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O que vou escrever não foi movido pela inveja porque nada tenho a invejar a Cristina Ferreira, não sou da profissão, nem que o fosse, não  pertenço ao seu grupo de amizades, não a conheço pessoalmente o que dela sei é somente e apenas pelos programas que ela protagoniza e o que a comunicação social vai dizendo sobre o que se passa nos bastidores dos canais onde trabalhou ou trabalha.

Pacheco Pereira pessoa que considero ser séria como escritor e que também admiro pelo seu estilo de comentário de opinião escreveu no jornal Público um artigo em defesa de Cristina Ferreira. Em epígrafe escreve “O ódio dos covardes que anda por aí” e “Sim, este elogio da denúncia de Cristina Ferreira é para vosso escarmento, vosso opróbrio, vosso desluzimento, vossa vergonha e, se tiverem de ir ao dicionário para perceber algumas palavras, ao menos ganha-se alguma coisa.”

Concordo com Pacheco Pereira unicamente enquanto elogio da denúncia que Cristina Ferreira faz no seu livro do esterco de comentários por alguma gente que se movimenta pelas redes sociais. Devemos, todavia, separar algumas águas quando se trata de pessoas a que se resolveu chamar figuras públicas, que, por princípio, têm mais visibilidade através dos canais televisivos porque a carência de protagonismo que é o seu alimento poderá conduzi-las aos mais variados e falsos altruísmos que, apesar de tudo não deixam de ser altruísmos quando praticados.

Pacheco Pereira elogia Cristina pelo seu livro porque também se indigna, com plena razão e direito, com os discursos de ódio, grosseria, de ameaças, de violência que passam impunemente pela rede sociais

O título deste meu texto “Oportunismo com oportunidade” vem mesmo a propósito e vem a propósito da publicação do livro “Pra Cima de Puta” da autoria de Cristina Ferreira, (tê-lo-á escrito?), editado em novembro de 2020 pela Contraponto Editores. A esta publicação seguiu-se, quase de imediato, a petição contra o cyberbullying para levar à Assembleia da República o que ao mesmo tempo veio servir de marketing para a promoção do livro e, sobretudo, da sua autora. Parece-me ser uma motivação exclusivamente pessoal, mas que pretende transvasar para a generalidade. Enfim, coincidências! O título do livro é sugestivo e pode levar muita gente não apenas as que frequentam as redes sociais a comprá-lo, e é isso que interessa.

As audiências dos programas por ela geridos, e alguns também apresentados, estão em baixa,  pelo que todo este movimento marketing à volta de Cristina possa vir a exercer uma espécie de alavancagem para os seus programas televisivos na TVI que  tem vindo a ter maus resultados devido à sua interferência e que, por isso, encontra-se fragilizada segundo consta nos bastidores da estação televisiva.

Os seus sorrisos para as câmaras e a aparente simpatia, que seduzem muitos espectadores, não são mais do que mera representação porque, dizem, ao vivo e em trabalho de bastidores é do piorio gritando e insultando os seus colaboradores.  

O livro, ao transcrever comentários a ela dirigidos e por ela transcritos para o seu livro poderá ser uma forma de Cristina Ferreira se vitimizar perante o público. Transformar ameaças e crises numa boa oportunidade de negócio é atributo de empreendedorismo e praticado em algumas empresas, e Cristina é uma empresa. É isso que Cristina Ferreira tenta fazer.

As ameaças que advêm da utilização imprópria das redes sociais não é de hoje, embora se tenha agravado, vem desde o seu lançamento. Ameaças, ciberbullying, notícias falsas, difamação, falsidades, maledicências, maldade, machismo, mulheres que rebaixam mulheres e outros impropérios idênticos, para tal a imaginação não falta têm sido várias vezes denunciados e objeto de debate. Esta situação tem vindo a gravar-se e o exemplo é encorajado por alguns altos responsáveis de alguns países bem conhecidos de muitos.

Não é de hoje que as redes sociais têm sido utilizadas para fazer ataques pessoais em que as emoções, boas ou más, extravasam o limite do possível. O tema ciberbullying não é novo e tem sido debatido internacionalmente, nomeadamente na União Europeia cujo Parlamento tem abordado. Tentar resolver ou mitigar o problema dos conteúdos nocivos ou ilegais online e, ao mesmo tempo, proteger a liberdade de expressão é uma das questões fundamentais que os eurodeputados querem abordar assim como a da proteção dos utilizadores contra aquele tipo de conteúdos.

