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Desconfinamento acelerado

por Manuel AR, em 29.05.20

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Um cartão amarelo ao desconfinamento acelerado

(Editorial de Manuel Carvalho in Jornal Público 29/05/2020)

Os surtos que hoje afligem Lisboa não bastam para que se ponha tudo em causa. Mas servem como uma espécie de cartão amarelo. Para nós e, principalmente, para o primeiro-ministro e o Presidente

Os surtos que hoje afligem Lisboa não bastam para que se ponha tudo em causa, do inevitável desconfinamento à competência e capacidade das autoridades sanitárias para os controlarem. Mas servem como uma espécie de cartão amarelo. Para nós e, principalmente, para o primeiro-ministro e o Presidente. Ainda é muito cedo e a situação é ainda demasiado incerta para que possam ir à praia, sugerindo aos cidadãos a existência de uma normalidade tão falsa como perigosa. Uma coisa é a necessidade imperiosa de reabrir a economia, que obriga milhões de portugueses a correrem riscos para ir trabalhar; outra coisa, completamente diferente, é sugerir que podem dispor gratuitamente dos seus tempos livres, como se o perigo tivesse passado. Não passou. A situação de Lisboa está aí para o provar.

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publicado às 15:46

Medo do desconfinamento? Talvez não.

Na população mais do que o medo é a desconfiança e a incerteza que só lentamente se irão gradualment

por Manuel AR, em 20.05.20

 

Coronavirus-desconfinamento.png

A jornalista Ana Sá Lopes Diretora Adjunta do jornal Público escreve no Editorial do dia 17 de maio que o “medo que não toldou o enorme grupo de portugueses que manteve o país a funcionar normalmente enquanto a outra parte se confinava, vai ser assassino para a economia”, devido “ao medo paralisante”.

Ao ler o artigo não posse deixar de concordar com os argumentos aduzidos, porém, apenas sustenta o sentimento de medo como principal força que leva a que muitos portugueses se deparem com reservas quanto ao desconfinamento.

Os números e os indicadores que têm saído nos últimos dias são animadores, mas ainda têm de ser lido com algum cuidado. Por outro lado, o regresso rápido pela população a um “novo normal” da vida quotidiana ainda traz algumas dúvidas quanto às boas práticas aplicadas pelas empresas que poderão, à medida que o regresso da clientela se for estabilizando ao longo do tempo, descuidar as regras de higiene que se pressupõem obrigatórias.

Para além do “medo paralisante” Ana Sá Lopes não refere, outras causas que poderão estar a dificultar a transição para a “nova normalidade” para fazer funcionar a economia e restabelecer a confiança das pessoas o que poderá levar algum tempo para que o medo se vá esbatendo.

Os portugueses não são medrosos, estão a ser precavidos e acatam na sua maioria as recomendações que diariamente lhes entrava pelos ouvidos via televisão, e ainda bem que assim é. A economia começou a derrocar, é um facto e como Ana Sá Lopes afirma “fazer compras é neste momento um desígnio nacional”, e interroga: “como o fazer se os portugueses se mantêm em modo pânico, com todos os que podem a resistir a sair dos seus casulos particulares?” e acrescenta que “Agora sabemos confinar-nos; ainda não sabemos que podemos viver normalmente.”

Também noutra altura João Miguel Tavares escreveu no mesmo diário em 9 de abril um artigo de opinião cujo título vem a agora a propósito, “Meter as pessoas dentro de casa foi fácil. E tirá-las?”.

A reanimação do comércio local não depende apenas de um “monstro que revela ser de mais difícil combate do que a covid-19” que é o medo. O consumo que contraiu de forma avassaladora em todos as atividades com exceção dos artigos de primeira necessidade como a alimentação.  

Para além do medo podem ser avançadas outras explicações ainda mais fortes se atentarmos nos problemas que a covid-19 nos impôs com a consequência do confinamento obrigatório e com o estado de emergência.

