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Venham mais cinco, duma assentada que eu aceito já. Não, não, se trata de copos, mas de partidos. Não são ainda cinco as cisões no seio do PSD e na sua vertente social-democrata, são dois e um movimento, tanto quanto eu saiba que vieram a público. Vem-me à memória uma canção escrita por Zeca Afonso antes do 25 de abril de 1975, mais especificamente em 1973, a que deu o nome de “Venham mais Cinco” cujos primeiros versos incluo a seguir:

 

Do branco ao tinto, se o velho estica eu fico por cá

Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no para andar

De espada na cinta, já crê que é rei de quem e além-mar

 

A inclusão destes versos, aparentemente a despropósito, está relacionada com o Movimento 5.7 lançado a 5 de julho de 2018. Ainda não percebi o significado deste tipo de nomenclatura. A data mencionada no manifesto que termina com “Nós, os nascidos a 5 de julho, e porque não somos socialistas” parece-me rebuscada. Será que este movimento quer estabelecer semelhanças com o filme nascido a 4 de julho ou com uma nomenclatura ligada a uma qualquer versão de software para computador?

O filme nascido a 4 de julho, realizado por Oliver Stone em 1990, aborda a problemática da guerra do Vietnam através de um jovem regressado através de uma narrativa baseada na realidade dos considerados heróis confrontados com preconceitos da sociedade americana para com os deficientes físicos da guerra que o leva a juntar-se a outros para lutar pelos seus direitos.

O que se escreve no manifesto é uma coisa, o que cumpre depois do poder obtido é outra. É aqui que nos devemos centrar, ficar atentos a todos as atividades demagógicas e populistas inexequíveis quando confrontados com o poder que eventualmente as eleições lhe possam vir a conferir.

Aqui não se trata de deficientes, mas de órfãos da direita ainda nostálgica do “passismo”, ainda num PSD que se tem auto estilhaçado em partidos como o “Aliança” de Santana Lopes e o indefinido e xenófobo “Chega” de Ventura Henriques. O Movimento 5.7 é um movimento que pretende a união das direitas numa espécie da AD do passado. Esta hipotética união terá como objetivo contrapor-se às “esquerdas unidas” designação grata a Assunção Cristas em contraponto ao "outros são amigos" referindo-se ao PSD.

Aparecem rostos de diferentes sectores da direita neoliberal que se juntaram para apresentar um manifesto onde se declaram “contra o imobilismo socialista e a sua conceção hegemónica do poder”. Isto é, os signatários do movimento pretendem fazer cair uma conceção hegemónica de poder para eleger outra hegemonia, a deles.

Não é por acaso que três dirigentes do CDS-PP, Cecília Meireles, vice-presidente do CDS-PP, João Almeida, porta-voz, e Ana Rita Bessa, membro da comissão executiva nomes do CDS se encontram na lista dos fundadores do movimento. Segundo eles o movimento 5.7 não é uma plataforma de lançamento de uma futura candidatura à liderança dos sociais-democratas.

Estes estratagemas da direita para tentar formar uma direita alternativa com suficiente hegemonia partidária e governativa no espetro democrático português que vem desde o 25 de Abril não são novidade, foram consequência da maioria de esquerda que se constituiu ao nível parlamentar devido ao desastre governativo de Passos Coelho e à perda da maioria eleitoral PSD+CDS-PP.

A ânsia da direita para a obtenção de uma grande aliança das direitas lançou novamente achas nestas fogueira por António Costa ter manifestado vontade que a solução política de apoio ao Governo, a chamada “geringonça”, “conclua a legislatura e se possa renovar” após as eleições legislativas, em Outubro.

Estes movimentos da direita radical que surgiu no PSD durante a liderança e o governo de Passos Coelho veio a agravar-se após eleição do novo líder Rui Rio ao que se seguiu a tentativa de Luís Montenegro para o derrubar. Estas iniciativas por parte daquela direita tiveram assim causas remotas e causas próximas estas últimas devido à perda da maioria absoluta. Como já várias vezes aqui escrevi o PSD abandonou durante a sua aliança com o CDS-PP de Paulo Portas reduzindo à ínfima espécie o caráter e a identidade e a matriz social-democrata do PSD cuja esperança da sua reconstituição foi colocada nas mãos de Rui Rio que já se esperava não faria milagres dado ás pressões internas desfavoráveis. Parece que isto se veio agora a confirmar com os nostálgicos do passado neoliberal.

A possibilidade do regresso do PSD ao passado de direita radical está aí com o Movimento 5.7 cujo rosto é Miguel Morgado daquele partido para quem o alvo a abater parece ser, nem mais, nem menos, do que Rui Rio. Os seus objetivos bem claros quando afirma que “Quer as ideias de todos: dos liberais, dos conservadores, dos democratas-cristãos, e dos sociais-democratas” é a sujeição da social democracia e dos que ainda a defendem dentro do partido a uma direita radical que perfilhe o neoliberalismo. Há nisto uma espécie de "sentimento de tristeza” diria nostálgico causado pelo afastamento das ideias resultantes do pensamento do antigo líder e dos que o apoiavam e que ainda se encontram presentes no seio do partido que atentaram e continuam a atentar contra a identidade social-democrata que vai resistindo com dificuldade.

