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O campeonato do empurra

por Manuel AR, em 05.07.20

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O desconfinamento apressado na Região de Lisboa e Vale do Tejo (RLVT) e sem qualquer estratégia passou a ter, para além de responsabilidades sanitárias, responsabilidades políticas. O problema provavelmente não ficará por aqui; deixemos vir a “Champions League” e veremos.

O sentimento de fascínio de Fernando Medina e de António Costa pelo acolhimento daquele acontecimento desportivo que outros países provavelmente rejeitaram poderá vir a acentuar a propagação da epidemia covid-19. A ver vamos se não se agravará ainda mais em função da decisão de haver, ou não, espetadores mesmo com medidas de segurança.

Deslumbrados pelo dito sucesso inicial com que Portugal conseguiu de certo modo conter epidemia abriram portas ao desleixo pós confinamento na região de Lisboa criando uma espécie de corredor livre para o agravamento em Lisboa do covid-19.  Tudo entra em Lisboa minha gente, venha dondo vier, com ou sem controle que, quando existe, é apenas de fachada.

Costa deu o mote ao criticar a ministra da saúde e Medina agarrou a deixa e passou a acusar de incompetência os responsáveis pela saúde, seguem a regra da criação de bodes expiatórios. Face ao que está a acontecer na região de Lisboa desligam-se das responsabilidades que tiveram e apontam agora o dedo a outros. Ou não tenha de começar a preparar o terreno para as autárquicas.

Aliás tem sido notório os disparates e as contradições nas mensagens por parte do Governo e da autarquia de Lisboa através de Costa, Medina, ministra da saúde e ministro das infra estruturas Pedro Nunes Santos. O presidente da Câmara de Lisboa disse que "Não há nenhuma demonstração de que os casos se devam ao desconfinamento". Então se os casos aumentaram após os desconfinamento na RLVT como se explicam os números da região anteriores com o aumento de casos que foram divulgados após essa decisão.

António Costa lança o maior disparate, quiçá seguindo Trump, ao diz que o aumento de número de casos de covid-19 se deve ao aumento do número de testes. Vamos lá ver: então será que para diminuirmos o número de infetados o melhor é não fazer testes? Ou será que não há infetados e os testes é que os criam? Ou será que número de infetados depende do número de testes efetuados? Os infetados existem, mas se não se fizerem testes deixam de existir!

A ministra da saúde Marta Temido que no início era tão certinha também começou a meter os pés pelas mãos talvez por ordem Costa. Que pretende tapar o sol com uma peneira. Quanto à possibilidade de os transportes público na RLVT poderem ser causadores de propagação do vírus a ministra refere num dia o que no dia seguinte altera por força da linguagem. Vejam-se estas declarações mencionadas no jornal Público:

“Questionada sobre a situação de Lisboa e Vale do Tejo e a questão dos transportes públicos, Marta Temido explicou que o que disse foi que “não são conhecidos casos de contágio que tenham tido origem em transportes e não que os transportes não sejam pela sua sobrelotação, pelas suas condições, espaços a merecerem uma especial cautela”. “Se não fosse assim, não tinha o Governo decidido desde o primeiro momento que haveria uma coima pelas viagens em transportes públicos sem máscaras ou viseira”, salientou.”

O que se pode questionar é se utilização de máscaras pela maioria dos utentes é suficiente em situações de autêntico aperto nas carruagens ou autocarros para afastar quaisquer riscos de infeção.

E mais à frente relata o mesmo jornal:

“Penso que estes dois aspectos sublinham intensamente o ponto para o qual estava a chamar atenção e para aquilo que era sobretudo a substância da minha chamada de atenção. Estamos a enfrentar um fenómeno novo relativamente ao qual temos muitas incertezas e, em muitas circunstâncias, lapsos de conhecimento. Esta questão dos contágios em transportes é uma delas. Embora da nossa vida empírica percebamos que há um conjunto de circunstâncias para que sejam locais particularmente expostos. Mas se não tivermos estes dois argumentos em paralelo, penso que não estamos a prestar bom serviço ao conhecimento e à objectividade”, reforçou Marta Temido.”

A minha opinião é que estará a ser pressionada no Governo para fazer passar para a opinião pública uma falsa realidade. Aliás, o que também se tem verificado é que os números de infetados que são divulgados faltam num dia e no dia seguinte estão a mais e também a culpa deste caos é a de terceiros que informam mal as entidades de saúde que nos divulgam, a DGS.

Por outro lado, a mensagem que por vezes passam é a de que a medida da gravidade da situação está em saber apenas se há ou não número de camas suficientes no SNS para que este não fique superlotado e sem resposta, quanto ao resto deixa andar.

O caso do Reino Unido que nos coloca numa lista negra de países não seguros para os ingleses viajarem sem que no regresso não tenham de ficar de quarentena deve servir como sinal para enfrentar e superar o problema que o governo concorreu para o originar e para pedagogicamente reforçar a nossa determinação no combate. Os critérios para qualquer avaliação de avaliação devem ser iguais quando se comparam várias entidades e os números de novos casos de infeção pelo novo coronavírus por cada 100 mil habitantes tem sido o critério. Pode-se discutir se esse deveria ser o único ou o melhor critério. Mas, seja qual for a resposta, é o que está a servir de base às análises de todos os países que discutem a reabertura das suas fronteiras.

Com base neste critério Portugal é o segundo pior registo da Europa, com quase o dobro de novos casos em 14 dias contados até esta sexta-feira face aos registados no Reino Unido e para os quais a RLVT tem vindo a contribuir.

Gestos e palavras como as que se têm ouvido não vão nesse sentido. A perceção que os portugueses têm é que tudo quanto agora possam dizer sobre o covid-19 com todos os dias nos afrontam é que cabe na categoria das manobras de diversão.

Só esperamos é que as estratégias de Bolsonaro não sejam inspiradoras para o Governo de Portugal.

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publicado às 15:50

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Depois do choque inicial causado pelo coronavírus e vendo o que se estaria a passar noutros países fecharam-se em casa, isto é, confinaram não fosse o diabo tecê-las e de seguida “fecharam-se em copas” sobre a escrita que eventualmente fosse contra as decisões e precauções vindas da DGS e do Governo. Centraram-se a perorar sobre o coronavírus para aqui, coronavírus para ali e mais o que se deveria e não deveria fazer-se, tudo no bom recato da segurança caseira, um sem fim…

Terminado e aliviado o confinamento, pé ante pé, lá fomos todos abrindo mão das necessárias cautelas. A maior parte dos que tinham ido trabalhar por necessidade ou imperativo, assim continuaram após o confinamento e no estado de calamidade deslocando-se como de costume apesar dos perigos que sabiam existir. De regresso a casa talvez se juntassem aqui e ali para beber um copo. Há quem assim não fizesse nomeadamente os jovens, e não apenas eles, que organizaram festas e encontros como os de Lagos e Carcavelos. São os irresponsáveis que potencialmente alimentam o vírus predador que os devorará a eles e a outros e que pensam que só pode acontecer aos outros.