Podemos avançar algumas com base na observação diária de factos e nas vastas opiniões publicadas. Comecemos pelos mais idosos referindo-me aos que se encontram na reforma e cuja mobilidade e vontade anímica os levam a sair e a consumir, não apenas nas idas aos supermercados para suprirem bens de primeira necessidade, mas também noutros produtos para as suas casas, para ofertas e na substituição de peças de vestuário que, agora, com o regresso do tempo quente se torna necessário. Para retração desta vasta camada da população a comunicação social que contribuiu para lançar o pânico incidindo diariamente sobre o perigo a que estariam sujeitos se fossem contaminados, sobre as mortes que os atingiam pela sua vulnerabilidade, aos jovens que por eles poderiam ser contaminados e os velhos poderiam contaminar os jovens, as peças, às vezes chocantes,  que passavam dias seguidos nos noticiários televisivos e na imprensa. Não havia que esconder a verdade, mas as insistências e os comentários à margem levaram ao levantamento de guardas defensivas.

Segue-se a perda da capacidade financeira de quem, devido ao lay off simplificado, deixou de receber parte do seu salário com a consequente necessidade da contenção de despesas.

Outra explicação poderá ser a perda de emprego e mesmo a quebra de rendimentos dos próprios empresários que, devido à falta de clientes, puseram em causa a sua viabilidade e outras que já se encontravam nesta situação que enviaram para o fundo de desemprego. Acrescente-se os trabalhadores que, devido à incerteza quanto a novo emprego, se viram compelidos a mitigar em termos reais o seu poder de compra acrescido de consequências psicológicas de outros.

A insegurança quanto ao que o futuro próximo lhes possa reservar poderá determinar muitas famílias a evitar despesas que não sejam absolutamente necessárias. A saída para férias que não se fará é também um outro fator de retração ao consumo com prejuízos para o turismo interno pela desconfiança em relação aos alojamentos hoteleiros, pensões, casas alugadas à época e alojamentos locais quanto à eficácia e cumprimento da higienização.

Apesar da alteração das medidas excecionais para a continuidade da abertura mencionados no decreto-lei n.º 22/2020 publicado no Diário da República n.º 95-A/2020, Série I de sábado, dia 16 de maio, a abertura de fronteiras pode ser uma condicionante à confiança necessária nos alojamentos, mesmo que no decreto-lei se indique que as medidas vão estar em avaliação permanente, face ao calendário de desconfinamento  e à retoma da atividade económica.

O Governo tem atuado por fazes, e bem, para estimular a economia mediante avaliação dos momentos. Na população mais do que o medo é a desconfiança e a incerteza que só lentamente se irão gradualmente dissipando.

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publicado às 15:44

Nuno Melo e a obsessão pelo marxismo cultural

A propósito de Nuno Melo, História e Telescola

por Manuel AR, em 16.05.20

"O problema é que gente como Nuno Melo, e muita direita, acha que bater no André Ventura é uma expressão do “marxismo cultural” e só não se apercebe de como está a dignificar o exercício, porque precisa de um papão com um nome ilustre para glorificar a vaidade própria. Não é muito edificante ser vítima da sua ignorância, mas já é outra coisa ser vítima de uma universal conspiração marxista que, vinda das trevas do comunismo, os persegue pelas ruas de Bruxelas."

Artigo de Pacheco Pereira  In Público em 16/05/2020

Às vezes nem vale a pena bater no ceguinho, porque para bater em ceguinhos em Portugal arranja-se sempre uma multidão. De preferência quando o ceguinho já está mesmo ceguinho, porque mesmo só com um olho, o estilo reverencial abunda e o país é muito pequeno para haver independência crítica. E então se for anónima a pancada, os praticantes são mais que muitos.

Mas a ignorância atrevida, essa, sim, merece azorrague, até porque nos dias de hoje, de pensamento mais do que exíguo, a coisa tende a pegar-se pelas “redes sociais”, o adubo ideal da ignorância. Temos de suportar duas pandemias, a da ignorância e a do vírus. Convenhamos que é demais. Nestas alturas, tenho um surto de pedantismo incontrolável. Bom, não sei bem se a classificação de pedantismo é a melhor, mas que por lá anda, tenho a certeza.