A legislação sobre a informação que circula pelas redes sociais vai apresentar até final do ano uma nova legislação (‘Digital Services Act’ – Lei de Serviços Digitais) para regulamentar melhor os gigantes tecnológicos, em termos de gestão de dados, desinformação e discurso do ódio, em particular.

A Comissão Europeia está a trabalhar numa legislação para garantir que os conteúdos ilegais sejam retirados com as salvaguardas necessárias para proteger a liberdade de expressão porque o ódio não conhece fronteiras. A União Europeia tem, desde 2016, um código de conduta contra o discurso do ódio, de base voluntária, que foi assinado pelos grupos e redes sociais Facebook, Microsoft, Twitter, Youtube, Instagram, Snapchat, Dailymotion, Jeuxvideo.com e Tiktok.

Na Internet e nas redes sociais há gente infame ou que sofre de alguma psicose que difama e se alimenta destilando ódio, agredindo com facilidade e sem pudor pessoas que consideraram tomar como alvo, quer sejam políticos, quer sejam outros que se expões publicamente e Cristina Ferreira é uma dessas muitas pessoas que se expõe assumida e publicamente nas redes sociais.

Fico perplexo quando famílias e muita outra gente que, mesmo não sendo figuras públicas, se expõem através de imagens em família estimulando até os filhos a promoverem-se através de fotografia nas redes sociais. Assusta-me perceber que isso acontece sem qualquer controlo e autocrítica e que depois de serem alvos lamentam-se e julgam-se agredidos.

Não sei se o que mais preocupa Cristina se será sentir-se “Pra cima de Puta” ou se é sentir que está abaixo de puta nas redes sociais. Não percebo a metáfora, mas eis que descobri uma interpretação. Ao escrever aqui abaixo de puta, pensei que teria sido original, mas não fui porque há quem já utilizasse o termo no mesmo contexto que passo a citar e que também podem ler aqui:

 “I. Que Cristina Ferreira use a expressão como título de um livro seu, eis uma escolha inevitavelmente curiosa, tendo em conta que a autora quer evitar qualquer arbitrariedade metaforizante, esclarecendo que se trata de uma "provocação", no sentido em que o seu objetivo primordial é uma "chamada de atenção". Atenção para quê? Para uma "análise sociológica" das "agressões" nas "redes sociais" — a começar por aquelas a que ela tem sido sujeita, incluindo a classificação "pra cima de puta". 

III. Somos todos pavlovianos, eis a questão. Por um lado, Cristina Ferreira é uma personalidade pública do espaço televisivo, em grande parte apoiada nas chamadas redes sociais, o que ajudará a explicar o seu natural interesse pela sociologia. Identidade, sistema moral e estratégia empresarial, tudo nela existe arquitetado e exponenciado através de tais circuitos. Por outro lado, pressente agora que a utopia "social" que tão empenhadamente tem protagonizado pode ser uma ilusão cruel, convocando os seus seguidores "para percebermos que mulheres e homens atacam ferozmente".

Cristina é em grande parte apoiada nas chamadas redes sociais, mas desconhecem tudo quanto faz a não ser os risos e sorrisos para as câmaras, mas, do que tem vindo a público (consultar revista Sábado de 25 de novembro), é sintoma nítido de megalomania egocentrismo.

Pegar no que lhe chamam nas redes sociais, convencida, traidora, vergonhosa, manipuladora, exibicionista, gananciosa e tentar colocá-los como vantagem para si própria é o objetivo de Cristina para se vitimizar. A vitimização por vezes dá resultados face à queda das audiências.

Quem frequenta redes sociais como o Instagram pode confirmar que Cristina se expõe a tudo quanto sejam abutres do cyberbullyng e ela sabe disso porque não é nem parva, nem estúpida.

O discurso de ódio algumas vezes tem motivações induzidas por quem é o alvo movidas por comportamentos, atitudes, opções partidárias e ideológicas e que se revelam em ataques de todas as espécies que servem aos seus autores de escape que a liberdade de expressão das redes sociais proporciona.

O que me parece estranho é que Cristina Ferreira só agora tenha descoberto os ataques verbais de que tem sido alvo ache também agora que vem em auxílio de outros estão a ser alvos da mesma situação. Estranho é ainda que só ao fim alguns anos venha a insurgir-se contra as injurias, e muitas outras formas de ódio de que tem sido vítima através do cyberbullying e se atribua a si própria a grande defensora de todos e todas que dele têm sido vítimas quando o tema na sua generalidade tem sido abordado não raras vezes.

