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ZOOM SOCIAL - Cultura, sociedade e política

Apontamentos, comentários e OPINIÕES sobre política, economia, educação, sociedade e cultura. Confronto de afirmações, reflexões e contradições sobre o modelo social que temos.

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Apontamentos, comentários e OPINIÕES sobre política, economia, educação, sociedade e cultura. Confronto de afirmações, reflexões e contradições sobre o modelo social que temos.

Aliança

Aliança_Santana Lopes.png

Cerca de um mês afastado do blogue, longe de Lisboa, embrenhado na região centro, cá vou sabendo das notícias pelos costumeiros meios de comunicação. Uma novidade que me despertou interesse no meio das notícias sensaboronas das TV’s foi o anúncio da constituição de um novo partido pelo senhor Santana.

O senhor Santana ao ser candidato à liderança do PSD terá apostado numa vitória mas, confirmada a perda, a amargura soltou-se (mais uma ao longo dos anos) também partilha pelos sem-lugar e os desamparados no partido após a saída de Passos Coelho. Terão sido ests as causas próximas conducentes à ideia para a constituição de um novo partido pelo senhor Santana. Tal ação divisionista terá tido também como causa questões de influência e de acesso ao poder perdidos pela mancha política da direita neoliberal do pós-Passos dentro do PSD que não concorda com a orientação de Rui Rio. A constituição do novo partido Aliança, a concretizar-se, vai criar brechas no partido onde o senhor Santana milita há décadas.

O nome Aliança é uma designação que me faz recordar nomes de partidos de extrema-direita como, por exemplo, o Aurora Dourada na Grécia ou Frente Nacional de Le PEN. Todavia não pretendo ir tão longe, limito-me a enquadrá-lo num espetro ideológico na linha dos que, agora sem rumo apoiavam Passos Coelho na orientação neoliberal e que agora estão descontentes com a orientação social-democrata que Rui Rio tem dado ao PSD.

Com o senhor Santana o Aliança vai ser um partido conduzido ao fracasso tais como outras das suas incursões políticas com a diferença de que, desta vez, não será para dizer vou andar por aí mas para dizer: Olá! Estou aqui!

Sobre o senhor santana e o Aliança João Miguel Tavares nos seus costumeiros exercícios anti PS faz um mix de futurologia e matemática tendo antes o cuidado de afirmar que “não votaria em Pedro Santana Lopes nem para delegado de turma…”, diz no jornal Público que, ao concorrer à próximas eleições, o senhor Santana foi esperto porque: “Imaginem que António Costa fica a dois ou três deputados dos 116 e que o novo partido de Santana Lopes tem esses dois ou três deputados — de repente, o novo Aliança pode conseguir um protagonismo, e um poder, que jamais alcançaria noutra conjuntura política. Era agora ou nunca”. Então, se assim for, digo eu, embora a conjuntura política seja diferente, o Aliança poderá vira a ter o mesmo papel do antigo partido PRD formado por Eanes em 1985 e, consequentemente o mesmo fim, o seu desaparecimento.

O senhor Santana dividindo o PSD com o apoio das fações neoliberais do partido pretende vir a ser uma espécie de bola de ping-pong no Parlamento, (se lá chegar a entrar), aliando-se ocasionalmente com um partido A, com um partido B ou com um partido C consoante as conveniências.

O senhor Santana pretende que o Aliança venha a ser o seu habitat porque só assim poderá lutar pela sua sobrevivência e continuar a existir politicamente. Quer ter a sensação de que vale mais estar aqui do que não estar, num mundo em que poderia não estar, mas está.

O senhor Santana empurrado pela ânsia do poder é arrastado pelas ondas da política e interroga-se sobre o que seria a política sem ele. Mergulha, mas, quando emergir, talvez olhe com espanto para a espada Dâmocles que presa por um fio ficará a pender sobre a sua cabeça. O que, para ele, talvez já não seja novidade.

