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Governo e Políticas. Debates, COMENTÁRIO e OPINIÃO - Sociedade, Comunicação e Política

Comunicações e opiniões pessoais sobre o dia a dia da política e da sociedade. O que outros pensam e comentam sobre a sociedade, política, economia e educação.

Senhor contente e senhor feliz ou as lideranças para a destruição

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O senhor Santana sonhou há muito em ter o seu próprio partido e surgiu agora a sua oportunidade. A maneira mais fácil que encontrou para tal foi a fragilidade e a divisão que encontrou no seu partido o PPD/PSD como ele gosta de chamar.

No seio do PSD encontra-se bem instalada a sucia admiradora e seguidora de Passos Coelho que apesar da sua saída continua a manter-se no ativo. Não admira que, portanto, logo a seguir à constituição do partido Aliança do senhor Santana causou um cisma no partido mais pela emoção da perda para Rui Rio do comando.

Entretanto, pelo meio das convulsões provocadas pelo cisma os que ainda não foram convencidos pelo senhor Santana organizam-se para tentarem acabar com o que restará dos destroços do PSD.

Nesta linha encontra-se o movimento “Chega” à frente do qual se encontra André Ventura, anti cigano, “passista” neoliberal de tendência anti étnica e pro racista que foi candidato pelo PSD à Câmara de Loures.

O movimento “Chega” lançado pelo atual vereador do PSD em Loures destina-se a substituir Rui Rio na liderança e colocar o partido no "espectro ideológico do centro-direita português", com grande objetivo da eleição de uma nova liderança do PSD e a apresentação, a todas as distritais do partido, de um documento global de compromisso com os valores da social-democracia portuguesa (?). Será quer podermos esperar de gente como esta que o PSD restabeleça os valores da social-democracia. Todos nos recordamos como o slogan para reeleição de Passos Coelho no congresso era “Social-democracia, sempre!”, coisa que, ele e o seu grupo que deixou como semente, nunca foram.

Vem agora este falso social-democrata contribuir para mais divisões no PSD. Não é gente como esta, senhor Santana e senhor Ventura que farão que o PSD seja uma oposição credível. O que está em causa para aquele “senhor feliz” e para este “senhor contente”  são questões de projetos pessoais e de visibilidade política, ou, então, são apenas títeres de forças internas no partido, mais fortes do que se pensa que Passos Coelho deixou plantados e que não se mostram publicamente.

Aliás, no artigo de opinião contra a não nomeação de Joana Marques no cargo de PGR, escrito de Passos Coelho, publicado no órgão oficioso da direita encontramos alguns sinais se lido nas entrelinhas.

As razões de uns e de outros e continuidade de cargos

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Opiniões e comentários sobre a não recondução de Joana Marques Vidal e a nomeação de Lucília Gago para PGR – Procuradora Geral da República chovem na comunicação social.

Não sei se Joana Marques Vidal deveria, ou não, ter sido reconduzida, mas qualquer uma das decisões está dentro da lei. O cargo de Procurador Geral da República/PGR, único magistrado do Ministério Público sujeito a designação pelo poder político, assenta na dupla confiança do Presidente da República e do Governo: a respetiva nomeação e exoneração são feitas pelo primeiro, sob proposta do segundo.

Não nos podemos esquecer de que, afinal, a nomeação da Joana Marques Vidal foi da iniciativa de Passos Coelho, segundo constou na altura por sugestão de Cavaco Silva de quem faz parte do círculo de amizades.

Podemos até especular sobre o que se passou com processos como a Tecnoforma, o de Dias Loureiro que, como escreveu a revista Visão, esteve “associado a "buracos" de largas dezenas de milhões de euros no BPN. Em vez de lucros, as firmas a que se ligou apresentam prejuízos. Agora, para se manter à tona, trabalha para um enteado de Eduardo dos Santos. Afinal, onde vê Passos Coelho o "empresário bem-sucedido”) porque este, como em outros casos, os processos foram (ou mandaram ser) arquivados.