Há pelas redes sociais milhares de figura públicas, ou não, que são insultadas, enxovalhadas e vilipendiadas que não se queixam e que, com elevação moral não dão resposta a essas provocações que circula nas redes sociais, em vez de se focarem e darem valor a essa gente abjeta que se embrenha no anonimato. Todavia não são apenas insultos há também manifestações de indignação.

Há os que se põem a jeito e Cristina põe-se demais a jeito. O que dizer de quem publica vídeos e fotografias no seu Instagram fotografias com um seu protegido por ela relançado passeando-se num iate apresentando a ideia de alguma cumplicidade entre ambos para alimentar a imprensa. “Na montra do Instagram apresenta sorrisos e uma vida despreocupada financeiramente que contradiz o que se passa nos bastidores. Quem tem contacto com ela na estação descrevem a tensão que se vive na estação. Em público Cristina disfarça a desolação com as derrotas e não baixa a guarda… As fúrias são à porta fechada, fora dali…” Ler aqui.

A megalomania e declarações de “eu é que mando”, “eu é que escolhi” é uma necessidade de transmitir para se auto compensar revelam um egocentrismo patológico. Aquando da XXIV cerimónia dos Globos de Ouro da SIC recorde-se o seu discurso que recebeu críticas vindas de vários setores: "Cristina, a rainha da humildade"; "Presunção e água benta..."; "Que convencida e arrogante", foram alguns dos comentários ao discurso da apresentadora, que ganhou o prémio 'Personalidade do Ano' na área do Entretenimento.

Num fragmento do discurso que não está descontextualizado afirmava que "Eu dizia não quero, isto não faz sentido nenhum, estou lá a apresentar e depois vou lá receber o prémio... e depois percebi que quero. E quero, porque é justo", afirmou, como autoelogio e arrogância que lhe é habitual.

Ser figura pública e ambicionar por visibilidade e protagonismo para benefício próprio tem, e sempre teve os seus riscos, mesmo antes das redes sociais. Publicações como tabloides e revistas cor de rosa e outras lançavam para o público, amores, casamentos, escândalos e outros “tesourinhos” sobre vedetas ou personalidades mais conhecidas.

Portanto, não nos admiremos, Cristina Ferreira não é a vacina que vai salvar o “mundo” do discurso de ódios nas redes sociais.

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publicado às 18:40

Audiências e jornalismo de investigação

por Manuel_AR, em 12.06.20

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Para com a televisão somos todos crédulos e somos levados por quem pensamos que é politicamente honesto e que nos vende ideias, ideologias e nos sugere algo para alcançarmos aquilo que supomos ser a verdade.

A justificação por jornalistas de falta de liberdade de imprensa e de liberdade de expressão são por vezes refúgios para quando, numa reportagem, se ultrapassam limites cujo bom senso leva a avaliações limitadoras da emissão de uma reportagem de jornalismo de investigação, como várias vezes já tem acontecido.

Há cerca de duas semanas li no jornal Público que Ana Leal que tem um programa dedicado ao jornalismo de investigação na TVI foi suspensa por divulgar emails trocados com a direção. A defesa acusa o Conselho de Redação de censura. Está em causa, até agora, “a divulgação ao conselho de redação (CR) da TVI de e-mails particulares entre a jornalista e a direção do canal”.

A defesa de Ana Leal acrescenta que “está em casa, a receber vencimento, mas sem atividade atual na TVI – explica ainda que está em causa uma questão de “liberdade de imprensa e de expressão”. Na altura, ainda afirmou que, “não há fundamento para a suspensão ou processo disciplinar. Há divergências editoriais normais e acho que esta ação de a suspender e promover um inquérito é pouco compatível com o espírito de liberdade de imprensa e expressão que devem reinar”.

Desconheço as razões para os fundamentos, ou não, da sua suspensão. Apesar de o tema não ser de somenos importância tal facto não me interessou e apenas serviu de mote para a preparação deste comentário.