O senhor Santana e os seus melros vão debicar o prado das eleições abrindo-se-lhes uma perspetiva muito prometedora sem se aperceberem de que vão viver uma constante fonte de angústia pela discrepância entre o comportamento político e o resto do universo partidário. Pelo que, a ter votações com alguma representação os votos virão do partido donde teve origem a fratura, o PSD, e do CDS/PP.

Hoje no jornal Público Leonete Botelho diz que “Ao “roubar” eleitores ao PSD, o partido de Santana Lopes fará aumentar a distância entre os dois maiores partidos portugueses…”

A lei de Lavoisier diz que a massa é conservada quaisquer que sejam as modificações químicas e/ou físicas que a matéria sofra: na natureza, nada se cria e nada se perde. Tudo se transforma. Na contabilização partidária a massa são os votos, assim, o alimento em votos do novo partido serão os do partido dividido que os perderá, podendo haver algumas exceções como fugas do PS, e um partido de direita não será alimentado pelos votos de partidos da chamada extrema-esquerda.

A contribuição do senhor Santana para a boa imagem do PSD e da social-democracia - que está a ser recuperada por Rui Rio – foi e tem sido nula tendo consistido em aparecer em momentos oportunos, despertados por sentimentos egocêntricos, de certo modo também atávicos, para defender ou conquistar um espaço no mundo da política a que pensa ter direito.

A decisão da constituição de um partido de direita pela cisão do PSD e da atual orientação social-democrata é necessária não para o país mas para a imagem do senhor Santana. Foi necessária uma revolução interior na mente do senhor Santana colocando acima do país as suas emoções e sentimentos, de acordo com os seus ritmos mentais, para conseguir prever os efeitos que efetivamente terá o novo partido os quais consegue apenas imaginar em teoria sobre. Ao senhor Santana apenas lhe interessa o protagonismo que tem vindo a perder politicamente e o que este lhe possa render e não o país e, com ele, estão os que, como ele, pensam.

O senhor Santana tem uma visão política e partidária familiar e fragmentada pela perceção individual que pode ser constatado pela sua atuação no passado, até mesmo quando Durão Barroso lhe entregou de mão beijada o poder do país XVI Governo Constitucional com a duração de 7 meses e 23 dias. “Vamos ver… nem quero pensar nisso”. Terá sido assim que Pedro Santana Lopes reagiu quando Durão Barroso lhe pediu pela primeira vez que o substituísse na chefia do Governo no verão de 2004. Na altura Barroso tinha sido sondado para o cargo de presidente da Comissão Europeia e queria assegurar que a transição era feita sem eleições legislativas antecipadas.

O senhor Santana para poder vingar terá de enveredar pelo populismo demagógico de direita para que o seu discurso tenha efeito, tática a ser utilizada por muitos partidos europeus quer de esquerda quer de direita. O primeiro sintoma tem a ver com a recusa aceitar “dogmas da construção europeia, como refere a Declaração de Princípios do Aliança sobre a União Europeia referindo que “Portugal tem-se dado ao luxo de estar na linha da frente da aplicação de deliberações da União Europeia que têm prejudicado importantes unidades do sistema económico e financeiro”. Uma versão mais soft do que tem sido defendido pelos partidos europeus da direita radical, estes anti U.E.

A Declaração de Princípios não apresenta nada de novo que não tenha sido já mencionado nos conteúdos programáticos de todos os partidos com exceções dos mais radicais de esquerda. É uma espécie de “copy paste” melhorada daqui e ali, nomeadamente no que se refere ao liberalismo e personalismo cristão que, ideologicamente, é semelhante à do CDS/PP.

O senhor Santana limita o seu partido Aliança a ideia imediatas que lhe foram sendo sugeridas e diz assentar, a sua matriz em três eixos fundamentais: Personalismo, Liberalismo e Solidariedade. Afinal, todos os partidos de direita, e alguns do centro esquerda também os reclamam. São três conceitos filosóficos muito complexos mas que, assim colocados não passam de chavões cuja aplicabilidade é vaga e praticamente exequível enão passam de mera propaganda.  

