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Pandemia coronavírus e o efeito terceira-pessoa

Quanto maior a percepção do efeito da terceira-pessoa, menor a probabilidade de as pessoas tomarem p

por Manuel AR, em 25.03.20

O que nos leva a pensar o que acontece de mau não nos acontece a nós, mas aos outros? Não é porque pensamos que somos invencíveis, é porque gostamos de pensar que somos imunes às influências das mensagens da comunicação social de massa e de fatores adversos. É isto que a teoria do “efeito de terceira pessoa” estuda.

Epidemia_efeito terceira-pessoas1.png

Apresentação.

Estamos em fase de pandemia derivada ao COVID-19 e as medidas a tomar têm duas vertentes a primeira obviamente ligada à saúde e a outra são políticas adotadas para lidar com o problema. Esta última é a que tem mais impacto na solução para mitigação das dificuldades mais graves que hoje vão começar, não podem estar sujeitas a pressões seja de que lóbis forem por estar em causa as pessoas e o travão à propagação da epidemia. Se a coisa agrava por falta de coragem política quem deverá ser responsabilizado? Em caso de falha, e numa circunstância como esta, assumir a culpa e fazer pedidos formais de desculpa à posteriori não serve de nada nem a ninguém. Para situações drásticas impõem-se medidas drásticas.

Vemos exemplos por esse mundo fora a serem tomadas medidas que por cá se recusam ou recusava-se que fossem tomadas apontando as mais diversas justificações e cautelas, algumas até com risco de agravamento da situação.

Artigos de opinião rebelam-se contra medidas mais severas que possam vir a ser tomadas, parecendo preferir que a doença alastre sem controle em nome de ideologias que defendem, como que a dizer que isso só acontece aos outros, a nós não!

Vem isto em relação à decisão que tardou de fechar as escolas

o que plenamente se justificava devido à proximidade entre os vários intervenientes em espaços restritos e fechados como, por exemplo, uma sala de aula e corredores das escolas onde a interação pessoal acontece a curtas distâncias. Outros destilavam e destilam veneno, dito em defesa da democracia, contra uma possível declaração do Estado de Emergência por necessidade imperativa o que, afinal, acabou por ser declarado, talvez tardiamente.

Não sei se por incompetência, ignorância ou ambas, são exemplo as justificações dadas por fonte do Conselho Nacional de Saúde Pública ao jornal Público que afirmou, na altura em que iniciei a escrita deste texto: “Que sentido fazia encerrar as escolas quando as pessoas vão para outros ambientes como as praias ou centros de convívio em vez de ficarem em casa? As imagens que passaram foram claras, mostrando pessoas em idade escolar na praia. Ora, não se pode confundir uma questão de saúde pública com férias.” Justificações como esta serviram apenas para adiar tomadas de decisão que impõem uma reflexão racionalizada e uma execução excecional pela gravidade da situação de facto. O efeito da terceira-pessoa parece ter atacado a população e os órgãos de decisão. É nesta circunstância que resolvi desenvolver um artigo sobre o denominado efeito da terceira-pessoa.

O texto que apresento tem como objetivo tentar explicar o fenómeno e é em alguns pontos redundante, dizendo o mesmo por outras palavras para que a sua compreensão seja mais conseguida por quem tenha menos contacto com este tipo de conhecimentos.

Introdução.

Em 2007 publiquei na Revista Cadernos de Investigação Aplicada, Edições Universidade Lusófona um artigo sobre os efeitos da terceira-pessoa resultantes da exposição a mensagens televisivas tem em conta objetivos educacionais. Mas não é apenas no campo educativo que o efeito de terceira-pessoa se pode verificar, o mesmo se passa noutros domínios.

Com a entrada na nossa sociedade do coronavírus, já considerado ao nível de pandemia pela WHO – World Health Organization (Organização Mundial de Saúde), julguei que poderia ser útil rever o conceito e a tese do efeito da terceira-pessoas e aplicá-los ao atual contexto desta epidemia dado as atitudes de irresponsabilidade com que muitos ainda encaram a situação, nomeadamente os mais jovens, e não apenas estes, os mais velhos por vezes são ainda piores, talvez devido à ignorância, como escreveu Bárbara Wong, jornalista do Jornal Público num artigo que intitulou “Coronavírus: Meninos, isto não são umas fériasem relação aos alunos que ficaram por necessidade forçosa sem aulas

Revendo conceitos.

