Terça-feira, 20 de Junho de 2017

Imaginação e cinismo

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É lamentável que um senhor deputado que deveria ser responsável fale, em tom jocoso, e em dói-dóis, desvalorizando o sofrimento de cidadão atingidos pela tragédia dos incêndios. Não é tempo para brincar senhor deputado Helder Amaral. Para além de vergonha deveria ter pelo menos, sentido político e de estado, e deixar de fazer gracinhas a calamidade tentando, ao mesmo tempo, beliscar politicamente alguém que está a apoiar, mesmo que seja através de afetos que é o que no momento necessitam pessoas que sofrem. A sua insensibilidade é notória como militante dum partido que diz perfilhar a democracia cristã. Nunca fui do CDS, mas, se o fosse, passaria a ter vergonha de o ser pelas afirmações lamentáveis do senhor deputado. Termino com a mesma frase que utilizei noutro post: tenha tento senhor deputado! Tenha tento!

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Cinicamente olho para as intervenções de alguns políticos e também de alguns jornalistas e comentadores, tendencialmente de direita, e vejo as suas lamentações sobre a tragédia que caiu sobre a zona de Pedrógão Grande e concelhos periféricos. Lamentam as vítimas e apresentam condolências aos familiares deixando nos entrementes algumas achas de ataque político.

À direita conseguiu que, sem esfoço, ou talvez não, lhe caísse oportunamente mão um filão para explorar politicamente. Vai explorar até onde puder. Fracassadas as tentativas de ataque para fragilizar alguns ministros e secretários de estado do atual governo agarram-se agora à ministra da Administração Interna.

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Recordemos agosto de 2013. Ministro da Administração Interna, Miguel Macedo. A serra do Caramulo foi dizimada pelo fogo, bombeiros morreram. O ministro publica e simplesmente lamentou o óbito. Pediu ele a demissão pelo acontecido? Não. Passos Coelho demitiu-o? Não. Ele demitiu-se devido à falcatrua dos “vistos gold”. Mas agora pedem já demissões. Estes senhores da direita são uns sem vergonha.

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Um certo cinismo e uma maldadezinha perversa, sem regozijo, claro está, fermentam na minha cabeça. Tentar fazer a leitura da mente deles, os da direita, para compreender seu ponto de vista.  Ponho-me então a observar a sua linguagem facial e a detetar a escolha cuidadosa das suas palavras, que pode ser uma pista clara para conhecer o que alguém está pensando.

Com uma pitada de fértil imaginação antevejo no seu íntimo uma certa satisfação interior, não manifesta, pelo acontecido e pela oportunidade que lhes foi dada pelos seus deuses invisíveis para iniciarem um discurso oposicionista que a tragédia lhes facilitou, já que nada mais têm.

Faço, como é óbvio, juízos de intenção e de valor antecipando o que poderá virá por aí. Conhecendo-se, por experiência, como a direita trabalhou/trabalha e as estratégias de caminhos ínvios quando lhes retiraram/retiram o poder e os privilégios, é natural que estes, seus descendentes, que frequentam os seus “corredores” as continuem a utilizar, se não nos atos, pelo menos nos argumentos, pela ofensa e pela maledicência. E mais não digo…

Publicado por Manuel Rodrigues às 18:25
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Segunda-feira, 19 de Junho de 2017

Quando os abutres pairam

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Todos lamentamos as vitimas causadas pela imensa tragédia provocada pelos incêndios dos últimos dias na região de Pedrógão Grande que ultrapassou as regiões periféricas daquele concelho.

Para quem acompanhou as reportagens e noticiários dos vários canais televisivos terá tido oportunidade de confirmar que esta tragédia tem sido, e continuará a ser, um pasto fácil para captar audiências.

Reportagens repetitivas, debates televisivos, entrevistas que, para além de informarem, servem também para fomentar a dúvida, pôr em causa tudo o que se fez e o que deveria ser feito ou, ainda poder contentar certa espécie de audiências, lançando achas de outra espécie para fogueira da comunicação, arremessando descréditos e subentendidos a instituições, apontando as mais diversas responsabilidades.

Na imprensa o triste acontecimento é fonte de inspiração para opiniões dispares e de interpretação subjetivas, reclamando o que anteriormente não reclamavam... Uma oportunidade também para contestarem as declarações do Presidente da República. Esquecem-se estas aves de rapina do que foi o tempo dos incêndios no tempo do governo que apoiavam, "comendo" o que de lá vinha, sem pestanejarem. Veja-se por exemplo o caso do incêndio na Serra do Caramulo em agosto de 2013.

Aí estão eles, os da direita com uma fácies triste e a mostrar condolência quando os seus adeptos, mostrando a sua fúria desmedida e mal contida espalham comentários através dos jornais online atribuindo culpas a quem está mais a jeito. Na sua fúria insana procurando fragilidades que lhe lhes garanta ganhos que têm vindo a perder. É a fúria dos adeptos duma direita extremista, irresponsável e irracionalmente furiosa.

Judite de Sousa parece ser, no meio da terra queimada e de cinzas, vestida de preto a condizer para mostrar o seu enlutar (fica-lhe bem no avermelhado da paisagem, assim como o cabelo a que parece pertencer), um dos abutres da comunicação, eventualmente feliz por dentro, por a desgraça alheia lhe ter trazido algo para debicar e beliscar numa política que parece não lhe agradar e puder ter audiências durante semanas. Quando há notícia que deem visibilidade pela-se por aparecer.

Deixando de lado o seu valor como investigadora, Raquel Varela é outra, noutro estilo, não perde a mínima oportunidade para ter audiências, aproveita tudo para uma contestação, a tudo e por nada, deixando qualquer leitor ou espetador alguma vezes perplexo  sem saber onde ela se situa. É contra tudo e todos. Apenas porque sim!

Neste momento canais de televisão ávidos da especulação para traduzirem más notícias em emoções para os espectadores iniciaram já a preparação de reportagens pondo frente às câmaras voyeuristas pessoas e famílias enlutadas, agora empobrecidas física e psicologicamente pela tragédia, colocando-as em primeiro plano numa tentativa de exploração política e emocional de situações de tristeza e de luto com o objetivo de atrair publicidade não olhando a meios. Esta tragédia servirá, durante mais alguns dias, ou semanas, para os “abutres” da comunicação televisiva fazerem uma espécie de marketing para captar audiências, mais do que para dar apenas informação.

Publicado por Manuel Rodrigues às 16:59
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Sexta-feira, 9 de Junho de 2017

Política do sofisma ou a direita enganadora

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A ação política faz-se pela palavra, pelo discurso. O discurso, mormente o discurso político, passa necessariamente pelos media, particularmente a televisão.

A linguagem dos políticos, todos, e dos comentadores da política, também, é sempre baseado na retórica. Tenho ao longo dos textos neste blog utilizado algumas vezes o conceito de retórica que atribuo aos discursos de alguns políticos, mais a uns do que a outros, embora tente distanciar-me, por vezes, sem sucesso. Vejam-se os comentadores da política que não de distanciam nem um milímetro da sua área ideológica, mesmo que a evidência da verdade lhes caia em cima da mesa do debate, o que é válido quer para os de direita, quer para os de esquerda.

Mas afinal o que se entende por retórica? Sem querer entrar na filosofia, ramo que não é do meu domínio, retórica é uma técnica de construção do discurso, cultivada pelos sofistas, que visa a criação de um texto fortemente persuasivo, através de um uso correto da linguagem e a que Platão opôs a dialética que é verdadeiro ou filosófico.

O filósofo belga Michel Meyer define retórica como “o encontro entre os homens e a linguagem na exposição das suas diferenças e das suas identidades. Sempre e em todos os casos, a relação retórica consagra uma distância social, psicológica e intelectual, que é contingente e de ocasião, e que é estrutural ao manifestar-se, entre outras formas, através de argumentos ou da sedução.”. Vemos que esta definição se encaixa perfeitamente na atitude política.

Quem tem paciência para assistir a debates políticos apercebe-se facilmente que há uma técnica já interiorizada pelos intervenientes cujo objetivo é o de levar aos que os escutam mudar sua opinião sobre determinada matéria ou questão, ou a reafirmá-la, se for o caso em que o emissor da mensagem se mostra convincente pelos gestos, pela voz, pela postura, pelo estilo, pela construção de silogismos retóricos através de vários estratagemas discursivos.

