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Governo e Políticas. Debates, COMENTÁRIO e OPINIÃO - Sociedade, Comunicação e Política

Comunicações e opiniões pessoais sobre o dia a dia da política e da sociedade. O que outros pensam e comentam sobre a sociedade, política, economia e educação.

Abertura da época do populismo

Rui Rio e Ana Avoila.png

Rui Rio abriu a época do populismo pegando nas declarações de Mário Centeno que disse não haver mais lugar a aumentos salariais em 2019, procura assim ganhar vantagens com o apelo a reivindicações a propagar por entre os trabalhadores da função pública, aliciando-os com o objetivo de captar votos mostrando que está do seu lado. Como o funcionalismo público e os seus sindicatos apenas se movem e mobilizam tendo euros contados à vista é claro que o apoio de Ana Avoila, coordenadora da Frente Comum de Sindicatos da Administração Pública não se fez esperar e, na TSF, disse que sugere ao Governo que tenha em consideração as duas propostas ontem feitas por Rui Rio.

António Costa corre a dizer que não exclui em absoluto aumentos salariais na Função Pública. Abriu-se o confronto cedendo ao populismo de Rio. 

Mas porque é que Rio não avançou com a mesma reivindicação em relação aos trabalhadores do privado, será que esses não têm direito e não sofrem a inflação? Caso para pensar. Com isto parece que Rui Rio quer ajudar a fazer cumprir a profecia de Passos Coelho ameaçando invocar o diabo. Não creio, contudo, que seja esta a tão falada social-democracia de Rui Rio.

Populismo para captar ignorante foi o que fez o líder do PSD ao questionar este domingo o facto de “António Costa ter toda a disponibilidade para injetar dinheiro público na banca portuguesa e continuar sem fazer nada em relação à função pública”. O que faria Rui Rio se estivesse no governo no lugar de Costa e nas circunstâncias? Deixava falir os bancos ao mesmo tempo que aumentava a função pública? Não creio que Rui Rio esteja a falar a sério e sem demagogia populista. Fala para potenciais eleitores e para calar a oposição mais liberal radical dentro do seu partido, mas parece-me que esta não gostaria da solução, já que foi ela que cortou salários e pensões em toda a linha e que se preparava para continuar na mesma trajetória.

Rui Rio utiliza agora a mesma estratégia do PCP e do BE, fazer reivindicações salarias é aquilo que move as pessoas. Será que o PSD irá apoiar eventuais greves convocadas pelos sindicatos para esse efeito?

Perguntas que me parecem pertinentes num momento em que o PSD e Rui Rio necessitam como pão para a boca de fazer subir as sondagens para o seu lado à medida que se aproximam as eleições.  E aproveita tudo o que a comunicação social lança para a opinião pública. Agora é o ministro da saúde o alvo da comunicação social, procuram todos os casos, e tudo o que mais haja na saúde para colocar a opinião pública contra o ministro. Estratégia já bem nossa conhecida.

Sobre as críticas das direitas ao Plano de Estabilidade

Costa e Centeno.png

A direita tem toda a legitimidade para fazer oposição, o que não pode é tentar manipular e esconder a realidade e os factos à sua medida esquecendo o seu passado, ainda recente, e a forma como foi destruindo o país que, depois de destruído torna a sua reconstrução é mais lenta e difícil.

 Como habitualmente, após a apresentação em conferência de imprensa do Plano de Estabilidade a apresentar em Bruxelas pelo ministro da Finanças Mário Centeno, os partidos da oposição de direita CDS e PSD, e do BE e PCP, à esquerda do PS, comentaram o conteúdo apresentado.

Como seria de esperar, o CDS pela voz de Mota Soares (não sabemos se após deixar de ser ministro continua a andar de motoreta) não concordou em nada com o plano apresentado. Como seria de esperar para o CDS estava tudo mal e a sua intervenção sem história, resumiu-se a mais do mesmo. E, para testar a esquerda, quer ver votação de resolução no Parlamento. Cinismo do costume!

Quanto ao PSD, cujo comentário foi proferido por essa sumidade, e ainda jovem, Leitão Amaro, 38 anos, resquício da direita liberal radical do PSD que utilizando uma verborreia demagógica, demasiado longa e cansativa, lá foi dizendo, estava tudo errado na sua maior parte. Debitou para o ar uma série de jargões e de falsidades interpretativas já bem conhecidas das suas intervenções sobre a situação financeira e económica do país. E pretendeu com passe mágica verbal fazer-nos acreditar que tudo o que melhorou nas pessoas, e no país, foi devido ao PSD.

