, dão vivas ao memorando de entendimento que foi assinado como sendo o melhor que poderia ter acontecido a Portugal.

Esta parte da história termina aqui. Mas quais foram as consequências daquela obsessão pelo poder, da intransigência em não reconhecer os erros cometidos, continuando com a mesma orientação e o apoio dado a esta política pelo Presidente Cavaco Silva sem o mínimo pudor político de alinhamento com o Governo?

Basta ler o memorando de entendimento ou o relatório de ajustamento 2011-2014 da altura e verificar as projeções para a economia portuguesa.

A austeridade seria de um ano. Passou a três. Não, agora já de quatro e continua até 2019

Recessão inferior a 4%. Real próximo de 8%.

Ajustamento previa 2/3 pelo lado da despesa e 1/3 pelo lado da receita. A realidade mostrou que o aumento de impostos foi muito superior à redução da despesa.

Desemprego previsto 13%. A realidade mostrou que atingiu mais de 17%. E assim continuaria se não fossem as manobras artificiais para a sua redução tais como os subsídios dados a empresas que aceitem desempregados através de estágios.

O memorando não aborda a questão da emigração, mas foi superior a 250 mil.

Previa-se uma forte recuperação da economia com base nas exportações e no investimento, mas a recuperação foi muito fraca e com solavancos, mais baseada no consumo interno e nas exportações também estas com oscilações face à oscilação dos mercados externos.

O sistema financeiro estava sólido garantiam. A realidade mostrou bancos a irem à falência e outros a recorreram à linha de capitalização de dinheiros públicos previsto no memorando. Outras instituições recorreram a aumentos de capital.

Financiamento nos mercados foi a única coisa aceitável mas, mesmo assim, continuamos a estar com a dívida pública nas zonas do lixo das agências de rating. Quando falam obtidos a juros mais baixos, estes não foram devidos ao bom comportamento de Portugal, aconteceu o mesmo em todos até com a Grécia.

Não previam crédito às pequenas para que as pequenas e médias empresas funcionassem com base nesse financiamento. A realidade foi o corte na concessão de crédito a estas empresas, logo, falências e aumento do desemprego.

Desconhecimento da realidade económica e social do país demonstrado pelo próprio memorando resultou na realidade mostrada pela destruição da economia e o aumento muito elevado de problemas socias e de pobreza.

Privatizações: venda a quem calhou, neste caso a chineses, (leia-se ao estado chinês) de empresas como a EDP e a REN tendo-lhes sido garantido que os otários dos portugueses continuariam a pagar a energia a preços elevados.

E, por aí fora…

Não digo mais, porque eram tantas as coisas que até me fartei e já tinha consumido muito tempo em pesquisas.

Repito, basta ter paciência para reler os jornais. Coisa chata aliás agravada por ter que voltar a encontrar os disparates que esta gente que nos desgovernou disse ao longo destes quatro anos. Quatro anos até parecem ser cinquenta, como os do outro, os de Salazar.

 

Fontes principais: Jornal Expresso, Nicolau Santos.

Outras fontes: jornais diários como Público, jornal i, revista visão, revista Sábado, Diário de Notícias.

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publicado às 17:55

Após regresso de S. Vicente de Cabo Verde, encontro-me agora algures na Beira Interior. Este ano o mês de agosto não tem sido muito quente, manhãs e noites frescas e calor intenso a meio do dia, nada comparável a temperaturas escaldantes de outros anos.

Apesar de longe da grande cidade e sob a tranquilidade campestre onde um céu de azul límpido e luminoso e da suave brisa refrescante que corre, desanuviando o espírito e convidando ao descanso do corpo e à desintoxicação do consumismo de informação política, estou agarrado a um vício de qual ainda não me libertei completamente, apesar de tentar a leitura de jornais, dos noticiários televisivos e dos comentários sobre a política nacional. Todavia, há alguns dos quais já me vou conseguindo libertar como o do pantomimeiro Rebelo de Sousa, do Morais Sarmento, do Santana Lopes, este, radicalmente nem vê-lo nem ouvi-lo, e o do Marques Mendes que pretende competir com o Rebelo.