O manifesto do Movimento 5.7, o algarismo 5 é o do dia do mês e o mês é julho e inspira-se e remete para a AD – Aliança Democrática uma Aliança partidária e governativa portuguesa, formada em 1979 pelo Partido Popular Democrático, hoje Partido Social-Democrata (PSD), liderado por Francisco Sá Carneiro, pelo Centro Democrático Social (CDS), de Freitas do Amaral, e pelo Partido Popular Monárquico (PPM), liderado por Gonçalo Ribeiro Telles constituída há quarenta anos.

Já lá vão quarenta anos e ninguém que tenha hoje esta idade sabe, a não ser pelo interesse histórico e pelo que lhe contam, passou por aqueles momentos nem não sentiu os seus efeitos, bons ou maus que foram.

O movimento é a exumação de uma aliança que teve o seu contexto político e partidário muito diferente do atual e que pretendem agora ressuscitar noutros moldes para voltar novamente ao poder que perderam em 2015. Os mais velhos, e saudosistas desse passado, poderão dar vivas a este movimento.

As pretensões do movimento são bem claras: baseiam-se no conceito de refundação dos princípios, dos valores, conceitos e ideias das direitas radicais no espaço político português que pretende reavivar.

Segundo os seus fundadores a função do movimento não é a de criar um novo partido e de não se “intrometer na agenda dos partidos, nas escolhas táticas dos partidos, e fazer um trabalho que os partidos não podem fazer” que é o de reelaboração e refundação dos princípios, dos valores, conceitos e ideias das direitas. É um projeto que tem em si mesmo uma certa utopia ideológica. Não será um partido, mas será uma plataforma unificadora de partidos.

Há alguns no PSD como Rui Rangel e Rui Rio que nos queiram confundir dizendo que são de esquerda, talvez por isso, o dito movimento que é uma congregação de direitas, queira excluir alguns sociais-democratas do seu clube o que é evidente quando Miguel Morgado afirma que “precisamos também de sociais-democratas não socialistas“ e acrescenta que “Precisamos dos sociais-democratas que coloquem como prioridade da sua atuação os membros mais desfavorecidos da nossa sociedade.”

Parece haver contradições no movimento porque se precisam de sociais-democratas não socialistas, por outro lado dizem que “colocam como prioridade da sua atuação os membros mais desfavorecidos da nossa sociedade”. Está bem manifesto nestas afirmações que, o Movimento 5.7 coloca de fora os verdadeiros sociais-democratas por considerarem que o PSD (de Rui Rio), não é um partido de direita, mas do centro, como muitos têm dito.

Atente-se nestas frases ditas por responsáveis do PSD em diferentes ocasiões:

  • NÃO HÁ PRESSÕES QUE NOS FAÇAM ALTERAR O RUMO SOCIAL DEMOCRATA. Não há pressões de direita ou de esquerda que nos façam alterar o nosso Programa. Não há pressões de direita ou de esquerda que nos façam alterar a nossa prática social democrata. 21-05-1978, (Discurso de Sá Carneiro na Festa do 4º Aniversário do PSD)O PARTIDO SOCIAL DEMOCRATA NUNCA SERÁ UMA FORÇA DE DIREITA.
  • Nós, Partido Social Democrata, não temos qualquer afinidade com as forças de direita, nós não somos nem seremos nunca uma força de direita. 21-05-1978, (Discurso de Sá Carneiro na Festa do 4º Aniversário do PSD)
  • É um partido do centro, que vai do centro-direita ao centro-esquerda. Não é um partido de direita, tal como alguns o têm tentado caracterizar. Não é, nem nunca será. 11-10-2017, (Rui Rio).
  • O PSD SEMPRE FOI MUITO APETECÍVEL COMO O GRANDE PARTIDO QUE PODERIA SER TRANSFORMADO NUM PARTIDO DE DIREITA POPULISTA em Portugal. Há setores que pretendem transformar o PSD nesse partido. Há uma diferença entre um partido de centro, social-democrata, moderno, enfim, aberto à sociedade e o regresso de uma direita conservadora, perigosa, que no fundo apela a diversos medos. E acho que existe esse projeto também em Portugal. 08-12-2018, (Paulo Mota Pinto, entrevista à TSF).