Ao ser questionado sobre se previa e pelas críticas que apontava no Plano de Estabilidade esperava que ele recusado por Bruxelas não respondeu e saltitou aqui e ali refugiando-se em partes descontextualizadas do Conselho de Finanças Públicas escolhendo as referências que mais lhe agradam. Quanto a alternativas que teria para apresentar se fossem governo nada disse limitando-se a dizer que seriam outras. Mas nós sabemos quais seriam. Seriam a mesmas que aplicaram durante os seus quatro anos de mandato.

Falou ainda em reformas, que reformas? As que devem ser feitas para as gerações futuras como se as gerações do nosso tempo não tivessem também sido no passado consideradas como gerações futuras. Os portugueses vivem o presente, não vivem do que se deve fazer tendo em vista as gerações futuras, porque essas, quando vierem, muita coisa mudou, entretanto, e, então, serão elas que terão de garantir e tomar as medidas adequadas à sua época. O que as gerações futuras necessitam é que se cuide do ambiente em que irão viver porque, no que respeita às melhores políticas, cada geração saberá cuidar-se e ver o que necessita no momento. Quem é que, no tempo da ditadura do Estado Novo, pensava que as gerações futuras iriam produzir o 25 de abril que acabou com o regime? Salazar bem fez o possível por preparar nesse tempo as gerações futuras para manter o fascismo e o colonialismo. 

Algumas das afirmações do porta voz do PSD são hilariantes tais como "a solução do PSD para governar o país é diferente" daquela do atual Governo e de "Não nos conformamos em aproveitar os ventos de costas, queremos melhorar a vida dos portugueses", refere ainda que a opção do Governo é de "insistir em manter em Portugal a carga fiscal mais elevada de sempre". Onde é que nós já ouvimos isto?  Leitão deve ter-se esquecido dos cortes que estariam para vir se o PSD daquele tempo ainda estivesse no governo do país, e do “enorme aumento de imposto” que o ministro das Finanças, Gaspar reconheceu durante o governo em que Leitão foi Secretário de Estado da Administração Local no XIX Governo Constitucional, leia-se Governo de Passos Coelho.


Leitão Amaro, vice-presidente da bancada parlamentar do PSD que, como muitos outros, é um dos apêndices dos liberais radicais de Passos Coelho em funções parlamentares fez questão de mencionar que Portugal com o atual Governo é dos países que menos vai crescer economicamente. Mentira descarada por omitir o contexto real, é que as previsões intercalares de inverno de 2018 da Comissão Europeia para o

 

Comissão europeia previsões 2018.jpg

 crescimento em Portugal durante em 2018 e 2019 embora desacelere fica alinhado com o dos países da zona euro e os que mais influenciam a economia da U.E. e outros comparativamente mais ricos como se pode ver no mapa e no gráfico que se apresenta abaixo.

 

Mapa Crescimento 2018.png

 

O que Leitão Amaro não mencionou é que os países que mais crescem com exceção da Irlanda são aqueles onde a direita está a impor-se e a exploração do trabalho apresenta níveis salariais muito baixos. São os países do leste europeu como se verifica quadro abaixo marcados com asteriscos os que não pertencem à zona euro e com dois astericos o que integram a zona euro.

Também não salientou que, devido a uma previsível alteração da conjuntura internacional as previsões da mesma comissão para 2019 são de baixa de crescimento para todos aos países.

  

Comissão Europeia: Previsões de crescimento de outono 2017

Países

2017

2018

2019

Italy

1.5

1.3

1.0

United Kingdom

1.5

1.3

1.1

France

1.6

1.7

1.6

Belgium

1.7

1.8

1.7

Denmark

2.3

2.0

1.9

Germany

2.2

2.1

2.0

Portugal

2,6

2.1

1.8

Euro area

2.2

2.1

1.9

EU

2.3

2.1

1.9

EU27

2.4

2.2

2.0

Austria

2.6

2.4

2.3

Greece

1.6

2.5

2.5

Spain

3.1

2.5

2.1

Netherlands

3.2

2.7

2.5

Finland

3.3

2.7

2.4

Sweden

3.2

2.7

2.2

*Croatia

3.2

2.8

2.7

Cyprus

3.5

2.9

2.7

**Lithuania

3.8

2.9

2.6

*Czech Republic

4.3

3.0

2.9

**Estonia

4.4

3.2

2.8

Latvia

4.2

3.5

3.2

Luxembourg

3.4

3.5

3.3

*Hungary

3.7

3.6

3.1

**Slovakia

3.3

3.8

4.0

*Bulgaria

3.9

3.8

3.6

*Poland

4.2

3.8

3.4

Ireland

4.8

3.9

3.1

**Slovenia

4.7

4.0

3.3

*Romania

5.7

4.4

4.1

Malta

5.6

4.9

4.1

 