Assim, ainda na semana que hoje termina liguei para um canal de televisão e, olha que dois, juntos, o Henrique Monteiro, jornalista que escreve para o Jornal Expresso e o antigo diretor do Jornal Público José Manuel Fernandes defendiam o mesmo com palavras diferentes. O Henrique Monteiro, frente aos ecrãs, graceja com coisas muito sérias e, demagogicamente, tenta aproximar-se dos problemas de alguns espetadores mostrando que também está a ser vítima da crise. Mas que pena! Neste confronto não houve debate houve, isso sim, ideias viradas contra o mesmo “target”.  Isto é, defendiam as posições divisionistas tomadas por Passos Coelho, mas há moda deles.

Os causadores da crise nunca somos nós, são sempre os outros, os que, dizem eles, vivem à custa do Estado, como se eles, sempre que possam não retirem do Estado o que acham ter direito seja de que modo for, e, mais tarde não forem também, em parte, viver à custa dele. Se assim não for então digam-nos o segredo para não o fazerem.

É uma tristeza… Sempre que se pensa que lhes vão aos bolsos há um grande problema, mas, quando vão aos bolsos alheios “no problem”, tudo é válido, contudo a despesa continua a subir. Não mordam no meu bolso, vão ao dos outros, dizem eles de forma muito rebuscada. Apesar de cortes e mais cortes a despesa já vai nos 134% do PIB. No tempo de Sócrates, o esbanjador despesista, como diz a direita, a despesa era de 90%.

Ou eu não percebo nada disto ou algo está mal neste governo. Dirão alguns: pois, você é que não percebe nada disto. Então, por favor, expliquem.

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publicado às 17:33

Acabem com os sindicatos

por Manuel_AR, em 19.06.13

Segundo o jornal Público oito sujeitinhos da JSD, deputados no Parlamento, resolveram preguntar ao ministro da Educação, através de uma carta, quanto custam ao Estado os sindicatos de professores.

Esta pergunta não é inocente, pois ela enferma, mais uma vez, de uma intenção de manobra de divisão dos portugueses, desta vez contra os sindicatos. Estes senhores que vivem à custa dos nossos impostos, não precisam de sindicatos que os defenda porque têm o seu posto de trabalho mais do que garantido pelo partido que apoiam.

Há uma pergunta que deviam também fazer que é a de saber quanto custa aos contribuintes manter um apêndice do PSD que apenas serve para criar empregos na política para gente que nunca soube o que é trabalhar numa empresa privada. Se os há, então ocupam cargos e lugares em empresas normalmente de advogados que lhes dão guarida que, muitas das vezes, vivem de encomendas de pareceres pedidos pelo Estado que também são pagos pelos nossos impostos.

Mas o mais grave é o que de fascizante está subjacente a esta pergunta porque, ao dizerem que “no momento em que todos os portugueses fazem sacrifícios, temos de reduzir a despesa do Estado, temos de saber quanto é que custam, quanto é que foi transferido para os sindicatos" pretendem virar a opinião pública contra a queles sindicatos. Isto é o mesmo que afirmar que temos de reduzir a despesa do Estado também à custa dos sindicatos para os tornar cada vez mais fracos. Tatcher também o fez no Reino Unido.

Acabar com eles é uma possível sugestão dos sujeitinhos da JSD.

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publicado às 23:02

Mas que filme é este?

por Manuel_AR, em 26.01.13

Muitos nos lembramos como estávamos há 20 anos, e como tudo melhorou tão depressa

Fonte: Diário de Notícias de 21 de janeiro de 2013 , p.54

 

 

João César das Neves, economista, professor universitário da Universidade Católica, onde toda a sua formação e percurso académico se sucederam, ex-assessor de Cavaco Silva quando este era primeiro-ministro, escreveu no Diário de Notícias de 21 de janeiro do corrente ano um artigo, dito de opinião, denominado “Estão a ver o filme?”. Não nos podemos esquecer que foi no tempo daquele primeiro-ministro que se iniciou a destruição do nosso tecido produtivo e se construíram obras megalómanas e sumptuárias como, por exemplo, o edifício da Caixa Geral dos Depósitos e do Centro Cultural de Belém. Como algumas, que durante  o anterior governo se construíram,  mas de bem menor custo.

O artigo mais parece, em alguns pontos, um panfleto digno de partidos radicais e ofensivo para a maioria dos portugueses como se irá ver. Penso que, o autor, apesar de gostar de ser polémico não deve dar-se ao direito de ofender a maioria dos portugueses quando lhes atribui a causa principal da crise. Ser polémico pode ser uma forma de dar nas vistas e, como alguns dizem, não interessa que se fale mal de mim, o importante é que se fale.