É isto que políticos e comentadores fazem, mesmo que contrariando evidências factuais reformulando todo o discurso desviando uma evidência para outro facto favorável a sua tese. Um exemplo evidente é o caso do PSD quando pretender transformar um sucesso do governo no seu próprio sucesso através de sofismas utilizando, para tal, argumentos deliberadamente falsos para tentar induzir em erro quem os escuta.

Sobretudo para a direita a verdade, como algo que à parte de e em possível conflito com as conveniências políticas e partidárias, deixou de fazer parte do seu universo de retóricas. Podemos, então, distinguir dois tipos de uso do discurso retórico: o pedagógico e esclarecedor e aquele que é demagógico e manipulador. Este último é o preferido pelos adeptos dos partidos, especialmente dos da direita, (embora à esquerda também se verifique, mas em menor escala), porque gostam de o ouvir não se apercebendo de que também estão a ser manipulados.

Assim, e para concluir, como se processa esta retórica dos inimigos do povo, como lhes chamam alguns radicais de esquerda?

Destruir e economia portuguesa fazendo crer que tudo o que fazem é a bem da economia e da competitividade com o sacrifício de muitos e, ao mesmo tempo, dizendo que é para bem de todos num futuro de amanhãs que cantam.  

Demonstrar que o que eles fazem ou dizem é a verdade absoluta e para os seus antagónico a verdade é sempre relativa.

Fazer constar que os indicadores sociais e da economia quando se encontram no poder são sempre positivos mesmo que o não sejam.

Mostrar que os mesmos indicadores quando favoráveis a quem está no poder são enganadores e que, se são positivos, é devido à ação da direita quando está no governo.

Demonstrar que qualquer decisão tomada que não seja pela direita conduzirá à chegada do diabo e ao cataclismo.

Retirar (cortar) o máximo de direitos básicos e ou constitucionais se possível que lhes possa dar mais margem de manobra.

Eliminar paulatinamente a classe média.

Fazer a apologia da austeridade drástica e intransigente com a título de reformas profundas na organização social sem explicitar o que por isso entende.

Mandar os jovens para o estrangeiro e os idosos (a peste grisalha) para o cemitério através de mecanismos que dificultem o acesso á saúde e propondo o corte nas reformas segundo o princípio demagógico de que não há alternativa.

Ampliar e maximizar o poder e os lucros dos seus fiéis para que lhes possam propiciar a sua permanência no poder.

Publicado por Manuel Rodrigues às 22:29
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Terça-feira, 6 de Junho de 2017

Será que para burros só nos faltam as penas?

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Depois do contratempo de Barcelona voltei ao ativo editorial deste blog. E começo pela questão da dívida pública que, a propósito, foi ontem constituída mais uma plataforma que elaborou um relatório sobre como a pagar em é substituída a palavra reestruturação por forma de pagar. Conclusão? Há agora dois relatórios e uma convicção comum: a dívida é excessiva.

Ultrapassado o problema do défice a direita PSD centra agora a sua “raiva” oposicionista sobre a dívida pública sobre o que evitava falar e discutir.  A direita há tempo trás, quando estava no governo nem queria ouvir falar nisso alegando na altura dificuldades que se prendiam com os mercados, e diabolizava todos quanto se referiam à palavra reestruturação da dívida. Lembrou-se agora a direita de constituir uma plataforma donde saiu um documento sobre o tema, após ter sido apresentado um outro elaborado por um grupo do PS e BE.

Compreende-se que o problema da dívida é melindroso e há que pegar nele com algumas pinças. No entanto, a direita nem com pinças lhe queria tocar. Parece agora que tudo mudou, porque, indo a reboque constituiu uma “plataforma” que autodenominou de PCS, Plataforma para o Crescimento Sustentável, (sigla que mais parece um disfarce, pois as letras P, C e S da referida sigla podem até querer significar Partido Comunista Social, ou coisa que o valha. Uma mistura de PC com PS, com um C no meio, talvez!).

A dita plataforma diz não ser do PSD, mas que é próxima do PSD. Isto é, aos seus elementos falta-lhes apenas o cartão de partido, porque, de resto, está tudo lá. Tentam fazer parecer que não é aquilo que é fazendo dos outros burros. Faz-me lembrar aquela anedota em que um sujeito diz para outro: “Para burro só lhe faltam as penas”. A reação foi imediata: “Mas burro não tem penas!” Ao que o primeiro responde: “Bom, então não lhe está faltando nada.”

A PCS diz-se uma “associação independente, sem filiação partidária”. Todavia, quem pertence ao conselho consultivo é Francisco Pinto Balsemão, um dos fundadores do PSD que, pelos vistos, parece não querer ser do PSD nesta andança, já que são apenas próximos do PSD conforme declaram. Neste momento ainda não se vislumbra o posicionamento de Passos Coelho face a esta plataforma PCS.

O projeto que o grupo de trabalho do PS e BE apresentou para discussão e reflexão sobre o tema da dívida pública tem que ser analisado e avaliado com algum cuidado para não ter um efeito contrário ao pretendido, pondo em risco a estabilidade dos mercados no que se refere aos juros e “ratings”.   

Prevendo outros ventos europeus sobre a gestão das dívidas públicas a direita, que diz que a sua plataforma não é PSD, mas que é PSD, vai a reboque, dizendo que não se trata de reestruturação, mas da forma de como pagar. Tirando o PCP e BE, alguém pretende o perdão, ou disse que não se devia pagar a dívida? O que esta direita pretende, como sempre fez, é confundir, enganar, baralhar.

Recordo que a primeira ideia apresentada sobre uma eventual restruturação da dívida lançada para debate, já lá vão mais de três anos foi o manifesto subscrito por 70 personalidades portuguesas que defendia que a reestruturação da dívida devia obedecer a três condições: abaixamento da taxa média de juro, alongamento dos prazos e reestruturação, pelo menos, da dívida acima dos 60% do produto interno bruto. Um dos subscritores que assinou o manifesto foi Manuela Ferreira Leite do PSD, que, na altura, foram diabolizados por Pedro Passos Coelho e pela sua “entourage” que, agora, e ainda bem para o PSD, mudaram de ideias.

O grupinho PCS quer um plano pós-troika de reformas para pagar a dívida, mas o que eles entendem por reformas já nós sabemos bem. O pós-troika é o regresso ao passado troikista com outro nome, e mais adocicado. Tudo isto não é mais do que um engodo, para ver se conseguem subir um pouco nas sondagens que andam muito pelas ruas da amargura, lá isso pode ser.

Publicado por Manuel Rodrigues às 22:21
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Contratempo em Barcelona

Há mais de duas semanas que me encontro afastado das lides da alimentação do blog e a causa esteve em Barcelona, já que resolvemos, eu e a minha mulher, ir visitar a cidade de Gaudi. Era nosso objetivo visitar os vários monumentos das arquiteturas emblemáticas únicas e distintas concebidas por aquele arquiteto e, de seguida, chegarmos a Saint Tropez no sudeste da França.

O bom tempo proporcionava a viagem em automóvel através de Espanha, calma e realizada em dois dias, com uma paragem para descanso na pequena cidade de Guadalajara, a cerca de sessenta quilómetros a nordeste de Madrid.

Atravessar aquela grande metrópole, próximo da hora de ponta, pelas circulares até encontrarmos a saída para Barcelona foi algo de aterrador. Não é a primeira vez que viajamos por terras de Espanha, vários itinerários já foram percorridos, mas parecia que todos os veículos do país tinham confluído para as autovias circulares que envolvem a cidade. Tudo fazia lembrar um carrocel de loucura. Ao fim de mais de meia hora lá estava a tão esperada saída A2- E90 para Guadalajara onde tires circulam em catadupa em direção a cidades, algures.

Guadalajara ficou com o meu telemóvel. Não sei se o perdi ou mo roubaram. Ainda estou para saber. Às dez da manhã, a cerca de cem metros do carro, ainda estava no meu bolso traseiro das calças, quando lá cheguei… onde estás? Onde te deixei que não te encontro? Esforço em vão. Ficou o benefício da dúvida. Talvez caído no banco do jardim onde antes nos tínhamos sentado. Este é o segundo telemóvel que ficou em Espanha, o outro foi em Mérida, há poucos anos atrás.