Depois da abertura parcial das portas e já refeitos, em parte, do susto que apanharam dedicam-se agora a elaborar pensamentos altamente que façam soar as campainhas do afinal estava tudo mal o que se fez. Tudo deveria continuar como dantes e apontam exemplos como o da Suécia. E tudo deveria ter continuado sem paragens em nome de “um bem maior”, dizem. Ora penso que o bem maior do que a vida e a saúde da população e de quem trabalha não é o bem maior a que esses se referem mas sim às grandes empresas e ao capital que se reclama defensor da economia, mas que se algum trabalhador adoecer, seja pela Covid-19 é logo dispensado ou melhor, despedido. Assim aconteceu com o caso de um jovem gestor de marketing que foi um dos primeiros infetados do país que foi demitido, relatado no Expresso do último sábado.

Mas voltemos aos jovens que pensam que nada lhes acontece. Pois claro! Para eles já tudo passou já se pode andar à molhada no meio da rua e promover encontros de dezenas ou centenas. Dizem: não se vê ninguém doente, nem na praia, nem no bairro e os amigos não estão infetados, como eles tivessem visão de raios X quais super-homens E vai daí, há um telemóvel que passa de mão em mão, há um copo que se passa a outro para dar um golinho de cerveja porque a dele já acabou, passa aí um cigarro que eu já não tenho tabaco, e todos petiscam metendo a mão no pacote de batatas fritas que está na mão do outro. Não há risco, pois não, são todos saudáveis. E, senão quando, passado algum tempo, lá vão uns tantos ao hospital à rasquinha, sabem lá eles com o quê!

Dos que chegam ao hospital alguns não foram contaminados em grandes festas e julgam que a doença só é transmitida por quem tem sintomas. Erradíssimo! Essas informações beberam-nas eles nos “bafons” e nas traseiras das redes sociais.

Hoje no jornal Público saiu um artigo com o “Os jovens não se estão nas tintas para os outros, mas apenas fartos” e que começa assim:

“Os jovens que estão a fazer aumentar os casos de contágio porque se reúnem em festas ilegais e aos magotes nas praias e espaços públicos são os mesmos que, em Março e Abril, cumpriram zelosamente o confinamento, completaram a escolaridade à distância e até se prontificaram a ajudar os mais velhos nas compras. “Não são pessoas que se estejam nas tintas para os outros e para o país”, lembra a psicóloga Margarida Gaspar de Matos. Mas, agora que o desgaste lhes pesa, as aulas acabaram e vêem as praias e os festivais de verão escapar-se-lhes entre os dedos, mantê-los distantes socialmente, exige uma campanha feita à medida.

Não senhor, não são os mesmos jovens a que a psicóloga se refere ao fazer suposições sem dados empíricos sustentáveis para o comprovar está a cair em perigosas generalizações e, como sempre, as generalizações confundem as pessoas. Esses a que a senhora psicóloga se refere pertencem a uma outra classe, a dos responsáveis. Os outros os que estão fartos e só pensam em concertos são os provocadores, os da irresponsabilidade. Estarem fartos, é sinónimo de pôr em risco a saúde pública por negligência o que pode ser considerado crime.

Ignoram que até sábado segundo a DGS mais de 5500 infetados tinham até 30 anos, quase 2000 a mais do que no mês passado. Estes são os jovens que organizam jantares em casa e que acham que por ser em casa não há perigo, são os que no trabalho usam máscara e desinfetam as mãos, mas à noite reúnem-se em grupo sem proteção, são os que foram visitar amigos que estavam infetados e não se protegeram. Parecem que não lhes cabe responsabilidade. Ostentam a irresponsabilidade na prática diária desconhecendo que, segundo profissionais de saúde, muitos dos doentes mais velhos que passam pelos cuidados intensivos saem de lá mais rapidamente do que os mais jovens.

Para finalizar transcrevo parte de um caso relatado no jornal Expresso do dia 20 de junho que pode ser elucidativo para perigos que qualquer um pode correr.

“A recuperar em casa, onde vive com os pais, conta pelo telefone que enfrentar a doença não foi fácil, mesmo para quem praticava regularmente kickboxing e muaythai. “Sempre fui saudável e só quem passa por isto sabe o quanto é mau.” Luís nega qualquer comportamento de risco. Diz que ficava em casa e “só saía à noite para correr e fazer exercício, sempre sozinho”. Mas, então, como se terá infetado? “Talvez porque ao correr e exercitar-me, suava muito e punha a mão na cara, mesmo que antes tivesse colocado as mãos no chão para fazer flexões.” Pois, talvez. Mas não saía mesmo nunca? “Às vezes, à noite, ia às bombas de gasolina tomar café, mas ficava pouco tempo.” Pois, talvez.

Que fique o alerta os jovens, mas também os dos  grupos dos 30 aos 59 anos sem preocupação poderão ser os grandes causadores do agravamento da epidemia pondo em risco a sua vida e a de muitos outros para os quais foram cadeias de transmissão.



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publicado às 19:34

Despreocupação, desvairo ou deslumbre?

por Manuel AR, em 23.06.20

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À custa disso estamos a abrir demasiado as “portas” e o perigo é estarmos a traçar o caminho para que Portugal venha a ser considerado um Corredor do Covid-19.

Portugal pode ser excluído da lista de países considerados seguros pelo Reino Unido. Segundo o The Times, a lista inclui países como França, Espanha, Grécia, Itália e Turquia, mas Portugal é objeto de um “debate intenso” devido ao recente surto no Algarve.

O que se tem vindo a passar na RLVT - Região de Lisboa e Vale do Tejo após o alívio do confinamento especialmente no concelho de Lisboa tem colocado em causa as medidas que foram tomadas inicialmente no ataque à Covid-19 e cujo poder, através do primeiro-ministro António Costa, tanto elogiou o povo português pelo seu comportamento durante o confinamento.

Como a economia não pode parar durante tanto tempo, e bem, após ter terminado o confinamento parece ter-se entrado numa desbunda a que chamam as medidas para entrada numa nova realidade em que as medidas tomadas são plenas de contradições.

Ontem no Jornal da Oito da TVI foi entrevistado o presidente da Câmara de Lisboa Fernando Medina sobre as diversas questões relacionadas com o aumento de infetados pelo Covid-19 na Região de Lisboa e Vale do Tejo e no concelho de Lisboa. Medina teve um desempenho inseguro e pouco convincente nos seus argumentos sobre o controle da epidemia e sobre a vinda da “Champions League”. Sobre este último o argumento de Medina foi o de Portugal e Lisboa passarem a ser conhecidos no estrangeiro. Resta-lhe perguntar à custa de quê?

Foi ainda infeliz ao comentar o pedido de cerca para Lisboa dizendo que “Salvador Malheiro estava com saudades de ir à televisão”. Salvador Malheiro até pode ter exagerado, mas o argumento de Medina foi fraco. O líder do PSD, Rui Rio, veio criticar as palavras do presidente da Câmara de Lisboa. Em causa está o desafio lançado pelo autarca de Ovar, que defendeu a criação de uma cerca sanitária na Área Metropolitana de Lisboa para conter a propagação do vírus.

A realização da final da Champions League em Lisboa, onde nos últimos tempos surgiram vários surtos de  Covid-19, está a causar polémica. No entender do primeiro-ministro, Portugal foi o escolhido entre outros para a realização do evento por ser seguro. Eu tenho outra leitura, Portugal foi escolhido porque outros países o terão rejeitado e porque Portugal abrindo as portas sem controlo e a quem quiser entrar e sem quaisquer medidas de segurança à entrada seria fácil calcular que Portugal iria receber o evento de braços abertos.

António Costa acrescentou que o evento "é também um prémio merecido aos profissionais de saúde", que demonstraram que Portugal tem um Serviço Nacional de Saúde (SNS) "robusto para responder a qualquer eventualidade". Esta frase caiu como uma afronta em alguns profissionais de saúde.