Os comentários políticos são, por vezes, jogos de linguagem que variam de pessoa para pessoa, de acordo com pontos de vista que, neste caso, se fixam em repetições sucessivas seguindo a “voz do dono”. O artigo em questão não traz nada de novo a não ser as versões já conhecidas que o Governo e os comentadores afetos têm vindo, ao longo deste dois últimos anos a reproduzir da forma que atrás designei como a “voz do dono”, que mais parece uma cassete idêntica à do PCP no passado, mas em sentido contrário.

Como já é conhecido, o tal relatório do FMI, denominado em português Repensar o Estado – Opções Selecionadas de Reformas da Despesa, foi encomendado pelo Governo com custos para nós contribuintes (não foi por certo gratuito) e, como tal, seguiu as orientações do seu programa político que não foi revelado aos portugueses na devida altura. Serve apenas como escudo para justificar medidas que sabem ser objeto de contestação. Aliás, soube-se agora pela comunicação social que um dos participantes no relatório era uma fraude.

Para o autor, os “direitos adquiridos” são o “outro nome da doença” mas “que há direitos básicos que o país tem de garantir a todos” não diz é quais. Será que restarão alguns porque, quase todos, estão a ser postos em causa de uma forma ou de outra. Os que se referem diretamente às necessidades dos cidadãos são considerados despesas supérfluas que têm que ser reduzidas e podem muito bem passar para iniciativa privada para que, apenas alguns, possam usufruir delas. Os restantes, a maioria, ficarão dependentes da caridadezinha e do assistencialismo.

Concordo com o autor em que as reformas já deviam ter sido “discutidas há décadas e sempre adiadas”. Todavia, querem agora que, à pressa, sejam executadas em alguns poucos meses. Será que os senhores especialistas acham, honestamente, que uma reforma tão importante como esta se pode executar em poucos meses? Tenham paciência! Quem não teve competência para redigir um relatório idêntico ao que compraram, não se lhe reconhece competência para o pôr em prática.

Mesmo os não especialistas que leiam o relatório e o comparem com os aplicados noutros países que foram intervencionados pelo FMI chegarão à conclusão de que a receita é a mesma. Cada país tem as suas especificidades e, mesmo que intervencionados, há que ajustar as medidas às suas realidades, à sua cultura. Não somos propriamente um país do terceiro mundo de formação recente em que nos querem transformar. O que se tem feito é o mesmo que alguém pedir dinheiro emprestado para comprar uma camioneta para os seu negócio e, quem lho empresta, diz que só lhe concede o empréstimo se comprar antes um carro, embora ele necessite de facto de uma camioneta e, para além disso, tem que reduzir as suas despesas com o negócio e fechar a loja que precisa para vender os seus produtos.

Os chavões, já mais que difundidos pelos comentadores pró-governo, continuam sem parar e, mais à frente, outro estafado argumento que é o de que “estamos ligados à máquina da ajuda externa para sobreviver” e que “temos uma grave crise grave e fundamenta que exige medidas profundas”. Quem não saberá isto? Penso que todos. Quem não estará interessado em resolver a situação? Volto à questão anterior. Fazer tudo em poucos meses?

O mais grave, no meu ponto de vista, é quando se afirma que, e passo a citar: “Muita gente está plenamente convencida que a crise se deve a um punhado de maus (corruptos, incompetentes, esbanjadores) e, pior, que basta eliminá-los para tudo ficar normal. Nas atuais circunstâncias esta fantasia é irresponsabilidade criminosa. Num momento tão decisivo e doloroso, acreditar em tolices dessas só aumenta sofrimento de tantos, prejudicando a urgente solução do problema”. É mais que evidente que ninguém pensa assim, mas há que denunciar. Implicitamente para o autor os que falam dos escândalos, não os escondem e os denunciam, são uns tolos e uns criminosos irresponsáveis. Aquele tipo de afirmações recorda a censura prévia no Estado Novo, que cortava tudo o que, no momento, era considerado como irresponsabilidade criminosa face às situações vividas na altura e ia contra o pensamento dominante.