Finalmente Barcelona. Mais uma vez chegados a hora de ponta. Perto das 19 horas. Foi mais de uma hora para chegar ao centro com paragens sucessivas entre túneis e desvios. Motas, motinhas e motoretas proliferam nascendo e esgueirando-se pelos mais recônditos e estreitos espaços, resvés entre os veículos parados nas três faixas das circulares. Um autêntico inferno de motociclos. Surgem de todos os lados motociclistas de mochila às costas. No centro de Barcelona parques destinados a este tipo de veículos não faltam.

O nosso destino era um hotel moderno que tínhamos previamente marcado, localizado

 

Publicado por Manuel Rodrigues às 01:00
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Terça-feira, 9 de Maio de 2017

Andamentos em Dó Menor do mestre escola

Mestre Escola_Passos Coelho.jpg

Primeiro andamento:

 

O nevoeiro que avassala o PSD, que tem sido manifesto nas declarações do seu líder Passos Coelho, é confrangedor. Não avançando com qualquer medida concreta para as reformas e especificamente a da Segurança Social em junho de 2016  vai argumentando que os sociais-democratas não querem contribuir para “inquinar o debate desde já”, o presidente do PSD disse ainda que a reforma da Segurança Social está a ser feita sem transparência.

Em junho de 2015, Passos Coelho desafiava os restantes partidos, em particular o PS, para uma Reforma da Segurança Social, assumindo a aposta de uma comissão eventual no Parlamento que discuta a questão nos próximos seis meses. Para os convencer definiu linhas vermelhas: não haveria cortes nas pensões, não se mudaria o sistema de solidariedade geracional e deixaria cair o plafonamento das pensões, deixava algumas garantias para obrigar o PS a ir a jogo.

Se estaria ou não com boas intenções não sabemos, apenas sabemos que, uma mudança radical da sua posição sobre o tema levanta à partida suspeitas visto poderrmos considerar que está a falar para um eleitorado que, entretanto, perdeu.

A 30 de abril disse em Arganil, “que esta maioria não sabe conviver com quem não seja obediente, que não seja concordante com o poder vigente. Uma democracia precisa de pesos e contrapesos, de uma avaliação de práticas que sejam transparentes, do respeito pelas instituições. Quando isso não acontece, a democracia passa a ser limitada”. Mais acrescentou noutra altura que o processo da reforma da Segurança Social não está a ser transparente, mas o facto é que a comunicação social tem dado bem conta disso. Não merece comentário, basta perguntar: e, então o que fez quando estava em maioria absoluta no governo?

O dr. Passos Coelho tem dificuldade em sair do discurso de cangalheiro que é aquele discurso de circunstância que se faz quando não há nada para dizer e são críticas que “não são feitas à essência das opções, mas sim a situações colaterais”.

O ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, abordou o assunto à margem do congresso nacional da Economia Social, que se realizou na Póvoa de Varzim, lembrando que o Programa Nacional de Reformas, que depois de aprovado o ano passado tem este ano uma primeira revisão, “não sofreu alterações nos seus aspetos fundamentais”. Não foi o que Passos tinha dito antes?

 

Segundo andamento:

 

"Este Governo e esta maioria têm um único cimento, que foi repor rendimentos. O nosso problema não é repor rendimentos, é repô-los ao ritmo que não ponha em causa o equilíbrio de que precisamos para não voltar atrás", sustentou. O líder do PSD acrescentou que "o único cimento que esta maioria teve foi para reverter reformas estruturais importantes que se tinham feito".

Compreendi-te!

 

O líder social-democrata disse que os "Governos governam para o país, não governam para os seus eleitores nem para os militantes dos seus partidos" e "os países não podem ficar capturados por um determinado Governo ou maioria".

Parece que o anterior governo não era maioria e de que não estivemos reféns!

 

"Faz retaliação e a retaliação é um retrocesso democrático insuportável na época e que vivemos", afirmou.

Estou enganado. Ninguém foi retaliado democraticamente durante a maioria de direita.

 

"É preciso combater esta ilusão que se está a tentar criar de que os problemas estão resolvidos e que o que aconteceu em 2011 foi o resultado de uma conjuntura externa muito adversa e que não tem nada a ver com problemas estruturais que o país tenha"

Se bem me lembro este não era o discurso pré-eleitoral daquela época?

 

Terceiro andamento: reminiscência do passado, já lá vai quase um ano

 

O título deste post, “Dó Maior”  não se trata da nota da escala musical mas do nome masculino “dó”  que significa compaixão, piedade pelas atitudes da direita neoliberal do PSD e das suas juventudes que sofrem duma incultura histórica e política agravada.

Esta cultura da ignorância implica que o perfil cultural dos elementos dum partido político e dos seus satélites das juventudes partidárias, não é algo que possa ser considerado constante a partir dum qualquer curso ou de uma medida temporal localizada. Não se reduz aos níveis de escolaridade formal atingidos e não é encarado como qualquer coisa que se obtém num determinado momento e válido para todo o sempre.

A estas premissas acresce que a capacidade para desenvolver potencialidades e participar ativamente na sociedade tem de ser visto no quadro de níveis de exigências sociais em determinado momento para um bom desempenho de funções sociais diversificadas que corresponda ao exercício da atividade política. 

Neste contexto é manifesta a ignorância da montagem das imagens que em certas ocasiões a JSD faz proliferar que revelam confusão histórica e política, certamente premeditada. E, o que é mais grave ainda, têm a finalidade de confundir e amedrontar utilizando métodos idênticos aos já bem conhecidos utilizados no tempo do fascismo e das ditaduras idênticas às da Coreia do Norte.

Para estas juventudes politicamente formatadas, cultural e mentalmente alienadas, não podemos esperar, no futuro, nada de bom, ainda que Passos Coelho nos seus tempos de governação tenha sugerido várias vezes que, ao tomar medidas contra a grande maioria do povo, estava a pensar no futuro das novas gerações. Gerações como estas da JSD, geradas no casulo dum PSD cada vez mais neoliberal e radical, apesar do golpe de rins que nos últimos meses tem feito! Esperemos que, por isso, não venham a ter uma entorse de coluna.

Sobre a máquina da ignorância, digo eu, da incultura histórica, ao serviço da política Pacheco Pereira escreveu em tempo um artigo no jornal Público sobre o financiamento a algumas escola privadas, que vale a pena ser lido, e onde, a certa altura, escreve: “É de um ridículo atroz dizer que o cancelamento de alguns contratos com colégios privados, — que são negócios legítimos, mas negócios, — tem alguma coisa a ver com o estalinismo.”.

Publicado por Manuel Rodrigues às 19:27
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Segunda-feira, 8 de Maio de 2017

Mais uma vez a Mulher Maravilha

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A Mulher Maravilha das finanças, Maria Luís Albuquerque, para além do mais, é descarada, e está a pretender esconder duas realidades: a do país que se tem vindo a firmar positiva, embora não tanto quanto seria preciso; e a sua própria realidade que é a mesma do líder do seu partido que governou quatro anos e meio que diz que tudo o que está a acontecer agora a ele é devido. Pois é, tudo o que está a acontecer a Portugal também foi devido a D. Sebastião se ter perdido lá por Marrocos e, passados quarenta anos, se ter dado a revolução de 1640.

Para a Mulher Maravilha de portuguesa “No crescimento, na consolidação e na confiança 2016 foi um ano perdido”. Ninguém duvide do que ela diz, é, por isso, que é uma super-heroína. Continuamos é a não saber o que faria para que tanto mal se transformasse num bem idealizado pela sua realidade.

A Mulher Maravilha, Maria Luís Albuquerque, anda por aí, com o seu esplendor, qual flor de girassol, a rodar consoante o movimento do sol, a dizer que alguma vez ela, ou o seu partido, quisessem a privatização da Caixa Geral dos Depósitos. Vejamos o que disse Passos em 27.03.2011 segundo um jornal da época, “O líder do PSD abriu, ontem, a porta para privatizar parte da Caixa Geral de Depósitos. É uma das medidas que deverão constar do pacote de privatizações a efetuar, caso o PSD vença as mais do que prováveis legislativas antecipadas.”