Vem isto a propósito do actual uso e abuso da expressão “marxismo cultural”, muito comum hoje à direita mas também usada muitas vezes erradamente à esquerda, que, na sua globalidade, é cada vez menos marxista, mas ainda não deu por ela. Porém, o uso à direita é uma espécie de vilipêndio e insulto e, em muitos comentadores de direita, é comum para caracterizar uma espécie de polvo omnipresente, que lhes rouba as artes, as letras, o jornalismo, algumas universidades, as ciências sociais, a comunicação social, a educação e o ensino, e os obriga a refugiar-se nos espaços “livres” dos colégios da Opus Dei, no Observador, nos blogues de direita, na Universidade Católica, nos lobbies ideológicos empresariais com acesso à comunicação, nalgumas fundações, nalguns articulistas, na imprensa económica, etc. Para bunker contra o “marxismo cultural” já parece muito espaçoso, mas eles acham-no apertadinho.

PÚBLICO -
Foto
“A Parábola dos Cegos”, Pieter Bruegel, O Velho (1568) DR

O que é essencial na interpretação do marxismo é que a seta do poder, que explica a sociedade, a cultura, a economia, a cultura, se faz a partir “de baixo”, das relações de produção, do modo de produção, das classes dominantes a cada momento da história, e que nesse terreno é a luta de classes que define essa outra seta que é o sentido da história. Como Lenine e Trotsky disseram de forma mais bruta, de um lado está o “caixote do lixo da história” e do outro o futuro, a base da teleologia marxista. E embora haja “acção recíproca” entre a superestrutura e a infra-estrutura, ela faz-se sempre a partir da “determinação” da infra-estrutura. Esta interpretação de Marx é a essência da sua teoria, e mesmo quando, nas escassas páginas que escreveu sobre a “cultura”, Shakespeare, em particular, admitiu uma “autonomia relativa da cultura”, nunca admitiu que essa autonomia fosse absoluta. Ou seja, na interpretação marxista, nunca o “marxismo cultural”, seja lá o que isso for, podia ser dominante numa sociedade capitalista, e isto é o bê-á-bá da coisa. Nem Lenine, nem Rosa Luxemburgo, nem Gramsci, nem Lukács, se afastaram deste ponto essencial. Eu não sou guardião da ortodoxia de Marx, mas sei o que ele disse e o que ele não disse e não participo neste abastardamento das ideias pelas palavras e pela propaganda

E, mesmo aceitando-se a ambiguidade da expressão, seria um absurdo dizer que qualquer forma de “marxismo cultural” tem hoje “supremacia” na sociedade portuguesa. É verdade que há muita força da esquerda e do esquerdismo (que não é a mesma coisa) em determinados sectores da “superestrutura”, nas artes, nas letras, em certa comunicação social, mas acrescente-se duas coisas: primeiro, a maioria dessa esquerda e desse esquerdismo não é marxista; segundo, já teve mais força do que hoje tem e, mesmo a que subsiste, está cada vez mais acantonada. Por exemplo, nos anos da troika, muito do discurso público em matérias de sociedade e economia era “neoliberal” (não gosto desta designação, mas vai por facilidade), e uma das grandes vitórias ideológicas da direita foi conseguir interiorizá-lo de forma “dominante”. Devo dizer que eu troco todo o esquerdismo cultural no teatro pela reversão dessa invasão inconsciente de muitas cabeças pela TINA.

Eu não sou guardião da ortodoxia de Marx, mas sei o que ele disse e o que ele não disse e não participo neste abastardamento das ideias pelas palavras e pela propaganda. O problema é que gente como Nuno Melo, e muita direita, acha que bater no André Ventura é uma expressão do “marxismo cultural” e só não se apercebe de como está a dignificar o exercício, porque precisa de um papão com um nome ilustre para glorificar a vaidade própria. Não é muito edificante ser vítima da sua ignorância, mas já é outra coisa ser vítima de uma universal conspiração marxista que, vinda das trevas do comunismo, os persegue pelas ruas de Bruxelas.