Em teoria, para o senhor Santana, o partido Aliança será a concretização de um novo paradigma no panorama partidário português, porque é novo e inovador nos seus traços ideológicos, mas não o é. Menos do que uma declaração de Princípios é uma declaração de intenções perigosa, demagógica, popularucha, inexequível a prazo. São boas e más intenções que estão implícitas. É uma espécie de neoliberalismo com pinceladas de preocupações sociais restritas para mostrar um rosto humano, mas não passa disso.

Estranho no que respeita à ambiguidade do que se refere à política externa a referida declaração refere em certo ponto que: “Vemos com otimismo, apesar dos riscos, a construção de um equilíbrio mundial inovador, assente na realidade multipolar, intransigentes que somos na defesa da Paz e dos direitos fundamentais”. Frase ambígua, pouco clara que sugere interpretações polissémicas. Para um leitor como eu, ver com “otimismo apesar dos riscos a construção de um equilíbrio mundial inovador”, é preocupante por presumir a concordância incondicional com a forma como a política internacional tem vindo a ser conduzida pelo atual presidente dos E.U.A e que tem vindo a ser contestada no próprio país e noutros países e a vários níveis.

Economia de mercado ideologia e a especulação imobiliária a que só alguns querem ter direito

Economia de mercado.png

A direita gosta de designar o Bloco de Esquerda como a esquerda caviar esquecendo-se de que é ela própria é toda caviar e pretende para si o melhor, o caviar “Bloco de Esquerdaluga”, daí não gostar muito de concorrência.

Vivemos numa Economia de mercado, sistema económico em que os agentes económicos (empresas, bancos, prestadoras de serviços, etc.) podem atuar com pouca interferência dos governos. É um sistema típico da economia capitalista e um dos pilares apoiados por economistas que defendem o liberalismo económico e o neoliberalismo cujas principais características são a liberdade para definição de preços de serviços e mercadorias. É a livre concorrência que regula o mercado com relação aos preços de bens e serviços estabelecidos pela interação entre procura e oferta.

Aos políticos exige-se e clama-se por seriedade, credibilidade e coerência ideológica nos atos e nas decisões.  Eles próprios, os políticos, os de esquerda e os de direita, quando lhes interessa, acusam-se uns aos outros de estarem a faltar e a negar os valores que apregoam. Mas será que estes valores estão sempre presentes de facto na prática política?

A incoerência faz parte da política e a sua prática é uma constante nos políticos sejam eles de que quadrante forem. O que dizem hoje negam na próxima oportunidade, buscando argumentos falaciosos sem medida da gravidade e das consequências dessa atitude. Sem pretender generalizar a incoerência, as meias verdades, os erros de juízo, a deturpação de verdades são atributos de muitos políticos independentemente do partido a que se encontrem afiliados.

Pelo meio surgem, com menos frequência, os atos de corrupção de diversos tipos, a fuga aos impostos, entre outros, cuja frequência se verifica no seio de militantes ou simpatizantes da direita ou dos que com ela conluiem. Mas, nas esquerdas, pelo menos nas mais ideologicamente assumidas é raro virem a público.

A questão que podemos colocar é a de saber se a ideologia, a militância, a simpatia partidária e a ocupação de cargos políticos serão incompatíveis e incoerentes com a posse de propriedades e de riqueza, desde que adquiridas por meios legais, desde que ninguém tenha sido prejudicado pela sua aquisição, seguindo o que a legalidade determina.