Em 21 de setembro de 2012 “Passos Coelho não excluiu hoje no Parlamento a hipótese do Governo vir a privatizar a Caixa Geral de Depósitos”, escrevia o jornal Diário de Notícias.

Passados cerca de dois anos, em maio de 2014, era noticiado que “O Governo pretende privatizar a Caixa Geral de Depósitos (CGD) até ao final de 2015. A denúncia foi feita ontem pelo Sindicato dos Trabalhadores das Empresas do Grupo CGD através de um comunicado. "O Governo já terá deliberado que a privatização da Caixa Geral de Depósitos deverá estar consumada até final de 2015 e que esta matéria constará mesmo da carta de intenções já enviada, ou a enviar, ao FMI, na sequência da 12ª avaliação da troika".

Segundo a agência Lusa a 7 de maio de 2017 disse A Mulher Maravilha: “Acusam-nos de querermos a privatização da Caixa, mas lembro que estivemos quatro anos e meio no governo e não tomámos uma única iniciativa para o fazer.”. O que diz é verdade não tomaram “uma única iniciativa para o fazer”. Será porque deixaram de estar no poder? Ou, talvez, porque não tiveram tempo?

O meu subconsciente trouxe-me para a memória recente a segunda volta das eleições francesas e Marine Le Pen, quando alterou parcialmente o seu discurso radical de extrema direita, adoçando-o com alguns pacotes de açúcar mais liberais no que se refere, pelo menos, ao refendo sobre a saída da União Europeia e outras “bêtises” calamitosas para os franceses e não só…  

Publicado por Manuel Rodrigues às 17:08
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Domingo, 7 de Maio de 2017

Mulher maravilha e girassol da economia e finanças

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Atenção a todos o que se atrevam a comentar positivamente a política económica do atual Governo e os seus resultados, fiquem sabendo que não estão habilitados a tal. Apenas instituições nacionais e internacionais e europeias, independentes e iluminadas se podem dar a essa magnificência, embora saibamos que são políticas, mas Maria Luís Albuquerque quer dar a entender que são independentes.

Senhor Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, veja lá se tem tento, porque isso de falar sobre a economia do país não é para si, aliás, nem devia falar em nada do que se passa no país, porque o Senhor não tem competência, tá a ver!? O senhor não deve falar em nada, deve ficar lá no seu buraquinho caladinho e, quando falar, deve fazê-lo criticando, apenas, e só, o Governo. Está é uma das formas como podemos interpretar o que Maria Luís Albuquerque, Mulher Maravilha e girassol da economia e finanças, disse numa entrevista. Tal como o girassol ela é um heliotrópico (segue o movimento do sol) que indica o seu caráter solar de esplendor derivado da forma radiada da flor, aplicado às finanças e à economia.

Lamentável a prosápia desta senhora quando, em entrevista em 2016 ao jornal de Negócio, de direita, “critica o modelo económico que está a ser seguido pelo atual Governo, baseado no consumo interno. “O modelo económico não funciona” e “já tinha sido demonstrado no passado”. “O erro deste modelo não é matéria sujeita a opinião. Estamos a falar de factos”.

Agora que parece estar a funcionar mantém-se na dela juntamente com o seu grande amigo líder do ex-governo em que participou.

No Olimpo dos deuses da economia e das finanças só alguns tecnocratas de direita podem penetrar porque só a eles pertencem as verdades absolutas, inflexíveis, invariáveis e inalteráveis. Maria Luís acrescenta maior esplendor ao seu prestígio com a auréola da candidatura pelo PSD à Assembleia Municipal de Setúbal. O seu esplendor não a irá abandonar!

 

Publicado por Manuel Rodrigues às 16:03
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Quinta-feira, 4 de Maio de 2017

Visão da comoção e do cinismo

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João Miguel Tavares escreveu no jornal Público que acha “comovente que tanta gente de esquerda se espante com o posicionamento do Bloco e do PCP nestas presidenciais francesas, por se recusarem a apoiar, à imagem de Jean-Luc Mélenchon, Emmanuel Macron contra Marine Le Pen comovente que tanta gente de esquerda se espante com o posicionamento do Bloco e do PCP nestas presidenciais francesas, por se recusarem a apoiar, à imagem de Jean-Luc Mélenchon, Emmanuel Macron contra Marine Le Pen”. Também eu me comovo com o que ele, de forma cínica, escreve. Ele é como um cínico picador de toiros que gosta do animal, mas pica-o para o enraivecer para que a lide seja mais conseguida para o toureiro.

Pretende acicatar o PCP e o BE para que, aqui dentro, aqui em Portugal, e contra António Costa e o seu Governo, ajam com o espírito revolucionário, desestabilizador e extremado que, para ele, deveria ser peculiar. A Miguel Tavares assoma desejos não explicitamente manifestos, de desestabilização da solução governativa apoiada parlamentarmente pela esquerda. Assume-se como sendo um grande educador virtual daqueles dois partidos que, para ele, deveriam ser preferencialmente mais revolucionários cá dentro como o são quando olham para a política internacional.

Por estas, e por outras, é que ainda fico mais comovido quando leio artigos de opinião e comentários provenientes de fontes que se situam entre a extrema-direita, que se diz não existir em Portugal, e a direita dos autointitulados liberais.

O PCP e o BE, ao darem apoio parlamentar ao Governo, passaram a ser para Miguel Tavares, e para a direita, uma espécie de dentes do siso que lhe nasceram na dentadura e já se encontram cariados, e lhe doem muito, mas estão a custar-lhe a arrancar.

No momento em que decorreram eleições em França (primeira volta), e está a decorrer a campanha eleitoral para a segunda volta o que tenho visto e lido vai no sentido de a direita, cá dentro, através dos seus artigos e comentários, não se pronunciar claramente sobre os candidatos em presença. Se, por um lado, fazem criticas moderadas a Macron, já quanto a Le Pen há “nins” que sobram. A suas manifestações públicas, quando são de oposição a Le Pen são contidas, palavras muito escolhidas para não assustar potenciais fãs. Assim como os liberais da direita portuguesa quando da eleição de Trump foram de crítica contida, moderada. Vamos ver o que dirão sobre a tomada de posição de Obama ao apoiar Macron nas eleições francesas. É claro o “namoro” ideológico entre Le Pen e Trump.

Em Portugal a direita e os seus liberais, e a extrema-direita que anda por lá diluída, têm vestido até hoje peles de cordeiro. Será que os radicais, neste caso a extrema-direita de Le Pen, se porventura chegasse ao poder, deixaria de o ser, ou faria o que fez Erdogan na Turquia?

Publicado por Manuel Rodrigues às 19:20
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Sexta-feira, 28 de Abril de 2017

O processo

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Mais um adiamento, na prática sem prazo, do processo “Operação Marquês”. Já afirmei várias vezes que não discuto nem comento o processo de que Sócrates é arguido, nem a sua presumível culpabilidade ou inocência, olho apenas a forma como o processo tem vindo a ser gerido com sucessivos adiamentos de acusação. Por este andar podemos suspeitar que poderá ser conveniente começar a acusação próximo das eleições autárquicas. Se assim for, não me digam que é coincidência, posso então inferir que estes adiamentos podem servir como estratégia partidária de alguns pois de certo que na altura a comunicação social arranjará espaço para esmiuçar e espicaçar.

Ao olhar para a estante onde repousam os meus livros recordei-me de Franz Kafka e do livro “O Processo”, de que é autor, uma espécie de protótipo do absurdo. Procurei-o, e do mesmo transcrevo uma pequena passagem.

 

“― Não pode sair; o senhor está preso.

― Assim parece ― disse K. ― E por que razão?

― Não é da nossa incumbência darmos-lhe explicações. Volte para o seu quarto e aguarde. O processo já está a correr, o senhor será informado de tudo na devida altura. já estou a exceder os limites da minha missão ao falar-lhe assim tão amavelmente; no entanto, espero que pessoa alguma, além de Franz, me ouça; Franz, aliás, contra todos os regulamentos, trata-o com verdadeira amizade. Se daqui para o futuro, o senhor tiver tanta sorte como a que teve com os seus guardas, poderá acalentar esperanças

K. reparou também que entre os dois homens se trocavam sinais de entendimento a seu respeito. Que espécie de gente era aquela? De que falavam? A que repartição do Estado pertenciam? K. vivia num Estado que assentava no Direito.

