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ZOOM SOCIAL - Cultura, sociedade e política

Apontamentos, comentários e OPINIÕES sobre política, economia, educação, sociedade e cultura. Confronto de afirmações, reflexões e contradições sobre o modelo social que temos.

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Demissões na direita precisam-se

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O antigo dirigente social-democrata Ângelo Correia que acusa a liderança do PSD de “inércia” e diz que o partido está votado ao “silêncio” e à “ausência”. Diz mesmo que nem consegue criticar o líder da oposição. “Nós só podemos criticar aquilo que existe e como não existe nós nem sequer podemos criticar”, disse Ângelo Correia, em entrevista à TSF e ao Diário de Notícias. “O grande problema para o PSD

hoje em dia é o vazio que ele está a criar à sua volta, porque um partido político não pode deixar abandonado quem nele vota”, considera.

Queremos demissões brama Passos Coelho e outros cavalgando as ondas que por aí surgiram coincidentemente, ou não, causadas pelos incêndios e pelo roubo das armas, passando pelo sobrevoar inexplicavel dos aeroportos por drones . Demissões de elementos do Governo, mesmo que ad hoc, são precisas faz-me lembrar a introdução dos episódios da série de televisão “Crime disse ela”. A comunicação social na proximidade de eleições vem dando uma ajudinha. Claro que devido à inércia e ao vazio do PSD nada mais há do que arranjar casuísticas, a partir de situações graves, que as há, e fazer parecer mais importante o que na realidade não é.

Os “moralistas” e arautos da boa ética política que agora pedem cabeças e demissões, e sei lá mais o quê, para fragilizar o Governo esquecem-se do passado e do tempo em que foram governo em onde casos se sucediam sem nunca ninguém se demitir.

Acontecimentos estranhos e sucessivos num curto espaço de tempo levantam, segundo a minha opinião, suspeitas, tendo em conta o passado duma direita descendente da que esteve envolvida em atos que nos dias de hoje em democracia plena seriam considerados terroristas. Os que hoje militam nesta direita obsoleta e inquinada que transmitiu o seu vírus às novas gerações muitas delas descendentes dos retornados, infiltradas em todos os nichos da sociedade, quer agora mostrar-se sem mácula.   

A palavra demissão passou a fazer parte do seu léxico político. É um trunfo que quer agarrar para obter uns pontinhos nas sondagens. Pode perguntar-se: quantas demissões teve ele no seu governo devido aos problemas que houve? A dele próprio, com o caso dos descontos para a Segurança Social, não se verificou! O Diário de Notícias dizia em fevereiro de 2015: “O primeiro-ministro pagou este mês cerca de quatro mil euros. Mas entre 1999 e 2004 nunca pagou”. Isto também foi grave. Foi fraude, embora a gravidade de cada caso seja proporcional e relativa. Demitiu-se? Não. A demissão de Paulo Portas não conta. Porque não o foi. Porque deixou de o ser. Porque foi uma nota revogável da irrevogabilidade.

Num “post” intitulado “Quando os abutres pairam” referi-me ao aproveitamento que a comunicação social, sobretudo alguns canais de televisão, usam e abusam por ser uma mina para preencher horas de programação com noticiários e tempos de antena para reportagens. Deseja polémica, “sangue”, instabilidade quanto mais melhor.

A concorrência entre aqueles canais sobre o tema dos incêndios tem sido, lamentavelmente, feroz. A juntar a tudo isto a direita, se por um lado mostra pesar, por outro esfrega as mãos de contentamento oculto porque vê na tragédia um filão para aproveitar dividendos políticos e conseguir alguns pontinhos a mais nas sondagens que para ela têm andado pelas ruas da amargura, o que significa que se encontra em estado de tristeza, despeito e de derrota.

Mas não basta para esta direita a satisfação sádica e oculta por aqueles episódios dos incêndios, outras “novidades” como os drones a voar a altitudes perigosas para os aviões nos aeroportos e agora também o assalto ao paiol de Tancos donde foi roubado material de guerra como anteriormente referi. São demasiadas coincidências para serem ocasionais. Talvez seja isto a que Passo Coelho aludiu quando disse em setembro de 2016, que depois das férias os portugueses se preparassem porque vinha aí o diabo. Lá chegar chegou, mas com algum atraso.

Há por aí alguns jornalistas que nas entrevistas que fazem tentam colocar questões pretendendo relacionar aqueles acontecimentos sucessivos sugerindo sentimentos de insegurança na população. Uma destas jornalistas foi Clara de Sousa da SIC no Jornal da Noite, ao entrevistar o ministro da Defesa e o chefe do Estado-Maior do Exército, Azeredo Lopes. O ministro não associou de modo alguns os três factos, considerando-os independentes e sem qualquer relação.

O mesmo não digo eu. Acho que, bem pelo contrário, poderá haver relação entre eles, embora a minha explicação não seja mais do que uma mera opinião e, quiçá, uma especulação ficcional. Mas, quanto ao roubo do material de guerra de Tancos o Chefe de Estado Maior do Exército em entrevista hoje na RTP1 deu a entender que no ponto em que as investigações se encontram é provável que tivesse havido conivência vinda do interior.