Só quem está dentro dos meandros da instituição está na posse de toda a informação para poder falar com conhecimento de causa. Duvido até que todos os que escrevem e falam sobre a questão do que se refere à PGR estejam na posse de informação suficiente para fazerem avaliações do que foi o passado e do que vai ser o seu futuro com a nova PGR. Só quem está lá dentro poderá fazer o aval do que por lá se passa, a não ser alguma comunicação social e alguns jornalistas eleitos que têm acesso privilegiado a informações que lhes sopram de dentro. E sobre estes ventos que trespassam pelas frestas alguém fez ouvidos moucos.

Os lamentos sobre a não recondução de Joana Vidal vêm na sua maior parte do lado da direita e dos que a apoiam no exterior dos partidos, saudosos do tempo de Passos Coelho.

Senhores(as) de editorais lançam torpes suspeições com frases que revelam contrariedade implícita "high-light” sobre a não recondução da anterior procuradora. Apresenta-se, como exemplo justificativo do que se afirma, uma frase do editorial do jornal Público de ontem, da autoria de Ana Sá Lopes (ex-semanário Sol, ex-jornal i e que agora faz parte do jornal Público): “A herança de Lucília Gago é, por isso, pesada. Vai ter sobre si um escrutínio muito mais apertado do que tiveram os seus antecessores, nomeadamente de quem suspeita que, ao não reconduzir Joana Marques Vidal, o Governo e o Presidente estão a dar um sinal de que, afinal, preferem complacências anteriores.” (o itálico e o sublinhado são meus).

Fundamentado apenas pelo que foi trazido a conhecimento público pela comunicação social, e é apenas nisso, até pode ser que ela tenha feito um bom trabalho no que respeita à corrupção, mas nos últimos dois anos e meio do seu mandato o que era divulgado em massa pela comunicação social  era devido a várias fugas de informação sem controle como era o início do caso em que José Sócrates estava presumivelmente implicado.

Há outros processos, mas os que estão na ordem do dia são os que envolvem Ricardo Salgado Espírito Santo por estar também associado à Operação Marquês e, por isso de fala também.

No caso da Operação Marquês, o prazo para deduzir acusação foi largamente ultrapassado e já lá vão dois anos, já sabemos que são processos de alta complexidade!). O caso mais relevante e negativo foi o das fugas de informação constantes e sistemáticas que apenas serviam interesses partidários e a alguns grupos de comunicação social e que, face a protesto várias origens foi acalmando.

As opiniões e comentários que são feitos por alguns setores da direita e outros ditos  isentos que lastimam a não recondução da dita procuradora têm por base uma certa hipocrisia. Face ao que escreveram no passado posso induzir que elogiam a luta desenvolvida contra a corrupção por Joana Marques Vidal pesando apenas nos pratos da balança quando o caso da Operação Marquês em que José Sócrates está envolvido. Quanto a tantos outros enviam-nos para as brumas da memória da justiça. Estes manifestos extravasam em artigos de opinião como o de João Miguel Tavares, esse que se diz liberal, mas que digo ser neoliberal, segue as pisadas de Passos Coelho de quem é política e ideologicamente admirador incondicional.  

Há ainda outros piores que pretendem partidarizar e pessoalizar a escolha tais como Henrique Raposo, esse veterano da emissão de veneno que escreve para o semanário Expresso e cuja originalidade assenta sobretudo no radicalismo desde que contrário ao que outros defendem para garantir o seu posto de trabalho. Este que chega ao desplante da ofensa a instituições quando escreve: “É este o PS que agora recusa reconduzir a única procuradora que nos deu a sensação de vivermos numa democracia a sério, onde os poderosos não estão acima da lei. Guardião dos interesses das clientelas eleitorais que não querem as reformas, o PS julga-se acima da lei, julga-se acima do bem e do mal. Marcelo, amigo de Salgado, é conivente.”

Porquê este empenho na defesa de um cargo público, de designação por um certo poder político e nomeação por um Presidente da República, exercido por uma procuradora que não fez mais do que lhe competia por incumbência do cargo que enfrentou as circunstâncias de um tempo de investigações em que pressões e denúncias foram engrossando durante o seu mandato?

As vespas dos comentários online

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Um artigo de opinião é um texto em que se expressa uma opinião pessoal, tipicamente polémica ou provocadora, sobre um assunto ou notícia em particular. Isto é, um texto em que um autor emite opinião sobre uma determinada temática de interesse atual e que pode gerar polémicas. Sendo um texto dissertativo e argumentativo, o seu autor deve expor sua opinião, sustentá-la por meio de informações que sejam admissíveis e citando fontes credíveis.

