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Campanha eleitoral e Debates. COMENTÁRIO e OPINIÃO - Sociedade, Comunicação e Política

O que outros pensam e comentam sobre a sociedade, política, economia, educação. Comunicações e opiniões pessoais sobre o dia a dia da política e da sociedade.

A greve absoluta e sem restrições é um direito. Será?

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Por vezes fico na dúvida se o que escrevem os profissionais dos artigos de opinião e de editoriais de jornais é sobre um mundo por eles criado ou se nos pretendem enganar e baralhar.

Os que estão a favor desta greve que é política e utiliza os trabalhadores do setor como frente de batalha mas fazem de conta que estão contra, estão também contra as medidas tomadas pelo Governo. É óbvio. Veja-se o caso por exemplo do PSD e os comentários de Rui Rio que quase responsabiliza o governo pela greve e porque está a tomar medidas exageradas de prevenção comparando-a com uma espécie de golpe de teatro como diz tger sido a greve dos professores.

Rui Rio esquece-se de algo importante, é que na greve dos professores era o Estado a entidade patronal e as negociações eram com o governo, no caso desta greve dos motoristas é com entidades patronais do privado e até os sindicatos rejeitaram qualquer mediação por parte do Governo. Assim a direita PSD e Rui Rio, desesperados, jogam com a campanha eleitoral a seu favor em detrimento e prejuízo de todos os portugueses. Será que se fosse o PSD no Governo estaríamos entregues ao nosso destino?     

Hoje no jornal Público Ana Sá Lopes no editorial do jornal e João Miguel Tavares num artigo de opinião, cada um defendendo sobre o mesmo tema argumentos cujos vetores convergem para o tempo passado, mas que me parecem estar a querer justificar através de comparações ficcionais entre uma greve no transato tempo com uma greve no presente. Isto é, e se, (condicional) o que se passa agora fosse no tempo do governo Passos Coelho? E respondem que tal não faltaria. Um, recua até ao PREC e imagina o secretario geral da CGTP a vociferar contra os que queriam limitar o direito à greve. A outra, coloca-se numa retrospetiva imaginativa e ficcional sobre o que faria o PS na mesma altura caso se limitasse no tempo de Passos Coelho e Cavaco Silva como se está agora a fazer ao limitar o direito à greve.

Alguns até recordam a greve dos trabalhadores das empresas do grupo TAP quando Passos Coelho fez a requisição civil apenas uma vez, em 2014 e partidos como o BE, o PCP e também o PS reagiram contra a decisão.

Esses senhores omitem o facto de que a situação atual da greve dos camionistas de matérias perigosos não é comparável com a da TAP pois atinge e prejudica apenas um setor que, apesar de importante na economia como esta que paralisa o país e atinge todos os setores e a população em geral. Por outro lado, tanto quanto me lembro, não de verificaram greves como as que, oportunisticamente, alguns desencadearam com objetivos politicamente encobertos por questões laborais e remuneratórias. Gostaria de saber como reagiriam as opiniões e os senhores comentadores se nada fosse feito para manter o normal funcionamento da economia do país num litígio entre empregadores e trabalhadores em que estes se colocam numa posição amplamente destrutiva.

A jornalista Ana Sá Lopes que sempre estimei desde o tempo em que trabalhou no Jornal i, agora a trabalhar no jornal Público do qual assinante, escreve um artigo dando aos leitores, aos mais desatentos, a ideia de que, para o caso da greve dos motoristas de matérias perigosas nada deveria ser feito tal como a decisão musculada do Governo no que se refere aos serviços mínimos que limitam o direito à greve, assim o interpretei. Permito-me colocar em dúvida a justeza da dita greve.

Escreve Ana Sá Lopes:

“Se obviamente não fosse um governo PS, apoiado por partidos à sua esquerda, a fazê-lo, a reacção da esquerda seria substancialmente diferente. Façamos o exercício simples de fechar os olhos e imaginar que estas decisões de “serviços máximos” eram tomadas por Pedro Passos Coelho ou Aníbal Cavaco Silva. O que diriam os partidos de esquerda, a começar pelo PS? Ontem, o PCP ainda admitiu que o Governo está a pôr em causa o direito à greve, enquanto o Bloco de Esquerda se recusou a falar sobre o assunto. A coerência, ainda que sobre valores matriciais do regime, é como as ondas do mar: vai e vem.” E continua: “Compreende-se a irritação que produz em muitos portugueses a figura do advogado Pardal Henriques – aliás iminente candidato pelo partido de Marinho e Pinto – mas uma irritação não é suficiente para justificar tanta complacência com a resposta musculada ao anúncio de uma greve de um sindicato que, ainda que tenha interrompido um processo negocial que estava em curso, tem razões de queixa que não são de somenos.”.

Parece-me haver algo no discurso de Ana Sá Lopes que pode levar a interpretações ambíguas para leitores desatentos, talvez como eu, porque, por mais que me esforce, não compreendo. Ou Ana Sá Lopes não está a ver as consequências de uma tal greve, o que, para mim, me parece muito pouco provável e até impossível, ou, então, pretenderia, para efeito jornalísticos, (jornais também não chegariam a lado nenhum) ver lançado o caos no país fazendo colapsar todos os setores da economia, incluindo os estratégicos. O tema da defesa duma greve deste tipo sem restrições severas parece-me ser um argumento bom para um filme de ficção da área do terror social.  

Ana Sá Lopes, agarrando o pretexto da greve dos motoristas redireciona-se para outro setor também estratégico, defender que o caso da greve dos médicos também é uma situação grave e que medidas como as que agora foram tomadas devem seguir o mesmo critério pois fazem perigar a saúde das pessoas o que faz notar no seu editorial. “…vale então repensar as greves dos médicos. A saúde é um bem de valor maior do que as férias ou o turismo. Francisco George, o antigo director-geral da Saúde, já manifestou publicamente que as greves de médico deveriam ser ilegalizadas. “A greve não é um direito de médicos e enfermeiros”, disse George em recente entrevista ao PÚBLICO e à Renascença. “O doente não é o patrão dos grevistas. O grevista está a lesar o doente. Nenhum doente, a meu ver, devia ser molestado quando vai a uma consulta e vê que há greve e depois são mais seis meses”. Para George “isto é inaceitável, intolerável no plano da ética”.

É assim, a greve não pode ser um direito absoluto e inquestionável.