Gráfico crescimento UE.png

Fonte: Comissão Europeia - https://ec.europa.eu/info/business-economy-euro/economic-performance-and-forecasts/economic-forecasts/winter-2018-economic-forecast_en#winter-2018-interim-economic-forecast-a-solid-and-lasting-expansion

 

A direita tem toda a legitimidade para fazer oposição, o que não pode é tentar manipular e esconder a realidade e os factos à sua medida esquecendo o seu passado, ainda recente, e a forma como foi destruindo o país que, depois de destruído torna a sua reconstrução é mais lenta e difícil.

Os momentos radicais da Catarina do Bloco

Catarina do BE.png

A conduta do Bloco de Esquerda (BE) e da sua coordenadora Catarina Martins, olhando à distância para as próximas eleições legislativas, tem vindo a ser orientada por duas estratégias que se destinam a captar dois tipos de eleitorado de esquerda: os que se situam no campo da influência do PCP e os se situam na ala mais à esquerda do PS.

Se algumas vezes Catarina Martins mostra um rosto menos radical, conciliador até, afastando-se do radicalismo do PCP, outras, mostra um rosto de ameaça, uma rutura com o partido que lá vai apoiando no Parlamento.  A mensageira do BE, Catarina Martins, quer mostrar aos seus apoiantes que lidera a política de oposição à esquerda e, ao mesmo tempo, apoia o partido do Governo no Parlamento.  O PCP por seu lado tem-se mostrado mais sóbrio com uma responsabilidade q.b. A sua movimentação faz-se mais através dos sindicatos e organizações de trabalhadores do que na praça pública, mostrando nas suas intervenções públicas para os seus militantes o que lhe vai na alma, dele e do comité central, em relação ao governo do Partido Socialista.   

Catarina Martins quer apresentar um bom resultado eleitoral nas próximas legislativas daí a sua entrada em ebulição com a fervura centrada agora em Mário Centeno em relação à revisão do défice que Centeno quer ver reduzido para 0,7%. Mostrar a Bruxelas o que conseguimos é positivo e pode, no futuro, trazer-nos apoios e credibilidade. A fervura de Catarina Martins leva-a ao ponto de fazer ultimatos para que o ministro das Finanças recue na intenção de ir além das metas do défice definidas com Bruxelas e que use essa folga para investir em serviços públicos. Os avisos saem em tom mais duro e concertado, mas a concretização das ameaças só será conhecida quando o Governo apresentar o documento, conforme notícia do jornal Público que pode ver aqui.

Encontrando-se ainda Portugal numa circunstância para uma consolidação financeira sustentável após a saída da crise e com resultados económicos favoráveis quer agora a esquerda que apoia o Governo no Parlamento que se abram indiscriminadamente os cordões à bolsa.

A direita apoia neste sentido os pontos de vista da esquerda porque lhe interessa que o diabo volte a aparecer para haver argumentos para o regresso ao poder. Se o que não passa de uma ameaça de rutura e esta se concretizar e a direita vier a aproveitar vantagens políticas os portugueses irão penalizar os partidos que ajudaram a essa rutura.  Todavia resta-nos a esperança de que tal não aconteça já que Catarina Martins vai dizendo que "Tudo o que nós queremos é que os compromissos se mantenham", e "que se mantenha o espírito de negociação, de convergência e de cumprir os compromissos que tivemos até agora na maioria parlamentar".

Num artigo de opinião Sónia Sapage no jornal Público diz que “Hoje mesmo, o Governo aprova em reunião de ministros um documento que nada diz à generalidade dos portugueses, o Programa de Estabilidade, mas que pode interferir com a estabilidade governativa. Pode mesmo? Vem aí uma crise? O Bloco saltaria fora da "geringonça" a meses de ser aprovado o último Orçamento do Estado (OE) desta maioria? E o PCP, que não quer ser a peninha no chapéu do Governo, poderia chumbar um orçamento? Até o Presidente acabou a dizer que "uma crise política envolvendo o OE é duplamente indesejável". E termina “Mário Centeno mostra-se inamovível nas suas pretensões de não falhar metas – já lhe basta a percentagem da dívida estar acima do desejável. Não somos todos Centeno, mas não nos iludamos: Costa "é" Centeno. E é daí que vem a força do ministro das Finanças.”.