Esse tipo de texto normalmente é visto e acompanhado de uma grande polémica em jornais, revistas, TV, blogs, entre outros, de forma que espectadores e leitores poderão criar as suas opiniões com base na argumentação do autor.

Neste contexto é frequente vermos nas redes sociais, em blogs e em jornais online artigos que são apenas opiniões de quem os escreve, cujos comentários que lhes são dirigidos denunciam as limitações argumentativas e confrangedoras de quem os faz e, não raras vezes, deparamo-nos com imbecilidades, algumas até ofensivas, dirigidas aos artigos e aos seus autores. É mais do que evidente que a limitação intelectual, cultural e de valores de quem escreve tais comentários leva-os numa fuga para a frente pela ausência de argumentos quer por incompetência, que por incapacidade e falta de bases pelo que se refugiam numa linguagem ofensiva que reveladora de rancor do mais baixo nível.

É evidente que essas vespas que picam aqui e ali escrevendo tal tipo de comentários não sabem o que são artigos de opinião. Leem, não gostam, não concordam e, de imediato, escrevem comentários reveladores da sua incapacidade comunicativa e argumentativa. Algumas vezes até, ao serem confrontados com outros pontos de vista sobre a mesma realidade rejeitam-nos através do comentário com linguagem soez. São os comentadores enfurecidos ou comentadores do nada.

Encontramos por aí sempre alguém que se imagina uma sumidade na avaliação das opiniões de terceiros e extrapola essa sua avaliação como se ela fosse a do universo de todos os leitores. Não lhes interessa o debate e o confronto de ideias, não lhes o interessa o debate político, interessa--lhes a luta pelos interesses pessoais e unilaterais. É, por isso, que, quando comentam o fazem com raiva, com sarcasmo, com estupidez. Fraqueza de espírito essa!

O raciocínio que está por detrás desses comentários, se é que há neles qualquer espécie de raciocínio, é o de que as suas ideias sobre um assunto são únicas e verdadeiras, isto é, uma espécie de verdades absolutas, sectaristas. O preocupante é que muitos desses comentários poderão vir de pessoas cujo perfil não é o que aqui apresento, o que é ainda mais lamentável.

A propósito, Pacheco Pereira, num artigo de opinião no  jornal Público, numa critica dirigida a posições do CDS/PP e de João Almeida escreveu em certo momento que “quem é de direita não pode levar em conta qualquer posição que venha das “esquerdas”. Aqui está outra característica actual da política portuguesa: é posicional antes de tudo, vem do inimigo, é má, vem do amigo, é boa. E confunde “ideologia” com aquilo a que os marxistas chamavam “posição de classe”, interesses”.

Uma das posições a tomar sobre comentários destrutivos a artigos que são meramente opiniões, por vezes até pessoais e de circunstância política e que surgem da estupidez aparvalhada e da ignorância demonstrativa de incapacidades várias de quem os faz, é o de não resposta ao comentário.

Escrito este texto apenas aguardo os comentários dos ditos cujos…

Os professores e as suas lutas

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Professores lutas e greves

                        Alguns artigos e opiniões da imprensa                                        

1. A inglória luta dos professores

2. Luta dos professores não pode "pôr em risco o que foi conseguido"

 

3. Professores ganham mais 35% do que a média dos trabalhadores qualificados
4. Esticar a corda num contexto como o que a OCDE colocou em cima da mesa pode gerar danos de imagem que os professores vão ter de avaliar com muito cuidado.

5. Porque é que os professores irritam tanta gente?

Não percebo como os professores aceitam que bons e maus tenham progressões semelhantes; e no meio está Mário Nogueira a misturar tudo com o beneplácito da classe.

6. A Confap diz que entende que as greves às avaliações são “legítimas e permitidas” mas teme pelos efeitos das paralisações no percurso educativo dos estudantes, sobretudo aqueles que vão a exames nacionais em breve.

“Os pais compreendem a luta dos professores, mas não podem compreender esta forma de luta, que prejudica aqueles que trabalham” e que, sublinha o dirigente da Confap, Jorge Ascensão, não passam de uma “instrumentalização da educação” pelos sindicatos.