Se analisarmos com atenção o que se tem escrito e dito em artigos de revistas científicas internacionais sobre na comunicação noticiosa televisiva e a imprensa o que ganha notoriedade é a perspetiva dos efeitos dominadores, por vezes até nocivos, que lhe são atribuídos.

Com a divulgação massiva de informação desde o surto do COVID-19 podemos analisar os efeitos benéficos do poder da televisão como comunicação de massa e serviço público ao dirigir-se aos vários públicos-alvo com uma função pedagógica. Esta função colide por vezes com a capacidade crítica do recetor, com o tipo de relação que este tem com o que lhe apresentam nos noticiários que se relaciona também com o meio socioeconómico que envolve o recetor.

Ao retomar-se a conceção das consequências da televisão a hipótese do efeito de terceira-pessoa é um marco com os efeitos do emissor sobre os recetores.  Para melhor compreensão do que adiante se irá desenvolver irei explicitar alguns conceitos importantes.

Comportamento social face aos meios comunicação.

O comportamento humano está ligado à nossa vida social que assenta na apreciação racional de como o outro reagirá às suas próprias ações num raciocínio do tipo “Se eu fizer isto… ele ou ela irá pensar nisto…, terei então de fazer isto…

A forma como as pessoas se comportam perante os estímulos em relação ao meio envolvente também pode ser realizada de acordo com as diversas convenções sociais existentes. A sociedade espera que as pessoas devem agir de acordo com os padrões previstos ou estabelecidos em determinadas situações. Ao pensarmos assim, vemos que o comportamento humano encerra então uma forte componente racional. Existem certas exceções óbvias em que parecemos agir com escasso pensamento racional, especialmente quando nos encontramos envolvidos em grandes grupos. O pânico é um exemplo, se alguém gritar fogo num auditório completamente cheio o pânico gerado pode vir a ser pior do que o próprio incêndio.

Atitude

O conceito de atitude a que nos referimos nada tem a ver com a palavra exageradamente utilizada nos concursos televisivos em que concorrentes atuam perante um júri e este elogia o concorrente quando termina a atuação dizendo que teve muita atitude.

Atitude no nosso contexto é uma disposição relativamente estável, avaliativa, que faz uma pessoa pensar, sentir e comportar-se positiva ou negativamente ou indiferentemente em relação a determinada pessoa, grupo ou problema social. Pode ser então definida como sendo “um mediador entre a forma de agir e a forma de pensar dos indivíduos”.

Atitude é também uma reação avaliativa, favorável ou desfavorável, face a determinados objetos significativos, pessoas, grupos, acontecimentos ou símbolos, representada através das nossas crenças, sentimentos ou comportamentos. No nosso caso concreto atitudes não são crenças relativas à informação que temos disponível sobre o objeto de estudo manifestadas através de opiniões, são factos sustentados pela experiência dos sujeitos e pela sua interação com os outros.

Perceção do efeito de terceira-pessoa.

O modelo teórico do efeito da terceira-pessoa, tem como alicerce a perceção têm as pessoas têm de que certos acontecimentos negativos em programas televisivos, especialmente publicidade e notícias, exercem um maior efeito nos outros do que neles próprios.

O efeito de terceira-pessoa pressupõe a hipótese de que as pessoas tendem a atribuir mais importância à influência do que é prejudicial e dos meios de comunicação social, no seu sentido mais amplo, nas atitudes e comportamentos dos outros. Isto é, por princípio, assumem que a negatividade de algo e a comunicação exercem nos outros um forte impacto, mais do que neles próprios. Noutros termos e segundo um dos investigadores nesta áreacomo Perlof afirma que:

O efeito de terceira-pessoa é a perceção individual de que a mensagem irá exercer um forte impacto nos outros e não em si próprio. O termo terceira pessoa deriva da expectativa de que a mensagem não terá grandes influências sobre o “eu” mas no “outro” ou “outros” que são a terceira ou terceiras pessoas.”