Não é a primeira vez que ao entrarem em conflito com as direções de informação, redações e setor editorial estas são acusadas por jornalistas de fazerem censura interna, de falta de liberdade de imprensa e de expressão. Não sei se tal se verifica ou não, mas o conceito é demasiado forte e pode confundir-se com a prática do bom senso, ou falta dele, quanto às reportagens ou parte delas feitas pelos jornalistas destinadas a ir para o ar. Aconteceu também na RTP1 com Sandra Felgueiras com o programa Sexta às Nove. A acusação de censura pode não ser mais do que uma espécie de refúgio dos(as) jornalistas que consideram que tudo deve ser permitido, e sem limites.

Entre as televisões e especificamente no que se refere também ao chamado jornalismo de investigação parece existir uma competição entre canais e os próprios jornalistas de cada um deles, não pela qualidade, nem pela isenção na informação, mas pelos conteúdos que possam elevar os shares.

As peças de jornalismo de investigação não têm primado pela qualidade e isenção porque tem como objetivo o impacto sensacionalista que capte audiências que, por isso mesmo, mostram falta de valor informativo e técnico. As peças que vão para o ar são muitas das vezes confusas, ambíguas que em vez de informar desinformam.

Peças jornalísticas de investigação apresentadas em dias certos, conforme os canais, são dirigidas a um certo tipo de audiências mostram-nos simplesmente o tratamento de um tema chave de interesse para o momento. O “universo” do tema apresenta-se fracionado preocupando-se mais com os impactos nas potenciais audiências, e menos com a comprovação dos factos numa preocupação de pré-julgamento público através da apresentação de realidades fracionadas.

É um facto que algum desse “jornalismo de investigação” feito tipo à la carte tem o interesse de fidelizar certo o tipo de audiências. Não tem sido raro que na sequência de peças de jornalismo daquele tipo que por falta, omissão ou adulteração dos factos tenha havido protestos e até repúdio que a redação do canal emissor tarda ou se escusa posteriormente a divulgar a sua falha e quando o faz é através de comunicados da redação plenos de justificativas complicadas enunciadas em voz off.

No “jornalismo de investigação” que nos impingem não são despiciendas as conotações ideológicas numa perspetiva de revelar algo que possa prender a atenção do público por qualquer coisa que provoque escândalo ou indignação  o que interessa em determinado momento. Quanto à forma e ao conteúdo o método baseia-se em visões parciais e truncadas dos factos que respeitam a uma certa realidade destinada a instrumentalizar a opinião pública.

Os conteúdos das peças pretendem mostrar factos e provar as teses para credibilizar as reportagens nas quais se inserem entrevistas onde são selecionados extratos de frases e raciocínios truncados das mesmas que não interessem por não ajudarem a defender a tese do(a) autor(a) jornalista, oferecendo ao telespectador apenas partes de realidades descontextualizadas. Quanto à forma as peças são montadas recorrendo a artifícios de edição e a entrevistas com planos rápidos com perda da continuidade das afirmações dos intervenientes acrescido ou substituídos na narrativa em voz off. Utilizam-se técnicas da mostra de documentos e passagens de momentos alusivos que nada têm a ver com a realidade dos factos que estão a ser relatados. São inserts destinados a criar impacto no telespectador que apenas servem para preenchimento da peça, para encher chouriços como se diz.  Um exemplo: numa reportagem ao tratar um tema sobre corrupção ou peculato recorre-se na edição de vídeo não linear a inserts a notas de euro a serem contadas seguidas de novas sequências de imagens de pessoas a manusear documentos que o espectador não consegue identificar devido à rapidez dos planos que servem para o dinamismo e impacto visual da reportagem.

Os significados das imagens são obtidos quando os seus elementos são vistos e logo de seguida interpretados, assim, podem ser criados e/ou modificados de cada vez que elas forem vistas consoante o contexto sócio histórico da sua produção que influenciará a interpretação de quem as vê.

A semiótica trata da análise das relações entre uma coisa e o seu significado, quando se faz a interpretação de imagens, sejam fixas ou em movimento, com a finalidade consciente ou não de a compreender como nas reportagens televisivas. Nestas a semiótica das imagens e a análise do seu conteúdo levantam por vezes interrogações e ambiguidades que se tornam pouco esclarecedoras para os telespectadores.

Assim, geram-se narrativas audiovisuais específicas, por meio de práticas de significação, para se produzirem certos sentidos e não outros. Isto é, durante a peça jornalística dão-se aos elementos nela constantes uns certos significados, e não outros, para criar efeitos de sentido pretendidos nos telespectadores. Utiliza-se um conjunto formal de significações para dar um sentido às relações entre os elementos da linguagem que se manifestam em diversas naturezas das expressões verbais, visuais e audiovisuais.