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publicado às 19:55

O partido acima de todos e de tudo

por Manuel AR, em 13.05.20

PCP acima de tudo.png

O facto de ser cordato com a maioria dos partidos e aceitar criticamente os seus pontos de vista não significa que não me oponha com firmeza quando resvalam para a irracionalidade e falta de senso que, por vezes, envolve alguns deles pressionados por ideologias militantes, herméticas e incompreensivelmente corporativas.

Antes de continuar esclareço desde já que não pertenço nem sou simpatizante do PCP, mas também não pertenço ao grupo dos irracionais, primários e viscerais anticomunistas. Sou, sobretudo, um crítico dos seus pontos de vista e da sua máquina sindical. Assim, para o PCP, serei “mais um” de direita que, embora lhes custe, não sou.

Os eventos culturais, musicais ou religiosos que envolvem multidões a que me vou referir não são os de uma centena de pessoas, mesmo que espaçadas entre si por mais ou menos metros, mas aos concertos, cerimónias e comemorações religiosas como a que teria sido as celebrações do 13 de maio em Fátima e as do NOS Alive ou o Paredes de Coura e Rock in Rio em Lisboa.

A deslocação a um evento como a Festa do “Avante” é também uma espécie de peregrinação à quinta da Atalaia, apenas que não é religiosa na aceção da palavra. A Festa do “Avante” organizada pelo PCP na quinta da Atalaia chamem-lhe o que quiserem, seja festival, feira, evento político, comício ou qualquer outro nome para o qual a imaginação daquele partido é prolífera é como os outros, a diferença está nos discursos político-partidários que se efetuam por lá.

Argumentos como o de querem calar-nos e de perdas de liberdades políticas e de reunião são demagógicas e fazem parte dos já tradicionais chavões do PCP como “Alguns queriam calar-nos. Mas não nos calamos. É um direito de que não abdicamos” disse o de Isabel camarinha líder da CGTP no último 1º de Maio ao condicionarem-se as comemorações por razões de segurança sanitária. 

Para o PCP a comparação com outros eventos já cancelados não faz sentido porque não se resume a um simples festival de música, mas antes a uma “grande realização político-cultural” que não se pode colocar no mesmo saco de eventos já cancelados.

Chamar à Festa do “Avante” evento político “grande realização político-cultural” não é desajustado, porque é de facto um evento político e é, especificamente, partidário, mas lá também se misturam cultura, música, dança, comércio de feira, convívio, copos, petiscadas, etc. colocados no mesmo saco. Mesmo que fosse exclusivamente um evento político e partidário, à semelhança de outros partidos que já os cancelaram, não haverá razão para que a dita festa se realize sob que pretexto ou configuração for.

A Festa do Avante é um local onde se juntam milhares e milhares de pessoas de todas as idades e estratos socioprofissionais que por mais cuidados existam é grande a probabilidade de contaminação. O PCP coloca o partido acima de tudo, do a quem doer, castigue a quem castigar, das pessoas, da pandemia, da religião, do Estado e até da própria democracia que diz defender ao extremo.       

Na quinta-feira a Proposta de Lei do Ministério da Cultura sobre festivais e outros espetáculos musicais vai ser votada na Assembleia da República.

Não é admissível que se abra uma possível exceção à lei em relação à Festa do "Avante".  Se assim for também se poderá estender a muitos outros eventos, sobretudo de teor "não comercial". O argumento de “não comercial” do evento do PCP não é verdadeiro porque é também comercial pois se comercializam objetos, livros, bebidas e outras variedades alimentares, embora revertam para subsidiar o partido. E o preço das entradas também não é comercial?

É insensato avançar com a Festas do “Avante” no atual contexto da pandemia Covid-19 e o Governo, ao pretender negociar a realização do evento em troca da paz social ou de futuros orçamentos, mostra insegurança e arrisca-se a perder a popularidade que tem conseguido.