A hipótese do efeito na terceira-pessoa foi, e ainda é, uma nova abordagem para o estudo da opinião pública e tem como base que os indivíduos normalmente assumem que os órgãos de comunicações social exercem um impacto mais forte nos outros do que no próprio, ou no eu enquanto recetor das mensagens. Assim, os media podem, de certa forma, conduzir à implementação de ações para minimizar potenciais danos aos sujeitos recetores das mensagens e que tem tais atitudes.

Os indivíduos assumem que as comunicações exercem uma influência mais forte sobre os outros do que sobre eles próprios, no entanto, o efeito de terceira-pessoa não surge em todas as circunstâncias e em todas as pessoas, parece ser particularmente provável quando a mensagem contém recomendações que não são consideradas pessoalmente boas, e os indivíduos percebem que o problema é, para si próprio, pessoalmente importante e quando a fonte possui um pendor negativo.

É o que acontece, por exemplo, quando alguém comenta com outro um determinado acidente e que, no meio da conversa, diz que, o aconteceu não aconteceria com ele, o outro, ou os outros é que são inábeis ou descuidados. Atualmente é o que acontece com muitas pessoas em relação à epidemia do COVID-19 que poderão pensar só está a acontecer aos outros e que não há razões para recear e, como tal, desvaloriza a perigosidade apesar das informações e comunicados de prevenção através dos vários media.

A tendência mais ou menos egoísta está em acreditar que outras pessoas são mais vulneráveis ​​do que o próprio, ou o “eu”. O leitor pode ser, por exemplo, particularmente resistente em relação aos órgãos de comunicação social e às mensagens de alerta de perigosidade mais importantes sobre o novo coronavírus prejudiciais à sociedade.

Se o efeito de terceira-pessoa é devido à motivação para preservar a autoestima, por outro lado, as pessoas parecem estar dispostas a reconhecer que elas próprias são influenciadas por mensagens pró-sociais (situações positivas) como anúncios de serviço público, campanhas de orientação e regras básicas de saúde em caso de surtos epidémicos o que é então chamado efeito de terceira-pessoa revertido ou efeito de primeira-pessoa.

Como já sustentei anteriormente o efeito da terceira-pessoa é assim uma “perceção individual de uma determinada mensagem que irá exercer um forte impacto nos outros e não em “si” mesmo, o que significa que tal mensagem não terá grande influência em mim (o “eu”) ou no outro (“tu”) que é uma segunda pessoa, mas nos outros (“ele” ou “eles”), que são as terceiras pessoas. Assim, o sujeito (o “eu”) subestima os efeitos negativos e dos media, no caso os jornais televisivos, por exemplo, mas sobrestima o impacto que podem exercer sobre os outros. Existe um efeito de distância espacial e cultural ao presumir que os efeitos incidem mais sobre os sujeitos distantes do observador.

O efeito da terceira-pessoa ou da primeira-pessoa geram determinados efeitos nas atitudes e comportamentos. Para melhor se perceber o sentido do que se está a falar há que desenvolver estes conceitos.

O efeito terceira-pessoa

A questão que se coloca no desenvolvimento deste texto exploratório é a de reconhecer a atitude das pessoas em alguns contextos, e enquanto telespectadores, face aos efeitos da persuasão e influência que as mensagens televisivas em relação ao COVID-19 provocam nos outros comparativamente a si próprio. Nos “outros” incluem-se não apenas adultos, mas também crianças e jovens que diariamente consomem horas de televisão.

Os media televisivos têm a particularidade de fazer corresponder a cada palavra um rosto ou um objeto, a cada conceito e ideia uma imagem, levando o telespectador a ter acesso a emoções, experiências e comportamentos com uma aproximação semelhante ao impacto que tem uma experiência direta tornando a televisão num espaço de vivência de experiências por observação (vicariante) que pode gerar no espectador o efeito da terceira-pessoa. Note-se que, em muitas das imagens a que assistimos durante os noticiários televisivos não corresponde à notícias do dia, à falta delas utilizam imagens repescadas de dias anteriores, semanas ou meses.