Em muitas peças a que pomposamente atribui a designação de “jornalismo de investigação” estão por vezes intenções que passam para além dos factos e do esclarecimento do público, daí que a edição das peças com situações descontextualizadas e com a inclusão de imagens alusivas e que, por conotação com o facto, possibilitam, em si mesmas, interpretações erróneas por parte do telespectador.

Para além do cunho ideológico e político de que algumas dessas reportagens também se revestem pretende-se o efeito da eficácia tendo em vista a captação de audiências para a narrativa através de técnicas populistas e demagógicas. Utilizam-se formas, técnicas e modelos também utilizados pelos populistas para se revelarem antissistema. Um jornalista numa da reportagem não é ideológica e politicamente isento e fica sem o perceber envolvido apesar do esforço que faz para criar ao telespetador a perceção de distanciamento, imparcialidade e isenção na denúncia de corrupções, compadrios, negócios ilegítimos e outros. Em síntese, elege-se um alvo a atingir e, a partir daí, produz-se uma peça a que se dá um título atrativo e classifica-se como jornalismo de investigação.

Têm sido realizados vários estudos sobre os efeitos dos media, como por exemplo o de McDonald, Daniel G. Twentieth-Century Media Effects Research em 2004, que tratam a forma como são escolhidas as mensagens a difundir e as motivações económicas, políticas ou ideológicas dos jornalistas. Contudo ainda há quem tenha uma visão romântica do papel do jornalista que o vê a “representar a sociedade objetivamente, desinteressado e imune a qualquer influência, impossível de desviar da sua missão de informar e contar a verdade, ‘doa a quem doer’”. Porém não é assim, há quem define o que será emitido de acordo com o valor-notícia, a linha editorial e outros critérios, de acordo com os acontecimentos considerados suficientemente interessantes, significativos e relevantes para serem transformados em reportagem ou notícia.

Johan Vincent Galtung e Mari Holmboe Ruge sociólogos noruegueses utilizando uma psicologia simplificada da perceção e algumas suposições adicionais apresentaram em tempo um sistema de que descrevem eventos usados ​​como uma definição para o que deve ser notados nas notícias: a hipótese da adicionalidade em que quanto mais condições satisfaz um acontecimento tanto maior a probabilidade de se tornar notícia; a hipótese de complementaridade em que os fatores tenderão a exclui-se, pois se um fator estiver presente, será menos necessário do que outros fatores que estejam também presentes para que o evento se torne notícia; e a hipótese de exclusão em que eventos que não satisfaçam nenhum ou muito poucos fatores não se tornarão notícias. Na maioria dos casos, os dados são consistentes com a teoria. (Galtung, Johan; Ruge, Mari, The Structure of Foreign News, p.65)

As más notícias e os escândalos aumentam as audiências então, pelo efeito da negatividade, as más notícias vendem mais do que boas notícias e são mais fáceis de noticiar do que as boas. Mesmo entre as más notícias há uma certa hierarquia na preferência do telespectador que demonstra que por entre as notícias negativas umas vendem mais do que outras.

“Porque é que as notícias são como são?”. Estudos sobre métodos de seleção que definem as notícias que fazem parte de um noticiário ou peça jornalística a emitir concluíram que o processo é arbitrário e que as decisões do jornalista são altamente pessoais, subjetivas e dependentes das atitudes e espectativas de quem define o que irá para o ar e não se limitam a selecionar os temas que lhes interessam pessoalmente, mas as que eles presumem ser do interesse do público. Definem o que será noticiado de acordo como um valor-notícia, linha editorial e outros critérios por vezes mais ou menos subjetivos e ideológicos de acordo com o momento.

Em algumas peças de jornalismo de investigação a mensagem que se pretende passar está relacionada a um referente que, para além de simplesmente informar o telespectador, também pretende atingir algo ou alguém. Neste caso o referente, isto é, o assunto a que a mensagem se refere, e o tratamento audiovisual dado ao conteúdo do tema não são coincidentes.

Esta aceção pode ser bem explicada através de uma citação de António Damásio no livro “O Sentimento de Si”: “Se o leitor tiver alguém que lhe conte duas histórias comparáveis com igual número de factos e que apenas diferem porque numa delas alguns dos factos têm elevado conteúdo emocional, o leitor lembrar-se-á de um número muito maior de pormenores da história emotiva do que da outra” (António Damásio, O Sentimento de Si, 2000; p.336).