Um partido, seja ele qual for, não pode colocar-se acima de tudo e de todos, inclusive a de ameaçar a saúde dos cidadãos.

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publicado às 16:14

Nunomelo_marx.png

Segundo especialistas o trauma psicológico é um tipo de dano que ocorre como resultado de um evento angustiante vivenciado por uma pessoa e é, muitas vezes, resultado de uma quantidade esmagadora de stress que excede a capacidade da pessoa de lidar com um problema.  Alguns são mais duradouros como os devido a alterações bruscas de um modo de vida.

O caso de Nuno Melo pode incluir-se no trauma político causado pelo 25 de abril, tinha oito anos de idade, e a família terá sofrido um grande choque. Mais recentemente, a perda do número de deputados com o péssimo resultado de 4,22% das últimas eleições terá sido também traumática. Não, não estou a dizer que ficar traumático por motivo de stress significa estar louco, nada disso. Não surpreende é que o deputado europeu pelo CDS, Nuno Melo, esteja com stress político e veja conspirações marxistas, comunistas e socialistas na educação e em todo o lado.

A psicanálise talvez pudesse explicar o trauma e o stress de Nuno Melo teve, e que parece ainda ter, com a exibição de uma curtíssima peça, sem importância relevante, sobre a exposição do Mundo Português no tempo do Estado Novo na qual Rui Tavares teceu um breve comentário que serviu para introdução a uma aula da disciplina de história. Será que Nuno Melo agora forja fake news? Parece que sim porque é falso o que escreveu!

Segundo o jornal online Polígrafo “acontece que Rui Tavares não deu qualquer aula no âmbito do projeto #EstudoEmCasa, nem foi “escolhido para a Telescola”. As imagens em que o porta-voz do Livre fala sobre a “expansão do mundo português” não são novas e o conteúdo está disponível desde dezembro de 2018 na RTP Play. Quem o confirmou ao Polígrafo SIC foi o próprio Ministério da Educação: "Rui Tavares não é professor no #EstudoEmCasa. O que ocorreu no passado dia 24 de abril foi a utilização de um recurso pedagógico por parte das duas professoras de História e Geografia de Portugal do 5.º e 6.º anos.”

O problema de Nuno Melo é que a peça utilizada na televisão abrangia ao mesmo tempo dezenas de milhar de alunos, ainda se fosse apenas numa sala de aula restrita ainda vá!

 

 O problema dele, o de Nuno Melo, e de outros políticos do CDS é que Rui Tavares pertence ao Livre um partido da esquerda moderada com representação parlamentar por uma deputada, atualmente carta fora do baralho.

Tudo seria diferente se a intervenção tivesse sido feita por um deles, do CDS. Estaria tudo bem por aí porque esses são os fiéis depositários dos valores da História Pátria e parecem querer vir a ser na atualidade os defensores e conservadores dos valores do Estado Novo e do perdido Império.

Para Nuno Melo todos quantos sejam de esquerda não deviam atrever-se a falar sobre história de Portugal nem fazer interpretações dirigidas a um vasto público porque há o perigo do marxismo poder infiltrar-se na cabeça das crianças ou de quem ouvir. Mais ainda, devia-se abolir dos manuais certos conceitos que desagradam à direita e retirar das bibliotecas todos os livros que contivessem aquela palavra maldita que deveria ser proscrita e, já agora, todos quantos fossem de esquerda e ou marxistas deveriam ser banidos de qualquer intervenção públicas sobre História Pátria e sobretudo na educação onde pretendem dar injeções atrás da orelha.

Melo em vez de lançar para a praça pública intervenções pouco sensatas, como o fez, deveria dedicar-se a ser modelo de um qualquer atelier de roupa masculina tendo em conta a opinião da sua ex-líder Assunção Crista que elogiou os atributos do candidato centrista por altura das eleições europeias, quando, entre sorrisos da assistência, afirmou que o CDS "tem uma cara engraçada", referindo-se ao candidato.

