Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

ZOOM SOCIAL - Cultura, sociedade e política

Apontamentos, comentários e OPINIÕES sobre política, economia, educação, sociedade e cultura. Confronto de afirmações, reflexões e contradições sobre o modelo social que temos.

ZOOM SOCIAL - Cultura, sociedade e política

Apontamentos, comentários e OPINIÕES sobre política, economia, educação, sociedade e cultura. Confronto de afirmações, reflexões e contradições sobre o modelo social que temos.

Eles querem tudo, querem tudo, e não deixam nada

Contente e feliz.png

A FENPROF e o seu líder Mário Nogueira têm razões para estarem satisfeitos com os apoios à luta reivindicativa para obtenção de mais dinheiro retroativo, (impossível de dar), e de regalias. Com o sindicalista Mário Nogueira está com a direita dos liberais e dos neoliberais, incluindo os que ditam, prescrevem e sugerem através de artigos de opinião que publicam na imprensa diária e comentam nos canais de televisão.

No jornal Público do passado dia 18, João Miguel Tavares no seu artigo de opinião é um dos que parece apoiar, pelo menos implicitamente, os protestos e as greves do pessoal de Mário Nogueira. E, este, claro, nas atuais circunstâncias agradece porque o apoio da direita é, apesar de tudo, bem-vinda.

Miguel Tavares através de um artigo de opinião e a propósito das reivindicações e greves dos professores justifica a vinda do diabo invocada por aquele de quem parece ser fã convicto, o eis primeiro-ministro Passos Coelho.

Depois de dissertar, mais uma vez, sobre as causas das intervenções do FMI diz João Miguel Tavares que “Logo abaixo das nossas lastimáveis elites e da sua vocação para a corrupção, há uma série de corporações poderosas, mais a grande massa dos trabalhadores do Estado e dos reformados, que foi crescendo ao longo do tempo por boas e por más razões. Esse Estado, sem profundas reformas, é insustentável. Ele pode ser alimentado durante alguns anos através do crescimento da economia, mas à primeira mudança de ciclo económico o país vai outra vez ao charco. Não é uma questão de “se”. É uma questão de “quando”.” Cá está o diabo ainda não veio está para vir qual oráculo de Passos Coelho.

E continua, “famoso diabo é, e sempre foi, isto: a profunda consciência das limitações do país e dos seus problemas estruturais, adicionado à paralisia reformista da atual solução de governo e à sua enorme tentação despesista.” E digo eu, afinal parece que o diabo que está para vir é devido a não continuar com as reformas sociais neoliberais iniciadas pelo anterior governo.

Raramente concordo com João Miguel Tavares, mas, em alguns pontos de vista, e por motivos diferentes, sou levado a concordar. Sabendo que é um liberal com alguns laivos de radicalismo nessa área ideológica, pelos artigos de opinião que habitualmente escreve tudo lhe serve para fazer oposição ao Governo. Nesta fase em que a oposição de direita do PSD está em grande agitação devido a estar em fase de eleições internas até dá jeito.

O PCP e os sindicatos a ele afetos, faltando-lhe o operariado, substituiu-o pelos funcionários dos serviços do Estado classe média atualmente bem paga e, por isso, quantos mais trabalhadores houver no Estado tanto melhor, porque pode servir de arma poderosíssima nas mãos dum partido que tem sempre à mão, sempre que lhe convenha, para paralisar todos os serviços. No que toca ao número de trabalhadores do serviço público é talvez o único ponto de concordância que tenho com JMT.

Claro que Miguel Tavares dá uma no cravo e outra na ferradura, mas mostra congratular-se com as reivindicações irrealistas porque o ajudam em pôr em causa as ideias e os projetos do Governo mas, ao mesmo tempo, acaba por defender o ponto de vista dos professores e  aproveita para dizer que, se já não há austeridade, então que se pague o que pedem. Ironia? Talvez não!

Analisemos então as seguintes passagens do artigo de João Miguel Tavares com a qual estou de acordo porque é uma questão de bom senso.  

Quando se fala na impossibilidade de arranjar 600 milhões de euros para contar todo o tempo de serviço dos professores, a objecção que se escuta com mais frequência é esta: “Não há 600 milhões para dar aos professores, mas houve 4,9 mil milhões para salvar o BES, e mais 3,9 mil milhões para salvar a Caixa.” Sem dúvida que houve. Contudo, mesmo sem entrar em discussões sobre as particularidades do sistema bancário, convém notar que esses 600 milhões, ao contrário da capitalização dos bancos, não são one shot — é um compromisso que fica assumido e que tem de ser pago todos os anos. São 600 milhões em 2018, outros 600 milhões em 2019, mais 600 milhões em 2020, e por aí fora. Ao fim de dez anos são seis mil milhões. Ao fim de 20, 12 mil milhões. E isto só para descongelar nove anos de carreira dos professores. Como seria de esperar, a GNR já veio dizer que exige o mesmo tratamento. E de seguida virão os polícias, o exército, os enfermeiros, os médicos, os magistrados, os trabalhadores dos transportes.

As pessoas que apoiam estas reivindicações colocam frequentemente o tema em termos de “justiça” ou “injustiça”. Lamento muito: o problema não é moral. Claro que o descongelamento das carreiras é mais do que justo. Claro que retirar às pessoas direitos adquiridos é profundamente injusto. Claro que os professores têm toda a razão em desejar que nove anos da sua vida profissional não desapareçam no ar. Mas isto não é uma questão do que é bom versus o que é mau. É uma questão do que é possível (ou responsável) versus o que é impossível (ou irresponsável). É uma questão de escolhas e de como utilizar os recursos — finitos, convém recordar — do Estado.

Como não há bela-sem-senão, posto isto, João Miguel Tavares aproveita para fazer oposição e atacar António Costa dando razão aos funcionários públicos: “a conversa do fim da austeridade foi orgulhosamente assumida por António Costa desde o primeiro dia. E assim sendo, as pessoas só estão a exigir nas ruas aquilo que o primeiro-ministro lhes prometeu quando estavam em casa. A irresponsabilidade destas reivindicações não é de Mário Nogueira. A irresponsabilidade é de quem prometeu o que não devia, e de quem anda há dois anos a cavar buracos…  

António Costa não cava buracos anda a tapar os que o seu antecessor cavou, quer nas finanças, quer ao nível social. O apoio às medidas de Passos Coelho estão implícitas no que JMT escreveu e, António Costa então deveria continuar com a mesma austeridade mantendo o país de rastos como fez o seu antecessor neoliberal piorando ainda mais o que herdou.  

Para JMT é isto o diabo que Passos Coelho anunciou jogando com o fator medo. A direita dá timidamente o apoio às reivindicações vindas dos sindicatos numa estratégia de fazer colapsar as finanças públicas para, a partir daí, passar a ter conteúdo para uma oposição com algum significado, deixando a mera oposição casuística.

Uma coisa é certa o sindicalista Mário Nogueira agradece.

Jogo baixo. Outra coisa não seria de esperar de JMT.

 

PS: Hoje no mesmo jornal Público JMT escreve um artigo com quem estou em pleno acordo. Para mim estar plenamente de acordo com ele era quase um exercício de impossibilidade. Hoje chegou finalmente o dia. Espero que haja mais.