– Ó meu Deus! – disse o guarda. – Como é incapaz de adaptar-se à situação e parece determinado a irritar-nos inutilmente, a nós que, entre todos os outros, somos sem dúvida os mais próximos de si!

Quer apressar o fim do seu maldito grande processo, discutindo a identidade e o mandado de prisão connosco, os guardas? Somos apenas funcionários, quase incapazes de nos entendermos com documentos de identidade e cujo único elo com o seu caso é ficarmos de guarda dez horas por dia à sua casa, sendo pagos para isso. Eis tudo quanto somos; todavia, somos capazes de perceber que as altas autoridades que servimos, antes de ordenarem uma tal detenção, se informam pormenorizadamente dos motivos da prisão e da pessoa do acusado. Não existe erro possível. As autoridades de que dependemos, tanto quanto as conheço, e apenas conheço os escalões mais baixos, não são do género de ir procurar a culpa no seio da população; pelo contrário, como diz a lei, é a culpa que as atrai, e elas devem então mandar-nos, os guardas. É a lei. Onde poderia haver erro?

– Ignoro tal lei – disse K.

– Tanto pior para si – disse o guarda.

De uma maneira ou de outra, os pensamentos dos guardas, desviá-los a seu favor ou dominá-los.

Mas o guarda ignorou simplesmente a sua observação, dizendo:

– Há de sentir-lhe os efeitos.

Franz interveio então:

– Estás a ver, Willem, que ele reconhece que ignora a lei, e afirma ao mesmo tempo estar inocente.

– Tens perfeitamente razão, mas não há outra maneira de fazê-lo escutar alguma coisa – disse o outro.”

Publicado por Manuel Rodrigues às 18:39
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Zombies versus Judas

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As intervenções de ontem na Assembleia da República por parte do PSD e do CDS, sobretudo as do primeiro, foram uma espécie de deserto inóspito onde nada sobrevive. Sem nada para dizer ou para oferecer como alternativa senão as mesmas receitas do passado vão-se fazendo de vivos através duma oposição circunstancial sobre a qual se vão arrastando, alimentando-se de nada. Atravessam um deserto de ideias como uma espécie que, aos poucos, se vai extinguindo.

São um grupo de gente que não produz nada de prático limitando-se a fazer oposição de casos. O PSD perdeu o prestígio que adquiriu pela sua história e pela elevação das suas ideias. Está agora a pagar o preço da sua deriva neoliberal.  A sua oposição ao atual governo faz-me lembrar do conto de Christian Anderson, em que uma criança pôs em evidência um facto dizendo “olhem o rei vai nu” e, então, todos os presentes começaram a murmurar que, de facto, não trazia nada vestido, mas que, até então, não se tinham atrevido a gritar.

A direita está bloqueada, faz uma oposição casuística dos acontecimentos sem nada para apresentar. Argumenta com casos circunstanciais e sem um corpo que possibilite uma alternativa. A sua alternativa é a do passado, aliás confirmado pelo próprio Passos Coelho quando diz: “Este Governo e esta maioria têm um único cimento, que foi repor rendimentos. O nosso problema não é repor rendimentos, é repô-los ao ritmo que não ponha em causa o equilíbrio de que precisamos para não voltar atrás”, sustenta. O líder do PSD acrescenta que “o único cimento que esta maioria teve foi para reverter reformas estruturais importantes que se tinham feito” e acusa o atual Governo, do socialista António Costa, de não ter feito “nenhuma reforma estrutural”. Mas que reformas fizeram eles? O que significa para eles esse vago conceito a não ser dividir o país e cortar a eito, sem quaisquer critérios, fazendo com que todos, e a sua clientela eleitoral, acreditássemos em que não havia alternativa?

O que ele diz agora não é mais do que repetir, por outras palavras, o programa do passado que, apesar de tudo, ajudou a travar a despesa, mais por obrigação do que por mérito. De qualquer modo fazia parte do seu programa empobrecer o país, apenas alguns, com um programa mais gravoso do que aquele que a troika trazia no bolso. A direita com a sua liderança agarrada como está ao programa original do passado que não pretende, nem pode alterar, sob pena de descredibilização, limita-se a discordar de tudo, mesmo da evidência dos indicadores, desvalorizando-os com argumentos falaciosos e desviantes. Preocupa-se porque as divisões que criou nas pessoas e no país, assim como as crispações que causou esboroam-se e a tendência é, de novo, a da união.

Mas eis que está a surgir, qual fénix renascida (pássaro da mitologia grega que, quando morria, incendiando-se, passado algum tempo, renascia das próprias cinzas), o antigo dirigente do PSD, Miguel Relvas, a defender que o partido “tem de virar a página” e a “apresentar um projeto alternativo” aos portugueses, e propõe Luís Montenegro, o atual líder parlamentar, como potencial rosto do futuro do PSD. O PSD parece que vai de mal a muito pior. elvas e Montenegro são cúmplices absolutos de tudo o que se passou no passado e continua ainda a sê-lo. É bom recordar que Relvas foi o braço direito de Passos Coelho e a sua muleta, juntamente com o engenheiro Ângelo Correia, este na opacidade.

Relvas que é um ‘patriota de mérito’ disse a jornalistas que não vai voltar à vida política, mas continua interessado no futuro do país. Houve um político do PS que afirmou do atual líder que é “um oportunista político filho da crise global, um servidor de interesses e um líder sem pensamento político”. Penso que, apesar de tudo, é ofensivo e que há pensamentos de responsáveis políticos que não devem ser verbalizados desta forma. Outra coisa é poder interessar à esquerda e ao centro esquerda que lá Passos permaneça no seu lugar.

Quem na altura própria fez tudo para elevar Passos à liderança e a primeiro-ministro está agora a contribuir para o fazer cair, são as judas da política que se perfilam para banir os mortos-vivos que por lá andam revestindo-os com novos trapos.

Publicado por Manuel Rodrigues às 15:44
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Terça-feira, 25 de Abril de 2017

O dia do 25 de Abril

 

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Algumas recordações do 25 de Abril em 2017 vão ficar por aqui. Este dia é também um dia para reflexão sobre o passado e para alguma autocrítica sobre as opções tomei. Concluí que ao fim de 43 anos de democracia e de eleições livres cometi três erros nos últimos sete anos por falta de análise criteriosa da situação política e partidária, o  que me levou a tomar opções que depois verifiquei serem erradas. O voto não pode ser visto como algo sem importância, nem ser feito de ânimo leve porque os erros, por vezes, saem muito caros. Um deles, o último não terá sido por desconfiança e esta, às vezes, não é boa conselheira.

 

Publicado por Manuel Rodrigues às 21:48
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Domingo, 23 de Abril de 2017

Considerações sobre alguns factos do 25 de abril

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Encontramo-nos nas proximidades das comemorações do 25 de abril, faltam 48 horas, e é bom relembrar e relacionar factos casuais de personalidades da política atual com o passado.

Miguel Júdice foi recrutado pela TVI 24 para o comentário político há alguns meses atrás. É claro o espírito deste comentador. Não vou sintetizar o que ele tem dito, mas limito-me a citar um dos comentários mais recente, este no que toca a Marcelo Rebelo de Sousa.

Até parece coincidência, mas o jornal i de hoje publicou uma entrevista com José Miguel Júdice, um militante da extrema direita do pós 25 de abril que se reciclou posteriormente em democrata militando no PSD. Na entrevista Júdice tece comentários pessoais a políticos denegrindo alguns de forma muito clara, mas politicamente correta como um oportunista da política. Um dos atingidos foi Marcelo Rebelo de Sousa que considera como sendo «maquiavélico de forma instrumental, é ácido, às vezes, com as pessoas, mas isso não é o objetivo da vida dele. Se ele achar que esse lado da vida dele, às vezes lúdico, outras vezes sarcástico, lhe é útil, não deixará de o usar, mas ele quer ficar na história como o melhor e o mais importante Presidente da República em democracia». Não ficando por aqui diz ainda que «é manipulador, é capaz de jogar com as pessoas, é capaz de dizer mal das pessoas quando elas não estão presentes... Tem esses defeitos, mas tem enormes qualidades cívicas e é uma pessoa de uma honestidade elevada. É uma pessoa que faz falta na política».