Há graus de incoerência dependentes do contexto, da intenção e do discurso e, consoante isto, a suposta incoerência ou não existe ou é irrelevante ou, pelo contrário, existindo será que é desgastante para quem a pratica?                                        

Tem andado na comunicação social e nas “bocas” das redes sociais o caso do vereador da Câmara Municipal de Lisboa e da sua propriedade presumivelmente lucrativa. Não sou, nem nunca fui, simpatizante nem eleitor do BE, e muito mesmo da sua ideologia por vezes demasiado radicalizada, mas não é por isso que me colocarei numa posição meramente contra ou dúbia, relativamente a este caso, acompanhando o rebanho dos que acusam, muitos deles infetados pelo vírus da já bem conhecida invejazinha portuguesa e de moralismos hipócritas. Serei talvez uma ovelha tresmalhada desse mesmo rebanho.                                                                                                         

O editorial de José Cabrita Saraiva do jornal i clama e critica Robles porque este se tinha insurgido “via redes sociais, contra a especulação imobiliária… usando os mesmos métodos que tanto criticava”.  Pela lógica, apenas os que não criticam, os de direita, é que podem utilizar os métodos, isto é, o da especulação imobiliária, ficando, por isso isentos de críticas. Mas Saraiva diz ainda que “há algo mais terrível”, sim, leram bem, TERRÍVEL, apenas e porque o vereador é militante da extrema-esquerda.     

José Saraiva exemplifica um caso, que parece mostrar simpatia por radicalismo de sinal contrário, ao buscar o exemplo do assassínio de John Lennon por Mark David Chapman a 8 de dezembro de 1980. Chapman foi o homem que disparou cinco tiros contra Lennon e que justificou o seu ato porque se sentiu desiludido, quando descobriu que Lennon, embora nas suas belas canções falasse sobre um mundo sem propriedade privada, andava num Rolls Royce personalizado e tinha um apartamento na avenida mais cara de Nova Iorque. Está visto que, segundo o editorialista, o assassínio parece ter sido mais do que justificado.

Depois há os outros, os que utilizam o caso para mostrar a sua desforra política sobre a violência verbal de que foram alvo. Está neste grupo Rui Tavares ex-bloco de esquerda que escreveu num artigo de opinião no jornal Público: «investimento especulativo em imobiliário (a não ser que acreditemos que as definições de "especulação” mudaram magicamente para a esquerda depois da notícia ter saído) — e achará que estou a evitar tocar verdadeiramente no assunto. É verdade. Estou a evitar tocar no assunto não por nenhuma das razões do costume, como evitar dar à direita pretextos para atacar alguém de esquerda (o que acaba por dar à direita o pretexto de atacar a esquerda, corretamente, por silenciar um assunto que envolva um dos seus) mas por uma razão mais pessoal: durante anos fui alvo da violência verbal de muita gente no BE que transformava diferendos políticos em ataques de carácter (“ele quer é tacho”, “vai entrar no PS”, “tem lugar prometido”, etc.), gente essa que nos últimos dias tem andado afadigada a inventar que sempre acharam que “especulação” e “incoerência” não inclui o tipo preciso de investimento que o dirigente do seu partido fez, ou de incoerência que ele revelaria, mas ainda inclui todos os outros tipos de investimento com que costumavam atacar (e mal passe a borrasca, querem continuar a atacar) outros adversários políticos, umas vezes bem, outras vezes mal. E, dado o contexto, dou a mim próprio o direito de não dizer tudo o que sinto sobre este tipo de piruetas verbais e políticas…».

Ainda há outros (as), como Rita Silva que vêm agora dar visibilidade à sua pureza ideológica e partidária mostrando o seu radicalismo anti despejos e desacordo com as políticas que apoiam ativamente a especulação e a “mercadorização da habitação”. Ataca agora os especuladores e recusa-se a suceder a Ricardo Robles na Câmara de Lisboa. Todavia, para além da sua intervenção pública de protesto, que mecanismos de engenharia política propõe num sistema de economia de mercado (dito capitalista) para acabar com aquilo a que se opõe?  