Considero a direita portuguesa pelos menos nos últimos quinze ou vinte anos, período em que foi assaltada por elementos mais ou menos radicais e extremistas que se infiltraram dentro do PSD pela porta da JSD cujos genes políticos inculcados pelos seus ascendentes ficaram bem vincados.

Mas vamos à minha história ficcional e recuemos até aos anos 1975 e 1976 que os mais jovens, com certeza, desconhecem, mas que os mais velhos de certo se recordarão. Outros que assistiram infelizmente já não se encontram entre nós.  

Estamos nos anos da rede bombista perpetrada pela extrema direita, mas para a qual a outra direita também deu o ar da sua graça.

Os atentados bombistas mais violentos, mortais e sanguinários ocorreram precisamente em 1976 nos meses de abril e maio. É assassinado o padre Max, na embaixada de Cuba em Lisboa rebenta uma bomba matando dois funcionários diplomáticos, “um jovem morre na sequência do rebentamento de um carro armadilhado junto à sede do PCP na Avenida da Liberdade, em Lisboa, uma bomba explode numa residência em São Martinho do Campo, Santo Tirso, matando Rosinda Teixeira, a mulher de um trabalhador fabril". Ativistas daquela rede como Ramiro Moreira estiveram envolvidos direta ou indiretamente chegando a afirmar: "o que interessava era haver confusão para que os grandes negócios de armas, de droga, e de divisas continuassem. O que interessava era ter a polícia ocupada com as bombas para eles andarem nos seus negócios." De Coimbra para cima, os operacionais sentiam-se protegidos a nível policial, militar e político, sustentava então.

Para Miguel Carvalho, autor do livro Quando Portugal Ardeu, naquela altura, “para o cidadão comum, na altura, tudo era culpa do PCP", diz Miguel Carvalho, dando o exemplo do cerco ao congresso do CDS no Porto, em janeiro de 1975. "O próprio Freitas do Amaral atribui, nas suas memórias, responsabilidades ao PCP quando está mais do que provado que não as teve, tendo em conta declarações de dirigentes de outras formações de extrema-esquerda que se vangloriam de ter organizado o cerco àquele congresso".

Naquela data as costas dos comunistas foram largas. "Há documentos da PJ e da PJ Militar que demonstram que as próprias organizações e operacionais ligados à rede bombista incendiavam sedes de direita para justificar os ataques que faziam à esquerda", afirma no mesmo livro onde também diz que foi pedido a Ramiro Moreira, “que pusesse bombas em igrejas e chegou a ser planeada uma operação no Santuário de Fátima, mas ele recusou".

Relata ainda Miguel Carvalho que os operacionais da rede bombista "andavam tão à vontade que contavam nos cafés as histórias do que faziam. Estavam no território deles e sentiam-se impunes". Os seus "feitos" tinham o apoio dos militares do Norte, eram bem vistos pelos senhores da terra, pelas paróquias e igrejas e pelo cidadão comum mais conservador.

Um industrial do Norte, Joaquim Ferreira Torres, um dos financiadores da rede bombista, em 1979, quando ameaçou revelar o que ainda não se sabia dos meandros do MDLP, organismo da extrema direita que estava no cerne da questão, caso tentassem pô-lo na prisão.

Atualmente houve quem dissesse, e, nomeadamente jornalistas lamentaram que, “quando se começou a desenhar a chamada geringonça, se tenha voltado a repetir em Portugal um discurso com o mesmo objetivo de há 40 anos”.

Termino com uma citação de Miguel Carvalho: “li nas redes sociais e em colunas de opinião, coisas escandalosas, de um desconhecimento doentio do que se passou naquele período. Muito se escreveu com o mesmo objetivo de há 40 anos. Em pleno século XXI, vi escritas as mesmas barbaridades que se escreveram na altura do PREC. Vivemos numa democracia consolidada. Ver gente a fazer manifestações para combater o comunismo, a escrever nos jornais que já estavam a fazer as malas porque vinha aí um regime soviético...”.

E agora digo eu, ainda dentro do meu ponto de vista ficcional: as pessoas deveriam interiorizar que as direitas não foram (ou não são) tão civilizadas, ordeiras e democráticas, como às vezes parecem fazer crer. Naqueles anos da rede bombista toda a gente que perdeu privilégios com a revolução enfiou-se no PSD. Toda a gente de certa estirpe ligada à finança e a maioria dos retornados endinheirados entrou para o PSD e o CDS era apenas uma pequenina gota no meio de tudo. Temos estado nos últimos anos a ser governados área donde proveio Pedro Passos Coelho.   Eis a direita que nós temos em Portugal que, de certo modo, me começa a amedrontar, até porque muita coisa está a acontecer e pode vir ainda a acontecer, agora já sem bombistas, mas com outros meios e formas despercebidas, arranjadas com requinte, para que possam passar impunes. Com infiltrações aqui e ali, tudo tem estado a ser orquestrado e muito bem preparado…, para criar instabilidade social e política e estragarem o que tanto tem custado a construir.

 

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