7. Professores. "Recurso sistemático às greves está a banalizar-se"

Pela lei, os professores têm direito a reivindicar os nove anos de carreira que estiveram congelados durante a crise. Mas, se assim for, "ficam em situação privilegiada em relação ao resto da Função Pública".

8. Qual é, afinal, a luta dos professores?

OPINIÃO DN - PEDRO MARQUES LOPES

Claro que há umas que têm maior capacidade reivindicativa do que outras. Em termos muito simples, quanto mais pessoas forem afetadas pela ação ou omissão de uma certa classe, mais probabilidades existem de se ter o que se quer. E, não há quem não saiba, os professores têm essa vantagem. Têm, aliás, uma bem maior: são os nossos filhos a estar em causa. Não é possível ter forma de pressão melhor.

Não se depreenda disto que o facto de os professores terem uma ação direta, e muitas vezes decisiva, na vida dos nossos filhos seja conscientemente utilizada como arma. Acho que a maioria dos professores acredita que as suas lutas são parte integrante da sua vontade de o ensino ser cada vez melhor.

Seja como for, o facto é que o papel que desempenham na comunidade lhes traz talvez a maior capacidade reivindicativa de todas as classes profissionais. Tem sido utilizando essa força que conseguiram afastar aquela que foi a melhor ministra da Educação da democracia portuguesa, Maria de Lurdes Rodrigues, que conseguiram um sistema de avaliação de desempenho que pouco conta para a progressão na carreira (chamar-lhe avaliação é, por si mesmo, abusivo), que são mais bem remunerados do que os seus congéneres europeus de países com índices de desenvolvimento similares ao nosso e que o decurso do tempo tenha mais relevância do que em relação a qualquer outra carreira da função pública.

Repito que será assim também porque pensam que isso é melhor para os alunos e para o sistema de ensino.

Estão errados, porém. Não é admissível que a avaliação conte tão pouco para a progressão na carreira e que a passagem do tempo seja um fator decisivo. É injusto e de certeza que não contribui para que os professores sejam melhores profissionais e para um melhor ensino. O paradoxo de quem avalia não ser avaliado seria argumento bastante.

E é a questão da forma como os professores progridem na carreira que inquina quase toda a discussão que está a ser feita entre professores e governo. Não se pode ter uma discussão séria quando há uma classe que reclama que alguém pela simples passagem dos anos seja considerado, de facto e com repercussões nas suas condições, melhor do que um outro.

É verdade que isto demonstra a força dos professores, mas mostra também e de forma clara a incapacidade política e mesmo a cobardia de muitos governos, este incluído. Os ministros da Educação e os primeiros-ministros deste e de governos passados deviam ter vergonha do que não fizeram nesta área. Mas os professores não podem fingir que a situação não é, no mínimo, anómala.

A crise impôs sacrifícios a todos, mais a uns do que a outros. E sendo verdade que os funcionários públicos, nomeadamente os professores, tiveram cortes nos salários e viram suspensas progressões na carreira - convém lembrar mais uma vez que a reposição da situação para os outros funcionários públicos não se pode comparar com a dos professores, já que nenhuma outra carreira na função públicaestá tão pouca sujeita a avaliação e depende tanto da simples passagem do tempo como a dos professores -, aquilo a que foram sujeitos não se pode comparar com o que aconteceu aos trabalhadores de empresas privadas.

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A ditadura do professorado

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1. A educação, com a participação de todos os seus agentes e atores, especificamente os professores, é o eixo fundamental para a continuidade dos valores e da cultura de uma sociedade democrática em que a relação professor-aluno, em parceria com as famílias, é geradora de responsabilidades mútuas no desenvolvimento das crianças e jovens.

A escola é corresponsável pela educação global dos alunos desenvolvendo-lhes competências, de participação democrática, responsabilidades coletivas e pela organização de funções pedagógicas e sociais que se projetam na área envolvente, isto é, a comunidade enquanto conjunto dos pais, famílias, encarregados de educação, juntamente com instituições locais e globais ao nível país. É neste meio que a escola executa a sua ação educativa, e a sua imagem projeta-se através dos professores; são eles que lhe dão visibilidade, a valorizam ou descredibilizam.

