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ZOOM SOCIAL - Cultura, sociedade e política

Apontamentos, comentários e OPINIÕES sobre política, economia, educação, sociedade e cultura. Confronto de afirmações, reflexões e contradições sobre o modelo social que temos.

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Apontamentos, comentários e OPINIÕES sobre política, economia, educação, sociedade e cultura. Confronto de afirmações, reflexões e contradições sobre o modelo social que temos.

Barriguismo ou gula?

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Alguns textos de opinião que por aí circulam na imprensa diária têm-se insurgido com quem se tem manifestado contra o oportunismo dos professores do ensino público mobilizados pela Fenprof e também de outros setores da função pública que reivindicam os mesmos direitos de reposição integral das carreiras congeladas com a respetivas retribuições remuneratórias, isto é, querem que lhes sejam pagos cerca de nove anos de remunerações devidas ao congelamento das carreiras.

Entre aqueles encontra-se Domingos Lopes ex-membro do Comité Central que abandonou o PCP após uma carta enviada à  direção datada de 7 de Setembro último, em que deixa violentas críticas ideológicas e políticas e também de atuação pessoal no partido e que, sobre o tema e que escreveu um artigo de opinião no jornal Público do último 25 de novembro.

O artigo padece de alguma confusão de factos causados pelo anterior governo e que o autor compara com as reivindicações dos professores da função pública. Comecemos ponto por ponto:

  1. Escreve Domingos Lopes que a base da ventania dos que atacam o resultado das negociações e dos que entendem que o Estado deve tratar a “função pública como sendo uma cambada que só pensa nos seus interesses barriguistas.” Eu encontro-me no grupo que assim pensa, exceto que os funcionários sejam uma cambada.
  2. Segundo o autor do artigo “este redemoinho implantou-se nos media e daí vai partindo como um pequeno tufão para se infiltrar na cabeça dos portugueses.” Neste caso concreto não são os media que contribuem para infiltrar seja o que for na cabeça dos portugueses porque estes pensam e percebem bem o que se passa. E tenho sido bastante crítico em relação à informação que os media produzem e divulgam, mas no caso assim não é.
  3. “No fundo, o que vai pelo ar das notícias é a ideia do profundo egoísmo dos professores para se aproveitarem do seu poder reivindicativo e por essa via imporem aos portugueses um aumento da despesa pública. Os professores e a função pública podem fazer perder tudo o que conseguiu nestes dois anos de governo de António Costa …” Mas é óbvio que sim, e, além disso, há milhares de portugueses que não pertencem à da função pública na qual incluo outros professores que não sendo do ensino público nada recebem e a quem também foram pedidos sacrifícios, apesar de também pagarem impostos. Os nossos impostos que alguns querem que uma parte seja canalizada apenas para um lado.
  4. Um dos argumentos demagógicos de Domingos Ramos é o de o vencimento dos professores em Portugal que é bem menor do que ganham os professores na UE. Este é um erro crasso de comparação já que não está a levar em conta o nível e o custo de vida dos cidadãos europeus a que Portugal, por enquanto, não poderá equiparar-se. Só não sabe isto quem nunca esteve no estrageiro onde uma classe média tem mais poder de compra e gasta mais numa semana do que se recebe em Portugal num mês.
  5. Outro argumento enganador é o de justificar a gritaria reivindicativa dos professores brandido argumentos contra o governo anterior que, diz, derretia “milhares de milhões para salvar a banca da ruína provocada pela gula sem limite de uns tantos banqueiros”, mas o Estado é despesista para “dar” dinheiro aos funcionários públicos. Não será por acaso também a gula de uns tantos professores sem limites? Uma coisa é a justeza, ou não, das reivindicações, outra, é o abuso.
  6. Alguém dizia num artigo de opinião que “São 600 milhões em 2018, outros 600 milhões em 2019, mais 600 milhões em 2020, e por aí fora. Ao fim de dez anos são seis mil milhões. Ao fim de 20, 12 mil milhões. E isto só para descongelar nove anos de carreira dos professores.” E isto se não contarmos com todos os outros trabalhadores da função pública que exigem o mesmo tratamento.
  7. Com certeza que Domingos Lopes sabe, como eis militante do PCP, que o partido a que pertenceu sempre foi a favor da nacionalização de tudo e por maioria de razão da banca. Todavia é a banca que, no regime capitalista em que vivemos no mundo real e que, quer se queira ou não, sustenta a economia. Está a misturar o que pertence ao mundo da economia e das finanças com reivindicações excessivas que podem ser ruinosas para o equilíbrio das contas públicas que, quer sejam ou não imposições de Bruxelas há que cumprir. Está, portanto, querer dar e baralhar de novo.
  8. Domingos Lopes está a mascarar uma evidência com outra que nada tem a ver com a primeira ao dizer que “a crise resultou do sistema financeiro, de banqueiros que fizeram seu e dos seus amigos aquilo que não lhes pertencia; deitaram a mão ao dinheiro dos portugueses para fazerem negociatas de todo o tipo”. Sim, é verdade, mas isso não invalida que reivindicações excessivas de uma dada classe de funcionários públicos queira agora exigir aquilo que não é possível dar e que pode também ser considerado uma espécie de roubo aos impostos que todos pagamos. Não se trata de saber se é ou não justo, trata-se de bom censo.
  9. É uma evidência que a crise foi financeira, outra evidência é que o negócio dos bancos é o crédito e, sabendo que a facilidade de o obter foi por eles promovida é também um facto. Contudo, ninguém obrigou ninguém a obter créditos, isso foi e é um ato voluntário, é uma responsabilidade pessoal de quem se endividou não tendo em conta a sua capacidade financeira arrombada, é certo, pelo anterior governo. Só compra quem quer, o problema é que isso deveria ser regulamentado e não o foi, o que levou muitos portugueses ao exagero. O argumento de que foi por causa dos tais “figurões” que “fizeram desaparecer milhões de euros” e de que foi por causa disso que os professores e a função pública viram os seus direitos congelados é, no mínimo, hilariante, porque, mais uma vez, e os outros? Vir agora reivindicar o que se perdeu desde há sete, nove e mais anos para além dos aumentos salariais já obtidos é absurdo. E, já agora, porque não repor atualizações de salários com juros e atualização de inflação desde o mesmo período de tempo? Ironia!
  10. Por causa desses milhares de milhões de euros que fizeram desaparecer é que os professores e a função pública viram os seus direitos congelados. Claro que não foram os professores, nem os funcionários públicos que criaram a crise, assim como não foram quaisquer outros trabalhadores nem pensionistas, nem pequenos e médios empresários, todos eles também foram vítimas da crise. É questão para perguntar: então e estes todos que também foram vítimas da crise o que podem reclamar?
  11. A Fenprof não é mais do que um lobby que funciona com objetivos barriguistas e oportunisticamente partidários, apesar de Domingos Lopes pretender afirmar o contrário.
  12. Termino com uma frase que tenho colocado em “posts” anteriores: podem dizer que esta não é mais do que conversa de direita reacionária. Eu respondo: chamem-lhe o que quiserem!