Quem segue as campanhas de oposição ao Governo e a António Costa pela direita radical e neoliberal sabe que, sem substância efetiva no que respeita a propostas para as finanças e para o desempenho da economia, agarra-se, sobretudo, a casos e factos pontuais e de conjuntura que são passageiros que a comunicação social, por seu lado, se encarrega de amplificar. A direita e agora o Movimento 5.7 que pretende reunir numa AD fantoche e passadista um processo que, a ganhar as eleições, passará por fazer reversões sem o dizer.  

Algumas pistas estão lá, no manifesto, alguns que irão penalizar o bolso dos contribuintes como por exemplo o de, como já, retornar à “canalização de dinheiros públicos para os colégios privados. Veja o ataque que foi feito aos contratos-associação. Sacrificamos os alunos e as famílias a um desígnio ideológico que diz que só pode haver ensino estatal.” afirmou Miguel Morgado. Não é verdade, o que se tratou foi deixar de pagar, e não extinguir estabelecimentos privados, onde já havia oferta pública. Os privados continuariam e continuam sempre a existir.

Há mentiras, a omissão também o pode ser, que, tantas vezes são repetidas que se tornam verdadeira para o cidadão comum que, aqui e ali, nos cafés, nos jornais, nos restaurantes, nas churrasqueiras, propagandas partidárias, nas redes sociais, etc., as vai passando sem olhar a potenciais consequências.

O que o movimento pretende se, de facto,  se a manobra for para a frente é aproveitar-se de populismos para nos levar novamente, desta vez sem necessidade, ao levar aos longos quatro anos de 2011 a 2015 onde se pretendia que houvesse um Portugal para uns e outro Portugal para outros, “ELES”. Depois não digam que não sabiam.

 

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publicado às 19:50

Quem mente uma vez mente mais duas ou três

por Manuel_AR, em 26.04.15

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Ontem deram-se dois acontecimentos. O mais importante foi a efeméride da revolução do 25 de abril de 1974 marcado pelos desfiles de gentes das mais diversas idades e profissões. O outro, premeditadamente oportunista, foi a renovação de votos do casamento entre o PSD e o CDS.

Apesar dos momentos de pré rutura do casamento o “casal” reconciliou-se desistindo do divórcio. Por interesse de partilha de interesses de poder resolveram fortalecer a sua ligação.

Enquanto num casamento entre duas pessoas existe a formalização da aliança para uma vida em conjunto sem que haja submissão de um, face ao outro. Na aliança entre o PSD e o CDS, a chamada coligação, existe, na prática, uma espécie de sujeição.

O partido submisso é, neste caso, o CDS. Esta submissão era espectável uma vez que, se fosse isolado às eleições, haveria a possibilidade de ficar com uma percentagem de votos muito abaixo do previsto. Assim, apesar da subalternidade os resultados serão uma incógnita.

Analisemos a situação. Nas eleições em 2011concorreram separados tendo obtido em conjunto a maioria dos deputados no Parlamento e só após resolveram constituir um Governo em conjunto. Naquela altura o CDS obteve 11,71% e o PSD 38,66%. Que razão terá levado a que se coligassem agora antes das próximas eleições? O desespero da perda das eleições em 2015 leva-os a dar tudo por tudo.

Se ambos estivessem cientes de que obteriam bons resultados não haveria razão para tal. Se tivesse que haver coligação seria na altura da formação do novo Governo.

Por princípio uma coligação constitui-se quando um partido político não tem apoio suficiente numa legislatura como consequência dos resultados eleitorais e tem como condição que os grupos minoritários recebam contrapartidas estabelecidas, como pastas ministeriais que se costumam repartir de acordo com o peso parlamentar ou uma orientação determinada das políticas do novo governo.

Paulo Portas ganhou em todas as frentes neste acordo de coligação. Com a possibilidade de vir a ser o elo mais fraco devido às previsões uma votação muito inferior nas próximas eleições, para evitar a vergonha eleitoral, negociou a coligação e as listas com base nos resultados das últimas eleições legislativas. Ao fazê-lo obtém contrapartidas iguais às que tem atualmente em número de pastas e talvez até em determinadas orientações políticas. Se, por um lado, Paulo Portas se submete ao PSD de Passos Coelho tendo apenas na mira o poder e não Portugal como dizem, por outro, o PSD vendo que nunca obteria maioria absoluta resolve deitar-se novamente na mesma cama. É um casamento de conveniência por desespero.  

Neste casamento ambos se comprometem a prometer aos seus convidados um banquete diferente do anterior com as mesmas iguarias melhoradas. O grave é que, num banquete normal, os convidados, se não gostam das iguarias podem sair sem dar nas vistas. No banquete que este casal nos oferece ficamos presos por mais quatro anos a comer as iguarias que prometeram mas que, depois das portas fechadas, mandam o pessoal que serve o banquete retirar as iguarias prometidas das mesas ficando apenas os pratos de menor qualidade que quiserem impor.

Sabemos que Passos e Portas mentiram e mentem e, quem mente uma vez, mente mais duas ou três.

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publicado às 19:47


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