Não é novidade, pois é por demais conhecido que quem tem mais poderes nos governos europeus são os ministros das finanças serem que têm mais poder nos governos europeus durante a crise e na recuperação que ainda decorre nesta pós-crise que é necessário não deitar a perder o que se conseguiu. Se em muitos setores é necessário investimento público para melhorar serviços há que por enquanto ir com calma valendo mais acautelar do que darmos um passo maior que a nossa perna e é nas finanças que está o segredo.

Aliás, esta nova meta do défice, que se pretende constar no Programa de Estabilidade a ser remetido para a Comissão Europeia até ao final do mês, pretende assumir novas metas e sobre a U.E. são conhecidos os pontos de vista do PCP e do BE em relação.

O BE assim como o PCP, cada um ao seu modo, manifestam o desejo de que, num futuro mais ou menos próximo, a U.E. se desmantele e que Portugal abandone o grupo, mesmo que isso vinha a tornar-se a tragédia do século. Uma situação deste tipo, com a escalada das extremas-direita nacionalistas e xenófobas que se verifica em alguns países da U. E. seria a concretização dessa tragédia. As razões de cada um dos partidos são idênticas. Jerónimo de Sousa disse já depois das eleições, em 2016, que “adesão foi um desastre e a permanência é um desastre ainda maior. Recuperar a soberania monetária é recusar esta sentença. É não nos conformarmos com o subdesenvolvimento, nem com o empobrecimento, nem com a submissão do País. A integração no euro é um grande obstáculo ao desenvolvimento nacional, que tem de ser removido, a adesão ao euro foi um desastre e a permanência é um desastre ainda maior”. Em março de 2017 a coordenadora do Bloco de Esquerda defendeu a urgência de preparar o país para a saída do euro e rejeita que "Numa Europa em degradação, o nosso país não pode ficar alegremente no pelotão da frente para o abismo". Na mesma altura Marine Le Pen dizia que se ganhar presidenciais a União Europeia "vai morrer"

A arte de bem cavalgar o novo modelo de apoio à Cultura

Mãos que pedem.png

Este artigo de opinião irá provocar indignação a muitos por pensarem que sou contra as artes e a cultura no seu todo. Podem pensar o que quiserem, mas é o meu ponto de vista distanciado, fora da emoção, de preconceitos e baseado no que me é dado pela informação recolhida na comunicação social.

Após anos de estagnação da Cultura pelos anteriores governos a consolidação das entidades culturais era necessária a alteração aos modelos de apoio de forma sustentada. Neste contexto, não discuto o modelo de apoio às artes. Não discuto os apoios à cultura. Não discuto o prestígio das artes. Não discuto os subsídios aos grupos de teatro sejam bons, medíocres ou maus. Não discuto o valor das artes na cultura nacional. Não discuto as razões que movem as artes e os artistas (todos) para obterem apoios. Discuto que possa haver distribuição indiscriminada de subsídios à cultura. Se estas afirmações lhes parecem saídas de um discurso salazarista acertou, elas foram de facto nele inspiradas. Utilizo propositadamente o termo subsídio que alguns acham ser ofensivo e humilhante, mas que, afinal, são dinheiros públicos, contributos do Estado para apoiar as artes, saídos dos nossos impostos.

"Quando ouço falar de Cultura saco logo a pistola" é a frase que é atribuída a Goebbels, ministro da propaganda nazi, mas, ao que consta e, ao contrário do que muitos pensam, pertence a uma peça teatral. A célebre frase que foi proferida é "Sempre que me vêm falar de Cultura... retiro a patilha de segurança da minha pistola Browning" e consta da peça de teatro ‘Schlageter’, escrita pelo nazi Hanns Johst.

A peça Schlageter de Hanns Johst é geralmente considerada como a peça bem-sucedida do teatro nazista, está em conformidade com os objetivos do Terceiro Reich e foi uma peça que alcançou relevo devido à sua manipulação inteligente das emoções do seu público. O termo “pistola” pode ser lido como uma metáfora de todos os instrumentos e mecanismos que derrubam a cultura.