A televisão pode ser formativa, mas “o poder que a televisão tem em oferecer interpretações poderosas sobre a forma de compreendermos os acontecimentos que são escolhidos para serem notícia afetam diretamente a formação dos cidadãos”. (O Papel da televisão na Educação e na Construção Social da realidade, (2006). Revista do SNESup. Disponível em: http://www.snesup.pt/cgi-bin/artigo.pl?id=EEZuZVFyElfSrnWtRU (Consultado a 09/06/2020).

Alguns autores apontam algumas exigências que nem sempre são respeitadas encontrando-se sempre formas de as ultrapassar tais como: apresentação parcial da verdade quando se ocultam deliberadamente aspetos da realidade que impedem o indivíduo de aprender a totalidade do que foi apresentado; o sensacionalismo quando se distorcem os fatos mediante a acentuação de aspetos que provocam reações emocionais e não racionais; silêncio quando se suprimem determinadas informações necessárias nas compreensão de uma notícia; o engano quando há um falseamento da realidade. Por exemplo: quando se apresenta como uma reportagem autêntica aquilo que não é outra coisa que a imaginação do autor.

O propósito das reportagens do jornalismo de investigação deveria ser o de oferecerem temas únicos, rigorosos, profundos e analíticos dos acontecimentos recorrendo ao flashback para introduzir os antecedentes do acontecimento. Todavia são editados de modo a satisfazer o objetivo e o interesse do jornalista, por vezes até destituídas de sentido ético, no sentido de provocar polémicas na opinião pública. Assim, os telespectadores devem estar preparados para empreender uma leitura crítica do que vêem nas reportagens, o que raramente é feito.

O jornalismo de investigação precisa e deve obedecer à lei da objetividade, sinceridade e verdade. Torna-se, por isso, necessário que a comunicação transmita os factos a partir da verdade, o que muitas vezes acontece, mas, no decorrer da reportagem essa verdade vai-se tornando difusa e usa de subterfúgios ou rodeios para a tornar um valor absoluto e indiscutível conducentes a julgamentos na opinião pública. É frequente deparamo-nos em alguns casos com uma suposta coerências na informação emitida mas com uma documentação mostrada truncada e confusa.

O(a) jornalista autor de uma reportagem que deveria ser justo e escrupuloso em relação aos factos do objeto da reportagem nem sempre segue estas regras ao designar as suas “vítimas” heróis ou praticantes de atos ilegais e por vezes manifesta juízos de valor e até vereditos sobre a história que conta cometendo erros formais ou informais que descredibilizam o(a) jornalista e os meios de comunicação.

Para com a televisão somos todos crédulos e somos levados por quem pensamos que é politicamente honesto e que nos vende ideias, ideologias e nos sugere algo para alcançarmos aquilo que supomos ser a verdade.

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publicado às 15:49

O que procura a procuradora?

por Manuel_AR, em 15.10.18

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Regressei de São Vicente, Cabo Verde, onde estive durante duas semanas ausente das costumeiras notícias das televisões de Portugal. Foi um alívio que serviu para a manutenção da sanidade mental. Mas, não indo mais longe, logo no dia 8 do corrente, dia do meu regresso deparo-me com a desagradável surpresa da presença da Manuela Moura Guedes no noticiário da SIC como comentadora. O título pomposo de “A Procuradora” oportunisticamente escolhido, leva-nos a duvidar e a conjeturar sobre as intenções da SIC e da comentadora, ausente dos ecrãs por motivos que só alguns conhecem. Manuela Moura Guedes é um chamariz para quem gosta do jornalismo ao estilo dos  tabloides do escandalo numa pornográfica mistura entre entretenimento e comentário político. 

A SIC tem vindo, nos últimos anos, a ser uma espécie de canal oficioso de uma certa direita em estado de decomposição com alguns laivos e combinações de pretensa isenção. São públicas as dificuldades financeiras do grupo Impresa a que o canal pertence. Assim, havia que mudar as regras do jogo substituindo o “interesse público” que sacrifica ao que é suposto ser o “interesse do público”, do negócio e do partido a que pertence o dono do grupo, deixando para trás a isenção e a deontologia.