Nuno Melo vê marxismo em todo o lado, ele é nas escolas, ele é na imprensa, ele é nas televisões. O trauma dos 4,22% das últimas eleições persegue-o e os culpados foram os políticos que, não sendo da direita, leia-se CDS, são todos marxistas, e o marxismo anda por aí.

Haja paciência!

 

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publicado às 16:19

Populismo a rede.png

A década de 2010-2019 deu aos partidos populistas o ambiente de que precisavam para prosperar graças às consequências do colapso financeiro global de 2008 e da revolução digital. Embora o primeiro tenha contribuído para uma maior desigualdade e a rejeição dos principais partidos que a perpetuavam, o último resultou na "transformação da ... vida cotidiana". Ao crescerem as desigualdades económicas e os medos de perda de identidades nacionais cria-se o alimento para a vaga populista. É essa vaga populista que, usando os mecanismos democráticos, tende a provocar a erosão da democracia.

Quando me refiro a partidos populistas, quero dizer partidos políticos que se apresentam como alternativas e que têm uma posição política antissistema e de rutura com uma elite social, económica e política que exerce o controle sobre o conjunto da sociedade, mas que não refletem a vontade do povo. O populismo quer romper com o sistema, mas não oferece uma visão geral do que e como o deve substituir e dirige-se apenas a uma estreita parte da agenda política. É caso do partido Chega e do seu deputado André Ventura.

O Chega não é apenas populista, é também xenófobo, racista e segregacionista o que é mostrado pelas propostas que tem apresentado. Ao começar apenas por um grupo social, o dos ciganos, a sua mancha tenderá a alargar-se a outros grupos.

A grande questão do populismo pode ser colocada sobre a forma de várias perguntas: será uma ideologia? Deverá ser visto como uma espécie de discurso dirigido e produzido para o povo? Será uma estratégia? Ou será um estilo?

Os populistas de esquerda rejeitam o capitalismo. E os populistas que se dizem centristas concentram-se em coibir uma elite supostamente corrupta: eles têm uma tendência menos radical à ideologia de esquerda ou de direita, ou podem até rejeitar as duas por completo.

Do meu ponto de vista o populismo é mais uma espécie de discurso e uma estratégia que recorre a falsas evidências pela deturpação de factos com objetivos bem dirigidos para aliciar o povo. Muitas das vezes constroem fake-news (notícias falsas) ou adulteram notícias que lançam através de todos os meios ao seu dispor, nomeadamente as redes sociais. Uma demonstração caseira foi o episódio do delirante Nuno Melo ao dizer num Twitter que, deturpando o que realmente aconteceu, na telescola se está “destilando ideologia e transformando alunos em cobaias do socialismo” e que já foi arrasado. Isto porque foi passado um pequeno e curtíssimo episódio em que Rui Tavares se refere ao Estado Novo. Este comentário demonstra a adesão do CDS à fabricação de fake-news na tentativa de disputar com André Ventura do Chega o lugar do discurso radical e populista da extrema-direita. Francisco Rodrigues dos Santo, o líder do CDS ajuda, também ele em delírio, a tentar recuperar e disputar o lugar que outros partidos lhe retiraram nas eleições.

O populismo está a transformar-se e a assumir formas insidiosas e tomou como alvo as democracias liberais em todo o mundo. O final desta década trouxe-nos a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e o voto em favor do Brexit na Grã-Bretanha, testemunhou o surgimento da Alternativa para a Alemanha (AfD) o primeiro partido de extrema direita a entrar no parlamento nacional daquele país ao fim de décadas, e ainda a ascensão de partidos populistas em países como Áustria, Brasil, Itália, Polónia, Hungria.

Os que ocuparam o poder nos últimos anos forjam alianças, ainda que informais, mimetizando-se convergindo entre si nas suas declarações públicas com ideias semelhantes, como o fazem Bolsonaro, no Brasil, Jonhson no Reino Unido e Trump nos Estados Unidos da América.