Estou contra as artes? Não! Não estou! Estou é contra as manifestações de descontentamento, indignação, protestos, reivindicações pelas estruturas de criação artística como reação aos resultados dos concursos de apoios sustentados às artes (teatro, música, dança, artes circenses e de rua, artes visuais e cruzamentos disciplinares) para os anos 2018-2021, que vão no sentido de pressionar o poder para a obtenção de verbas cada vez maiores.

São muitos os pedidos e os recursos são escassos. Quando os recursos financeiros são escassos há que ter a habilidade suficiente para fazer a distribuição em função de prioridades e de necessidades. Alguns argumentam que, de entre os países da UE, Portugal é o que terá a menor percentagem destinada às artes, menos de 1 %. Não me recordo de ter visto nos anos do anterior governo, a não ser dois casos pontuais, tanta indignação por parte dos vários representantes culturais. Pois é, os recursos dos países que apresentam como exemplos são diferentes dos nossos. Portugal ainda está a pagar o que se pedimos à troika a que acresce o facto de que há muito pouco tempo saímos duma crise financeira e o oxigénio necessário para a respiração está a libertar-se aos poucos. Estragar o que está a ser feito é um aventureirismo que a direita poderá no futuro aproveitar para voltarmos atrás.

Falando de espetáculos, porque será que, concertos de música pop e rock, apesar de preços caríssimos, esgotam e espetáculos de qualidade estão por vezes a menos de meia casa? Porque será ainda que outros espetáculos que, não recebendo verbas estatais, têm casas cheias. Não consigo dar resposta a tais e a outras questões que poderão ser colocadas. Talvez seja a altura de, antes de pedir mais dinheiro, fazer um diagnóstico das causas da crise na cultura e nas artes. A arte apenas para as elites sobranceiras e intelectuais talvez não seja solução porque as necessidades básicas como alimentação, educação, saúde e habitação, para a maior parte das famílias que vivem apenas dos seus salários neste nosso país, sobrepõem-se à própria cultura e estão primeiro do que as artes. Ou não será? As artes são ao alimento para o espírito, mas se falha o do corpo nada adianta. 

Com a globalização que nos envolve inexoravelmente as artes tais como teatro, dança, música, cinema, literatura, pintura, artes circenses e muitas outras das suas manifestações, estão agora a impor-se outras como a moda, a publicidade, o turismo, o urbanismo, etc.. Nada escapa ao domínio da cultura. Surgiram as chamadas indústrias culturais e muitas outras que, não conseguindo sobreviver com os recursos que geram encostam-se ao bolo do orçamento, há que, portanto, saber premiar os setores de atividade cultural que manifestem ser socialmente mais abrangentes e de inegável qualidade e que prestigiem Portugal.  

A cultura que caracteriza o nosso tempo já não é a que herdámos do passado, ela será definida pelo fim da separação entre cultura e economia que irá, cada vez mais, ser absorvida pelo domínio mercantil deixando de ser considerada como o pequeno mundo das artes e das letras a que se chama alta cultura. Caminharemos, infelizmente para a padronização da cultura.

As tecnologias da comunicação irão terminar com o vanguardismo artístico possibilitando o aparecimento de uma cultura que não é produzida para uma classe social intelectual elitista, mas para todos, sem fronteiras nem classes. As vanguardas artísticas de interpretação destinada apenas a alguns eleitos irão ficar no oposto da cultura de massas, mais social e com a maior acessibilidade possível destinada a distrair o maior número de pessoas, sem a exigência de uma referência cultural erudita, permitindo divertir e dar prazer. É a arte para consumo comercial, mas também com singularidade. O que hoje se verifica é que um filme afasta outro, uma vedeta toma o lugar de outra, um disco substitui o anterior. É tudo uma questão de competição que, por vezes, troca a qualidade pela mediocridade. Neste mundo os subsídios do Estado serão residuais e apenas dirigidos aos tais vanguardismos que ninguém tem interesse em consumir, a não ser algumas elites intelectuais.

Não tenho quaisquer dúvidas sobre a importância da cultura (inclusivamente a política) em qualquer sociedade.  Nos países de socialismo revolucionários a artes eram subsidiadas para a produção de obras de vanguarda que elogiassem as revoluções populares e o culto da personalidade dos líderes. Eram as artes por encomenda.