Todos sabemos, pelo menos os mais conscientes do problema que não estão em causa liberdades democráticas como muitos e muitas comentadoras a que se associam comentadores de traseira nas redes sociais nos querem fazer acreditar. O problema real está na economia e concretamente no turismo que se esvaiu. À custa disso estamos a abrir demasiado as “portas” e o perigo é estarmos a traçar o caminho para que Portugal venha a ser considerado um Corredor do Covid-19. Será possível que apenas a freguesia de Santa Clara seja a única que fica em situação de calamidade por ser limítrofe de outras fora do concelho de Lisboa? Será garantido que não haja freguesia no centro de Lisboa que não representem situações de risco até devido a agrupamentos de imigrantes ou refugiados que habitam em grupos que estão sem controle sanitário?

A quantidade de novos casos na região de Lisboa e Vale do Tejo, que há várias semanas é o "motor" da pandemia no país, preocupa as autoridades. A anunciada reunião de ontem da ministra da Saúde, Marta Temido, com António Costa, autarcas e com o presidente da Área Metropolitana de Lisboa foi mais um paliativo para mitigar a crise do aumento dos contágios nos concelhos da Região de Lisboa e Vale do Tejo.

Para ajudarem a desdramatizar e a tornear a questão os noticiários televisivos centram-se, mais uma vez, nos lares de idosos como se o real problema da expansão da pandemia estivesse aí. A pedagogia deve ser dirigida aos potenciais transmissores que são os dos grupos etários mais jovens como se mostra no gráfico seguinte.

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O que se verifica é que a taxa de 4% de letalidade global por Covid-19 e de 17% acima dos 70 anos como afirmou a ministra da Saúde em conferência de imprensa. Está bem e então!? O que acontece é que são eles, os mais jovens, quem contagia os mais velhos e de outras idades mais novas com quem contactam.

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publicado às 18:18

Preparar vilanagem os milhões virão aí

por Manuel AR, em 17.06.20

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O cansaço de António Costa e o de alguns dos seus ministros e secretários de estado estão a vir à tona depois destes meses todos de Covid-19, coronavírus, Novo coronavírus SARS-CoV-2 ou lá o que é que nos tem trazido a todos numa azáfama de paciência e de receios fundados empurrando a economia para o limite de um precipício no alto duma arriba.

O esforço de Mário Centeno e de todos nós foi destruído no espaço de três meses. Alguns comentadores da esquerda radical, um dos quais me escuso dizer o nome, escreve contra tudo e todos quantos têm elogiado Centeno pelo seu trabalho.  Se fossem potenciais candidatos a ministros diria que estariam no domínio da síndrome de que grande parte dos portugueses sofre: a chamada dor de cotovelo. Mas não, são apenas comentadores de política e partidários de uma esquerda que está sempre contra todos e tudo o que não provenha do seu sectário mundo político-ideológico, mesmo que, comprovadamente, seja bom e se mostre útil, eficaz, e traga riqueza que possa vir a melhorar Portugal e a vida dos portugueses. Convém aqui esclarecer que no quadro dos extremistas de direita também os há, e até piores, mas aí o que muda são as moscas e o resto. Para bom entendedor meia palavra basta!

Saiu no Expresso no dia de Santo António um artigo de Sousa Tavares muito acutilante sobre o pós Covid-19, com o qual em parte concordo,  e o que nos poderá trazer se forem cometidos os mesmos erros do passado. Refiro-me aos oportunistas e clientelistas dos costume no que se refere a verbas de milhões a fundo perdido que se esperam da União Europeia para fazer face à crise causada pela pandemia Covid-19 e às quais muitos se irão lançar como gato a bofe. Não apenas os que andam por aí, mas também novos que se estão já a perfilar e a elevar-se nos céus para vislumbrarem com olhos capciosos, quais abutres famintos, os dinheiros que hão de vir.  

O ministro da economia, Siza Vieira, numa entrevista à “Visão” refere-se ao apelo que anda a fazer às empresas: “Preparem-se, porque vão ter uma oportunidade provavelmente única na nossa História para aplicar recursos naquilo que faz falta e criar condições de crescimento, de competitividade e de produtividade para as vossas empresas.”

Se fizermos uma retrospetiva encontraremos na nossa história política governos onde houve promessas de utilização de dinheiro vindo da U.E. que viriam a incentivar a nossa economia e o nosso desenvolvimento. Entretanto no correr dos acontecimentos surgiram empresas efémeras que nasceram às centenas e que propunham para serem financiados projetos que era sabido serviam apenas para “sacar” dinheiro dos fundos europeus.

Muitos privilegiados de “famílias muito bem” criaram na altura empresas financiadas pela U.E. para darem cursos de formação nas mais variadas áreas com os dinheiros vindos de Bruxelas, muitas delas fictícias e autênticas burlas.

Muitas outras situações se verificaram. O caso da agricultura por exemplo em que dos cerca de 400 mil agricultores 220 mil receberam subsídios para não produzir. Eram agricultores que se encontravam num regime em que eram apenas obrigados a manterem-se em condições para voltarem a ter produção nos mesmo terrenos de onde arrancaram o que lá tinham, havendo outros dois mil que receberam mais 250 milhões de euros do que todos os outros juntos, tendo o país perdido entre 1999 e 2009 25% das explorações agrícolas segundo dados do Instituto Nacional de Estatística.

No passado  também houve uma universidade privada situada lá para os lados do Príncipe Real, em Lisboa, o ISCEM que foi financiada por Bruxelas e licenciado pelo Governo em 1990 que acabou por ser extinta em setembro de 2019 tendo sido um dos seus alunos o chef José Avillez.

Agora são mais milhares de milhões de que alguns oportunistas estarão à espera. Cerca de 15,5 mil milhões de euros em subvenções (distribuídas a fundo perdido) e 10,8 mil milhões de euros sob a forma de empréstimos concedidos em condições de juros muito favoráveis que pode confirmar aqui,  ao que se acrescem os milhões do Quadro Plurianual 21-27 e os que ainda restam do de 20-23. Vamos a ver senão se isto não irá ser uma espécie de “bodo aos pobres” direcionado aos mais ricos.

Em teoria à espreita também estrão o PCP e o Bloco de Esquerda cujo dinheiro quererão que seja distribuído para aumentos salariais da função pública e na admissão de pessoal para o Estado. Para eles quanto mais melhor até que em Portugal tudo seja, até a mercearia do bairro, estatizado sem qualquer critério. Padecem da síndrome da estatização de tudo quanto sejam empresas.  

Esperemos que a alcunha de despesista com que a direita denominava o Partido Socialista e que se foi esbatendo com António Costa e Mário Centeno não venha de novo à tona embriagados pelos milhões que, se espera, cheguem.

A distribuição e o seu destino sem critério e rigor de verbas que não sejam minuciosamente analisados é um perigo. Os lóbis que por aí devem andar irão pressionar no sentido de exigirem uma grossa fatia. Muitos irão sugerir, para distribuição das fatias do bolo, uma espécie de “simplex”, ou seja, o mesmo que alívio ou a eliminação da burocracia na distribuição das fatias por um Estado de clientelas e protetor dos amigos em vez do rigor e disciplina.