Utilizando várias artimanhas assumem várias formas muitas vezes sobrepostas.  Alguns países experimentaram uma versão socioeconómica, colocando a classe trabalhadora contra as grandes empresas e as elites cosmopolitas consideradas beneficiadas pelo sistema capitalista internacional apontado lugares como a França e os Estados Unidos. Outros servem-se da via da cultura para atacar concentrando-se em questões de identidade nacional, imigração e raça caso na Alemanha e outros. Mas o que mais se tem expandido e o mais comum tem sido o populismo anti-sistema, que é contrário aos princípios sociais, políticos e económicos convencionais de uma sociedade salientando que não reflete a vontade do povo colocando-o contra as elites políticas e os principais partidos democráticos que o representam, mas ao mesmo tempo, infiltram-se via democrática nos sistemas democráticos.

Os populistas agarram tudo quanto lhes possa trazer apoios não importa o quem nem como. Negam as mudanças climáticas apanágio da extrema-direita e são também contra teses das mudanças climáticas. Contudo a negação das mudanças climáticas ao tornar-se um dos aspetos definidores de identidade da extrema direita, há especialistas em política que alertam para o facto de partidos de extrema-direita poderem tentar mudar a narrativa em torno da mudança climática para o seu lado quando a ação climática possa vir a tornar-se numa questão política mais importante em toda a Europa.

Em muitos países da Europa, populistas, eurocéticos, partidos da extrema esquerda, estes com menos representação e menos frequentes, e partidos da extrema direita comemoram o sucesso, juntamente com os partidos de direita, por exemplo, que também têm obtidos ganhos eleitorais significativos.

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publicado às 18:08

Interação social aliada do coronavírus

por Manuel AR, em 07.05.20

Coronavirus-isolamento.png

O aparecimento do novo coronavírus SARS-CoV-2, responsável pela doença Covid-19 trouxe para a linguagem corrente a utilização de novos conceitos como confinamento, distanciamento social, distância social que não se devem confundir com isolamento social.

Em situação dita normal a interação social é uma necessidade e uma obrigação. A maior parte das nossas vidas são ocupadas por interações de vários tipos. Todos falamos em interação social, mas o que a define em termos sociológicos é o encontro social entre indivíduos. Isto é, são situações formais e informais nas quais as pessoas travam conhecimento umas com as outras. Por exemplo uma sala de aula constitui uma boa imagem de uma situação formal de interação social. O encontro de duas pessoas numa festa ou numa rua é um exemplo de interação informal.

A interação social tem formas mais complexas: a interação desfocalizada quando se desenrola entre duas pessoas presentes num determinado espaço, mas que não estão envolvidas numa situação de comunicação direta face a face, é também a consciência mútua que indivíduos têm uns dos outros em grandes concentrações de pessoas quando não estão diretamente a conversar; a interação focalizada passa-se entre indivíduos envolvidos numa atividade comum ou numa conversa direta uns com os outros. Esta é a situação mais comum quando nos referimos ao distanciamento social. Os episódios de interação nesta situação ocorrem quando dois ou mais indivíduos estão diretamente com atenção ao que os outros estão a dizer ou a fazer.

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Este distanciamento social que nos impõem e noutros casos autoimposto como obrigação para nos protegermos e aos outros da contaminação pela Covid-19  vai contra a nossa compulsão de proximidade devido à necessidade que sentimos de nos encontrarmos com outros em situação presencial  e face a face que fornece informação muito mais rica acerca de como as outras pessoas pensam e sentem.

Os seres humanos devido a esta imposição passarão a valorizar mais o contacto direto, talvez ainda mais do que antes, apesar das comunicações via eletrónica a que se têm sujeitado ao longo das últimas décadas.

Ao que agora chamamos distanciamento social, a respeitar como segurança que evite ou reduza a transmissão do vírus, está relacionado com o que em sociologia se denomina como espaço social. A maior parte das vezes as pessoas, nas culturas ocidentais, mantêm uma distância pelo menos de um pelo menos um metro quando as pessoas se envolvem numa interação com outros. Já no médio oriente as pessoas geralmente permanecem mais próximas do que é aceitável no ocidente como é o caso em Portugal.   