Como reflexo da participação decisiva da televisão na vida das pessoas continua a questionar-se o seu papel na sociedade contemporânea, como elemento de educação, cultura e inserção social e o seu impacto na formação de mentalidades, comportamentos e atitudes. Numa sociedade que convive com inimigo oculto coronavírus, ainda não totalmente conhecido, há quem considere que as suas cadeias de transmissão não os atingem.

Tem-se a noção de que há uma tendência em que o próprio individuo acredita que as outras pessoas são mais vulneráveis ​​do que ele. Confrontando-se com o seu próprio “eu” pensa poder ser, relativamente mais resistente em relação a todas as outras pessoas mesmo no caso particular de uma epidemia que ameasse a saúde pública.

O efeito de terceira-pessoa funciona para pessoas diferentes de maneira diferente tendo a ver com três fatores a considerar no contexto que são a distância social, grupos de referência, posse de conhecimento e exposição aos media.

Pesquisas sobre o efeito de terceira-pessoa concentraram-se, sobretudo, no impacto dos media sobre as pessoas quando as mensagens são potencialmente negativas como nos casos relacionados com epidemias.

 Impacto das mensagens no efeito de terceira-pessoa.

Que impacto têm de facto sobre nós as mensagens que tenham a ver com saúde pública? O que nos leva a pensar que o que acontece de mau não se vai passar connosco, mas apenas com os outros?

Não é porque pensamos que somos invencíveis, é porque gostamos de pensar que somos imunes às influências das mensagens da comunicação social.

A pergunta que então se coloca é a de saber se cada pessoa considerada individualmente  ("identificado como ‘eu’ ") ou outras pessoas que não ‘eu’ estarão a ser vistas como sendo mais afetadas por mensagens informativas e persuasivas sobre a evolução do CODVID-19 ou se essa informação para o mim “o ‘eu’” não é fator relevante porque não serei atingido?

Cada sujeito raciocina assim: "Não serei influenciado pelo que dizem nem pelo que está a acontecer, mas ele ou eles (a terceira-pessoa), podem muito bem ser persuadidos". 

Claro que a resposta a estas questões só é possível ser dada pelo método de questionários posteriormente trabalhados por modelos matemáticos adequados.

O efeito de terceira-pessoa pode ajudar a explicar vários aspetos do comportamento social e atitudes face ao medo da propagação da epidemia COVID-19.  Na psicologia social o efeito da terceira-pessoa está relacionado com a Teoria da Comparação Social que pressupõe que as atitudes, capacidades e opiniões de um indivíduo são avaliadas através da comparação de nós próprios com os outros.

Existe um compromisso entre o reconhecimento das normas de um grupo e cada posição ideal e individual de cada um que é a denominada “ignorância pluralística” que ocorre quando a maioria dos indivíduos de um grupo supõe que a forma de pensar da maioria dos outros elementos do grupo é de alguma forma diferente, mas a verdade é que são mais similares do que se pensa. Em síntese: é o processo que envolve vários membros de um grupo que pensam possuir perceções, crenças, ou atitudes diferentes do restante do grupo. Apesar de não apoiarem a norma do grupo, os dissidentes comportam-se como os outros membros, por pensarem que o comportamento dos outros elementos demonstra que a opinião do grupo é unanime.

Para melhor compreensão deste conceito há um exemplo muito corrente que acontecia quando eu dava aulas na universidade e que, com certeza, já aconteceu várias vezes com muitos outros professores que dão aulas em qualquer nível de ensino.

Imagine que um aluno está na turma a assistir a uma aula que o professore está a dar em que a matéria é muito complicada. Após vários minutos de exposição da matéria o professor faz uma pausa e pergunta se há alguma dúvida. Ninguém põe o braço no ar. Se o professor olhar à sua volta pensa se todos os alunos poderão realmente ter entendido o que acabou de explicar. O referido aluno tem a noção de que não entendeu nada. O receio de ele parecer ser o único que não percebeu nada evita que levante a mão, mas, ao olhar para os outros colegas da turma que se mostram impassíveis, interpreta o comportamento semelhante dos colegas de maneira diferente: considera que eles não levantaram a mão como sinal de que eles entenderam tudo o que foi dito e que eles na verdade não têm dúvidas nem dúvidas a colocar. Situações como esta ocorrem geralmente quando as normas são mais antigas do que todos os membros do grupo ou quando um elemento ou um pequeno grupo é dominante e pode forçar as suas atitudes sobre o resto do grupo.