O modelo de escola democrática não é o conjunto das salas de aula, vai mais longe na sua dimensão, traz à luz novas e inesperadas dimensões e características nas práticas quotidianas do professor. Assim, é importante refletir sobre o paradigma que defende que o professor deve ocupar-se exclusivamente dos conteúdos programáticos deixando o desenvolvimento das competências sociais para momentos isolados da prática letiva e/ ou para outros profissionais, separando-os do conjunto das competências que são parte integrante do processo de desenvolvimento do aluno.

A crescente complexidade da profissão docente não se compadece com a enunciação sindical do papel do professor com o risco da normalização que não se adequa à complexidade das mudanças sociais que se operam.

O professor é confrontado com dificuldades da sua realização profissional e pessoal, condição base para o exercício da profissão e do sentido da sua ação, (preocupação canalizada pelos sindicatos apenas para o nível financeiro por si só mobilizador).

A complementaridade da ação educativa dos professores com outros profissionais da educação (psicólogos educacionais, assistentes sociais educacionais, entre outros) é a chave para a reorientação do papel do professor.

Aqui parece-me poder haver espaço para uma contribuição positiva por parte dos sindicatos que, nas últimas décadas, apenas se preocupam e mobilizam os professores para reivindicações desapropriadas e desajustadas através de movimentos grevistas de diferentes tipos que prejudicam a comunidade educativa no seu todo. 

Considera-se que o sistema de ensino, nomeadamente o ensino básico e secundário, pode constituir-se como um “campo social”, ou seja, um sistema onde se confrontam oposições entre diferentes classes e frações de classe que concorrem entre si e desenvolvem práticas que visam defender ou conquistar lugares na estrutura social operando através de “condutores sociais” de características reivindicativas para materializar a recomposição social desse campo.

A classe dos professores é um campo recetivo a lutas sociais e de reivindicações salariais, regalias, direitos, carreiras e outras de vária ordem de interesse corporativo que oneram o Estado desajustando-se de outros campos sociais do trabalho pela fatia do bolo do Orçamento que pretendem lhes seja distribuído.

Como deixei inicialmente transparecer a profissão professor não pode simplesmente ter por missão transmitir conhecimentos aos discentes e, por isso, é exigível uma formação profissional e avaliações adequados que deva passar apenas pela obtenção de uma licenciatura que lhe confere um posto de trabalho no Estado garantido para toda a vida.

2. Após o 25 de Abril de 1974, nomeadamente nos anos 80 e 90 do século passado, a mobilidade social ascendente intergeracional pelos descendentes de classes sociais e profissionais mais baixas realizou-se pela via da obtenção de um diploma de um curso superior que, aparentemente, fosse fácil e desse rendimento, status e consequente prestígio: ser professor (a) ou educador (a) de infância era passar a fazer parte duma classe média adquirida via profissão e, muitas vezes, complementada pelo casamento. É evidente que a partir desta análise não podemos generalizar.

No antigo regime, não havia a massificação do ensino e à profissão de professor apenas tinham acesso os oriundos das classes superiores. Após os anos 80 e 90 o acesso a esta profissão passou a ter acesso qualquer classe por mecanismos de condições salariais e sociais. Dado o aumento dos níveis de escolaridade e a antecipação de risco de potencial desemprego a estes fatores podemos acrescentar ainda uma potencial apetência pela profissão de professor(a), nomeadamente por parte do sexo feminino que, devido a uma tacanhez cultural socialmente herdada do passado se adequava mais a esta profissão. Não é por acaso que o sexo feminino é quem domina a profissão de docência no ensino básico.

Tudo isto me leva a refletir sobre as autodenominadas lutas dos docentes do básico e secundário do ensino público que se agravaram na altura do ministério de Maria de Lurdes Rodrigues em 2008 quando Mário Nogueira, o líder da Fenprof, iniciou o seu protagonismo contra a avaliação dos professores que aquela ministra queria introduzir. E, como outra coisa não seria de esperar, a classe colocou-se contra a medida. Afinal quem gosta de ser avaliado? Os professores acham que a obtenção dum curso, mesmo que para a docência, estão avaliados por natureza para toda a vida e que a avaliação foi feita na devida altura (argumento ouvido na altura por sindicalistas), como se nada evoluísse. O que estava em causa era a insegurança gerada pela avaliação devido às frágeis competências dos professores em vários domínios. As progressões nas carreiras e os salários têm de ser obtidos por mérito. Os professores não devem, não podem ser um bando de irresponsáveis que apenas olham para o que recebem e, se possível, sem esforço.