Ser de direita ou ser de esquerda: há vida para além do confronto

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A direita e a esquerda são duas atitudes ideológicas de estar na política e de a praticar quer na forma quer nos procedimentos. No que se refere ao Estado Social, à economia e às finanças a direita e a esquerda posicionam-se em campos diferentes. Entre direita e esquerda a visão sobre alguns destes campos é diferente, noutros são idênticos nos objetivos, mas seguem cada um pelo seu caminho.

Antes de avançar que convém esclarecer a evidência de que, quer na direita, quer na esquerda situam-se espetros diferentes, uns com ideologias mais radicais, outros ainda com vias mais moderadas que muitos incluem no domínio dos centros: centro-esquerda ou centro-direita.

Nunca houve uma única esquerda nem uma única direita, mas várias. Os extremismos de direita e de esquerda são os filhos irreverentes, ou melhor, os filhos rebeldes, os que não são bem aceites em cada uma das duas famílias.

Para os radicais de esquerda o capitalismo é um mau sistema, para a esquerda moderada é uma forma de organização económica compatível com o Estado Social. O socialismo democrático e parlamentar e a “verdadeira” social-democracia aceitam o capitalismo e a democracia parlamentar, mas exigem que os recursos sejam distribuídos com mais equidade olhando também para os setores mais desfavorecidos.

A direita reclama o direito de ter sido a inventora da liberdade no seu sentido restrito da organização económica e afirma a sua incompatibilidade com o Estado Social que se deve situar apenas no assistencial. Certa direita entende por liberdade o direito a enriquecer. Entre a esquerda e a direita há por vezes uma confusão para o conceito de liberdade. Mário Soares defendeu logo após o 25 de abril a democracia e socialismo em liberdade para estabelecer uma linha divisória inultrapassável entre o socialismo democrático e parlamentar e o comunismo do PCP ditado pela ditadura da classe operária e de outras forças da extrema-esquerda e assim continua.

Com o neoliberalismo dos anos oitenta nos EUA com Thatcher e no Reino Unido com Reagan foi institucionalizada a guerra à assistência e, conforme tem sido demonstrado por vários economistas como Stiglitz (O Preço da Desigualdade) e Piketty (O Capital do século XXI), os americanos e os ingleses das classes médias ficaram mais pobres e os ricos ainda mais ricos.

O papel central das esquerdas, (cada uma  por vias diferentes), é o de incluir nos seus programas o papel central a redução das desigualdades sociais. Contudo, durante os últimos quarenta anos, a esquerda democrática foi perdendo a capacidade de criticar a direita, não se percebendo bem porquê, dando-lhe a primazia do controle ideológico.

A direita quando está no poder apenas acredita no mercado e afirma que os pobres apenas existem porque não querem trabalhar. Lembram-se da frase, “se vires um homem com fome não lhe dês um peixe, ensina-o a pescar?”. É o pensamento de alguma direita. Os governantes que exaltam a ganância como valor supremo estão a minar a coesão das sociedades.

No âmbito da direita são cada vez mais os que denunciam o Estado Social argumentando que este serve mais os funcionários nele integrados (os preguiçosos dos funcionários públicos) do que os utentes, e têm como objetivo deixar a cargo da caridade privada tudo o que seja de apoio social para onde, a prazo, alguma classe média seria também lançada.

A esquerda traça o retrato da direita como sectária, preconceituosa, inculta e atrasada movida pela ambição do lucro, insensível e relegando para segundo plano as preocupações o social.  

A direita, por seu lado, faz o retrato da esquerda como sendo clientelar em sentido lato, despesista, inepta a governar, isto é, acha-se única e com competência para governar. Como se a direita não fosse também clientelar.

Para a direita a esquerda é o pior dos mundos porque parasita o Estado para a partir dele distribuir lugares, subsídios à conta dos contribuintes. Ora o que temos visto ao longo dos anos de democracia são os escândalos da direita que, quando descobertos, são abafados, omitidos, esquecidos ou pouco divulgados pela comunicação social.

Para ambas, estes pontos de vista são extremados e ultrapassam o racional situando-se no campo emocional.

Devido aos atentados terroristas a esquerda, nos países com problemas, teve que tomar medidas de controle e vigilâncias devido à ameaça real aos valores da democracia que normalmente são do âmbito da direita e que apelidava de fascizantes.

A direita quando critica a esquerda apaga do seu rol as crises financeiras e económicas que possibilitou e até facilitou. Refiro-me à direita global que fez abalar a confiança no sistema liberal e neoliberal e na sua capacidade de autorregulação dos chamados mercados e falhas de supervisão, não sabemos se voluntárias ou por incompetência. A direita esquece os sucessivos escândalos financeiros que têm provado que, num sistema liberal ou neoliberal, o capitalismo sem controle não tem nada de virtuoso. Nem todos os chamados capitalistas se enquadram no perfil de virtuosidade que muitos ideólogos dizem por aí.

A esquerda democrática, ou socialismo democrático, é favorável à convivência entre o Estado e o mercados/empresas e empresários e é defensor da UE e da moeda única. A chamada centro-esquerda e o centro-direita têm vindo a diluir-se cada vez mais, como se verificou por exemplo em Portugal pela deriva da social-democracia para o neoliberalismo verificado na última década deixando o papel que era atribuído para os socialistas.

A direita fala do seu pragmatismo, coisa que as esquerdas, as da extrema, pretenderam sempre contrariar, mas assumem hoje em dia que já não são como no passado uma alternativa ao sistema passando a querer integrá-lo. O mesmo se passa com a direita e as suas extremas com a nuance de que estas querem de facto passar a tomar conta do poder vendo para tal entreabertas as portas através nas eleições, graças ao populismo, como se tem vindo a verificar por essa Europa.