Coronavírus, atitudes e comportamentos perante notícias na comunicação social.

Em condições habituais as notícias na comunicação social sobre saúde pública nem sempre fazem parte dos cabeçalhos das primeiras páginas dos jornais nem das aberturas dos jornais televisivos, a não ser que seja para denunciar, por vezes com exagero, problemas nos serviços de saúde, mais com finalidades políticas do que por qualquer outra.

Para atrair a atenção das pessoas é preciso que algo de muito importante ou grave aconteça como está a acontecer com a pandemia COVID-19. Só nestas circunstâncias é que as notícias e a informação de prevenção sobre a saúde pública dominam as páginas da imprensa e as horas nobres das televisões.

Investigações têm mostrado um padrão geral entre mensagem desejável e o efeito de terceira-pessoa. Mensagens indesejáveis tendem a levar a terceiros uma perceção enviesada enquanto mensagens desejáveis tendem a gerar um efeito contrário ao de terceira-pessoa.

As pessoas não expressam a intenção de seguir as recomendações procedentes das instituições que controlam a saúde pública mesmo depois de assistirem às notícias e às mensagens preventivas. Tendem a pensar que a cobertura noticiosa sobre as epidemias influencia muito mais o público em geral do que a elas próprias.

Outra das questões que se pode colocar é a de saber se durante as epidemias com a gravidade do COVID-19 a observância das mensagens provenientes da comunicação social e das instituições de saúde que dão a conhecer a gravidade  da epidemia e o testemunho de médicos, poderiam ajudar a superar o efeito e motivar as pessoas a agir.

Independentemente da pandemia ter sido descrita como "muito grave" por várias organizações internacionais como a OMS – Organização Mundial de Saúde e pelas instituições de saúde nacionais, a divulgação permanente das notícias, informações e conselhos parecem não convencer o público a seguir com rigor as medidas preventivas.

Epidemia_efeito terceira-pessoas2.png

Quando a linguagem dos programas sugere que a epidemia é particularmente "grave" e quando entrevistados na rua pelos canais de televisão percebem que a situação é grave isso não os torna mais propensos a cumprir as regras, mas acham bem que outras pessoas o façam. Isto sugere que 'o eu' percebe, mas que 'os outros' usam critérios diferentes, menos inteligentes, tais como confiar na experiência e na credibilidade da fonte.  

Quando as consequências são terríveis os sujeitos em vez de autoavaliarem, as mensagens preventivas que lhes são dirigidas provenientes de instituições e pessoas especializadas como um médico, produz no sujeito, ‘no eu’ de cada um, uma elevada apreciação da pouca eficácia da mensagem sobre a saúde que apenas serve para os ‘outros’.

A natureza da cobertura obre a saúde pública pela DGS – Direção Geral de Saúde é informativa, educacional que, em princípio, trazem benefícios para os recetores. Mas, quando as notícias correspondem a uma ameaça grave podem incomodar as populações. Contudo, a cobertura real das epidemias ou pandemias nos casos mais graves pela sua perigosidade e extensão contribui para a ansiedade das pessoas, tornando-as mais ávidas de informação. Quando uma mensagem não é percebida como benéfica e envolve grandes riscos, o efeito de terceira-pessoa torna-se mais evidente.

Se há três semana atrás fizéssemos em Portugal uma pesquisa sobre o receio do surto epidémico do coronavírus como se verificou em entrevistas feitas pelas televisões a elementos da população, ficaria claro que haveria quem tecia afirmações sobre o exagero de alarme em demasia e que o surto não passava de uma gripe como qualquer outra, mesmo  depois da OMS ter reconhecido a gravidade mundial da situação. Poucos acreditavam então que a potencial gravidade da situação chegasse a Portugal, como chegou. Aliás, Trump, nos EUA fez passar a mensagem de que se tratava de algo sem importância o que posteriormente teve de contradizer ao decidir tomar medidas mais rigorosas.

