Quinta-feira, 15 de Setembro de 2016

Conversas de comadres

Comadres.pngComeçou em Portugal a conversa de comadres com a discussão do Orçamento de Estado para 2017 Na Comissão Europeia as comadres falam sobre a uma possível suspensão dos fundos estruturais a Portugal. Comadres é um termo popular que designa maledicência, mexeriquice com criação de rumores e boatos, geralmente baseados em presunções maliciosas e facciosas.

É o tempo da apresentação e discussão do Orçamento de Estado para 2017, é tempo também para o regresso à conversa das comadres do anti Governo a nível interno. A nível europeu a conversa é sobre as pressões de ordem politica e financeira a um Governo que tem um apoio parlamentar que não é do seu agrado.

Este, que devia ser o tempo da oposição apresentar propostas concretas e credíveis dedica-se antes à prática da conversa mexeriqueira e ao baile mandado.

Passos Coelho com os mais diversos pretextos anda por aí a fazer intervenções que mais não são do que uma espécie de homilias dominicais para a paróquia de que é prior. Afirma que o Governo está a enganar os portugueses. Afinal, enganá-los foi o que ele fez durante mais de quatro anos consecutivos para além de criar divisões e conflitos entre eles.

A direita de Passos Coelho anda num desnorte. Luís Montenegro, presidente do grupo parlamentar do PSD disse num primeiro momento que não iria apresentar propostas para o Orçamento de Estado e, ao mesmo, criticava, dizendo ser uma tontice, quem dizia que o PSD não apresentava propostas.

Passos Coelho, numa das suas homilias, disse, a certa altura, avisando o Governo, que, "quem quer compromissos "não anda à pedrada". O que quer dizer que Passos Coelho rejeita entendimentos "com quem tem comportamentos revanchistas". Veja-se agora a disparidade entre o que disse Passos Coelho e o que diz Montenegro quando este revela agora que apresentará nada mais, nada menos, do que mais de 20 propostas.

Por outro lado Luís Montenegro acusa do Governo pela obsessão do défice e pela consolidação orçamental recuperando uma frase de Jorge Sampaio quando este disse "há mais vida para além do défice". Isto é no mínimo hilariante. Todos nos recordamos, basta reler antigos jornais, da obsessão de Passo Coelho pela consolidação orçamental no tempo do Governo PSD-CDS. Tudo se centrava aí. Recordemos algumas frases de Passo Coelho.

 

Outubro 2012. Numa reunião com a Comissão Política do PSD: “não pode haver amuos que ponham em causa a consolidação orçamental"

 

Março 2103. O antigo primeiro-ministro desafia o então secretário-geral do PS José Seguro "a esclarecer quanto vale o seu programa de consolidação orçamental alternativo, alegando que só depois de dar esse esclarecimento o PS poderá ser levado a sério." Isto porque acusava o PS de não querer a consolidação orçamental.

 

Julho 2013. Durante o debate da moção de censura do Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV), ao Governo, Pedro Passos Coelho sustentou que o Governo conseguiu resultados para iniciar um novo ciclo virado para o investimento e que afastam uma espiral recessiva, mas defendeu que é preciso manter o rumo da consolidação orçamental.

 

Maio 2013. Dizia Passos Coelho numa declaração aos jornalistas, na residência oficial de São Bento, em Lisboa que "Portugal seguirá um caminho que procura equilibrar os objetivos de consolidação orçamental e que precisa de consolidar de modo a ter uma política financeira saudável para o país…" e reitera a defesa da consolidação orçamental: "No entanto, os riscos de um processo desse tipo só serão definitivamente menorizados se mantivermos o rumo. Que não haja equívoco quanto ao que significa esse rumo: é o rumo da consolidação orçamental

 

O certo é que a oposição ao Governo com base na obsessão pelo défice não tem qualquer credibilidade assim como as críticas que fazem ao baixo crescimento económico verificado e previsto. Porque é mais do que sabido que a imposição de Bruxelas pelo cumprimento do défice é incompatível com o crescimento porque os recursos são todos canalizados para cobrir o excesso de despesa e para amortização de dívida e pagamento de juros. Todos os governos sabem disso e Passos e o seu Governo tiveram disso a experiência.

Analisando as intervenções do PSD, enquanto oposição ao Governo, verificamos que muitos deles são de baixa política e carecidos de originalidade. Na prática são duplicados dos argumentos utilizados pela oposição na altura em que Passos Coelho era primeiro-ministro.

A dança dos impostos também já começou. Ninguém gosta que os impostos aumentem. Da direita à esquerda todos somos contra o seu aumento, sejam eles diretos ou indiretos. Os neoliberais que fazem parte do PSD, agora na oposição, têm este argumento. Esquecem-se no entanto que, quando estiveram no Governo, a sua ação foi dirigida para dois campos, cortavam rendimentos para alguns e aumentavam impostos para todos sem conseguirem reduzir o défice.