Que estes milhares de milhões não nos façam cair na desgraça idêntica à do passado em que alguns se aproveitaram da grande fatia do bolo em proveito próprio deixando desenvolvimento e recuperação económica de Portugal mais uma vez à míngua e a navegar à vela como no passado.

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publicado às 19:06

Audiências e jornalismo de investigação

por Manuel AR, em 12.06.20

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Para com a televisão somos todos crédulos e somos levados por quem pensamos que é politicamente honesto e que nos vende ideias, ideologias e nos sugere algo para alcançarmos aquilo que supomos ser a verdade.

A justificação por jornalistas de falta de liberdade de imprensa e de liberdade de expressão são por vezes refúgios para quando, numa reportagem, se ultrapassam limites cujo bom senso leva a avaliações limitadoras da emissão de uma reportagem de jornalismo de investigação, como várias vezes já tem acontecido.

Há cerca de duas semanas li no jornal Público que Ana Leal que tem um programa dedicado ao jornalismo de investigação na TVI foi suspensa por divulgar emails trocados com a direção. A defesa acusa o Conselho de Redação de censura. Está em causa, até agora, “a divulgação ao conselho de redação (CR) da TVI de e-mails particulares entre a jornalista e a direção do canal”.

A defesa de Ana Leal acrescenta que “está em casa, a receber vencimento, mas sem atividade atual na TVI – explica ainda que está em causa uma questão de “liberdade de imprensa e de expressão”. Na altura, ainda afirmou que, “não há fundamento para a suspensão ou processo disciplinar. Há divergências editoriais normais e acho que esta ação de a suspender e promover um inquérito é pouco compatível com o espírito de liberdade de imprensa e expressão que devem reinar”.

Desconheço as razões para os fundamentos, ou não, da sua suspensão. Apesar de o tema não ser de somenos importância tal facto não me interessou e apenas serviu de mote para a preparação deste comentário.

Não é a primeira vez que ao entrarem em conflito com as direções de informação, redações e setor editorial estas são acusadas por jornalistas de fazerem censura interna, de falta de liberdade de imprensa e de expressão. Não sei se tal se verifica ou não, mas o conceito é demasiado forte e pode confundir-se com a prática do bom senso, ou falta dele, quanto às reportagens ou parte delas feitas pelos jornalistas destinadas a ir para o ar. Aconteceu também na RTP1 com Sandra Felgueiras com o programa Sexta às Nove. A acusação de censura pode não ser mais do que uma espécie de refúgio dos(as) jornalistas que consideram que tudo deve ser permitido, e sem limites.

Entre as televisões e especificamente no que se refere também ao chamado jornalismo de investigação parece existir uma competição entre canais e os próprios jornalistas de cada um deles, não pela qualidade, nem pela isenção na informação, mas pelos conteúdos que possam elevar os shares.

As peças de jornalismo de investigação não têm primado pela qualidade e isenção porque tem como objetivo o impacto sensacionalista que capte audiências que, por isso mesmo, mostram falta de valor informativo e técnico. As peças que vão para o ar são muitas das vezes confusas, ambíguas que em vez de informar desinformam.

Peças jornalísticas de investigação apresentadas em dias certos, conforme os canais, são dirigidas a um certo tipo de audiências mostram-nos simplesmente o tratamento de um tema chave de interesse para o momento. O “universo” do tema apresenta-se fracionado preocupando-se mais com os impactos nas potenciais audiências, e menos com a comprovação dos factos numa preocupação de pré-julgamento público através da apresentação de realidades fracionadas.

É um facto que algum desse “jornalismo de investigação” feito tipo à la carte tem o interesse de fidelizar certo o tipo de audiências. Não tem sido raro que na sequência de peças de jornalismo daquele tipo que por falta, omissão ou adulteração dos factos tenha havido protestos e até repúdio que a redação do canal emissor tarda ou se escusa posteriormente a divulgar a sua falha e quando o faz é através de comunicados da redação plenos de justificativas complicadas enunciadas em voz off.

No “jornalismo de investigação” que nos impingem não são despiciendas as conotações ideológicas numa perspetiva de revelar algo que possa prender a atenção do público por qualquer coisa que provoque escândalo ou indignação  o que interessa em determinado momento. Quanto à forma e ao conteúdo o método baseia-se em visões parciais e truncadas dos factos que respeitam a uma certa realidade destinada a instrumentalizar a opinião pública.

Os conteúdos das peças pretendem mostrar factos e provar as teses para credibilizar as reportagens nas quais se inserem entrevistas onde são selecionados extratos de frases e raciocínios truncados das mesmas que não interessem por não ajudarem a defender a tese do(a) autor(a) jornalista, oferecendo ao telespectador apenas partes de realidades descontextualizadas. Quanto à forma as peças são montadas recorrendo a artifícios de edição e a entrevistas com planos rápidos com perda da continuidade das afirmações dos intervenientes acrescido ou substituídos na narrativa em voz off. Utilizam-se técnicas da mostra de documentos e passagens de momentos alusivos que nada têm a ver com a realidade dos factos que estão a ser relatados. São inserts destinados a criar impacto no telespectador que apenas servem para preenchimento da peça, para encher chouriços como se diz.  Um exemplo: numa reportagem ao tratar um tema sobre corrupção ou peculato recorre-se na edição de vídeo não linear a inserts a notas de euro a serem contadas seguidas de novas sequências de imagens de pessoas a manusear documentos que o espectador não consegue identificar devido à rapidez dos planos que servem para o dinamismo e impacto visual da reportagem.

Os significados das imagens são obtidos quando os seus elementos são vistos e logo de seguida interpretados, assim, podem ser criados e/ou modificados de cada vez que elas forem vistas consoante o contexto sócio histórico da sua produção que influenciará a interpretação de quem as vê.

A semiótica trata da análise das relações entre uma coisa e o seu significado, quando se faz a interpretação de imagens, sejam fixas ou em movimento, com a finalidade consciente ou não de a compreender como nas reportagens televisivas. Nestas a semiótica das imagens e a análise do seu conteúdo levantam por vezes interrogações e ambiguidades que se tornam pouco esclarecedoras para os telespectadores.

Assim, geram-se narrativas audiovisuais específicas, por meio de práticas de significação, para se produzirem certos sentidos e não outros. Isto é, durante a peça jornalística dão-se aos elementos nela constantes uns certos significados, e não outros, para criar efeitos de sentido pretendidos nos telespectadores. Utiliza-se um conjunto formal de significações para dar um sentido às relações entre os elementos da linguagem que se manifestam em diversas naturezas das expressões verbais, visuais e audiovisuais.

Em muitas peças a que pomposamente atribui a designação de “jornalismo de investigação” estão por vezes intenções que passam para além dos factos e do esclarecimento do público, daí que a edição das peças com situações descontextualizadas e com a inclusão de imagens alusivas e que, por conotação com o facto, possibilitam, em si mesmas, interpretações erróneas por parte do telespectador.

Para além do cunho ideológico e político de que algumas dessas reportagens também se revestem pretende-se o efeito da eficácia tendo em vista a captação de audiências para a narrativa através de técnicas populistas e demagógicas. Utilizam-se formas, técnicas e modelos também utilizados pelos populistas para se revelarem antissistema. Um jornalista numa da reportagem não é ideológica e politicamente isento e fica sem o perceber envolvido apesar do esforço que faz para criar ao telespetador a perceção de distanciamento, imparcialidade e isenção na denúncia de corrupções, compadrios, negócios ilegítimos e outros. Em síntese, elege-se um alvo a atingir e, a partir daí, produz-se uma peça a que se dá um título atrativo e classifica-se como jornalismo de investigação.