O surto que inicialmente se julgou ser apenas uma pequena epidemia de gripe e que foi amplamente abordada pelos noticiários dos canais televisivos e pela imprensa, transformou-se numa pandemia.  Portanto, as notícias sobre o coronavírus são um caso marcante para a perceção das notícias de risco para a saúde e o efeito que tem em cada um (o eu) e sobre os outros e para explorar as consequências dos efeitos presumidos de tais notícias no efeito de terceira-pessoa para uma ação preventiva eficaz.

Um outro fator chave é a perceção por cada um do conteúdo divulgado pela comunicação social.  Se alguém pensa que pode estar a ser influenciado pelos meios de comunicação à cerca de um evento indesejável, é provável que essa pessoa se aperceba de como não quer ser influenciado por essas mensagens, mas pense também que outras pessoas talvez não consigam fazer essa distinção, por serem mais ingénuas e, portanto, mais influenciadas por tais mensagens. Pode resistir-se a ser influenciado pela publicidade, principalmente se a percebermos como pura manipulação ou propaganda, mas não poemos fazer tal julgamento sobre o conteúdo das notícias de acontecimentos graves como epidemias graves que são factos.

Nem todas as pessoas afirmam que “os outros” são mais influenciados pela comunicação social do que eles próprios. O inverso do efeito da terceira-pessoa verifica-se quando os próprios acham que são mais influenciados pelas notícias do que “as outras pessoas”.

Assim, poderíamos colocar as seguintes hipóteses sobre alguns comportamentos perturbadores no combate à epidemia:

H1. Há sujeitos que consideram pouco provável serem contagiados do que os outros.

H2.Há sujeitos que se apercebem de que possam ser menos infetados pelo coronavírus do que as outras pessoas.

Estas duas hipóteses embora semelhantes são ambas de otimismo enviesado.  

Em termos de comportamentos correspondentes, as preocupações das pessoas com a sua própria segurança e não com a das outras preveem a intenção de tomar medidas de proteção. Quanto maior a perceção da terceira-pessoa, menor a probabilidade de as pessoas tomarem para si ações protetoras. Esta perceção relaciona-se com uma espécie de julgamento social sobre os efeitos das mensagens da comunicação social. É um mecanismo psicológico para sustentar a imagem positiva que a pessoas tem de si próprias na avaliação dos riscos de ocorrência de situações negativas em casos como a atual epidemia pelo COVID-19.

Finalmente, no domínio comportamental o efeito terceira-pessoa, segundo suposição teórica de investigações já efetuadas baseia-se no medo das mensagens indesejáveis ​​veiculadas pelos media. Isto é, o efeito de terceira- pessoa aumenta com mensagens socialmente indesejáveis ​​e diminui com mensagens socialmente desejáveis. Pensa-se que esse fenómeno seja um exemplo de proteção à autoimagem que cada um tem de si próprio (o eu). As teorias sobre a proteção da autoimagem afirmam, entre outras coisas, que os indivíduos filtram os efeitos da comunicação de acordo com o que cada um pensa.

As pessoas que acham que não são "influenciadas pelos órgãos de comunicação" têm uma maior probabilidade de desconsiderar as medidas de precaução e de prevenção divulgadas pelas mensagens veiculadas por informações e notícias que afinal têm como ajudar a impedir a propagação da doença. Em tempo, nas redes sociais, houve campanhas irresponsáveis contra a vacinação. Parece que o mesmo poderá a estar a acontecer com a depreciação da epidemia causada pelo novo coronavírus e inversamente com informações falsas.

Finalmente, os efeitos percebidos pelos sujeitos podem levar a comportamentos retificativos devido a um reconhecimento da situação problemática e atuam de forma a restringir, para si próprios, mensagens com influência negativa, corrigir mensagens com influência ambígua e ampliar mensagens com influência positiva, com o objetivo de provocar o sentido inverso o que os coloca em risco quem assimila mensagens falsas e enganadoras face a situações que representem perigosidade.

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