Miguel Júdice dá uma no cravo outra na ferradura, mas lá vai passando a mensagem negativa.

Este advogado, ex-dirigente do PSD, membro do secretariado em 1984 e do conselho Nacional em 1985, logo após o 25 de abril participou em ações da extrema-direita como dirigente do PP – Partido do Progresso integrando posteriormente o MDLP - Movimento Democrático de Libertação de Portugal que «Spínola liderava e que contava com uma organização espalhada pela Espanha (Alpoim Calvão, José Miguel Júdice, entre outros), França (Sanches Osório) e Brasil, tinha sido já anunciado um mês e meio antes e começava a articular-se com o Exército de Libertação de Portugal (ELP), que unira figuras da extrema-direita, incluindo ex-elementos da PIDE, apostadas em “limpar o país de todos os cães comunistas e traidores” e com o Movimento Maria da Fonte, liderado pelo editor da obra de Spínola Portugal e o Futuro, Paradela de Abreu, e por Jorge Jardim, em íntima conexão com o Arcebispado de Braga e sectores empresariais do Norte do país contra sedes de partidos políticos da direita com o objetivo de culpar os partidos de esquerda» escreveu o jornal Público em 26 de abril de 2014, também relatado no livro Quando Portugal Ardeu, p. 75.  

«ELR MDLP, Igreja, ex-agentes da PIDE e da Legião, elementos de guerrilhas e movimentos avessos à independência das ex-colónias, mercenários, ex-militares, serviços de inteligência estrangeiros, banqueiros, empresários e industriais. A extensão da rede de cumplicidades e ramificações para pôr o Portugal pós-revolução a arder não olhou a meios nem a divergências de pormenor.

Os vários exércitos, da contrarrevolução, alguns avulsos, foram responsáveis por 566 ações violentas no País entre maio de 197 5 e abril de 1977, uma média de 24 atos de terrorismo por mês, quase um por dia, causando mais de dez mortes e prejuízos incalculáveis no património de vítimas e instituições. os partidos à esquerda do PS, com o PCP à cabeça, a par de militares e sindicatos, foram os alvos preferenciais de quase 80 por cento das bombas, assaltos, incêndios, espancamentos, apedrejamentos e atentados a tiro. A contabilidade foi coligida num Dossier Terrorismo, elaborado pelo PCR mas os cálculos não merecem suspeita. "Muito do que eles escreveram naquele livro está correto reconheceu Francisco Van Uden, do ELP. Também é um indicador de que eles possuíam uma estrutura de informação muito bem organizada, assume». (In Quando Portugal Ardeu, Miguel Carvalho, p. 79)

Em julho de 2006 o jornal Correio da Manhã noticiava que Conselho Superior acusava Míguel Júdice de violação das normas deontológicas. Em causa estava «uma entrevista ao Jornal de Negócios, em 2005, após o longo período de silêncio que se seguiu ao fim do mandato como bastonário. Júdice defendeu que o Estado devia contactar as três maiores sociedades de advogados do País para serviços de consultadoria, entre as quais a PLMJ da qual é sócio e que conta com 220 advogados. A declaração soou a publicidade e deu origem a um processo disciplinar.»

Muita coisa estará por contar sobre as manigâncias da extrema-direita da qual muitos dos seus cabecilhas e dirigentes se reciclaram em democratas espalhando-se pelos partidos da direita democrática donde agora manobram lenta e engenhosamente para conseguirem os seus intentos servindo-se da voz que lhes é dada pela comunicação social.

Ainda bem! É sinal de que estamos a viver em democracia e liberdade de expressão de pensamento, o que nos obriga à responsabilidade democrática de, após 43 anos, continuarmos atentos.

Publicado por Manuel Rodrigues às 17:15
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Sábado, 22 de Abril de 2017

O futebol já não é desporto está a tornar-se uma fábrica de violências

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A estratégia terrorista tem vindo a difundir-se também no desporto e, sobretudo, no futebol que, como desporto de massas, é propício a este àquelas atividades cujas causas são várias, tais como o clubismo exacerbado, com manifestações intimidatórias e desenfreadas para com os adversários e a criação de instabilidade social com finalidades políticas. É nas chamadas claques, que se infiltram elementos de organizações políticas mais ou menos clandestinas e destinadas a provocar desacatos.

Até nos próprios clubes o terrorismo passou a estar presente no retângulo do confronto desportivo para passar a residir também no confronto físico entre as próprias equipas no terreno. Estes confrontos de violência já atinge as equipas de arbitragem. Oo que se passou no encontro entre o Sport Rio Tinto e Canelas que durou apenas três minutos, depois de um jogador da equipa gaiense ter agredido um atleta da formação da casa e o árbitro que foi hospitalizado, é bem evidente.

Alguns dos comportamentos violentos podem ser espontâneos, outros tomam formas de violência mais organizada. O primeiro tipo, a violência espontânea pode ser causada por uma decisão "errada" do árbitro, por exemplo, ou mesmo por uma "palavra" errada de alguém. Estas são situações que não se podem prever e que podem levar a um caos total. É muito perigoso e requer uma reação rápida da polícia. O último tipo, a violência organizada, pode até ser mais perigoso e de maior dimensão, como temos visto quando há desafios importantes.

Ainda hoje o Presidente do Boavista denunciou o "clima de agressões verbais, pressão, intimidação e autêntica coação" criado "por representantes diretos e indiretos dos chamados três grandes".

Muitos exemplos poderíamos encontrar para ilustrar o problema das lutas entre “adeptos furiosos” e bem organizadas contra outros grupos onde por vezes inocentes são sacrificados. Outro aspeto a considerar é que nos estádios a segurança tornou-se mais eficaz e isso torna mais difícil um motim no próprio estádio. Estes amotinadores encontram agora outros locais onde ainda podem continuar com suas atividades ilegais o que torna obviamente mais difícil o seu controle pela polícia.

O futebol é campo propício para avidez de violência que se encontra latente nos adeptos que concentram dentro de si as frustrações que vão libertar no futebol que manifestam pelas mais diversas formas.

A política também encontrou o seu lugar no futebol para se insinuar aos que gostam de futebol. Não é por acaso que muitos políticos no ativo se transformaram em comentadores desportivos, (leia-se de futebol), isto porque pode ser um meio de dar dividendos políticos a prazo.

Os próprios clubes, pelo menos os que mais se evidenciam, criaram condições psicológicas favoráveis para, em vez da competição saudável entre clubes, passar a ser uma competição que gera ansiedade individual pela iminência de um acontecimento desagradável, a perda do jogo pelo seu clube, e, entre grupos de adeptos, que se torna em violência patológica entre adeptos diferentes.

Publicado por Manuel Rodrigues às 20:47
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Sexta-feira, 21 de Abril de 2017

Causa e consequência dos males do mundo

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A mensagem de que os velhos são a causa dos males que as sociedades enfrentam tem vindo a tomar corpo através de artigos de opinião e posições tomadas por alguns quadrantes interessados em encontrar bodes expiatórios utilizando, para tal, a comunicação social.

Na altura do Brexit surgiram títulos em que se pretendia fazer crer que os causadores tinham sido os mais velhos. «O Reino Unido está dividido. Não só pelos 3,8 pontos percentuais entre o ficar e o sair, mas também porque jovens e idosos votaram de forma distinta. E há quem diga que os velhos "lixaram" os novos.», dizia um título num órgão de comunicação online que apresentava gráficos de credibilidade duvidosa. Por ser secreto, o boletim de voto nada indica sobre a idade do eleitor. Assim, apenas restam pressupostos enviesadas donde se podem tirar apenas conclusões meramente especulativas baseadas em presunções falíveis sobre dados demográficos regionais. Por outro lado, há que procurar justificações para o falhanço que têm sido as projeções que davam a vitória do “Sim” à permanência do Reino Unido na UE.

O mesmo se passa com a vitória do “Sim” à atribuição de poderes absolutos a Edorgan na Turquia em artigos de opinião de jovens escribas, dinâmicos e cosmopolitas abertos ao mundo, ávidos de protagonismo no circulo da comunicação que sopram na mesma direção. Para um desses jovens da comunicação, na Turquia os jovens dinâmicos foram os perdedores devido a que, nos referendos, ganham os mais velhos socialmente conservadores. Claro, nem mais!