Se recordarmos as razões das greves estas têm sido contra os despedimentos (emprego no Estado, quais?), contra o horário de trabalho de 40 horas. Pelo direito ao emprego (reivindicação abstrata e subjetiva). Pela dignificação da aposentação. A estas misturam-se, para dissimular interesses corporativos, a luta pela qualidade do ensino e pelo futuro dos alunos, como se estes dependessem daquelas reivindicações e pela defesa da Escola Pública.  Uma amálgama de reivindicações que se cingem apenas às que aos professores interessam: mais dinheiro, menos trabalho e menos responsabilidades.

3. Os professores têm como missão muito especial a educação de gerações de crianças que é de grande responsabilidade e, mais do que qualquer outra profissão, exige sacrifício e dedicação, coisa que os líderes sindicais esqueceram há muito: estar à frente dos alunos. O seu intuito é terem  sempre à mão massas de professores contestatárias com promessas de aumentos salariais e redução de responsabilidades.

Os professores têm uma responsabilidade acrescida, e a mensagem que devem passar aos alunos não é o da defesa dos seus interesses, mas a da qualidade do serviço público que não é consentânea com boicotes a avaliações e faltas às aulas. Haverá, com certeza, outras formas de luta sem prejuízo dos alunos. Eles não são “patrões” são formandos em aprendizagem, também social.

As crianças em idade escolar para além das matérias reportadas às disciplinas estão também a fazer uma aprendizagem social por modelagem. Assim, quando o observador tem um modelo que, no caso, é o professor trata as pessoas que estão ao seu redor com respeito e consideração, o observador mesmo em situações novas irá apresentar comportamentos idênticos ao do seu modelo, tratando todos com respeito e consideração.

A aprendizagem por observação permite a aquisição de regras, conceitos e estratégias de seleção. Os professores são modelos para as crianças. As crianças ao observarem modelos de comportamento e atitudes inferem as regras de classificação e as generalizam em novos estímulos.

Os alunos avaliam o seu modelo enquanto professor: faltou às aulas para fazer greve; a nossa professora fala, durante as aulas, na defesa dos seus direitos; não tenho avaliação porque o professor faltou porque está em greve às avaliações por mais direitos e salários. E têm o direito de questionar se também podem fazer greve quando a professora falta aos seus compromissos. E o meu pai que faz sacrifícios para me manter na escola e não tem possibilidades de pedir aumento nem restrição de obrigações? O pai comentará lá em casa: é uma imoralidade!

Desta forma a modelação vai gerar um comportamento de respostas apropriadas quando o observador se encontrar em situações de padrões semelhantes. Demonstrou-se que a modelação no ensino de regras pode ser maior que a experiência direta.

4. O que está em causa não é o direito à greve a que os professores devem ter, mas não como quaisquer outros porque o prejuízo cai sempre nos alunos. Estes não são os patrões e não podem servir de meio de pressão. Os alunos não podem ser o meio pelo qual os professores se servem para atingir objetivos de classe e exercer “força” sobre a sua entidade patronal que é o Ministério da Educação.

Uma greve terá de causar prejuízo sem o qual não terá o efeito pretendido, mas no caso dos professores prejudica terceiros que nada tem a ver com a reivindicação. Em vez de se atingir a entidade com quem o sindicato está em luta atinge ainda mais os que se encontram à margem da greve, como é o caso dos alunos e das famílias, cujos elementos são trabalhadores e que também são os prejudicados.

A próxima greve está prevista para os dias 1 a 4 de outubro. Nada mais conveniente, já que o dia 5 é feriado e coincide com uma sexta feira. Uma semana inteira sem aulas sendo-lhes descontados apenas 4 dias devido à greve. Mas salve-se a situação nesse dia há manifestações! Para a maioria dos alunos, nesta fase inicial do ano letivo a falta dos professores às aulas pode ser uma festa, o mesmo não o será para as famílias que terão de arranjar soluções para que os seus filhos não fiquem á “solta” fora das escolas, com os consequentes prejuízos nos locais onde trabalham e onde terão de pedir dispensas.

