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Os polémicos paradoxais

por Manuel_AR, em 11.11.13

 

De tempos, a tempos, surgem por aí uns senhores que, ciosos de estar nas paragonas dos jornais e nos holofotes das televisões, defendem posições políticas de consonância situacionista, polémicas e, por vezes, contrárias às que defenderam noutras ocasiões. Nesta casta encontramos desde políticos, jornalistas, alguns deles escritores e comentadores nas horas vagas, comentadores económicos, economistas,sociólogos,etc..

A polémica é sinónimo de controvérsia que pode produzir ruturas e colidir com as formas de pensar do senso comum e, daí, todo o interesse em ser polémico porque gera em quem os lê ou ouve reações que o publicitam. No âmbito das opiniões políticas, aos polémicos não interessa se falam mal dele, mas que falem, porque assim não cairá no esquecimento. Aproveitam para se salientar estando contra a corrente do momento.

Por vezes reúnem-se e debatem temas polémicos. Intitulam-nos então de comissões de sábios que estudam e defendem posições e sugerem medidas em matérias polémicas. assegurando-se previamente de que não serão por elas atingidos caso sejam adotadas, apesar de saberem que estão salvaguardados pelo seu estatuto ou e autonomia económica e financeira.

Os polémicos, autodefendem-se das medidas concretas a serem tomadas e tentam evitar que lhes venham também bater à porta. Isto é, defendem a iniquidade se isso servir os seus fins, segundo o princípio de enquanto se sacrificam alguns não me sacrificam a mim. É o princípio das ações iníquas e divisionistas que o governo tem fomentado

Há polémicos provocadores ocasionais e outros sistemáticos. Qualquer deles defende posições que sabem ser vivamente combatidas pelos seus opositores e por muitos setores da sociedade e esperam, disso, feedback. Defendem medidas penalizadoras para a maioria da população aproveitando e utilizando a crise para invocarem a obrigatoriedade de reformas. Tornam-se, por vezes, imorais revelando até, sem rodeios, um certo ódio social aos mais fracos que são a maioria da população anónima a quem antigamente a direita extremista denominava de "maioria silenciosa".

Veja-se, por exemplo, o caso de medidas excecionais como o aumento de impostos ou a retirada de algumas regalias que abranjam todos os setores da sociedade onde os polémicos também se incluam. Não é difícil vê-los combater e criticar o governo que tomou tais medidas esgrimindo argumentos vários que demonstrem os seus inconvenientes. Mas, quando elas incidem apenas noutros setores nos quais não se encontram abrangidos tecem elogios a essas medidas tentando mostrar, debaixo de uma capa de imparcialidade, a coberto de um patriotismo bacoco de que estão incutidas as suas atitudes políticas. Colocam-se do lado de quem lhes dá ou possa vir a dar, (não o pão da sobrevivência diária de que a maioria necessita para viver), cargos altamente remunerados, a manutenção dos mesmos que pretendem manter e, se possível, outro tipo de favores porque a vida está difícil!… Polémicos desinteressados que defendam ideias com convicção e imparcialidade há poucos.

É certo que a democracia constrói-se também com o salutar contraste de opiniões, o que parece estranho é que, consoante as ocasiões mais ou menos favoráveis, e por uma questão de visibilidade mediática, apresentem pontos de vista contrários a outros tomados anteriormente ou, então, ficam-se pelo "nin", quando não refugiando-se num palavreado confuso e impercetível pela maioria dos cidadãos até verem em que param as modas.

As convicções não mudam como o vento ou em função do andar das políticas ou da obtenção de cargos que há muito anseiam. Manter as convicções não significa apoiar medidas a qualquer preço sabendo de antemão que estão erradas. Uma coisa é as convicções não deverem ser limitadoras da expressão livre de opiniões contrárias às circunstâncias de certo momento, outra, é de as manter em função das circunstâncias políticas do momento sem qualquer ética social e política. As convicções podem mudar ao longo do tempo com a experiência,maturidade psicológica e política.

Estaremos por acaso a ver um sujeito que perdeu o emprego sem justa causa ou culpa própria, que ficou sujeito ao fundo de desemprego, como se de uma esmola se tratasse e não tivesse descontado durante todo o tempo de serviço, aparecer com um discurso público, situacionista, a defender que a medida ou circunstância provocada que o colocou involuntariamente naquela situação foi uma boa medida tomada pelo governo, seja ele qual for, ou a defender o corte do seu salário para salvar o país ou, ainda, saudar a destruição do Serviço Nacional de Saúde em nome da medicina privada que ele, sem meios financeiros, teria de passar a pagar? Seria um paradoxo está bem de ver. Mas, se estivesse bem colocado num alto cargo do qual beneficiou por bons serviços prestados ao seu "grupo" não seria de esperar que viesse publicamente dizer as medidas que foram tomadas eram as piores porque ele não deveria ocupar certo lugar mas sim outro mais competente ou, ainda, maldizer quem lho ofereceu, seria também um paradoxo.

Um outro aspeto a que os polémicos dedicam atenção por convicção absurda é a necessidade da mudança a qualquer preço seguindo sempre na mesma direção, o que me faz lembrar a frase que diz que só os burros não mudam. Mas a não mudança também pode ser uma convicção de burrice.

Onde se podem ver um furo eles aí estão alerta para entrarem em defesa do indefensável à luz da insaciável polémica que possa produzir os seus frutos a prazo, a mudança que beneficie alguns prejudicando muitos. Este é o pensamento ideológico que se apoderou da Europa que os regimes neoliberais têm adotado que, mais tarde ou mais cedo com a destruição das funções sociais do Estado porão em causa a própria democracia desencadeando levantamentos populares da qual se aproveitarão movimentos da extrema-direita e também, talvez, de extrema-esquerda cada tendo em vista objetivos opostos.

Talvez até seja esse o objetivo. 

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publicado às 17:00



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