Para a direita as artes como uma parte da cultura, ao lado da ciência e da tecnologia, são algo que normalmente se afasta das suas prioridades governativas. Por outro lado, é sabido que grande parte do eleitorado ligado às artes está tendencialmente mais à esquerda do PS e, como tal, reagem como forma de pressão.

A direita neoliberal nunca deu muita importância às artes e o seu ponto de vista é que devem ser autossustentadas e apoiadas através do mecenato. Até o ex-secretário de Estado Barreto Xavier (PSD) que nada fez na altura pela Cultura escreveu um artigo de opinião contra o modelo agora implementado assim como outros ex-responsáveis políticos pelo pelouro da cultura. Vendo o furo eleitoralista a direita, nomeadamente o CDS de Assunção Cristas, quer também ser voz participativa nas reivindicações sobre o modelo e o orçamento para cultura e diz que “a cultura não pode ser uma área onde a direita está proibida de entrar”, o que causa espanto é que, quando o seu partido fez parte do poder o silêncio no que respeita à cultura e às artes foi ensurdecedor. Na altura acabar com o ministério da Cultura foi uma das primeiras e mais polémicas decisões do atual governo. Na sequência de uma política de fusão de ministérios operada pelo executivo da altura. A Cultura foi despromovida a secretaria de Estado, tutelada por Francisco José Viegas. A medida visava poupar ao Estado 2,6 milhões de euros, consequência direta da redução de 31% nas estruturas orgânicas, de 36% no número de dirigentes superiores e intermédios, e de 28% nos custos dos cargos dirigentes. Podem recordar aqui.

 

Professores e as polemicas descentradas da educação

Professores e polémicas.png

 A colocação de professores, tanto quanto me recordo, ao longo dos anos de democracia, esteve sempre sujeito a concurso e os professores provisórios, em concurso anual, selecionavam as escolas mais próximas possível das suas residências e as que mais lhe convinham em função dos critérios definidos.

Parangonas (do jornal Público) dizem agora que professores vão ter de mudar de escola outra vez, como se tal não fosse habitual. Diz o mesmo jornal que "esquerda e direita uniram-se, no Parlamento, para obrigar o Governo a abrir um novo concurso destinado a todos os professores do quadro. A Secretária de Estado alerta que vão ser postas em causa mais de 13.000 colocações".

Parece-me que o objetivo é criar entropias para que tudo corra mal na colocação de professores do próximo ano letivo. Para uns, é motivo para greves, contestações e manifestações lideradas pelo manipulador mor dos professores, o dr. Mário Nogueira. Para outros, a direita, é motivo para explorar o descontentamentos e, através disso, mobilizar professores para oposição ao Governo.

Tendo em conta a educação e os atores mais em evidência no processo educativo que devem ser os alunos, os professores devem deixar a observação do seu umbigo e centrarem-se mais sobre o tema da contextualização e da fundamentação sobre uma nova educação que mais tarde ou mais cedo virá a impor-se. Essa é a reivindicação!

 Manuel A Rodrigues

Março 2013

Educação e professores: contextualização e fundamentação

 - Poderia dizer-me, por favor, qual o caminho para eu sair daqui?

- Oh, mas isso depende muito, minha cara menina, do lugar para onde você quer ir...

- Não me importa muito para onde.

- Neste caso, não importa muito por onde você vá...

Lewis Carrell

Alice nos País das Maravilhas

 

Uma das principais características das sociedades contemporâneas é a rápida velocidade da mudança, donde a necessidade de lidar proactivamente com a mudança ao longo da vida que é marcada pela informação que tem de ser gerida, selecionada e transformada em conhecimento, pelo que se impõe uma mudança de paradigma educacional (Fullan, 1993).

Deste modo os professores precisam de ter clareza sobre o caminho educativo por onde querem ir. Isto significa que é preciso que, cada educador, se indague sobre o tipo de pessoa que pretende ser e sobre o tipo de sociedade que deseja ajudar a construir.

Numa sociedade, em processo de mudança acelerado, cada dia mais voltada para a tecnologia, é preciso refletir sobre se querem ajudar a construir sujeitos ativos, transformadores ou meros sujeitos passivos, recetores de conhecimentos.

A Sociedade da Informação exige novos conhecimentos, novas competências e novas práticas o que se reflecte numa necessidade de formação e aprendizagem permanentes que não se adequam em termos de tempo espaço com os atuais modelos praticados ainda na maior parte das escolas. A abertura à receptividade e à mudança inicia-se nas escolas e nas universidades, para que seja dada resposta à necessidade de professores mais flexíveis e dinâmicos.