A bandeira das novas extremas-esquerdas deixou de ser a revolução para a tomada do poder, mas a defesa intransigente do Estado Social e a “luta”, dos direitos dos trabalhadores e contra o neoliberalismo.

Os defensores da direita agarram-se ao argumento baseado em que, antes da crise, havia desigualdade entre rico e pobres, mas havia salários aceitáveis(?) e empregos certos. Argumento este falacioso para a manutenção dum status quo que lhes interessa: a política da manutenção de salários baixos e uma mão de obra obediente que aceite qualquer trabalho passando uma mensagem na ótica do medo do desemprego, isto é, mais vale ganhar mal e ter trabalho certo do que não o ter.

Curiosamente, o modelo da esquerda radical, inspirado pelo maio de 68, a esquerda dos intelectuais foi o que permitiu a reconstrução da Europa no pós-guerra. Era os tempos do Chanceler Adenauer na Alemanha e do tempo do trinta anos gloriosos em França,   período de crescimento forte e contínuo que deu ao país o seu lugar como grande potência industrial e, à época, quase de pleno emprego, foi o da criação do Estado Social. Na Inglaterra surgia o Relatório Beveridge, o “Report on Social  Insurance and Allied Services” conhecido como Plano Beveridge (em1942), cujo mérito foi o de ser o precursor de um plano político concreto, com propostas de reformas sociais abrangentes e universalistas (Welfare State). Assim, foi capaz de implantar um avançado regime de proteção social obtendo ampla aceitação com repercussão na aplicação prática.

O modelo económico da esquerda radical, na altura e naqueles países, era baseado no consumo e no investimento privado, na segurança no emprego, no Estado Social e numa democracia representativa.

A direita, para obtenção, de votos tende a recorrer a formas de populismo inconsequentes que se aproximam das da extrema-direita, esta, por seu lado, através das suas promessas, capta à direita moderada eleitores insatisfeitos com o sistema.

Face ao cenário do que se tem passado na Europa, não será de depreciar que, a direita liberal, para manter a sua sobrevivência, evitar a sua queda lenta, mas contínua, e subir nas sondagens nas intenções de voto, ceda à pressão e à tentação dos extremos procurando cobrir áreas mais radicais do tipo popularucho e nos domínios casuísticos que sabem explorando os domínios emocionais das populações.

A radicalização dos discursos à direita ou à esquerda ou às esquerdas radicais terá sempre efeitos perturbadores que apenas as descredibiliza e mina a confiança de todos os cidadãos.

Não há professores, cada professor é um professor diz JMT

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Raramente leio os artigos de opinião que João Miguel Tavares escreve no jornal Público, e, quando o faço, é porque algum sentimento de indignação que me compele a isso. Talvez por ele ser um liberal incondicional, e eu não, ele ser de direita, e eu não. Talvez por ele ser um liberal convicto seja levado a fazer oposição ativa à esquerda através da escrita de opiniões, defendendo sectariamente apenas um lado, o “seu”, procurando algo e só o que possa criticar no “outro”, apenas e porque não é o seu.

Hoje li o artigo de João Miguel Tavares, há sempre um dia em que a nossa opinião pode, ocasionalmente, mudar face a algum acontecimento. Encontro-me hoje nessa circunstância. Ter que concordar na íntegra com o que Miguel Tavares escreve no Público.

Fui professor em dois momentos, no ensino profissional e, posteriormente, no ensino superior. A minha mulher também foi professora do ensino público durante as dezenas de anos e depois na área pedagógica do Ministério da Educação vários anos, conheço bem o que foi o ensino por fora e por dentro apesara das alterações que se verificaram no tempo do “chamado ensino do Crato”. Ao contrário dos filhos de JMT que andam no ensino público, os meus netos, por uma questão de opção, e não porque a qualidade seja superior no privado face ao ensino público, até porque, alguns colégios privados, em alguns casos, deixam bem a desejar, e não digo nomes.

Deste modo, e por coerência com o que escrevi em “posts” anteriores opondo-me à greve reivindicativa do sindicalismo egoísta e umbilical, que mais parece uma corporação de professores liderada por Mário Nogueira, tenho que concordar com o que JMT escreveu hoje e faço das palavras dele as minhas, objetivamente e apenas neste caso, não confundamos nem misturemos as coisas.   De qualquer modo recomendo a leitura do artigo que pode ver aqui.

Eles querem tudo, querem tudo, e não deixam nada

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A FENPROF e o seu líder Mário Nogueira têm razões para estarem satisfeitos com os apoios à luta reivindicativa para obtenção de mais dinheiro retroativo, (impossível de dar), e de regalias. Com o sindicalista Mário Nogueira está com a direita dos liberais e dos neoliberais, incluindo os que ditam, prescrevem e sugerem através de artigos de opinião que publicam na imprensa diária e comentam nos canais de televisão.

No jornal Público do passado dia 18, João Miguel Tavares no seu artigo de opinião é um dos que parece apoiar, pelo menos implicitamente, os protestos e as greves do pessoal de Mário Nogueira. E, este, claro, nas atuais circunstâncias agradece porque o apoio da direita é, apesar de tudo, bem-vinda.

Miguel Tavares através de um artigo de opinião e a propósito das reivindicações e greves dos professores justifica a vinda do diabo invocada por aquele de quem parece ser fã convicto, o eis primeiro-ministro Passos Coelho.

Depois de dissertar, mais uma vez, sobre as causas das intervenções do FMI diz João Miguel Tavares que “Logo abaixo das nossas lastimáveis elites e da sua vocação para a corrupção, há uma série de corporações poderosas, mais a grande massa dos trabalhadores do Estado e dos reformados, que foi crescendo ao longo do tempo por boas e por más razões. Esse Estado, sem profundas reformas, é insustentável. Ele pode ser alimentado durante alguns anos através do crescimento da economia, mas à primeira mudança de ciclo económico o país vai outra vez ao charco. Não é uma questão de “se”. É uma questão de “quando”.” Cá está o diabo ainda não veio está para vir qual oráculo de Passos Coelho.

E continua, “famoso diabo é, e sempre foi, isto: a profunda consciência das limitações do país e dos seus problemas estruturais, adicionado à paralisia reformista da atual solução de governo e à sua enorme tentação despesista.” E digo eu, afinal parece que o diabo que está para vir é devido a não continuar com as reformas sociais neoliberais iniciadas pelo anterior governo.