Têm sido realizados vários estudos sobre os efeitos dos media, como por exemplo o de McDonald, Daniel G. Twentieth-Century Media Effects Research em 2004, que tratam a forma como são escolhidas as mensagens a difundir e as motivações económicas, políticas ou ideológicas dos jornalistas. Contudo ainda há quem tenha uma visão romântica do papel do jornalista que o vê a “representar a sociedade objetivamente, desinteressado e imune a qualquer influência, impossível de desviar da sua missão de informar e contar a verdade, ‘doa a quem doer’”. Porém não é assim, há quem define o que será emitido de acordo com o valor-notícia, a linha editorial e outros critérios, de acordo com os acontecimentos considerados suficientemente interessantes, significativos e relevantes para serem transformados em reportagem ou notícia.

Johan Vincent Galtung e Mari Holmboe Ruge sociólogos noruegueses utilizando uma psicologia simplificada da perceção e algumas suposições adicionais apresentaram em tempo um sistema de que descrevem eventos usados ​​como uma definição para o que deve ser notados nas notícias: a hipótese da adicionalidade em que quanto mais condições satisfaz um acontecimento tanto maior a probabilidade de se tornar notícia; a hipótese de complementaridade em que os fatores tenderão a exclui-se, pois se um fator estiver presente, será menos necessário do que outros fatores que estejam também presentes para que o evento se torne notícia; e a hipótese de exclusão em que eventos que não satisfaçam nenhum ou muito poucos fatores não se tornarão notícias. Na maioria dos casos, os dados são consistentes com a teoria. (Galtung, Johan; Ruge, Mari, The Structure of Foreign News, p.65)

As más notícias e os escândalos aumentam as audiências então, pelo efeito da negatividade, as más notícias vendem mais do que boas notícias e são mais fáceis de noticiar do que as boas. Mesmo entre as más notícias há uma certa hierarquia na preferência do telespectador que demonstra que por entre as notícias negativas umas vendem mais do que outras.

“Porque é que as notícias são como são?”. Estudos sobre métodos de seleção que definem as notícias que fazem parte de um noticiário ou peça jornalística a emitir concluíram que o processo é arbitrário e que as decisões do jornalista são altamente pessoais, subjetivas e dependentes das atitudes e espectativas de quem define o que irá para o ar e não se limitam a selecionar os temas que lhes interessam pessoalmente, mas as que eles presumem ser do interesse do público. Definem o que será noticiado de acordo como um valor-notícia, linha editorial e outros critérios por vezes mais ou menos subjetivos e ideológicos de acordo com o momento.

Em algumas peças de jornalismo de investigação a mensagem que se pretende passar está relacionada a um referente que, para além de simplesmente informar o telespectador, também pretende atingir algo ou alguém. Neste caso o referente, isto é, o assunto a que a mensagem se refere, e o tratamento audiovisual dado ao conteúdo do tema não são coincidentes.

Esta aceção pode ser bem explicada através de uma citação de António Damásio no livro “O Sentimento de Si”: “Se o leitor tiver alguém que lhe conte duas histórias comparáveis com igual número de factos e que apenas diferem porque numa delas alguns dos factos têm elevado conteúdo emocional, o leitor lembrar-se-á de um número muito maior de pormenores da história emotiva do que da outra” (António Damásio, O Sentimento de Si, 2000; p.336).

A televisão pode ser formativa, mas “o poder que a televisão tem em oferecer interpretações poderosas sobre a forma de compreendermos os acontecimentos que são escolhidos para serem notícia afetam diretamente a formação dos cidadãos”. (O Papel da televisão na Educação e na Construção Social da realidade, (2006). Revista do SNESup. Disponível em: http://www.snesup.pt/cgi-bin/artigo.pl?id=EEZuZVFyElfSrnWtRU (Consultado a 09/06/2020).

Alguns autores apontam algumas exigências que nem sempre são respeitadas encontrando-se sempre formas de as ultrapassar tais como: apresentação parcial da verdade quando se ocultam deliberadamente aspetos da realidade que impedem o indivíduo de aprender a totalidade do que foi apresentado; o sensacionalismo quando se distorcem os fatos mediante a acentuação de aspetos que provocam reações emocionais e não racionais; silêncio quando se suprimem determinadas informações necessárias nas compreensão de uma notícia; o engano quando há um falseamento da realidade. Por exemplo: quando se apresenta como uma reportagem autêntica aquilo que não é outra coisa que a imaginação do autor.

O propósito das reportagens do jornalismo de investigação deveria ser o de oferecerem temas únicos, rigorosos, profundos e analíticos dos acontecimentos recorrendo ao flashback para introduzir os antecedentes do acontecimento. Todavia são editados de modo a satisfazer o objetivo e o interesse do jornalista, por vezes até destituídas de sentido ético, no sentido de provocar polémicas na opinião pública. Assim, os telespectadores devem estar preparados para empreender uma leitura crítica do que vêem nas reportagens, o que raramente é feito.

O jornalismo de investigação precisa e deve obedecer à lei da objetividade, sinceridade e verdade. Torna-se, por isso, necessário que a comunicação transmita os factos a partir da verdade, o que muitas vezes acontece, mas, no decorrer da reportagem essa verdade vai-se tornando difusa e usa de subterfúgios ou rodeios para a tornar um valor absoluto e indiscutível conducentes a julgamentos na opinião pública. É frequente deparamo-nos em alguns casos com uma suposta coerências na informação emitida mas com uma documentação mostrada truncada e confusa.

O(a) jornalista autor de uma reportagem que deveria ser justo e escrupuloso em relação aos factos do objeto da reportagem nem sempre segue estas regras ao designar as suas “vítimas” heróis ou praticantes de atos ilegais e por vezes manifesta juízos de valor e até vereditos sobre a história que conta cometendo erros formais ou informais que descredibilizam o(a) jornalista e os meios de comunicação.

Para com a televisão somos todos crédulos e somos levados por quem pensamos que é politicamente honesto e que nos vende ideias, ideologias e nos sugere algo para alcançarmos aquilo que supomos ser a verdade.

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publicado às 15:49

Deixar a bonacheirice de vez

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 06/06/2020)

Clara Ferreira Alves

Em Portugal, nação valente e imortal, morre-se clandestinamente. O Presidente e o primeiro-ministro andam por aí em concertos, almoços e praias como se nada se tivesse passado, no torvelinho de regras de desconfinamento que obedecem a conveniências económicas e a contraditórias indicações da nova autoridade sobre as nossas vidas, a DGS. Posso ir ao Campo Pequeno, não posso ir à praia nem ao ginásio. Para as vítimas de covid, nem uma palavra pública e sonante.

Nem um ramo de flores. Como sempre, envergonhado, horrorizado pela sua condição de pobreza ou de doença, ou das duas, o país fez de conta que nada se tinha passado. Há enterros de covid clandestinos, morreu de quê, ninguém sabe, e pessoas que estiveram doentes e fingem que nunca estiveram doentes. Psicologicamente, os danos permanecem invisíveis e confinados, dentro das famílias. O atavismo faz de nós sobreviventes medrosos e clandestinos. Ninguém conhece ninguém que tenha morrido de covid, não vá dar-se o caso de sermos confundidos com putativos portadores do vírus. Teve uma pneumonia, não era covid, era outra coisa. Em Portugal, tudo é sempre outra coisa.