Claro que “Não há corrupções, incompetências e desperdícios que cheguem para justificar uma coisa destas”, isto é, o ponto a que chegámos. Todos sabemos que a crise e a despesa pública não advieram daqueles que agora o autor parece querer purificar mas que para ela também contribuíram e bem, levando bancos quase à falência que foram recuperados com o dinheiro dos nossos impostos. Ou, não será isto, verdade? Basta recordar o caso BPN e outros, para o qual os nossos bolsos acudiram e ainda acodem para repor o que foi sonegado para benefício de alguns que agora andam apor aí impunemente. Será que o autor nega isto?

É evidente que não foi apenas isto que nos levou à crise. Mas o que podemos dizer, por exemplo a desregulação financeira mundial para a qual George Bush e outros nos trouxeram. Ou será que, a crise mundial e nacional nasceram de geração espontânea? Não, para o autor, implicitamente, o capital e a manipulação financeira em nada contribuíram para a crise, foi a “vida em comum e os hábitos dos cidadãos honestos a gerá-lo”. Isto é, os verdeiros culpados foram os cidadãos, os portugueses, conforme várias vezes, e por outras palavras, tem vindo a ser afirmado por Passos Coelho desde o início do mandato.

Se atentarmos na fotografia inserida no referido artigo que tomei a liberdade de incluir com a devida vénia, a legenda “Muitos nos lembramos como estávamos há 20 anos, e como tudo melhorou tão depressa” leva-nos a tentar pensar que a purificação e a redenção dos portugueses apenas se fará com uma austeridade que os faça regressar até ao tempo que a fotografia representa. Interpretação abusiva? Talvez, mas cada um fará a leitura que entender das entrelinhas, o que nem é necessário porque explicitamente afirma que “Temos de viver com as nossas possibilidades. Durante uns tempos até um pouco abaixo para aliviar as dívidas de se ter vivido demasiado tempo acima delas”.

A questão que lhe podemos colocar enquanto economista é como iremos pagar os empréstimos e vivermos de austeridade sem investimento, logo sem crescimento? Quantos anos são precisos, não para crescer apenas 0,1 ou 1%. Talvez 20, 30 ou mais anos?

Vamos esperar pelo investimento estrangeiro? Se assim for, teremos que, como popularmente se diz, esperar sentados. O investimento estrangeiro irá, sem dúvida, para países como por exemplo a Roménia, a Croácia, a Bulgária, a Estónia, Eslováquia, a Polónia, com os mais baixos PIB per capita  a U.E., mesmo que acabemos por ficar iguais ou pior do que eles. Estrategicamente a proximidade dos mercados consumidores é, atualmente, muito importante devido ao custo dos transportes. Nós, os portugueses, continuamos, quer queiramos, quer não, na periferia geográfica da Europa da qual estamos também a ficar cada vez mais distanciados como mercado de consumo não atrativo. Ah! O Turismo! A ver vamos!

Quanto ao investimento de capital português ele irá continuar a ser ao nível das pequenas e médias empresas familiares destinadas apenas ao débil consumo interno, o qual, irá continuar a degradar-se devido ao empobrecimento. Apenas em lojas destinada a uma classe social que, na sua essência, não será atingida e outra que virá de fora nomeadamente de Angola. Todo o dinheiro é bem-vindo para o investimento, o que duvido é que seja depois injetado na economia real. Por outro lado, dá menos trabalho e menos preocupações, a quem tem capital, investir em produtos financeiros mais rentáveis, se possível fora de Portugal.

Acho curioso que todos os que defendem a manutenção de uma austeridade agressiva e o empobrecimento podem fazê-lo porque, mesmo sendo afetados pelos impostos, não sofrem cortes nos salários e sabem, à partida, que não ficam sem emprego, que continuam a frequentar médicos privados, que continuam a poder viajar quando e para onde quiserem, etc.. Isto é, a crise não os afeta na substância, na mesma proporção que à maioria. Por isso, aconselham para os outros, quanto mais austeridade melhor, em nome da credibilidade de Portugal! Como a nossa produção e criação de riqueza são baixas e não são suficientes temos que recorrer à colocação de títulos de dívida pública nos mercados. Mas os portugueses não comem credibilidade dos mercados! Por mais que se elogie a nossa (deles) credibilidade junto dos mercados, os êxitos da colocação de títulos de dívida pública não vão criar empregos nem alimentar os portugueses, apenas nos trazem mais dívida.

Não, não estamos a ver o filme! Mas que filme o autor quer ver realizado?

Direita? Esta é que não! 

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publicado às 21:34


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