Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Governo e Políticas. Debates, COMENTÁRIO e OPINIÃO - Sociedade, Comunicação e Política

Comunicações e opiniões pessoais sobre o dia a dia da política e da sociedade. O que outros pensam e comentam sobre a sociedade, política, economia e educação.

A estratégia errada do PCP

PCP.png

 

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, é uma pessoa por quem tenho muita consideração devido às suas convicções e coerência política sem contudo perfilhar os seus princípios ideológicos. É muito raro termos a comunicação social audiovisual e escrita a conceder entrevistas a Jerónimo de Sousa a não ser em breves flashes nos canais televisivos sobre determinados momentos da atualidade política.

A revista Visão da semana que terminou concedeu-lhe uma entrevista e ainda bem porque passamos a saber mais do seu pensamento sobre a política que quase ou nunca varia. O que me leva a desconfiar é a oportunidade da entrevista num momento em que o contexto político-partidário está em mutação, não apenas devido às alterações em curso no Partido Socialista, mas também à pré-campanha eleitoral dos partidos da coligação governamental.

O PCP sabe que nunca será governo, mas também sabe que uma subida da pontuação eleitoral, por pouca que seja, lhe dará sempre muito jeito. Deste modo sabe bem onde pode com maior probabilidade ir buscar votos. Será sempre no espetro partidário do centro- esquerda, isto é ao Partido Socialista e a direita sabe disso.

O PCP foi sempre contra qualquer tipo de política e de governo de direita mas o seu erro estratégico tem sido uma postura de isolamento partidário e ideológico com alguma razão porque se deixar de ter pretensões de vanguarda das lutas das classes trabalhadoras as suas votações passarão a ser meramente residuais.

O PCP, para obter mais uns votinhos, prefere ter como alvo o PS, o que a direita agradece. Na entrevista publicada na Visão as questões colocadas a Jerónimo de Sousa vão desabar na sua maior parte no PS. Para ele a substituição da liderança no PS foi sobretudo "um processo de mudança de caras". Estas e outras afirmações ajudam a direita e o Governo que neste momento se transformou num elemento de oposição à oposição. Todos nos recordamos que a queda do último governo de José Sócrates foi apoiada com os votos conjuntos do PCP, BE juntamente com direita. Não é de admirar, portanto, que coloque O PS no mesmo saco da direita. Só tardiamente se apercebeu da diferença.

Que o PS neste momento é mais social-democrata do que socialista e tendo em conta a evolução seguida pelo PSD no sentido neoliberal, no momento como aquele em nos encontramos o ajustamento a alguns pontos de vista da direita não são despiciendos. O PS continua a ter no seu eleitorado as classes médias e média baixa que, enganados, terão contribuído para que a direita chegasse ao poder em 2010.

O PCP tem um defeito estratégico de fabrico, tudo quanto mexa e esteja, por pouco que seja, à sua direita é para combater, daí não fazer quaisquer distinções e incluir também o Partido Socialista. Por convicção ideológica o PCP tem uma estratégia concertada de oposição sistemática seja qual for o governo mesmo que de esquerda moderada. O seu apego a uma ideologia e a um programa rígido de opção política para o país torna-o irredutível para qualquer acordo com quem quer que seja. Para o PCP na política apenas existe o preto e o branco, não há cinzento. Dadas as circunstâncias que o mundo atravessa resta refletir se poderá ter, ou não, razão.