Para aqueles fazedores de opinião Erdogan aumentou os seus poderes graças aos mais velhos, já que a questão étnica relacionada com os curdos, tema em que os tais jovens dinâmicos e velhos parecem estar de acordo, parece não interessar. O voto dos curdos, cerca de 16% dos 80 milhões de habitantes, era uma das principais incógnitas do referendo e poderia fazer pender o resultado para o "sim" ou para o "não". Diversos setores curdos conservadores apoiaram o AKP, mas a maioria tem-se reconhecido no Partido Democráticos dos Povos (HDP, terceira força política no parlamento), que apelou ao voto contra a revisão constitucional e denunciou uma campanha desigual, em particular um tempo de antena quase inexistente.

É bom recordar que a integração europeia foi construída graças aos cidadãos que agora são os velhos que acusam de ser os causadores da saída. Em Portugal foram também esses que deram o seu apoio à adesão de Portugal à Comunidade Europeia (então CE), consumada pelo tratado de Lisboa - Madrid assinado em 12 de junho de 1985.

Aliás, pode constatar-se donde provem a tendência mais conservadora nas eleições em Portugal, se dos velhos que viveram o 25 de abril ou dos novos que nem sabem como isso foi. Para estes jovens dinâmicos, cosmopolitas e abertos ao mundo recomendo a leitura de Portugal em Chamas” de Miguel Carvalho.

Todos se recordam que aquele tipo de ideias tinha já sido lançado por um jovem dinâmico do PSD através do slogan “peste grisalha” para além doutros impropérios provenientes da mesma área.

Conservadores ou progressistas podem ser todos, novos ou velhos. Não depende dos desejos ou dos interesses de quem queira arranjar desculpas para a frustração das suas expectativas. As sociedades humanas são demasiado complexas onde inúmeras variáveis em presença não tem contemplação com análises simplistas com base em informações especulativas. Os que votam hoje conservador poderão amanhã votar progressista.

Das doutas opiniões destes jovens sabedores que não calcorrearam os caminhos do sucesso porque tudo lhes foi oferecido, não digo de mão beijada, mas pelas oportunidades que lhes foram proporcionadas pelos mais velhos, podemos tirar a conclusão de que o envelhecimento da população empurra as sociedades para o conservadorismo, mesmo aqueles que, quando jovens eram acusados pelos mais velhos da altura de serem revolucionários. 

Não servindo de comparação, recordo que há várias formas de se criarem bodes expiatórios como aconteceu no Terceiro Reich ao ser lançada pela propaganda nazi a mensagem de que a causa de todos os males que assolavam a Alemanha de então eram os judeus. Após a perda da Primeira Guerra Mundial os judeus passaram a ser bodes expiatórios da ruina financeira e económica que a Alemanha atravessava já que, quase metade de todos os bancos privados alemães pertenciam a judeus, a bolsa de valores era dominada por negociantes judeus, quase metade dos jornais da nação eram comandados por judeus assim como 80% das lojas de departamentos.

 

Publicado por Manuel Rodrigues às 20:27
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Quarta-feira, 19 de Abril de 2017

Que gente é esta?

Publicidade enganosa.png

Há um anúncio enganador colocado como publicidade paga à Google que pretende angariar clientes (?) através do engano.

Que gente é esta que está por detrás desta publicidade enganosa que se serve da política para fins pouco claros?

A imagem e a legenda foram extraídos do portal www.vercapas.com que circula pela Internet . É um anúncio gerido pelo Google e é uma publicidade paga pelo anunciante cujo conteúdo pode ser visto em http://sl.empiricus.pt/pce02-colapso/?xpromo=XP-ME-GGL-PCE02-L1SUBPT-X-SDC-X-&=pce&gclid=CL7js_PqsNMCFQEL0woducoEDQ

 

Publicado por Manuel Rodrigues às 17:02
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Sexta-feira, 14 de Abril de 2017

A leitura do momento

 

Quando Portugal Ardeu.png

Regressei do Portugal da Beira Interior para fugir das festas da época pascal na chamada província.  A Páscoa não é para mim. Fora das grande cidades vive-se intensamente esta época, mais do que o Natal que é o símbolo do nascimento. Na época da Páscoa são demasiados os rituais religiosos que estão ligados ao renascer da natureza com a chegada da primavera. Esta sim, é a ressurreição da vida que se faz notar por todo o lado de norte a sul se Portugal que o citadino não capta no meio da confusão do transito e das compras para a Páscoa.

É também um boa altura para iniciar leituras assim selecionei um livro cujo lançamento aconteceu este mês. História e jornalismo podem complementar-se quando este nos trás para o presente factos dum passado mais ou menos recente. São, todavia, relatos diferentes da história. O jornalismo recupera testemunhos e documentos, ajuda a recuperar a memória do povo, que tem tendência para o esquecimento, dá uma visão aos mais jovens do passado que não experienciaram. O livro “Quando Portugal Ardeu” de Miguel Carvalho que agora comecei a ler foi com base em testemunhos e documentos inéditos e não é de história é jornalismo como diz o autor.

Publicado por Manuel Rodrigues às 17:55
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Terça-feira, 11 de Abril de 2017

No meio do nada nestes calmos dias de primavera

No meio do nada.jpg

O que tem ultimamente tem acontecido na política não sei. Encontro-me no meio do nada e a televisão a ele se associa deixa-me respirar. Longe do palco da política em plena beira interior onde os jornais não chegam e a televisão é a única fonte de informação. Aqui a  Internet ainda é para alguns, senão um luxo devido ao seu custo mensal, algo desnecessário e a resistência à mudança não facilita a adaptação e essa coisa das novas tecnologias que não enchem barriga.

Para a gente destes lados basta-lhes serem bombardeados diariamente com os noticiários das televisões que apenas lhes mostram as desgraças do mundo e sobre a política do país dizem apenas o mau e omitem ou tornam impercetível, para muita desta gente, o que houver de bom.

Estas gentes raramente falam de política, fogem dela como o diabo foge da cruz. População envelhecida, nascida, criada e vivida no tempo da ditadura salazarista ficaram-lhes bem vincados os receios de outrora. Todavia, a abertura das conversas em que a política aflora, vai-se timidamente mostrando. Ainda hoje, numa conversa entre vizinhas onde falavam de galinhas, flores, cultura e estado do tempo veio à baila, não sei como, a política. Falaram de Cavaco Silva não percebi sobre o quê e, no meio do diálogo, uma delas disse para a outra que o «António Costa está lá agora, mas já devia lá estar há muitos anos». Conversa terminada. Numa região cavaquista e conservadora pareceu ser uma luz no meio da escuridão. Oxalá ela não se engane, e eu também não para bem de todos.

Entretanto vim para aqui trabalhar, sim, porque aqui trabalha-se nem que seja para apanhar as folhas que o inverno deixou pelo chão e cortar as ervas que a primavera trás. Nos intervalos o sossego do espaço que nos envolve proporciona à reflexão, não apenas sobre política, embora esta esteja cada vez mais presente em todo o lado sem que nos apercebamos, mas sobre outros temas que alimentam o espírito.

Antes de vir revi algumas obras de escritores clássicos folheando aqui e ali as suas páginas motivado pela leitura do livro “A Vida Secreta dos Livros” que li recentemente. Os clássicos parecem estar na moda pois nas livrarias proliferam reedições dessas obras mergulhadas nas estantes que pareceriam esquecidas e agora tomaram novamente vida.

Deparei-me então com uma descrição sobre como Júlio Verne, um dos escritores de antecipação científica, escreveu alguns dos seus livros. Quando adolescente li algumas das suas obras duas delas adaptadas ao cinema como, por exemplo, as “Vinte mil léguas submarinas” e “A volta ao Mundo em oitenta dias”. Mas há uma obra pouco divulgada publicada anos após a sua morte, “Paris no Século XX”. Este livro encontra-se esgotado em Portugal tendo apenas conseguindo uma edição em francês na Amazone.