Raramente concordo com João Miguel Tavares, mas, em alguns pontos de vista, e por motivos diferentes, sou levado a concordar. Sabendo que é um liberal com alguns laivos de radicalismo nessa área ideológica, pelos artigos de opinião que habitualmente escreve tudo lhe serve para fazer oposição ao Governo. Nesta fase em que a oposição de direita do PSD está em grande agitação devido a estar em fase de eleições internas até dá jeito.

O PCP e os sindicatos a ele afetos, faltando-lhe o operariado, substituiu-o pelos funcionários dos serviços do Estado classe média atualmente bem paga e, por isso, quantos mais trabalhadores houver no Estado tanto melhor, porque pode servir de arma poderosíssima nas mãos dum partido que tem sempre à mão, sempre que lhe convenha, para paralisar todos os serviços. No que toca ao número de trabalhadores do serviço público é talvez o único ponto de concordância que tenho com JMT.

Claro que Miguel Tavares dá uma no cravo e outra na ferradura, mas mostra congratular-se com as reivindicações irrealistas porque o ajudam em pôr em causa as ideias e os projetos do Governo mas, ao mesmo tempo, acaba por defender o ponto de vista dos professores e  aproveita para dizer que, se já não há austeridade, então que se pague o que pedem. Ironia? Talvez não!

Analisemos então as seguintes passagens do artigo de João Miguel Tavares com a qual estou de acordo porque é uma questão de bom senso.  

Quando se fala na impossibilidade de arranjar 600 milhões de euros para contar todo o tempo de serviço dos professores, a objecção que se escuta com mais frequência é esta: “Não há 600 milhões para dar aos professores, mas houve 4,9 mil milhões para salvar o BES, e mais 3,9 mil milhões para salvar a Caixa.” Sem dúvida que houve. Contudo, mesmo sem entrar em discussões sobre as particularidades do sistema bancário, convém notar que esses 600 milhões, ao contrário da capitalização dos bancos, não são one shot — é um compromisso que fica assumido e que tem de ser pago todos os anos. São 600 milhões em 2018, outros 600 milhões em 2019, mais 600 milhões em 2020, e por aí fora. Ao fim de dez anos são seis mil milhões. Ao fim de 20, 12 mil milhões. E isto só para descongelar nove anos de carreira dos professores. Como seria de esperar, a GNR já veio dizer que exige o mesmo tratamento. E de seguida virão os polícias, o exército, os enfermeiros, os médicos, os magistrados, os trabalhadores dos transportes.

As pessoas que apoiam estas reivindicações colocam frequentemente o tema em termos de “justiça” ou “injustiça”. Lamento muito: o problema não é moral. Claro que o descongelamento das carreiras é mais do que justo. Claro que retirar às pessoas direitos adquiridos é profundamente injusto. Claro que os professores têm toda a razão em desejar que nove anos da sua vida profissional não desapareçam no ar. Mas isto não é uma questão do que é bom versus o que é mau. É uma questão do que é possível (ou responsável) versus o que é impossível (ou irresponsável). É uma questão de escolhas e de como utilizar os recursos — finitos, convém recordar — do Estado.

Como não há bela-sem-senão, posto isto, João Miguel Tavares aproveita para fazer oposição e atacar António Costa dando razão aos funcionários públicos: “a conversa do fim da austeridade foi orgulhosamente assumida por António Costa desde o primeiro dia. E assim sendo, as pessoas só estão a exigir nas ruas aquilo que o primeiro-ministro lhes prometeu quando estavam em casa. A irresponsabilidade destas reivindicações não é de Mário Nogueira. A irresponsabilidade é de quem prometeu o que não devia, e de quem anda há dois anos a cavar buracos…  

António Costa não cava buracos anda a tapar os que o seu antecessor cavou, quer nas finanças, quer ao nível social. O apoio às medidas de Passos Coelho estão implícitas no que JMT escreveu e, António Costa então deveria continuar com a mesma austeridade mantendo o país de rastos como fez o seu antecessor neoliberal piorando ainda mais o que herdou.  

Para JMT é isto o diabo que Passos Coelho anunciou jogando com o fator medo. A direita dá timidamente o apoio às reivindicações vindas dos sindicatos numa estratégia de fazer colapsar as finanças públicas para, a partir daí, passar a ter conteúdo para uma oposição com algum significado, deixando a mera oposição casuística.

Uma coisa é certa o sindicalista Mário Nogueira agradece.

Jogo baixo. Outra coisa não seria de esperar de JMT.

 

PS: Hoje no mesmo jornal Público JMT escreve um artigo com quem estou em pleno acordo. Para mim estar plenamente de acordo com ele era quase um exercício de impossibilidade. Hoje chegou finalmente o dia. Espero que haja mais.

A já costumeira visão umbilical dos professores

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Os professores têm todo o direito à manifestação e ao direito à greve que devem utilizar em casos extremos e não para assuntos umbilicais da classe deixando-se levar pelo já estafado vanguardismo do PCP utilizando este grupo profissional do estado.

Se os professores se encontrassem demasiado ocupados nas suas missões jamais poderiam dedicar-se a pensar em si próprios e muito menos a olhar para os seus umbigos e a empenhar-se na sua “felicidade” individual centrada nas regalias e nos direitos colocando em segundo lugar a sua virtuosa função profissional não sairiam para a rua parando as escolas, prejudicando, afinal, aqueles a quem se devem dedicar.

A “felicidade” profissional dos professores do ensino público centra-se mais nos direitos e na obtenção de regalias do que nos deveres. Dar umas aulas, fazer umas avaliações, corrigir uns testes e pouco mais, executando o mínimo obrigatório que se lhes exige. Assumo que esta é uma generalização perigosa, e, por isso, ressalvo aqui todos aqueles professores(as), felizmente são muitos, que se dedicam por vezes sacrificando a sua vida privada, pondo todo o seu saber, capacidades e competências ao serviço didático e pedagógico dos seus alunos. Desculpem-me os professores(as) e educadores(as) que acham estar incluídos(as) neste grupo.

Nunca se ouviu o dirigente sindical dr. Mário Nogueira salientar em publicações sindicais ou falar publicamente nos deveres dos professores e fazer disso uma campanha pedagógica. Se os professores conhecem os seus deveres, sabem com certeza os seus direitos sem necessidade de campanhas mobilizadoras, a menos que se pretenda criar expectativas através de artifícios demagógicos e populistas.