O que os professores pretendem no que se refere à contabilização dos tempos de serviço é uma medida que, pelas contas do Ministério das Finanças - contestadas pelos sindicatos - implicaria um aumento de 31% na massa salarial dos docentes até 2023, ano em que os custos com os vencimentos seriam superiores em 635 milhões de euros aos atuais. O sindicato diz fazer outras contas, mas o que sabem eles sobre as finanças públicas no seu todo?  Terão eles a noção do impacto financeiro na despesa pública do eventual reposicionamento dos professores do tempo que lhe foi retirado por anteriores governos, mas que até agora mantiveram em silêncio absoluto? Ainda não fez quatro anos que estivemos sobre pressão duma troika imposta e colaboracionista com os neoliberais do PSD e CDS e, por isso, ainda não estamos a fim de libertar recursos financeiros sem controle.

5. O último número junho/julho da revista do SGPL - Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, Escola Informação, apresenta um extenso dossier sobre a greve às avaliações. Os artigos são uma espécie de panfletários de inspiração leninista aplicados à atualidade. Esta gente parece não entender o problema que existe em Portugal saído de uma grave crise financeira da qual está ainda longe de ser debelada. Os professores parece não quererem entender que ainda há uma larga maioria de portugueses que vive em situação difícil e que, indiretamente, estão a prejudicá-los com as suas reivindicações.

Os sindicatos e a Fenprof não ajudam com a procura dum remédio. Querem a cirurgia mesmo que ela possa vir, a prazo, causar a morte do paciente. Para a Fenprof e para Mário Nogueira tudo se resume à questão de poderem vir a gritar vitória aos quatro ventos.

A Fenprof faz comunicados tentando responsabilizar os partidos através de avisos ao exemplo de ultimato alertando que os professores estão atentos à postura que os partidos vierem a assumir no futuro próximo. Escreve-se no comunicado: “será com expetativa que, agora, os olhos dos professores se dirigirão para os partidos políticos, tanto os que negociaram e votaram o orçamento do Estado do ano em curso, como os que, não o tendo feito, têm assumido posições que reconhecem as razões da reivindicação dos professores." Isto é, vejam lá que as eleições estão á porta e nós somos muitos a votar.

Talvez os professores votem todos á direita para que ela lhes resolva o problema umbilical.

6. Já é bem conhecida a política do fartar vilanagem de partidos como o PCP e o BE quando se trata de distribuir dinheiro, com o pretexto da defesa dos trabalhadores. É a política do tudo pode ser dado e tudo é possível. Sabem que nunca terão responsabilidades governativas e, como tal, sacodem os pingos da chuva do capote quando calha. Todavia, no que se refere a este caso, parece haver por parte daqueles partidos alguma lucidez. Resta-nos esperar que sim.   

7. Não era necessário o estudo da OCDE para sabermos que os professores, são das profissões mais bem pagas e valorizadas face à riqueza do país.  Os salários dos docentes portugueses estão abaixo dos colegas estrangeiros, mais ricos e cujo nível de vida é bastante superior, mas acima dos outros trabalhadores nacionais com cursos superiores. Bem podem os sindicatos e Mário Nogueira fazer ginástica com os números, rebuscando aqui e ali aquele dado que está fora por baralho que são exceções que já não convencem ninguém.

As vozes de professores ululantes, atiçadas pelo seu líder Mário Nogueira, far-se-ão ouvir sem a tomada de consciência dos prejuízos causados que, com intransigência, querem ver satisfeita com avidez.

O que Mário Nogueira está a ver colocado em causa não são os direitos dos professores, mas ele próprio e a sua credibilidade. Daí a insistência no que ele sabe ser impossível de obter pelo menos no seu todo. Como já referi ele gostaria de cantar vitória porque isso iria colocá-lo-ia num pedestal esquecendo-se de que há outros milhares de trabalhadores, aposentados e reformados que aguentam em silêncio as mais variadas injustiças. Para os sindicalistas da Fenprof e para Mário Nogueira quando lhes convém o Estado somos nós (frase de Lenine), noutras circunstâncias o Estado é o patrão explorador.