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COMENTÁRIO e OPINIÃO - Sociedade, Comunicação e Política

O que outros pensam e comentam sobre a sociedade, política, economia, educação. Comunicações e opiniões pessoais sobre o dia a dia da política e da sociedade.

Descubra quem são os Dantas da política

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Uma crónica sobre o Manifesto Anti Dantas, escrito por Almada Negreiro, levou-me a fazer a sua releitura e achei a sua atualidade inegável face aos Dantas e comentadores da política que por aí proliferam.  

Júlio Dantas foi uma espécie de "chico cortiça" que se compatibilizou com todos os regimes políticos da sua época desde a Monarquia até ao Estado Novo, passando pela Primeira República e, daí, Almada Negreiros e outros intelectuais da época o terem considerado oportunista e retrogrado. Foi deputado pela Monarquia, ministro da educação na Primeira República e embaixador no Estado Novo.

Sem mais, passo a transcrever extratos do referido poema deixando que cada um faça as associações convenientes ao que hoje se passa pela política e por quem nos governa.

Todavia, faço questão de esclarecer que ser antipolíticos (anti alguns) não é o mesmo que estar contra a política nem contra todos os políticos.

Não sou Dantas, não sei escrever, não sou antipolítica mas aqui vai.

Veja também os vídeos.

 

 Basta pum basta!!!

 

Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!

 

Abaixo a geração!

 

Morra o Dantas, morra! Pim!

 

Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!

 

Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!

 

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O Dantas é um habilidoso!

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O Dantas é Dantas!

 

O Dantas é Júlio!

 

Morra o Dantas, morra! Pim!

 

O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d'Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!

 

E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!

 

O Dantas é um ciganão!

 

Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!

 

Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!

 

Morra o Dantas, morra! Pim!

 

O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!

 

O Dantas é um autómato que deita pra fora o que a gente já sabe o que vai sair... Mas é preciso deitar dinheiro!

 

O Dantas é um soneto dele-próprio!

 

O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.

 

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Morra o Dantas, morra! Pim!

 

O Dantas é o escárnio da consciência!

 

Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!

 

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O Dantas é a meta da decadência mental!

 

E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!

 

E ainda há quem lhe estenda a mão!

 

E quem lhe lave a roupa!

 

E quem tenha dó do Dantas!

 

E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero!

 

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E as convicções urgentes do homem Cristo Pai e as convicções catitas do homem Cristo Filho!...

 

E os concertos do Blanch! E as estátuas ao leme, ao Eça e ao despertar e a tudo! E tudo o que seja arte em Portugal! E tudo! Tudo por causa do Dantas!

 

Morra o Dantas, morra! Pim!

 

Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mas atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degredados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!

 

Morra o Dantas, morra! Pim!

 

Autor: Almada Negreiros (1893-1970)

Ler a versão completa em: http://www.munseys.com/diskfive/adan.pdf

 

 

Pim! from Gonçalo Nobre on Vimeo.