Mas, afinal, o que pretendem os neoliberais? Apenas e simplesmente algo como o ensaio tivemos com Passos Coelho: impostos e regulação deveriam ser reduzidos (mas não foram); serviços públicos, privatizados. Reduzir ou eliminar a organização do trabalho e a negociação coletiva. Os sindicatos apenas servem para a distorção do mercado, que impede a formação de uma hierarquia natural entre vencedores e perdedores. A desigualdade é virtuosa: um prémio para a utilidade, ela é geradora de uma riqueza que se espalha de cima para baixo, enriquecendo todos. Criar uma sociedade mais igualitária é, ao mesmo tempo, contraproducente e moralmente corrosivo. O mercado assegurará que cada um receba o que merece.

Passos Coelho é um político de recursos limitados com a obsessão pela teoria do empobrecimento deliberado de alguns setores do país, porque, segundo ele, servirá de alavanca a um enriquecimento futuro (será apenas de alguns?). Isto é de tal modo incerto que nem ele próprio se atreve a prognosticar. Não é mais do a que a teoria neoliberal que ele professa e que, agora na oposição, pretende disfarçar.

É tradição partidária não substituir líderes que ganham eleições, e Passos Coelho ganhou-as, mas a sua manutenção no PSD será prejudicial. As suas atitudes e políticas que aplicou, sugeridas ou não pelos o rodeiam, não serão facilmente esquecidas pela gente portuguesa, pelo menos por grande parte dela. Passos sempre foi um político e um líder partidário ingénuo. Ele seria melhor como formador de uma qualquer escola ou universidade.

Publicado por Manuel Rodrigues às 23:30
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos (1)
|

pesquisar

 

Posts recentes

O lixo e a solução de lim...

Cães raivosos são eles

Um regresso ao passado at...

Direitalhos

Porque não se calam

Não digam agora que é coi...

Repete… Repete

Variações em dó menor da ...

Época piscinal

Dos ciganos à formação de...

O artificialismo da oposi...

O caso do candidato que m...

Então demita-se a ministr...

A ameaça virulenta da dir...

O estado da desgraça da o...

A orquestração

Feras de ocasião

Demissões na direita prec...

Oposição da direita e cre...

Imaginação e cinismo

Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
12
13
15
16
17
20
21
22
23
25
26
27
28
29
30

Arquivos

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Livros que estou a ler

Livros que já li

Quando Portugal Ardeu Miguel Carvalho A Vida Secreta dos Livros O Romancista ingenuo e o sentimental de Orham Pamuk malbe

Os porques da esperança.png

Demorei algum tempo a ler este livro mais do que o costume. Livro sobre a política nacional sobre a forma de entrevistas que passaram na TVI 24 efetuada por um provocador nato cujas respostas são dadas por um astuto tribuno da palavra. Livro que aborda temas nacionais da política recente com uma abordagem em que as palavras se se entrelaçam com alguma exposições mais académicas. Um bom manual para quem se interesse pela política em Portugal nos últimos tempos.  

 

 

Piketty_Capit_SecXXI


Memoráveis


Crónica dos dias do lixo



Links

Mais sobre mim

Trabalhos Publicados

Rodrigues, Manuel A (2011). Geografia Social Urbana na Licenciatura em Educação Social, Cadernos de Investigação Aplicada, (5). Lisboa, Edições Universitárias Lusófonas


Rodrigues, Manuel A (2010). Didática da Geografia: recurso à Literatura como proposta interdisciplinar, Cadernos de Investigação Aplicada, (4). Lisboa, Edições Universitárias Lusófonas. .


Rodrigues, Manuel A (2008). Televisão e os efeitos de exposição a mensagens televisivas na educação: o efeito da terceira pessoa, Cadernos de Investigação Aplicada, (2). Lisboa, Edições Universitárias Lusófonas.


Rodrigues, Manuel A (2005). Do Presencial ao Online: um estudo de sobre a atitude de estudantes face a situação de aprendizagem online, Actas do VII Simpósio Internacional de Informática Educativa-SIIE05, Escola Superior de Educação de Leiria.


Rodrigues, Manuel A (2004). Um Modelo de Formação em Ambiente Misto de e-Learning (Blended Learning): uma experiência na disciplina de Tecnologia Educacional, Actas da Conferência eLes’04: e-Learning no Ensino Superior, Universidade de Aveiro.


Rodrigues, Manuel A (2004). Marionetas em Liberdade: a identidade pe(r)dida com as novas exigências curriculares, Lisboa, Edições Universitárias Lusófonas.


Rodrigues, Manuel A (2000). Ciberespaço, Internet e as Fronteiras da Comunicação Educacional, Lisboa, Universidade Aberta. Porbase, CDU 37.01(043), 159.95043), 005.73Internet(043.2),371.1043)

Participar

participe neste blog

Contador de visitas

Tags

todas as tags

blogs SAPO

subscrever feeds