Mário Nogueira e a sua corporação mobiliza os professores mostrando-lhes que são uma espécie de casta superior, um grupo social fechado entre si que pretende privilégios especiais e avança com um espírito de elite deficitário em direitos e regalias, e menos em deveres e obrigações que não se deve cingir apenas dar aulas colocando-se acima da avaliação das suas próprias competências.

Fenprof, com o dr. Mário Nogueira à frente, é uma espécie de corporação digna do passado com a consequente tendência para privilegiar os interesses do próprio grupo profissional, uma espécie de agrupamento de professores que faz lobby para funcionar como uma espécie de elemento de governação.

Se no tempo do ministro Nuno Crato o dr. Nogueira não conseguiu os seus intentos por mais que se esforçasse, e eu nessa altura estava do seu lado, quer agora, aproveitando eventuais fragilidades políticas, obter vantagens.

Discurso de direita e reacionário? Chamem-me o que quiserem!

Sacar enquanto a vaca dá leite. E quando já não der?

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As greves que por aí andam especificamente a dos professores (mas também podemos incluir no rol os enfermeiros e os médicos, embora com outro cariz), não são mais do que a mostra duma posição de força para pressionar o Governo e no meio até desacreditá-lo como o pretende a direita a todo o custo.

A FENPROF comandada e manobrada pelo senhor Mário Nogueira que sabe como ninguém, desde o tempo de Maria de Lurdes Rodrigues, explorar o ponto de vista umbilical dos professores do ensino público está na frente da luta. Não é que não possam ter razão nas suas reivindicações sobre progressão nas carreiras, a questão é a da oportunidade política e financeira, não é o desbloqueio das carreiras que está em causa, mas que a queiram fazer reportar aos últimos nove anos e Mário Nogueira afirma que “não estamos disponíveis para perder tudo”, e mais diz que “os professores não estão a reivindicar mais salários, só a pedir o que é justo". E a seguir a isso não virá reivindicação do retroativos referente ao estacionamento das carreiras?

Mas Mário Nogueira quer negociar e disse: "as pessoas trabalharam durante nove anos, quatro meses e dois dias em que estiveram congeladas as carreiras. Não estamos a exigir que seja em dois anos, estamos disponíveis para negociar um faseamento". Mas o dinheiro tem que aparecer seja agora ou mais tarde para fazer da classe dos professores os novos ricos do trabalho no Estado. A única forma que os sindicatos têm é o de conseguir mais dinheiro.

Segundo a ótica do PCP a classe operária é a vanguarda da luta contra o capital, mas, como na prática já não existe tenta recuperar para a luta uma nova classe operária dos tempos modernos, aburguesada, que são os professores e outros trabalhadores dos serviços, dos públicos, porque os do privado o caso é outro e já não lhes chegam.

Como eles haverá muitos outros trabalhadores que poderiam protestar. Os senhores professores não podem esperar que após mais de nove anos em que foram “congelados” queiram agora ver a sua situação resolvida como se houvesse uma varinha mágica que fabricasse dinheiro para eles, e o mesmo digo para todas as reivindicações da função pública por mais justas que sejam.

Não tenho dúvidas de que a direita agradece toda a movimentação reivindicativa para colocar em causa o Governo e à qual só falta vir para a praça pública enaltecer as iniciativas de Mário Nogueira, quando lhes agrada, porque quando a propósito dos contratos de associação com os colégios privados aí a coisa já piou mais fino, a JSD e até divulgou imagens daquele dirigente sindical fardado ao modelo de Estaline.

O sindicato de Mário Nogueira é um lobby da injustiça para com outros tantos milhares de trabalhadores e um gerador de oportunismo político disfarçado de defesa dos seus direitos.

Estes tipos de reivindicações só contribuem para recuperar o antigo rancor por parte dos que trabalham no privado contra a função pública que ainda não se desvaneceu  e que Passos Coelho conseguiu instilar durante a sua governação. Não queremos voltar a esse tempo.

Esta estratégia de Mário Nogueira não é despicienda da atuação do PCP após as eleições autárquicas que não se viu “premiado” pelo eleitorado apesar de muitas das medidas tomadas como a reposição de rendimentos tenham sido devidas ao partido de Jerónimo de Sousa que tentou puxar a brasa à sua sardinha.

Face à perda de votos o PCP deu início à criação de dificuldades e passou a alimentar com finalidades partidárias uma conflitualidade social que vem crescendo, aliás implícito no comunicado do comité central saído após as eleições. Todavia não quer romper com o apoio parlamentar ao Governo sob risco de ser penalizado pelo eleitorado nas próximas legislativa.

O PCP sobrevive à custa da travagem da liberalização do mercado de trabalho e de privatização das funções do Estado.  Como já escreveu Daniel Oliveira no Expresso no princípio de outubro se os comunistas apoiam o governo o PS fica-lhes com os louros, mas se os comunistas desapoiam o PS fica-lhes com o descontentamento.

Mas a tática do PCP através dos sindicatos que controla é tentar, através do aceno da obtenção de mais direitos e regalias para o setor público onde estará parte do seu eleitorado e tentar mostrar que a luta continua nesse sentido.

Mas há nesta estratégia um reverso da moeda, que é a aproximação ao bolo do Estado para o abocanharem. O Orçamento do Estado não é uma espécie de poço sem fundo donde se tira para dar a alguns. E depois quem paga a fatura? Todos nós portugueses, claro, aqueles a quem o Estado não dá “maminha”. Pelo contrário: o Estado vive à “mama” do nível brutal de impostos que cobra a todos nós, sem que tenhamos qualquer contrapartida em termos de excelência dos serviços públicos prestados.

Quando esses todos que estão sempre a querer sacar quando se derem conta estamos todos outra vez a pedinchar a outros que nos salvem. Acho que não podemos dar essa possibilidade a Passos Coelho e à sua entourage que têm proclamado a vinda do diabo. Era o pior que nos podia acontecer.

O Governo ter cedido ao lobby de Mário Nogueira também foi o pior que podia acontecer.

O PCP conseguiu na rua, a vitória que perdeu nas autárquicas. “Vitória! Vitória!” Assim termina a manifestação dos professores ansiosos pela vinda de mais salário.