Ao contrário de países onde os mortos tiveram um rosto e um nome, aqui tornaram-se o que só acontece aos outros. Uma psicóloga veio dizer que era melhor assim, para não traumatizar. Os ricos têm horror de dizer que apanharam, exceto se tiver sido “na neve”, chique, e os pobres têm horror de perder qualquer coisinha. Incluindo o emprego ou o subsídio. Quanto aos trabalhadores da saúde, não sabemos quem teve e não teve. Nem quantos, nem onde, muito menos porquê.

Há uma razão atávica para isto, classista e estratificada na consciência coletiva, que aprecia a clandestinidade como um serviço público, assim tendo sobrevivido ao apagão da História secular e a uma ditadura, e uma razão turística para isto. Quanto menos se souber sobre o covid em Portugal, melhor. Por mais que este período aconselhasse recolhimento intelectual e pensativo sobre o futuro, sobre o clima, o ambiente, o modelo, a infraestrutura, o uso dos fundos europeus, sobre a educação e a saúde públicas, a agricultura intensiva e os usos e abusos da mão de obra imigrante, sobre as terras, as águas e o ar, sobre os meios de transporte, o que vai acontecer é o que costuma acontecer. Lisboa como a grande estalajadeira da Europa e do mundo, e Portugal como lar de terceira idade para pensionistas ricos.

O Presidente veio anunciar uma “boa notícia” lá para agosto, quando estivermos entretidos na fila do semáforo para a praia. Champions, um campeonato de futebol, pode vir cá parar. Estamos salvos. O país da Web Summit e das magnas reuniões e cimeiras, do turismo religioso e laico, o país dos estádios e recintos, marcha em frente com glória. Venham os turistas, infetados ou não porque o aeroporto vai abrir sem restrições, venham todos, somos o país covid free. Os mortos não falam. Há para aí uns surtos, em regiões sem interesse para o turismo, nos subúrbios de Lisboa e nos meios de operários e imigrantes. Estamos salvos.

A qualidade do ar em Lisboa, cidade verde, não esqueçamos, que nunca foi boa conforme atestam os medidores mundiais, em breve vai voltar a ser péssima e altamente poluída porque os carros regressam em força, e as horas de ponta também. Se pensam que meia dúzia de pistas de bicicletas vão mudar isto, pensem duas vezes. Com o desespero acrescido da paragem forçada, vamos ter o abandono de todas as regras e o salve-se quem puder. Mais alojamento local, mais barato, mais turismo, mais barato, mais voos, mais carros, mais poluição. As lojas grandes não podem abrir, dentro dos aviões voa-se lado a lado. E os turistas vão desembarcar, claro. Covid free, não esqueçam. O que são mil e tal mortos? A Grécia, menos mortos e infetados, acolheu já um avião do Qatar (a Qatar Airways nunca parou e o hub de Doha também não, sendo agora o único hub ativo da Ásia) com 12 pessoas com covid lá dentro. E recuou. Imaginem o movimento entre Portugal e o Brasil. Ou Espanha. Não interessa, covid free, enfiem-se dentro dos carros porque os transportes públicos são perigosos, e venham trabalhar. Em agosto, podemos ter Champions. E estamos em saldos.

O turismo vai ser repensado? Não. Podemos continuar a depender do turismo low cost e que consome escassos recursos naturais? Não. É assim a vida, a nossa vocação não é inventar, é servir.

Depois de tantos meses de sacrifícios e privações, regressar à normalidade significa o quê? Regressar à normal normalidade de ver Lisboa histórica convertida num parque temático onde não existia uma casa para arrendar e os alojamentos locais se tornaram, com a famosa hospitalidade, o único modelo de negócio? Ouvir as rodinhas no empedrado, esbarrar nos tuk tuks e ouvir os aviões aterrar e descolar da Portela de dois em dois minutos? Abrir as portas de par em par a todos os estrangeiros que queiram fugir de países infetados? A Tailândia, que depende mais do turismo do que nós, não abrirá à Europa e aos Estados Unidos antes do último trimestre, para acautelar novos surtos, e nós falamos de estabelecer corredores bilaterais com o infetadíssimo Reino Unido, que ultrapassou os 50 mil mortos. Aproveitando o facto de a Espanha exigir quarentena e que baixe o britânico número de mortos e infetados. Corredores bilaterais significam apenas que os ingleses desembarcam quando e como querem em Portugal, sem serem maçados pela vigilância. E nós desembarcaremos no Reino Unido? Não, obrigado, podem ficar com as praias. Ninguém por aqui passa férias em Margate ou Blackpool. E, se vier o ‘Brexit’, cada vez mais hard devido à incompetência épica de Boris e amigos, abriremos corredores nos aeroportos, para não serem maçados com a fila dos não europeus. Lá para o sr. D. Fradique é o que quiser. É este o interesse da pátria. Temos o Algarve à disposição de Vexas. E damos a água para o golfe.

Apreciar-se-ia um plano económico de um Governo que respeitasse o ambiente, diversificasse do turismo para outras formas de criação de riqueza e de investimento, pusesse um travão no desenvolvimentismo sem regras e sem gosto, preservasse regiões do Norte e do Alentejo (o Algarve perdeu-se), cuidasse do interior e das zonas costeiras, diminuísse a selvajaria imobiliária e especulativa das capitais e dos capitais e pensasse, por uma vez, não nos estrangeiros mas nos portugueses. Nos que pagam impostos e não nos que não pagam impostos. Usando os fundos europeus não para meia dúzia de compinchas do crony capitalism, ou para empresas e empreendimentos fictícios, para enriquecimento sem causa e para obscuros negócios escorados na banca e aconchegados nos escritórios da advocacia milionária.

Deixemos de vender o país a retalho a quem quer comprar, a angolanos e chineses, e de vender os esmaltes e joias. Portugal tem uma nova geração qualificada e empreendedora que não obedece às regras do passado e ousa arriscar. Está na altura de deixarmos de exportar os cérebros e empreendedores que educámos e qualificámos, os verdadeiros champions, e importarmos turistas baratos e capitalistas infames. De deixarmos de vez a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros e irremediavelmente estraga toda a disciplina e toda a ordem.

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publicado às 12:11

Desconfinamento acelerado

por Manuel AR, em 29.05.20

Jornal Público-logotipo.png

Um cartão amarelo ao desconfinamento acelerado

(Editorial de Manuel Carvalho in Jornal Público 29/05/2020)

Os surtos que hoje afligem Lisboa não bastam para que se ponha tudo em causa. Mas servem como uma espécie de cartão amarelo. Para nós e, principalmente, para o primeiro-ministro e o Presidente

Os surtos que hoje afligem Lisboa não bastam para que se ponha tudo em causa, do inevitável desconfinamento à competência e capacidade das autoridades sanitárias para os controlarem. Mas servem como uma espécie de cartão amarelo. Para nós e, principalmente, para o primeiro-ministro e o Presidente. Ainda é muito cedo e a situação é ainda demasiado incerta para que possam ir à praia, sugerindo aos cidadãos a existência de uma normalidade tão falsa como perigosa. Uma coisa é a necessidade imperiosa de reabrir a economia, que obriga milhões de portugueses a correrem riscos para ir trabalhar; outra coisa, completamente diferente, é sugerir que podem dispor gratuitamente dos seus tempos livres, como se o perigo tivesse passado. Não passou. A situação de Lisboa está aí para o provar.