Manuela Moura Guedes que foi deputada independente pelo CDS-PP entre 1995 e 1996, é uma dita jornalista digna de jornais como O Diabo, protótipo do mau jornalismo especializado na destruição de caráter, na condenação prévia sem julgamento fazendo o falso parecer verdade absoluta no mexerico para induzir distorcidos pontos de vista sob a capa da isenção e da credibilidade. Não informa, desinforma e nada acrescenta do que já foi dito que baralha e torna a dar. “A Procuradora” da SIC é um atentado ao comentário televisivo jornalístico e político de qualidade; é o comentário do facciosismo gerido por estados emocionais e pessoais como se de um qualquer blogue pessoal se tratasse. O próprio título escolhido pelo canal para o momento do comentário, sendo igual ao de um Grau hierárquico intermédio da magistratura do Ministério Público, é um atentado ao bom nome de uma instituição que deve ser credibilizada.

No Twitter foi dito: “Debitando banalidades genéricas, sem adicionar informação relevante aos temas que comenta, o espaço de Manuela Moura Guedes na SIC, hoje, destacou-se pela crítica às mulheres que se manifestaram contra Bolsonaro. Ao pescoço, usou um dos símbolos de campanha do fascista”.

“Manuela Moura Guedes acusou Pinto Monteiro e Cândida Almeida de "terem feito tudo para abafar" os casos que envolviam o antigo primeiro-ministro José Sócrates, que acusou de "controlar a Justiça" e solicitou uma investigação ao Ministério Público”. Apercebemo-nos logo da intencionalidade pessoal fazendo acusações sem prova denegrindo, sem direito a contraditório, imagens e carateres.

Quando ao serviço da TVI investigou vários casos relacionados com José Sócrates, acusando na altura sem provas que "tudo o que não era controlado era abafado". A vinda de Moura Guedes foi cirurgicamente escolhida pelo canal SIC, já que o próximo ano é decisivo na atividade política para no culminar de processos judiciais em curso. Ano em que as redes sociais irão instilar veneno, mentiras, insultos e notícias falsas que, a não serem validadas, poderão influenciar decisões através de campanhas negativas. Ser polémico não é sinónimo de mau jornalismo e do desvirtuar a ação jornalística com o intuito da obtenção de audiências.

Portugal já tem mau jornalismo que chegue e a SIC, em maus lençóis e desespero de causa, faz uma fuga para a frente para competir com a TVI na obtenção de audiências com um contrato como este para comentário político.

Manuela Moura Guedes recorre ao mau jornalismo para defensa de causas, as suas causas, para libertação das suas frustrações e ódios pessoais. Emerge do ostracismo para montar uma espécie de teatro burlesco onde, com pontos de vista que confinam o extremismo, pretende reorientar e reinterpretar a política. O comentário de Manuela Moura Guedes é o contrário do bom comentário político onde subjaz uma demência obsessiva-compulsiva provocada pelo revivalismo de mau caráter que faz transparecer.

Não gosto de utilizar as características fenotípicas de uma pessoa como arma de arremesso, mas, Manuela Moura Guedes, sugeriu-me, por analogia, a encarnação do Joker, também apelidado de “Príncipe palhaço”, personagem vilão da banda desenhada Batman. A analogia não se resume apenas ao fácies, mas aos objetivos perpetrados, centrados na destruição do Batman símbolo da justiça e da luta contra o mal. Ela consegue hipocritamente defender o “bem” que, com astúcia, transforma em “mal”. Para ela nada há de bom na democracia e na política e, assim, procura o enxovalho, a falta de ética que, com a sua errada falsa conceção de justiça, tudo reduz à noção de mau.  Moura Guedes faz política pela negativa e pela falsidade, não fosse ela uma grande defensora de Bolsonaro, resultado de ódios e frustrações do seu passado profissional e político que persistem no seu íntimo digno de um personagem maléfico como o Joker do Batman.

É disto que alguns dos seus fãs pertencentes ao seu espetro ideológico gostam: condenação prévia na praça pública e sem culpa formada, a denúncia fácil e falsa, o escândalo, a maledicência, o julgamento e condenação na praça pública, recorrendo até a factos, quaisquer que sejam e que sirvam os seus intentos e os do canal onde agora reza.

Se queremos um símbolo do que não deve ser o jornalismo e o cometário político ele está presente na Procuradora da SIC. 

 

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publicado às 17:43


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