Terça-feira, 3 de Janeiro de 2017

Porque não te calas?

Zé Povinho.pngNuma publicação partidária do PSD Passos Coelho defende aquilo que até agora ocultou aos portugueses, o que seria o seu programa se fosse novamente governo. Agarra uma frase que Belmiro de Azevedo utilizou há muito tempo, se não me engano no tempo em que Passos era primeiro-ministro, “é preciso deixar de navegar à vista”. Peca pela falta de originalidade.

Fala de reformas sem especificar o que são e o entende por isso. Há coisas que não convém esclarecer. Seria bom, já que todos falam em reformas sem ninguém dizer o que são. Está fora de causa aqui o conjunto de papéis que Paulo Portas arranjou como sendo reformas do Estado quando foi vice-primeiro ministro. Neste momento ainda ninguém me conseguiu objetivamente explicar o que são para Passos Coelho reformas, embora suspeite o que são.

Após a mensagem de Ano Novo do Presidente da República, em que aborda o crescimento, o ex-primeiro-ministro, agora “no exílio”, pega no óbvio e diz o que deve ser o crescimento económico abrindo o véu ao que será o seu programa mais conservador e neoliberal do que sempre foi o seu.

Para Passos Coelho “O que precisamos agora é de enterrar as políticas de reversão”. Quer ele dizer que é voltar ao corte de pensões, de salários, desmantelamento do SNS, deixar populações sem tribunais, voltar às privatizações de modo a que o Estado, nós todos, fiquemos com os prejuízos e entregando os ativos a quem adquirir o que for rentável. Mostra expectativas de que o diabo venha visto que segundo ele “as reversões que foram realizadas não nos venham a sair demasiado caro”.

E continua, "Quem quer semear para futuro e colher bons resultados tem de orientar as suas prioridades de modo diferente do que temos vindo a observar em Portugal, invertendo as políticas de navegar à vista e preparando uma estratégia de médio e longo prazo que faça sentido". Parece-me bem, mas…, afinal, qual é a estratégia para o médio e longo prazo que propõe para sabermos que o que afirma faz sentido. Precisamos de saber. Queremos optar com conhecimento senão não é mais do que conversa de propaganda idêntica àquela de que acusa António Costa.

Sentiu que o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa também lhe foi dirigido, daí replicar falando de realismo nas questões políticas económicas e sociais, porque, para ele "o otimismo e o pessimismo traduzem, sobretudo, estados de espírito que nem sempre ajudam a encontrar as melhores soluções". Tudo bem, mas o que entende ele por realismo? Terão sido todas as medidas que pôs em prática quando foi governo que tiveram resultados insipientes e pouco convincentes de que acusa agora o atual Governo quando, na altura, afirmava alto e bom som que tinha que ir para além da troika? Fala em realismo nas questões sociais quando, no tempo em que governou, provocou a maior crise social de que há memória em Portugal criando injustiças, criando um clima tenso, com divisões sociais e laborais, instabilidade social e quebra da coesão.

Pelo que Passos Coelho afirma podemos perceber nas entrelinhas que é a isso que regressar.

Sustenta uma abordagem realista que permita perceber melhor o ponto de partida, estabelecer um nível de ambição "plausível" e a melhorar a adequação das respostas políticas aos problemas dizendo: "De acordo com esta abordagem realista, Portugal precisa de aproveitar melhor algumas vantagens da envolvente macroeconómica europeia e global e de aumentar a sua resiliência às incertezas políticas externas. Em ambos os casos, o tempo começa a não estar tanto a nosso favor como já esteve". Vamos lá ver se percebo: se o tempo já esteve a nosso favor, e deve estar a referir-se ao passado em que foi primeiro-ministro, porque não conseguiu ele atingir os objetivos que quer agora que outros cumpram rapidamente em condições que se preveem de incerteza?

Argumenta ainda o presidente do PSD que "o tempo não volta para trás", digo eu ainda bem! E cada vez há menos tempo para "tirar partido das referidas vantagens", mas digo eu vantagens que não aproveitou porque já no final do seu mandato dizia frequentemente que a economia estava a recuperar e a crescer. Mas todos nós sabemos ser tão insipientes quanto a do crescimento atual.

É uma proposta de regresso ao passado a que Passos Coelho propõe embora não defina concretamente o que pretende.

É caso para se dizer: porque não te calas?

 

Publicado por Manuel Rodrigues às 17:31
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Demorei algum tempo a ler este livro mais do que o costume. Livro sobre a política nacional sobre a forma de entrevistas que passaram na TVI 24 efetuada por um provocador nato cujas respostas são dadas por um astuto tribuno da palavra. Livro que aborda temas nacionais da política recente com uma abordagem em que as palavras se se entrelaçam com alguma exposições mais académicas. Um bom manual para quem se interesse pela política em Portugal nos últimos tempos.  

 

 

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