Por achar de relevante importância porque muitos anos antes faz uma previsão do futuro como seria de facto uma cidade como Paris, e do mundo dito civilizado. Transcrevo uma pequena passagem, traduzida do original francês, daquele livro em que Júlio Verne faz uma descrição do futuro feito por um personagem como se vivenciasse antecipadamente um presente visto do tempo em que em o romance foi escrito, o futuro em 1960.

“O que diria um dos nossos antepassados por ver essas avenidas iluminadas com um brilho comparável ao do sol, esses mil carros que circulam sem fazer ruído por sobre as ruas de asfalto, as ricas lojas como palácios, onde a luz se espalha em brancas irradiações, essas vias de comunicação amplas como praças, essas praças vastas como planícies, esses hotéis imensos onde se alojam sumptuosamente vinte mil viajantes, esses viadutos tão leves; essas compridas galerias elegantes, essas pontes que cruzam de uma rua para outra, e enfim, esses comboios reluzentes que parecem navegar no ar a uma velocidade fantástica… Ter-se-ia surpreendido muito, sem dúvida; mas os homens de 1960 já não admiram estas maravilhas; desfrutam delas tranquilamente, sem por isso serem mais felizes, pois na sua atitude apressada, o seu caminhar ansioso, o seu espírito americano, sente-se que o demónio do dinheiro os move sem descanso nem piedade.”

(Hachette le cherche midi éditeur 1863, pág. 21).

Publicado por Manuel Rodrigues às 17:10
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Quinta-feira, 6 de Abril de 2017

Justiça nebulosa

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Alguma coisa de muito estranho se está a passar na justiça portuguesa que não cabe na cabeça de muita gente, inclusivamente na minha. Vamos lá ver se nos entendemos. Após oito anos o ministério público resolve arquivar o processo em que estavam alegadamente implicados Oliveira e Costas e Dias Loureiro, este último, presumo estará protegido por uma ou mais figuras públicas, de relevo.

O teor do despacho diz que "uma vez que não foi reunida prova suficiente, suscetível de ser confirmada em sede de julgamento, da intenção de enriquecimento dos arguidos Dias Loureiro e Oliveira e Costa, resta-nos afastar a prática de crime de burla". Sem capacidade para provar o enriquecimento, o MP deixou cair a prática dos crimes de fraude e burla qualificadas, e "impôs-se" a conclusão de que "não foi possível a imputação do crime de branqueamento". Mas não fica por aqui, diz ainda a procuradora Cláudia Oliveira Porto que "pese embora o facto de não ter sido recolhida prova suficiente do recebimento dessa vantagem pessoal, à custa do grupo BPN/SLN, subsistem as suspeitas, à luz das regras da experiência comum". E afirma ainda noutra passagem, que "toda a prova produzida nos autos revela-nos uma engenharia financeira extremamente complexa, a par de decisões e práticas de gestão que, a serem sérias, são extremamente pueris e desavisadas, o que nos permite suspeitar que o verdadeiro objetivo (...) foi tão-só o enriquecimento ilegítimo de terceiros à custa do Grupo BPN, nomeadamente Dias Loureiro e Oliveira e Costa".

Numa peça da TVI do jornal das 8 Proença de Carvalho disse que “é uma parte do despacho muito infeliz que não devia ter sido feita. Das duas uma, ou há factos e provas, ou não há factos e provas. Não há intuições, não há convicções. Não há preconceitos porque isso é o contrário do rigor…”.

No processo do inquérito de Dias Loureiro não houve fugas do segredo de justiça, e raramente a comunicação social se interessou, insistiu, nem tão pouco se referiu ao processo durante todos aqueles anos, a não ser pontualmente. Porque terá sido? Gostaria de saber.

A declaração de Proença de Carvalho leva-me a refletir sobre a forma como a comunicação social se tem referido insistentemente sobre a Operação Marquês onde José Sócrates é um dos indiciados e que há mais de três anos reclama por uma acusação, isto é, sustentando o mesmo argumento daquele advogado, mas que cai em saco roto. Há muitos que se pronunciam pela continuação das investigações ultrapassando os tais prazos legais que, dizem alguns, são meramente indicativos. São justificações avaliadas segundo dois pesos e duas medidas dependendo dos casos. Os dois fizeram parte de governo, a única diferença é que um foi primeiro-ministro e o outro foi ministro de Cavaco Silva.

O que se está a passar na justiça é muito nebuloso e leva-nos a refletir se não haverá tratamentos diferentes consoante os casos assim como influências e pressões para que alguns casos não tenham destinos convenientes de acordo com interesses.

Repito aqui uma notícia datada de maio de 2015 da qual já foram referidos, há algum tempo, extratos neste blog e que passo a transcrever:

“A Polícia Judiciária poderá ter sido impedida de investigar o ex-ministro Dias Loureiro no âmbito do caso BPN. O Correio da Manhã conta que o processo estará parado há alguns anos, e que desde 2009 que a antiga diretora do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), Cândida Almeida, terá prometido à PJ enviar o processo relativo ao ex-ministro.

Segundo o Correio da Manhã, Cândida Almeida terá dito que passaria à PJ o processo relativo a Dias Loureiro no âmbito do caso BPN se a Judiciária reforçasse a equipa que investiga crimes económicos. Cândida Almeida disse ao CM que se tinha reunido com o atual dirigente da PJ, Almeida Rodrigues, e que estava previsto um reforço dessa equipa, em particular no âmbito das suspeitas de fraude no BPN.

O CM conta que apesar do reforço das equipas da PJ, a Judiciária não recebeu o alegado processo relativo a Dias Loureiro, embora tenha recebido outros de arguidos menos mediáticos envolvidos no caso BPN. Dias Loureiro, apesar de ter sido constituído arguido no caso em 2009, não voltou a ser interrogado. Questionada pelo Correio da Manhã, Cândida Almeida afirmou não poder dizer por que é que o processo não tinha sido encaminhado para a Judiciária.

A investigação ao BPN começou em 2008, após a nacionalização do banco. Dias Loureiro, ministro dos Assuntos Parlamentares e da Administração Interna de Cavaco Silva, foi constituído arguido em 2009”. Ver.

 

Publicado por Manuel Rodrigues às 13:55
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Terça-feira, 4 de Abril de 2017

Estórias sobre estórias e romances

Estórias.png

Terminei hoje o último livro que tinha ainda para ler “A vida Secreta dos Livros”. É um livro que parece ser de ficção, mas que foi escrito com base em pesquisas efetuadas pelo autor, de seu nome Santiago Posteguillo que recebeu já vários galardões.

O livro tem vários capítulos cada um deles dedicado a um autor ou a uma obra das mais conhecidas ao longo do tempo, desde o Hamlet até à autora de Harry Potter.

Livro agradável, de fácil leitura, construído sob a forma de narrativas independentes que respondem a perguntas como, por exemplo, quem escreveu de facto as obras de Shakespeare, o que está por detrás de génese das aventuras de Harry Potter e o êxito da sua autora, entre muitas outras. É um livro que consegue retratar-nos sem falsas narrativas o que está por detrás dos livros da literatura universal. São enigmas e segredos sobre personagens e obras da como escreveu o jornal La Vanguardia. É, portanto, um livro divertido que a mesmo tempo é um contributo para nossa cultura literária.

 

Manuel Rodrigues | Abril 3, 2017 8:59

Publicado por Manuel Rodrigues às 09:02
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A Vida Secreta dos Livros O Romancista ingenuo e o sentimental de Orham Pamuk malbe

Os porques da esperança.png

Demorei algum tempo a ler este livro mais do que o costume. Livro sobre a política nacional sobre a forma de entrevistas que passaram na TVI 24 efetuada por um provocador nato cujas respostas são dadas por um astuto tribuno da palavra. Livro que aborda temas nacionais da política recente com uma abordagem em que as palavras se se entrelaçam com alguma exposições mais académicas. Um bom manual para quem se interesse pela política em Portugal nos últimos tempos.  

 

 

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Rodrigues, Manuel A (2004). Marionetas em Liberdade: a identidade pe(r)dida com as novas exigências curriculares, Lisboa, Edições Universitárias Lusófonas.


Rodrigues, Manuel A (2000). Ciberespaço, Internet e as Fronteiras da Comunicação Educacional, Lisboa, Universidade Aberta. Porbase, CDU 37.01(043), 159.95043), 005.73Internet(043.2),371.1043)

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