Também há aqueles que acreditavam que o Bloco de Esquerda era genuinamente um partido de ideais puros, pelo que se sentem mais magoados e desiludidos. O poder de atração do dinheiro insinua-se por todo o lado, até mesmo no seio dos partidos, até mesmo nos de extrema-esquerda há quem não lhe seja imune. Mas atenção, tomar o particular pelo geral é um perigo de raciocínio. Nem Ricardo Robles é o BE, nem o BE é Ricardo Robles, ele é apenas uma peça do todo.

Sejamos claros: vivemos numa sociedade de modo de produção capitalista, de economia de mercado, de livre concorrência onde se estimula a acumulação de riqueza, a competição em contexto de liberdade individual, cujo objetivo é a obtenção do lucro, por vezes fácil, e outras mais valias. Para eliminar o capitalismo estão os que defendem a estatização de tudo e mais alguma coisa. Estão contra o capital e o investimento privado que, segundo eles, exploram a mão de obra e são geradores de pobreza. É uma visão ideológica de limitada e totalmente em desacordo com a modernidade da conjuntura mundial .

A especulação imobiliária e as negociatas no ramo existem, estão bem à vista, mas quem, sem ser a esquerda, dita radical, se insurge?! A direita não. Assunção Cristas do CDS dá aqui e ali umas pinceladas com visitas populistas e demagógicas aos bairros, onde repete aquilo que todos já sabem. Contudo, o CDS definindo-se como um partido de centro-direita, é afinal um partido da direita extremada. A suas políticas no governo anterior, nada tiveram de democrata-cristão, quando tomou medidas com as quais agora se coloca contra. Cristas foi a promotora duma Lei das rendas e da liberalização do mercado imobiliário o que deu aos senhorios um poder discricionário face aos inquilinos, originando especulação imobiliária, aumentos nas rendas e despejos selváticos de famílias, englobando velhos que sobrevivem com pensões miseráveis. Tentando virar a agulha da bussola, fala agora hipocritamente da tribuna do social.

A lei da suspensão dos despejos de inquilinos com mais de 65 anos, com deficiências ou que estejam a viver na casa há mais de 15 anos até 2019 é agora contestada pelos proprietários dizendo que lhes retira os direitos e que é inconstitucional - não posso deixar de recordar os direitos cortados a outros, os não proprietários, pelo anterior governo. Recorda-se que a lei, que suspende os despejos nas condições anteriormente referidas, passou com a clara votação contra, do PSD e do CDS.  Apesar disto, a direita rejubila e lança para o ar palavras, propagando valores morais fingidos para mostrar que, na extrema-esquerda, também há especulação e corrupção.

As regras que regem a sociedade em que vivemos são extensíveis a todos os cidadãos, independentemente do seu quadrante ideológico. Mas, por outro lado, podemos considerar hipocrisia, ouvir partidos de direita defenderem direitos sociais, apoiar aberturas de lares públicos para os idosos, aumentos salariais, Serviço Nacional de Saúde, e por aí fora.   

Que culpa tem Robles de ser coproprietário de um prédio?! Será que Ricardo Robles e a irmã não poderiam melhorar o prédio, nem alugar para render, nem o podiam vender a compradores que lhe ofereciam um preço para essa compra? É a lei do mercado a funcionar que a direita defende.

A culpabilidade apontada a Ricardo Robles é apenas e só por pertencer ao Bloco de Esquerda.

O caso Robles é mais uma onda em que a direita, com a suas pranchas de surf pouco limpas, vai cavalgando como forma de eleitoralismo na corrida da competição partidária. O CDS com os seus pequeninos 7,4%, que uma sondagem lhe deu em julho, em comparação com os 9,5% do BE, quer ganhar terreno captando para o seu lado, quiçá, os eleitores deste partido indignados com o caso Ricardo Robles. É possível que não tenha essa sorte já que o PCP está alerta e Jerónimo de Sousa já disse que no seu partido isso nunca aconteceria.