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publicado às 15:46

Medo do desconfinamento? Talvez não.

Na população mais do que o medo é a desconfiança e a incerteza que só lentamente se irão gradualment

por Manuel AR, em 20.05.20

 

Coronavirus-desconfinamento.png

A jornalista Ana Sá Lopes Diretora Adjunta do jornal Público escreve no Editorial do dia 17 de maio que o “medo que não toldou o enorme grupo de portugueses que manteve o país a funcionar normalmente enquanto a outra parte se confinava, vai ser assassino para a economia”, devido “ao medo paralisante”.

Ao ler o artigo não posse deixar de concordar com os argumentos aduzidos, porém, apenas sustenta o sentimento de medo como principal força que leva a que muitos portugueses se deparem com reservas quanto ao desconfinamento.

Os números e os indicadores que têm saído nos últimos dias são animadores, mas ainda têm de ser lido com algum cuidado. Por outro lado, o regresso rápido pela população a um “novo normal” da vida quotidiana ainda traz algumas dúvidas quanto às boas práticas aplicadas pelas empresas que poderão, à medida que o regresso da clientela se for estabilizando ao longo do tempo, descuidar as regras de higiene que se pressupõem obrigatórias.

Para além do “medo paralisante” Ana Sá Lopes não refere, outras causas que poderão estar a dificultar a transição para a “nova normalidade” para fazer funcionar a economia e restabelecer a confiança das pessoas o que poderá levar algum tempo para que o medo se vá esbatendo.

Os portugueses não são medrosos, estão a ser precavidos e acatam na sua maioria as recomendações que diariamente lhes entrava pelos ouvidos via televisão, e ainda bem que assim é. A economia começou a derrocar, é um facto e como Ana Sá Lopes afirma “fazer compras é neste momento um desígnio nacional”, e interroga: “como o fazer se os portugueses se mantêm em modo pânico, com todos os que podem a resistir a sair dos seus casulos particulares?” e acrescenta que “Agora sabemos confinar-nos; ainda não sabemos que podemos viver normalmente.”

Também noutra altura João Miguel Tavares escreveu no mesmo diário em 9 de abril um artigo de opinião cujo título vem a agora a propósito, “Meter as pessoas dentro de casa foi fácil. E tirá-las?”.

A reanimação do comércio local não depende apenas de um “monstro que revela ser de mais difícil combate do que a covid-19” que é o medo. O consumo que contraiu de forma avassaladora em todos as atividades com exceção dos artigos de primeira necessidade como a alimentação.  

Para além do medo podem ser avançadas outras explicações ainda mais fortes se atentarmos nos problemas que a covid-19 nos impôs com a consequência do confinamento obrigatório e com o estado de emergência.

Podemos avançar algumas com base na observação diária de factos e nas vastas opiniões publicadas. Comecemos pelos mais idosos referindo-me aos que se encontram na reforma e cuja mobilidade e vontade anímica os levam a sair e a consumir, não apenas nas idas aos supermercados para suprirem bens de primeira necessidade, mas também noutros produtos para as suas casas, para ofertas e na substituição de peças de vestuário que, agora, com o regresso do tempo quente se torna necessário. Para retração desta vasta camada da população a comunicação social que contribuiu para lançar o pânico incidindo diariamente sobre o perigo a que estariam sujeitos se fossem contaminados, sobre as mortes que os atingiam pela sua vulnerabilidade, aos jovens que por eles poderiam ser contaminados e os velhos poderiam contaminar os jovens, as peças, às vezes chocantes,  que passavam dias seguidos nos noticiários televisivos e na imprensa. Não havia que esconder a verdade, mas as insistências e os comentários à margem levaram ao levantamento de guardas defensivas.

Segue-se a perda da capacidade financeira de quem, devido ao lay off simplificado, deixou de receber parte do seu salário com a consequente necessidade da contenção de despesas.

Outra explicação poderá ser a perda de emprego e mesmo a quebra de rendimentos dos próprios empresários que, devido à falta de clientes, puseram em causa a sua viabilidade e outras que já se encontravam nesta situação que enviaram para o fundo de desemprego. Acrescente-se os trabalhadores que, devido à incerteza quanto a novo emprego, se viram compelidos a mitigar em termos reais o seu poder de compra acrescido de consequências psicológicas de outros.

A insegurança quanto ao que o futuro próximo lhes possa reservar poderá determinar muitas famílias a evitar despesas que não sejam absolutamente necessárias. A saída para férias que não se fará é também um outro fator de retração ao consumo com prejuízos para o turismo interno pela desconfiança em relação aos alojamentos hoteleiros, pensões, casas alugadas à época e alojamentos locais quanto à eficácia e cumprimento da higienização.

Apesar da alteração das medidas excecionais para a continuidade da abertura mencionados no decreto-lei n.º 22/2020 publicado no Diário da República n.º 95-A/2020, Série I de sábado, dia 16 de maio, a abertura de fronteiras pode ser uma condicionante à confiança necessária nos alojamentos, mesmo que no decreto-lei se indique que as medidas vão estar em avaliação permanente, face ao calendário de desconfinamento  e à retoma da atividade económica.

O Governo tem atuado por fazes, e bem, para estimular a economia mediante avaliação dos momentos. Na população mais do que o medo é a desconfiança e a incerteza que só lentamente se irão gradualmente dissipando.

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publicado às 15:44

Nuno Melo e a obsessão pelo marxismo cultural

A propósito de Nuno Melo, História e Telescola

por Manuel AR, em 16.05.20

"O problema é que gente como Nuno Melo, e muita direita, acha que bater no André Ventura é uma expressão do “marxismo cultural” e só não se apercebe de como está a dignificar o exercício, porque precisa de um papão com um nome ilustre para glorificar a vaidade própria. Não é muito edificante ser vítima da sua ignorância, mas já é outra coisa ser vítima de uma universal conspiração marxista que, vinda das trevas do comunismo, os persegue pelas ruas de Bruxelas."

Artigo de Pacheco Pereira  In Público em 16/05/2020

Às vezes nem vale a pena bater no ceguinho, porque para bater em ceguinhos em Portugal arranja-se sempre uma multidão. De preferência quando o ceguinho já está mesmo ceguinho, porque mesmo só com um olho, o estilo reverencial abunda e o país é muito pequeno para haver independência crítica. E então se for anónima a pancada, os praticantes são mais que muitos.

Mas a ignorância atrevida, essa, sim, merece azorrague, até porque nos dias de hoje, de pensamento mais do que exíguo, a coisa tende a pegar-se pelas “redes sociais”, o adubo ideal da ignorância. Temos de suportar duas pandemias, a da ignorância e a do vírus. Convenhamos que é demais. Nestas alturas, tenho um surto de pedantismo incontrolável. Bom, não sei bem se a classificação de pedantismo é a melhor, mas que por lá anda, tenho a certeza.

Vem isto a propósito do actual uso e abuso da expressão “marxismo cultural”, muito comum hoje à direita mas também usada muitas vezes erradamente à esquerda, que, na sua globalidade, é cada vez menos marxista, mas ainda não deu por ela. Porém, o uso à direita é uma espécie de vilipêndio e insulto e, em muitos comentadores de direita, é comum para caracterizar uma espécie de polvo omnipresente, que lhes rouba as artes, as letras, o jornalismo, algumas universidades, as ciências sociais, a comunicação social, a educação e o ensino, e os obriga a refugiar-se nos espaços “livres” dos colégios da Opus Dei, no Observador, nos blogues de direita, na Universidade Católica, nos lobbies ideológicos empresariais com acesso à comunicação, nalgumas fundações, nalguns articulistas, na imprensa económica, etc. Para bunker contra o “marxismo cultural” já parece muito espaçoso, mas eles acham-no apertadinho.