Tenho que concordar com alguns comentadores neoliberais, saudosos da direita no poder, que muitas vezes tenho criticado, quando dizem que o Governo vai a reboque da onda populista de esquerda.

Palavreado de direita? Chamem-lhe o que quiserem!

A atualidade política do filme O Mundo a seus Pés

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 A existência de uma comunicação social livre pressupõe o escrutínio e a informação sobre quem ocupa ou venha a ocupar cargos públicos, semipúblicos e políticos, é um dever de informação, mas há limites.

Revi no passado Sábado, mais uma vez, o filme Citizen Kane, cujo título em Portugal é conhecido por “O Mundo a seus Pés”, realizado por Orson Wells em 1941 e que foi exibido no fim de semana passado pelo canal Memória da RTP. Embora seja considerado um filme inovador para a época quanto à realização, iluminação, planos utilizados, pormenores da imagem, cenários e ambientes, o que pretendo abordar centra-se numa análise de conteúdo simbólico. O filme pode ter várias leituras que vão desde a análise do caráter dos personagens à dimensão política e ao poder dos media.

O filme apesar do ambiente da ação se passar nos Estados Unidos da América mostra em algumas sequências o que ainda hoje podemos constatar na política na maior parte dos países, incluindo Portugal.

A parte que pretendo salientar centra-se nas sequências que mostram que o milionário e megalómano Kane, que controlava órgãos de informação e de comunicação, na altura a imprensa, decidiu candidatar-se a governador de um estado opondo-se, denunciando e acusando de corrupto Jim Gettys o então governador. Kane apresentava-se ao eleitorado como sendo um liberal e amigo dos trabalhadores.

Na véspera das eleições Kane faz um discurso inflamado em Madison Square Garden, frente a um cartaz gigantesco de si mesmo, com o único propósito de apontar e tornar pública a desonestidade, a vileza da máquina política do chefe Jim W. Gettys que detinha o total controle do governo daquele estado. O discurso de Kane sintetiza-se da seguinte forma:

Não fiz nenhuma promessa de campanha, porque até algumas semanas atrás, não tinha esperança de ser eleito. Agora, no entanto, eu sou algo mais do que uma esperança. Jim Gettys tem algo menos do que uma hipótese. Todas as sondagens independentes mostram que vou ser eleito. Agora posso fazer algumas promessas. O homem trabalhador, o trabalhador e o filho do bairro pobre sabem que podem esperar os meus melhores esforços nos seus interesses. Os cidadãos comuns da nação sabem que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para proteger os desprivilegiados e os mal pagos.

Os objetivos oratórios da campanha de Kane centram-se no fim da corrupção. A rivalidade concentra-se no chefe político e oponente Jim Gettys. Kane com raiva faz uma promessa firme e definitiva aos seus apoiantes – como primeiro ato oficial prender o governador seu oponente atual. Aqui está uma promessa que eu farei, e o chefe Jim Gettys sabe que a vou cumprir. O meu primeiro ato oficial como governador deste estado será nomear um advogado público especial para providenciar a acusação, a acusação e a condenação de Boss Jim W. Gettys.

Gettys é avistado numa varanda acima do palanque onde Kane faz o seu discurso ameaçador. Kane está em vantagem e espera ganhar a corrida eleitoral para governador.

Emily, a esposa de Kane, ao sair após o comício, entra num táxi e confronta-o com uma nota que recebeu sobre suspeitas de que ele tem um apartamento oferecido a Susan com quem tem uma relação extra conjugal. Kane acompanha Emily de táxi para o apartamento de Susan. Chegados ao apartamento entram e no prédio, no alto da escada Susana a amante de Kane encontra.se apreensiva e quando chegam ao apartamento é Susan, que admite que Gettys a forçou a escrever uma carta a Emily para mostrar e expor o relacionamento de Kane com ela dizendo que a tinha obrigado a enviar à esposa essa carta. Eu não queria. Ele tem dito o mais terrível - Gettys aparece na entrada do apartamento de Susan como uma sombra ameaçadora. Sendo apanhado Kane fica indignado e profere ameaças a  Gettys.

Kane, Emily, Susan e Gettys discutem o caso e como isso afetará a corrida para o governador. Gettys está a lutar pela sua sobrevivência política e pela sua própria existência contra-ameaça chantageando Kane em tornar o caso público em todos os jornais do estado que não fossem propriedade dele, expondo o relacionamento extra-conjugal com Susan para que se retire da corrida. 

O escândalo mancharia a imagem pública que Kane que tenha cuidado para a sua campanha moral. Gettys propõe que Kane explique que sua retirada é devida a uma doença e ameaça que as manchetes dos jornais vão prejudicá-lo se ele não se retirar. Kane prefere recusar e aceita o escândalo público perdendo por isso as eleições.

Os escândalos na política e a intromissão na vida privada dos políticos ou dos candidatos a cargos políticos são coscuvilhados e escrutinados com objetivos de destruição do caráter e das carreiras dirigindo-se sobretudo ao partidos da opoisção que querm conquistar o poder. Quem escrutina raramente ou nunca é escrutinado, refiro-me, claro está, a jornalistas ditos de investigação e a políticos que com eles colaboram na sombra.

A existência de uma comunicação social livre pressupõe o escrutínio de quem ocupa cargos públicos, semipúblicos e políticos, é um dever de informação, mas há limites. Os que exaltam as virtudes, as exigem e denunciam a falta delas em outros não admitem que, também eles próprios, podem não as ter, mas apresentam-se como sendo o exemplo de virtudes personificadas.

Quando não conseguem impor pelas suas ideias ou fazer oposição fundamentada, ou, ainda, lhes faltam os apoios necessários procuram derrubar os seus adversários não pelas ideias ou pela prestação política, mas através de mecanismos de ataque pessoal e outros cuja ética e a própria moral reprovam. Para estes não há ética, a política é uma espécie de luta onde vale tudo e não existem regras. Só as reclamam quando deles próprios se trata.

O que acabo de escrever aplicado a um caso, embora diferente, hoje confirmado pelas notícias, e não são “fake news”, de que na América, o procurador-geral Jeff Sessions pediu que fossem investigadas "algumas matérias" relacionadas com a Fundação Clinton - incluindo as suas relações com a Rússia. Há meses que o Presidente Trump o pedia e que os republicanos puxam agora pelo caso no Senado.

Conforme tem sido noticiado Donald Trump está em maus lençóis, devido às suas relações com a Rússia, havia que “escavar” algo que se passasse com alguém dos seus opositores políticos.