Assim sendo, tem cabimento colocar algumas perguntas:

Poderá um capitalista (prefiro empresário) que paga ordenados decentes, oferece regalias sociais aos seus trabalhadores, transaciona propriedades e cumpre todas as suas obrigações fiscais ser acusado por ser de esquerda?!!!

Poderei eu ser acusado, criticado e apontado por atraiçoar a minha ideologia de esquerda radical, se tiver filhos ou netos numa caríssima escola privada?

Poderá um militante de um partido da esquerda, que defenda a escola pública ter os filhos num colégio privado, ou que defenda o Serviço Nacional de Saúde, ir a uma consulta médica privada?

Deverei deixar de exercer os meus direitos de cidadão como político e militante de um partido que não concorde com o sistema em que vive por possuir propriedades ou qualquer negócio rentável?

Não poderá um comunista ser possuidor de uma propriedade privada, que adquiriu ou herdou e que lhe possa vir a trazer mais-valias? E se esse comunista fizer política?

Esta polémica à volta de Ricardo Robles fez-me recordar e recolher uma passagem do Evangelho, neste caso, segundo São Mateus, 19, 16-22, que passo a transcrever:

“Um jovem aproximou-se dele (Jesus Cristo) e disse:

«Mestre, que hei de fazer de bom, para alcançar a vida eterna?».

Jesus respondeu-lhe:

«Se queres entrar na vida eterna cumpre os mandamentos…».

Jesus Cristo enuncia os mandamentos. Disse-lhe o jovem:

«Tenho cumprido tudo isto; que me falta ainda?». Jesus respondeu:

«Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Ao ouvir isto, o jovem retirou-se contristado, porque possuía muitos bens.

Nas sociedades de consumo e de competição por bens terrenos ninguém quer um qualquer tesouro no Céu em troca dos tesouros na Terra, sejam eles capitalistas ou proletários. É assim que funciona o sistema, quer queiramos, quer não.

Vejamos a circunstância da sobreposição do pragmatismo à ideologia de não deixar que o nosso sistema de crença nos impeça de fazer o que achamos certo. Um dos exemplos pode ser o de um governante fortemente católico que exija a tolerância religiosa, a fim de evitar a agitação social, ou de um ditador comunista que permite a iniciativa privada, a fim de incentivar a inovação e o progresso material. É a chamada incoerência positiva.

Se eu tivesse propriedades que transacionasse para obter ganhos e rendimentos que delas proviessem, deveria, obrigatoriamente, seguir uma ideologia ou pertencer a um partido que defendesse incondicionalmente os interesses de uma economia liberal? Ou, pelo contrário, se fizesse parte de um partido que defendesse o humanismo e os direitos sociais poderia ser acusado de incoerência?

Poderá um capitalista que explore os trabalhadores, que defenda a privatização de tudo o que seja público e lucrativo pertencer a um partido que seja ideologicamente de esquerda?  Aparentemente incoerente e improvável, mas poderia.

Quem quererá ser político num país democrático, de economia de mercado e de livre iniciativa onde partidos de direita, defensores de ideologia liberal ou neoliberal estão contra os que, sendo ideologicamente de esquerda, também são detentores de riqueza e de propriedades, obviamente regidas pelas mesmas normas e regras.

Quem quererá ser político e fazer parte de um partido num país onde defensores da economia de mercado e do capital criticam os políticos de ideologia de esquerda que sejam detentores de capital sob qualquer forma, e que o possam rentabilizar?

Quem quer ser político num país capitalista onde os de direita, exigem aos outros, os da esquerda, a rejeição do pragmatismo duma sociedade capitalista em troca do dogmatismo absoluto da ideologia de esquerda?

Há um ditado popular que diz "Em Roma, sê romano", isto é, no lugar onde estás, faz o que as pessoas fazem e imita a sua cultura. Parece que este ditado não se pode aplicar aos políticos. Ser de esquerda e ao mesmo tempo ser detentor de propriedade privada, de empresas e viver segundo as regras duma economia liberal é incompatível, incoerente e quase uma heresia para a direita.