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ZOOM SOCIAL - Cultura, sociedade e política

Apontamentos, comentários e OPINIÕES sobre política, economia, educação, sociedade e cultura. Confronto de afirmações, reflexões e contradições sobre o modelo social que temos.

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Escapadela à Arrábida

  

Tentei centrar-me novamente na paisagem e na sua geografia.

Já não consegui.

Regressei a Lisboa pensado que Portugal e nós, portugueses, merecemos mais do que esta cambada que, neste dois últimos anos, tem desacreditado a política e a economia.

  

Neste sábado 13 de julho, após a caloraça dos dias anteriores que se abateu sobre lisboa e por todo o país, resolvi procurar um lugar mais fresco para respirar da tempestade política que irresponsavelmente fizeram cair sobre o país e também procurar ares mais frescos e menos irrespiráveis.

Estava um dia nublado e fresco e dirigi-me para um lugar que, por enquanto, ainda deixam que seja paradisíaco, pelo menos no que respeita à paisagem, liberta da pressão da construção de mansões para alguns dos senhores que se julgam donos deste país e da venda a preço de saldo a estrangeiros que, graças à isenção de impostos, vêm comprando o território aos poucos.

Subi a Serra da Arrábida quase até ao cume. Detive-me num ponto onde, em dias de sol, se contempla o mar, a cidade de Setúbal e os arranha-céus dos hotéis que se destacam como monstros na Península e Troia onde pretenso desenvolvimento turístico, destinado apenas aos de muitas posses, afastou daquelas paragens a “ralé” que vive naquela capital de distrito.

Local aproximado onde me detive

 

Ver mapa maior

 

 

 

Imagem parcial da Serra da Arrábida

Em cima: Fotografia tirada em 1938 por Orlando Ribeiro

Em baixo: Fotografia do mesmo local, tirada por Duarte Belo em 2004


Belo, Duarte. 2012. Portugal Luz e Sombra. O País depois de Orlando Ribeiro, Lisboa, Círculo Leitores, Temas e Debates

 

Uma brisa marinha envolta em nevoeiro subia a encosta oeste da serra refrescando-me o corpo e o espírito, esquentado pelos acontecimentos políticos da semana, mas que não deixava descortinar o mínimo que fosse do azul-marinho daquelas águas aparentemente calmas mas de correntes fortes.

Recordei-me das várias incursões que fiz por esta serra nos meus tempos de estudante de geografia que me obrigara a estudar e a investigar no domínio da geografia física, da geologia, da geomorfologia e da biogeografia, sem esquecer o contributo da climatologia no estudo da influência microclimática na biodiversidade daquela região geograficamente original.

Apesar de a minha preferência ir mais para a área da geografia social e de planeamento regional, lá ia cumprindo a minha obrigação no estudo daquelas disciplinas dos primeiros anos da licenciatura que aqui me fizeram relembrar e requisitar ao meu imaginário geográfico tudo quanto aprendi e acumulei das observações e interpretações derivadas dos trabalhos de campo.

A Serra da Arrábida é uma cadeia montanhosa em cujo topo do anticlinal do Formosinho, dobra derivada da elevação das camadas dos estratos geológicos, nos podemos deslumbrar com a paisagem circundante cuja vista se espraia pelos horizontes de Lisboa, morro de Palmela e planalto do cabo Espichel.

Do local onde me situava, a neblina, consequência do contacto por convecção do ar marítimo morno e húmido com o ar mais frio do topo, apenas conseguia observar a vegetação naturalmente mediterrânica da proximidade que grassa por todo aquele espaço. É uma espécie de mata de arbustos com alguns de grande porte em locais mais afastados das arribas. Mais próximo do mar nada mais do que espécies arbustivas como o maquis, arbustos verdes densos e fechados de folha pequena e larga, e o garrigue, formação vegetal de pequenos arbustos dispersos que ocupam solos rochosos calcários.

 

 

 

 

 

 

 

Maquis

Garrigue

 

Ali permaneci mais do que uma hora observando as folhas daquela vegetação e as pequenas gotículas de água que a humidade do ar ali condensara junto à superfície fria. A neblina refrescante que, apressada, caminhava do mar para a serra, nada tinha a ver com o “fumo” nevoeirento, este, nada refrescante e com uma opacidade perturbadora e perigosa que o Presidente da República tinha lançado nessa semana sobre a política portuguesa em defesa da sua pessoa.

Tentei centrar-me novamente na paisagem e na sua geografia. Já não consegui. Regressei a Lisboa pensado que Portugal e nós, portugueses, merecemos mais do que esta cambada que, neste dois últimos anos, tem desacreditado a política e a economia.

 

 

 

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