É função inerente  dos professores contribuírem para a melhoria dos processos de ensino-aprendizagem, e o seu alargamento a grupos populacionais afastados geograficamente das Escolas e Universidades, pelo que existe a necessidade de desenvolvimento de conteúdos educacionais específicos para este tipo de ensino em quem as redes sociais podem ser um instrumento de comunicação  que  assumem um papel fundamental.

Por outro lado, os professores devem centrar-se eles próprios na importância da necessidade de educação/formação ao longo da vida decorrente da constante produção de novos conhecimentos, dinâmica que professores e escolas devem estar conscientes pela necessidade que se impõe no ensino e na aprendizagem.

Harasim, et al (1995) refere algumas investigações efetuadas em vários países desde a década de oitenta, que tiveram como base a utilização do correio electrónico, com crianças do ensino básico que se corresponderam com crianças do mesmo ou de outros países. Outras investigações pretenderam saber até que ponto a escrita dirigida para audiências reais através da socialização virtual poderia, ou não, melhorar a escrita, tendo concluído com resultados positivos.

Desde então as aulas em rede têm florescido, tirando vantagens das novas comunicações em rede para incluir discussões, projectos, pesquisa em actividades científicas, ambientais, sociais, políticos e económicos, etc..

Os professores precisam, então, ter um norte, um horizonte que os oriente. Quando o professor tem clareza sobre onde quer chegar, encontrará teorias que o ajudem a descobrir o melhor caminho para lá chegar. Se o horizonte da escola é a busca da construção da cidadania, serão procuradas respostas sobre o caminho a seguir com os alunos e espaços da construção de conhecimentos de forma autónoma e solidária.
Técnicas e métodos significam muito pouco se não se tem um horizonte em vista.
Cada professor terá de saber onde quer chegar. Sabendo o ponto de chegada fica mais fácil traçar o roteiro da viagem com os alunos.

Até há pouco tempo os currículos organizavam-se de forma disciplinar. Disciplinas estanques, sem integração entre si, eram discutidas com os alunos, através de conteúdos isolados, com finalidade em si próprios.

Atualmente, cada vez mais, os professores têm a oportunidade de poder articular entre si os conhecimentos das várias disciplinas, com maior razão quando se trata da formação de professores para o 1º Ciclo do Ensino Básico que irão exercer a sua actividade em regime de monodocência. Os professores devem repercutir na sua atuação devem evitar sempre tal for possível, discutir conhecimentos desvinculados da vida e fragmentados entre si.

A realização de práticas interdisciplinares depende de factores como sejam a humildade, a comunicação, espírito crítico, criatividade, compromisso e trabalho em equipa, que são pouco comuns nos espaços educativos das escolas sejam organizados segundo princípios de segmentação temporal, espacial e programática.

Os conteúdos das disciplinas tendo como eixo os princípios educativos e núcleos conceptuais, deveriam interpenetrar-se num todo harmónico e pleno de significado para os alunos, pelo que a interdisciplinaridade poderá ser uma via para atingir estes objectivos. A interdisciplinaridade exige uma mudança radical e uma flexibilidade para aceitar a inovação o que gera um confronto com as estruturas montadas, com a acomodação, com os dogmatismos e preconceitos ideológicos.

Não existindo aquela “ruptura” continuará a existir uma instituição cujo espaço e o tempo não coincidem com o espaço-tempo da cultura atual, que tenderá a manter-se anquilosada pelos discursos ideológicos conservadores da direita e da esquerda para se manter o status quo que lhes mantenha o poder de mobilização reivindicativa dos professores destituídos do interesse dos alunos

A vida moderna caminha cada rapidamente para a eliminação de fronteiras nos campos económico, político e cultural. O desenvolvimento das telecomunicações e das redes sociais e outros novos media vieram atenuar os limites geográficos. As ciências, progressivamente integram conhecimentos de várias áreas. A medicina, por exemplo, já incorporou ao seu campo de actuação princípios da moderna física, avançando na medicina nuclear. A agricultura tem beneficiado da engenharia genética. O mesmo deve acontecer em educação. Assim sendo, um professor de Geografia, por exemplo, não se pode isolar, nos limites de sua disciplina, sob pena de continuar a lidar com o saber de maneira fragmentada e desarticulada.