E mais outra, desta vez com os republicanos que estão às voltas com um candidato ao Senado com o qual não querem ter um problema por ter sido acusado de abusar de duas menores. Há que mostrar que também eles são rigorososos quando se trata da excelência moral.

Enfim, em política procura-se tudo para denegrir adversários, partidos e ideologias que disputam entre si o poder. Perde-se cada vez mais o argumento ideológico em favor de argumentos contra o caráter pessoal. A política é assim, e sempre foi assim, veja-se o caso português na primeira república.

Pode ver o filme Citizen Kane aqui.

A propósito da Web Summit

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 A tecnologia não vem "para substituir os humanos" naquilo que fazem, mas antes para "criar mais produtividade"

Cisco Systems, Kevin Bandy

Web Summit 09/11/2017

Sou a favor do mundo da tecnologia e das oportunidades para a aquisição de novas competências e, consequentemente, de novas formas de trabalhar que determinam novos tipos de emprego. A Web Summit originalmente organizada em Dublin, Irlanda, mas que me 2016 passou a vir para Portugal. É uma conferência mundial centrada nas tecnologias da internet e são uma oportunidade para as start-ups de tecnologia para se lançarem num mercado cada vez mais competitivo e isso está nas mãos dos mais jovens arriscarem em empreendimentos baseados na tecnologia.

Há, todavia, um reverso da medalha que é a questão do emprego, do trabalho e das novas profissões originadas pelas tecnologias que geram novas atitudes a que as sociedades dos diversos países não têm prestado a devida atenção: a reinvenção do trabalho.

As tecnologias disponíveis no mercado estão a simplificar e a rentabilizar nos dias de hoje o trabalho, seja nas fábricas, nos escritórios das empresas, na advocacia, na contabilidade, assessoria entre outros.

Trabalhos que antes eram realizados manualmente hoje estão a ser substituídos por plataformas inteligentes. O mesmo se passa nas fábricas de montagem de automóveis, por exemplo, onde máquinas robots fazem o trabalho que antigamente ocupavam vários postos de trabalho. O que antes dependia de horas de serviço agora se resume a poucos minutos ou até mesmo segundos.

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 Em 1998 Jeremy Rifkin no livro sobre Terceira Revolução Industrial onde tenta mostrar que “as evidências históricas negam o pressuposto neoclássico de que a inovação tecnológica estimula o crescimento económico permanente e o emprego. A falsa ideia de que a oferta cria a procura já levou a humanidade à armadilha da Depressão de 29. Naquela época, a crise foi resolvida por meio do receituário keynesiano, mas acreditar que a mesma fórmula será capaz de combater o desemprego tecnológico, além do enfraquecimento da procura do consumidor, é negar as novas realidades económicas. Isso porque a tendência de automação se mostra inexorável e atinge os três setores da economia: agrícola. industrial e de serviços.”.

O livro de Riftkin editado em 2011 nos EUA e em Portugal em 2014 vem na linha dum outro, este de Alvin Tofller “A Terceira Vaga” publicado em 1980 que na altura obteve grande sucesso. Diria que “A Terceira Revolução Industrial” é uma espécie de edição melhorada, atualizada e aumentada daquele.

Levanta, portanto, para além das consequências da revolução tecnológica a nível global levanto aqui a questão do emprego e desemprego num futuro mais ou menos próximo.

Em 2013 tornou-se banal, dizer que é melhor ter um emprego do que não ter nenhum e isso era afirmado pela direita em plena Assembleia da República. Esta afirmação é atribuída a André Gorz em «Métamorphoses du travail Quête du sens critique de la raison économique». Diz ele, num contexto de crítica à forma como é encarado o trabalho, que pouco importa qual o emprego, o importante é ter um. Isto é o mesmo que dizer que mais, pouco importa o montante do salário, desde que tanha emprego porque o trabalho assalariado é o principal meio de aquisição de rendimentos tendo a burguesia assalariada ainda que considere está fora do grupo dos assalariados.

De vez em quando surgem na comunicação social entrevistas e partes de estudos e ensaios sobre as questões do trabalho (ver aqui um caso) e previsões sobre o que ele será no futuro e algumas ficções como as de Arthur Clarke apontam para que “o objetivo do futuro é o pleno desemprego”. O fim do trabalho tem sido tratado por sociólogo, filósofos de várias nacionalidades como por exemplo o já referido Rifkin com The Ende of Work. Todavia a tese otimista era que os empregos destruídos eram substituídos por outros. Esta era a tese dos anos 80 e 90 quando as novas tecnologias da informação e comunicação começavam a difundir-se nas empresas e nos locais de trabalho, nas escolas e universidades. Pressupunha-se então que devido às tecnologias haveria desemprego e que outros, lia ela ligados surgiam em novos setores, à semelhança da primeira e segunda revolução industrial.

Aqui entram tecnologias ligadas à rede que se encontram numa fase de desenvolvimento exponencial, nomeadamente na área da inteligência artificial e da robótica que nos transmitem a ideia de que estamos a entrar numa sociedade de pós-trabalho, não já, mas daqui a mais ou menos uma década. Se o trabalho continua ainda a assegurar uma forma de redistribuição dos rendimentos da produção sob a forma de salário, a evolução para uma sociedade tecnológica poderá vir a agravar a equidade e a paz social.

Face ao menor tempo de trabalho necessário para efetuar tarefas facilitadas ou substituídas por tecnologias que Keynes já previu em 1930 dizendo que dali a 100 anos, e já passaram 87, o tempo ocupado pelo trabalho passaria a ser de 15 horas semanais.  Uma utopia, disseram e dizem alguns, e ainda o é de facto, mas, face ao futuro e ao desenvolvimento tecnológico acelerado, o que Keynes disse tem uma racionalidade económica. Ao contrário, o que temos assistido é à manutenção e até ao prolongamento do horário de trabalho, contrariando uma evolução que vinha a verificar-se a partir das últimas décadas do século XX.

A automatização derivada das inovações tecnológicas ao gerar ganhos de produtividade e sendo previsível que venha a obter ainda mais, a redistribuição tenderá a fazer-se ainda mais em direção a uma elite diminuta, também ela assalariada, mas com sobre-salário.