PÚBLICO -
Foto
“A Parábola dos Cegos”, Pieter Bruegel, O Velho (1568) DR

O que é essencial na interpretação do marxismo é que a seta do poder, que explica a sociedade, a cultura, a economia, a cultura, se faz a partir “de baixo”, das relações de produção, do modo de produção, das classes dominantes a cada momento da história, e que nesse terreno é a luta de classes que define essa outra seta que é o sentido da história. Como Lenine e Trotsky disseram de forma mais bruta, de um lado está o “caixote do lixo da história” e do outro o futuro, a base da teleologia marxista. E embora haja “acção recíproca” entre a superestrutura e a infra-estrutura, ela faz-se sempre a partir da “determinação” da infra-estrutura. Esta interpretação de Marx é a essência da sua teoria, e mesmo quando, nas escassas páginas que escreveu sobre a “cultura”, Shakespeare, em particular, admitiu uma “autonomia relativa da cultura”, nunca admitiu que essa autonomia fosse absoluta. Ou seja, na interpretação marxista, nunca o “marxismo cultural”, seja lá o que isso for, podia ser dominante numa sociedade capitalista, e isto é o bê-á-bá da coisa. Nem Lenine, nem Rosa Luxemburgo, nem Gramsci, nem Lukács, se afastaram deste ponto essencial. Eu não sou guardião da ortodoxia de Marx, mas sei o que ele disse e o que ele não disse e não participo neste abastardamento das ideias pelas palavras e pela propaganda

E, mesmo aceitando-se a ambiguidade da expressão, seria um absurdo dizer que qualquer forma de “marxismo cultural” tem hoje “supremacia” na sociedade portuguesa. É verdade que há muita força da esquerda e do esquerdismo (que não é a mesma coisa) em determinados sectores da “superestrutura”, nas artes, nas letras, em certa comunicação social, mas acrescente-se duas coisas: primeiro, a maioria dessa esquerda e desse esquerdismo não é marxista; segundo, já teve mais força do que hoje tem e, mesmo a que subsiste, está cada vez mais acantonada. Por exemplo, nos anos da troika, muito do discurso público em matérias de sociedade e economia era “neoliberal” (não gosto desta designação, mas vai por facilidade), e uma das grandes vitórias ideológicas da direita foi conseguir interiorizá-lo de forma “dominante”. Devo dizer que eu troco todo o esquerdismo cultural no teatro pela reversão dessa invasão inconsciente de muitas cabeças pela TINA.

Eu não sou guardião da ortodoxia de Marx, mas sei o que ele disse e o que ele não disse e não participo neste abastardamento das ideias pelas palavras e pela propaganda. O problema é que gente como Nuno Melo, e muita direita, acha que bater no André Ventura é uma expressão do “marxismo cultural” e só não se apercebe de como está a dignificar o exercício, porque precisa de um papão com um nome ilustre para glorificar a vaidade própria. Não é muito edificante ser vítima da sua ignorância, mas já é outra coisa ser vítima de uma universal conspiração marxista que, vinda das trevas do comunismo, os persegue pelas ruas de Bruxelas.

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publicado às 19:55

O partido acima de todos e de tudo

por Manuel AR, em 13.05.20

PCP acima de tudo.png

O facto de ser cordato com a maioria dos partidos e aceitar criticamente os seus pontos de vista não significa que não me oponha com firmeza quando resvalam para a irracionalidade e falta de senso que, por vezes, envolve alguns deles pressionados por ideologias militantes, herméticas e incompreensivelmente corporativas.

Antes de continuar esclareço desde já que não pertenço nem sou simpatizante do PCP, mas também não pertenço ao grupo dos irracionais, primários e viscerais anticomunistas. Sou, sobretudo, um crítico dos seus pontos de vista e da sua máquina sindical. Assim, para o PCP, serei “mais um” de direita que, embora lhes custe, não sou.

Os eventos culturais, musicais ou religiosos que envolvem multidões a que me vou referir não são os de uma centena de pessoas, mesmo que espaçadas entre si por mais ou menos metros, mas aos concertos, cerimónias e comemorações religiosas como a que teria sido as celebrações do 13 de maio em Fátima e as do NOS Alive ou o Paredes de Coura e Rock in Rio em Lisboa.

A deslocação a um evento como a Festa do “Avante” é também uma espécie de peregrinação à quinta da Atalaia, apenas que não é religiosa na aceção da palavra. A Festa do “Avante” organizada pelo PCP na quinta da Atalaia chamem-lhe o que quiserem, seja festival, feira, evento político, comício ou qualquer outro nome para o qual a imaginação daquele partido é prolífera é como os outros, a diferença está nos discursos político-partidários que se efetuam por lá.

Argumentos como o de querem calar-nos e de perdas de liberdades políticas e de reunião são demagógicas e fazem parte dos já tradicionais chavões do PCP como “Alguns queriam calar-nos. Mas não nos calamos. É um direito de que não abdicamos” disse o de Isabel camarinha líder da CGTP no último 1º de Maio ao condicionarem-se as comemorações por razões de segurança sanitária. 

Para o PCP a comparação com outros eventos já cancelados não faz sentido porque não se resume a um simples festival de música, mas antes a uma “grande realização político-cultural” que não se pode colocar no mesmo saco de eventos já cancelados.

Chamar à Festa do “Avante” evento político “grande realização político-cultural” não é desajustado, porque é de facto um evento político e é, especificamente, partidário, mas lá também se misturam cultura, música, dança, comércio de feira, convívio, copos, petiscadas, etc. colocados no mesmo saco. Mesmo que fosse exclusivamente um evento político e partidário, à semelhança de outros partidos que já os cancelaram, não haverá razão para que a dita festa se realize sob que pretexto ou configuração for.

A Festa do Avante é um local onde se juntam milhares e milhares de pessoas de todas as idades e estratos socioprofissionais que por mais cuidados existam é grande a probabilidade de contaminação. O PCP coloca o partido acima de tudo, do a quem doer, castigue a quem castigar, das pessoas, da pandemia, da religião, do Estado e até da própria democracia que diz defender ao extremo.       

Na quinta-feira a Proposta de Lei do Ministério da Cultura sobre festivais e outros espetáculos musicais vai ser votada na Assembleia da República.

Não é admissível que se abra uma possível exceção à lei em relação à Festa do "Avante".  Se assim for também se poderá estender a muitos outros eventos, sobretudo de teor "não comercial". O argumento de “não comercial” do evento do PCP não é verdadeiro porque é também comercial pois se comercializam objetos, livros, bebidas e outras variedades alimentares, embora revertam para subsidiar o partido. E o preço das entradas também não é comercial?

É insensato avançar com a Festas do “Avante” no atual contexto da pandemia Covid-19 e o Governo, ao pretender negociar a realização do evento em troca da paz social ou de futuros orçamentos, mostra insegurança e arrisca-se a perder a popularidade que tem conseguido.

Um partido, seja ele qual for, não pode colocar-se acima de tudo e de todos, inclusive a de ameaçar a saúde dos cidadãos.

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publicado às 16:14


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