Não basta que alunos e professores, sejam capazes de realizar apenas procedimentos elementares nas suas aprendizagens, mas que desenvolvam também competências de aprendizagens transdisciplinares com um tempo significativo de prática sem afastamento das competências e objetivos curriculares venha a garantir aos alunos a transferência das aprendizagens e autonomia.

A perspetiva interdisciplinar visa preparar/formar alunos para novos ambientes de aprendizagem cuja vantagem se insere numa auto-formação ao longo da vida.

Experiências anteriores em redes de aprendizagem demonstraram que podem ser obtidos benefícios significativos na educação.  A qualidade das interações pode ser aperfeiçoada e melhorada, pois que, a interação, através de redes, ajuda a quebrar as barreiras e inibições da comunicação que limita a troca aberta de ideias nas salas de aula tradicionais (Eisenberg e Ely, 1993).

Os professores que participam em comunidades profissionais de aprendizagem envolvem-se em reflexões e debates acerca do impacto que as tecnologias têm nas suas práticas e nos seus alunos (Shapiro eLevine, 1999). As ferramentas de cooperação “online” utilizadas em comunidades de aprendizagem e desenvolvimento profissional   podem ser usadas para o diálogo e para produção de produtos pelos professores para análise e discussão e avaliação entre os diferentes elementos do grupo. Daqui a lógica, que tem em conta o desenvolvimento dos professores para adquirirem competências no domínio do ensino on-line para que o possam utilizar para si ao longo da vida preparando também os seus alunos com a fluência necessária nestes domínios.

 A internet proporciona um nível motivacional muito elevado para professores e alunos que interagem com o computador com entusiasmo, o que falta normalmente nas aulas mais convencionais, estimulando ao mesmo tempo a partilha de ideias com outros colegas quer professores quer alunos.

A decisão para a adopção educacional de redes fundamenta-se segundo Kaye (1991) em desenvolver oportunidade para estabelecer interacções sociais como os seus parceiros.

Já em 1993 Harasim e Yung, num levantamento efetuado na Internet entre 240 professores e alunos, 70% mudaram a forma como eles viam a educação. Em 176 respostas à questão sobre o que é diferente na comunicação mediada por computador é diferente das aulas tradicionais 90% foram respostas positivas e notavam que:

  • O papel do professor mudava para o de facilitador e orientador;
  • Os alunos eram mais activos e participativos e as discussões eram mais detalhadas e profundas;
  • Os alunos tornavam-se mais independentes;
  • O acesso ao professor torna-se mais directo e como pessoa idêntica;
  • A aprendizagem torna-se mais centrada no aluno, e ao seu próprio ritmo;
  • A oportunidade de aprendizagem para todos torna-se mais equitativa e as interacções entre o grupo aumentam significativamente;
  • O ensino-aprendizagem é colaborativo;
  • Há mais tempo para refletir ideias e explorá-las;
  • A hierarquia professor-aluno é quebrada e os professores aprendiam e os alunos ensinavam.

As interacções on-line partilham muitas das características com o modelo da educação presencial, como sejam a entrada de ideias discussões de turma, debates, e outras formas de conhecimento através da troca de ideias. O conteúdo do currículo pode ser organizado por tópicos sequencial e atempadamente, e os alunos podem trabalhar em pequenos ou grandes grupos e individualmente. Desta forma os ambientes on-line facilitam o resultado da aprendizagem sendo iguais ou superiores aos gerados em situações presenciais. (Hiltz, 1994; Wells, 1990)

 

Bibliografia

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1993, Plugging into the Net. ERIC Review 2(3), 2-10

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Harasim, L.; Yungt, B.

1993, Teaching ans Learning on the Internet. Department of Communication, Simon Fraser University, Canadá

Hiltz, S. R.

1994, The Virtual Classroom: Learning without Limits via Computer Network. Human-Computer Interactions Series, Norwood, Ablex Publishing Corporation

Wells, R. A.

1990, Distributed Training for the Reserve Component: Remote Delivery Using Asynchronous Computer Conferencing, Idaho National Engineering Laboratory.

Shapiro, N. S.; Levine, H. J.

1999, Creating Learning Communities: A practical guided to winning support, organizing for change, and implementing programs. Josey-Bass Publishers, Inc, Sam Francisco

Fullan, Michael

193, Changes Forces, The Fal~mer Press, London

Gaspar, Maria Ivone

2001, Ensino a Distância e Ensino Aberto – Paradigmas e Perspectivas, Perspectivas em Educação, Nº especial, Junho 2001, U.Aberta