Edward Hall estudou sobre o tema das comunicações não verbais e distinguiu quatro zonas de espaço privado. A distância íntima até cerca de meio metro, reservada a muitos poucos contactos sociais. A distância pessoal cerca de meio metro até metro e meio, distância normal em encontros com amigos e conhecidos relativamente chegados.  A distância social de cerca de um metro e meio até três metros e meio que é a zona normalmente estipulada para contextos formais de interação. A distância pública mais de três metros e meio preservada entre os que atuam perante uma assistência.

As zonas mais sensíveis são as das distâncias íntima e pessoal. Quando estas zonas são invadidas as pessoas tentam readquirir o seu espaço e distanciam-se. É o que se deve praticar em contextos epidémicos como aquele que estamos a atravessar.

Quando há necessidade de uma proximidade maior do que a considerada desejável estabelece-se uma espécie de fronteira física o que se passa a verificar por exemplo em supermercados em que entre a caixa e o cliente passaram a existir separadores acrílicos.

Já nos transportes públicos a lei do distanciamento não é praticável pelo que há necessidade de tentar proteger os espaços pessoais através de mecanismos de distanciamentos de segurança. 

Ao contrário do que se passa nas sociedades tradicionais, nas sociedades modernas interagimos constantemente com outras pessoas que nunca vimos ou conhecemos. Praticamente todos os nossos encontros quotidianos como compras nos supermercados, idas aos bancos ou idas a outros locais fazem-nos entrar em contacto indireto com pessoas que poderá viver em locais afastados do nosso. Contudo a internet e o comércio online proporcionam cada vez mais interações indiretas e estão a tornar-se “afónicas” com o aumento das potencialidades da tecnologia que têm evoluído para que som e a imagem passem a fazer parte do quotidiano das interações.

Com as restrições aos encontros de proximidade e isolamento social cresceu uma espécie de compulsão de proximidade que é a necessidade de as pessoas interagirem presencialmente com outros seja em casa, no trabalho, nos transportes, nos eventos religiosos, culturais, etc., muito para além da comunicação via internet ou outro meio eletrónico.

Os jovens são quem as restrições aos convívio social e o confinamento terão mais efeito pois ficaram privados de interagir com os seus pares nas creches, nas escolas, nas universidades e nos espaços públicos quando se juntam nos bares, nas discotecas ou nos concertos frequentados por grandes multidões, são eles que sentirão mais a compulsão de proximidade. Os idosos são outro grupo que sentirão a compulsão para estarem próximos dos seus familiares e amigos mais próximos.

Os idosos que hoje constituem uma grande parte da população que tem sentido ao longo dos tempos uma discriminação etária nos países desenvolvidos como agora também se tem confirmado com a epidemia da Covid-19. A comunicação social tem a sua quota parte por haver alturas em que incidia a gravidade da epidemia nas idades avançadas fazendo passar no início erradamente a mensagem de que a doença atacava os mais velhos, o que é não é verdade apesar da taxa de letalidade ser maior nesses grupos por motivos de várias fragilidades independentes do vírus atacante. 

Por norma a pessoa doente não é pessoalmente responsável por estar doente. A doença é vista como o resultado de causas físicas que estão para além do controlo do indivíduo, isto é, o desencadear da doença não está relacionado com as ações ou o comportamento do indivíduo. Sê-lo-á em situações normais, mas, no caso de doenças epidémicas que são transmitidas de indivíduo para indivíduo, não o é. É o caso da Covid-19 cujo desencadear da doença está relacionado com o comportamento de cada indivíduo determinado pelas suas interações sociais.

Há ainda considerações com o estigma que certas doenças podem desencadear nos grupos sociais distinguindo-os da maioria da população.  O que faz com que indivíduo ou grupos sejam tratados com suspeição especialmente quando a doença é vista como especialmente infeciosa as pessoas podem ser rejeitadas pela população saudável. Os estigmas baseiam-se, embora raramente, em conceções válidas que nascem de perceções falsas.  

 

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publicado às 17:26


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