É também que entende o responsável da área digital da Cisco Systems, Kevin Bandy, que considera que a tecnologia não vem "para substituir os humanos" naquilo que fazem, mas antes para "criar mais produtividade", e destacou que Portugal está a desenvolver capacidades neste setor.

Para terminar, e para quem gosta dos Cepeche Mode, aqui vai uma das últimas músicas (2017) sobre a revolução no trabalho e para os mais radicais pode ser interpretado como a revolução do trabalho. Não sou muito apreciador da música desta banda mas as letras são representativas duma certa forma de ver o mundo.

 

 

E esta de 1983 

 

 

Por onde seguirá o PSD o Santana Lopes e o Rui Rio

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Alguns dias de silêncio foram-me úteis para acalmar alguns aspetos emotivos gerados pela panóplia oportunista da oposição que politicava com a gravidade dos incêndios que ainda vão dar muito que falar quando se debater o reordenamento florestal com a direita a querer deixar tudo como está com as justificações costumeiras.

O orçamento foi aprovado na generalidade apesar das catástrofes anunciadas pelas bancadas da direita. A oposição de direita tem sido um calhambeque que segue em contramão numa paisagem de desolação argumentativa confrangedora. Acompanham-na comentadores e economistas provenientes da sua área que debitam ou rabiscam opiniões, mais parecendo jericos que olham sempre na mesma direção, e improvisam argumentos com fundamento incipientes, cozinhados ao momento, servidos até à exaustão com um certo cariz de calúnia. Calha, aqui, a citação de Francis Bacon “Calomniez, calomniez, il en restera toujours quelque chose”.

Curioso é que até hoje os líderes e a sua trupe do calhambeque não conseguem fazer melhor do que rebuscar as mesmas críticas querendo passar um apagador pelo seu passado governativo sem apresentarem nada de novo. Mantêm a mesma estratégia do embuste, tão do agrado do por enquanto “amado líder” do PSD que tenta imputar a outros as responsabilidades que lhes coube enquanto foram Governo.

Agora está em jogo a disputa pela liderança do PSD que se arrasta a meio gás. Cada um dos candidatos tenta chamar a si apoiantes e a coisa está feia devido ao estado ideológico em que Passos Coelho deixou o partido abandonando a social democracia para optar por uma orientação mais neoliberal. Ainda hoje o seu discurso é o do regresso ao passado e à perda do poder apesar de ter ganho as eleições com minoria.

No encerramento das jornadas parlamentares o líder do partido avisou os partidos que apoiam o Governo, como não se não o tivesse já feito, que não contam com o seu apoio em caso de uma eventual quebra dentro da 'geringonça' (foi uma das raras vezes que Passo utilizou esta palavra), como há muito não se soubesse.  A esquerda deve ter agradecido o aviso.

Substituiu o aviso do vem aí o diabo pela designação de morte lenta que “é uma coisa que às vezes demora imenso tempo, é penosa e tem custos elevados. Assim são os custos que a 'geringonça' nos está a deixar".

Passos Coelho parece continuar a não ter presente que, mesmo que continuasse, o seu governo estaria condenado a ser derrubado mais mês, menos mês. Ninguém esquece, a não ser os fanáticos da direita, que em 2011 Passos foi rápido na quebra de promessas eleitorais subindo a carga fiscal e levando a metade do subsídio de natal a quem trabalha entre outras “bem feitorias” aos portugueses quando apenas a população que o apoiava parecia dar vivas aos cortes que ele lhes causou nos rendimentos bebendo o seu discurso populista que era para salvar o país.

Prepara-se um novo ciclo para o PSD (será mesmo novo?) com dois candidatos a disputar a liderança.

Santana Lopes ao candidatar-se, mais uma vez, à liderança do PSD pretende recuperar a herança neoliberal que Passos deixou no partido só assim se percebe os elogios que lhe tem tecido justificando até muitas das medidas que foram na altura tomadas. A estratégia santanista é conseguir trazer para o seu lado a “mancha” neoliberal criada por Passos que se mantem viva e que não alinha com Rui Rio nem com a sua tentativa para reavivar a social democracia perdida. No dizer do próprio Santana "O PSD orgulha-se do trabalho de salvação nacional feito pelo Governo de Pedro Passos Coelho. Queremos um partido sem memória?" numa alusão aos sociais-democratas que se demarcaram do anterior executivo. Por outro lado, diz que pretende fazer tudo ao contrário do que fez Passos Coelho. Um partido, qualquer partido, deve ter memória, mas também deve fazer reflexão sobre essas memórias e fazer a autocrítica, digo eu.

Para além das divergências internas sobre a orientação ideológica que o partido deve seguir, há uma estratégia convergente de ataque ao Governo e ao seu apoio parlamentar. Ambos os candidatos fazem uma campanha interna para a liderança do partido e, ao mesmo tempo, e para o exterior, a campanha centra-se na oposição ao Governo potenciando a eventualidade de um deles vira a aceder no futuro ao cargo de primeiro-ministro. Aliás, nem outra coisa seria de esperar. Para disfarçar as divisões internas chamam as atenções para o que está fora.  

Santana Lopes, já sabemos, é um bom ginasta político dando cambalhotas sempre que lhe convém. A sua experiência como primeiro-ministro entre julho de 2004 e março de 2005, XVI Governo Constitucional, foi lamentável e caricata. Estava a deixar o país à deriva. Lembro a caótica confusão na colocação de professores em 2005 quando era ministra da educação Maria do Carmo Seabra.

Foi o auge da promoção de “santanetos” e de “santanetes” deixando pelo meio algumas tristes experiência governativas cujo realismo deixou muito a desejar. Face ao que ele tem afirmado por aí não se augura nada de bom se ele for eleito para líder do partido. Terão sido anticorpos de Rui Rio dentro do partido (talvez os da ala neoliberal de Passos) que moveram apoios a Santana.

Há vozes a criticar o almoço de Marcelo Rebelo de Sousa com Santana Lopes sendo visto como um apoio disfarçado. Talvez seja porque seja mais fácil lidar com ele do que com o assertivo Rui Rio.

Rui Rio parece estar empenhado em retirar ao partido a conotação de direita fazendo-o regressar à social democracia o que parece ser difícil devido à camada neoliberal instalada. De qualquer modo não prevejo que venham a verificar-se grandes mudanças. Contudo, poderá ser através dele o caminho mais viável para fazer oposição ao PS na legislativas de 2019.

A ver vamos como decorrem as diretas em janeiro de 2018.